As tunas rurais de baile do Norte e Centro de Portugal representam um fenómeno cultural fascinante que desafia a ideia de que a música popular é um corpo estático ou imutável. Longe de ser um género genuíno e intemporal conservado num vácuo, a música tradicional está em permanente mutação, funcionando como um organismo vivo que recebe, testa e adota contributos exteriores. Este género musical é, por natureza, permanentemente contaminado por influências de outras camadas sociais e geográficas, sendo o repertório das tunas um exemplo paradigmático de como elementos eruditos e urbanos se transformam em património rural através da assimilação funcional pelas comunidades.
O papel das Invasões Francesas, ocorridas entre 1807 e 1811, foi determinante neste processo de transformação, atuando como o primeiro grande motor de europeização do baile popular português. A passagem das tropas napoleónicas e dos aliados britânicos facilitou a circulação de instrumentos portáteis, como violinos e guitarras, e introduziu ritmos de salão que contrastavam com as antigas danças de roda e saltadas. Foi neste contexto de ocupação e contacto militar que as populações locais travaram conhecimento com novas coreografias. Muitas das modas que hoje consideramos tradicionais são, na verdade, adaptações ou cópias de contradanças, polcas, mazurcas e valsas que chegaram aos terreiros através dos acampamentos e da influência cultural estrangeira, sendo posteriormente “aportuguesadas” pela sensibilidade camponesa.
A organização das tunas como grupos estruturados ganhou força na segunda metade do século XIX, consolidando este processo de hibridização. Estes agrupamentos eram frequentemente dirigidos por “mestres de capela” ou regentes de bandas filarmónicas e militares — compositores que, embora por vezes considerados menores, desempenharam um papel crucial na alfabetização musical das aldeias. O repertório era constituído pelo que se designava música ligeira, destinada ao lazer e ao divertimento, provando que toda a música em processo de tradicionalização teve, num dado momento histórico, um autor. Exemplos claros desta evolução são o corridinho, que deriva da chotiça (uma polca lenta da Europa Central), ou a moda de dois passos, que é essencialmente uma mazurca adaptada ao gosto local.
Até meados do século XX, viveu-se em Portugal um verdadeiro furor pelos agrupamentos instrumentais de cordas, com tunas a surgir em quase todas as freguesias, desde as vilas mais povoadas às aldeias mais recônditas. Embora inicialmente os investigadores tenham olhado para estes grupos com reservas, por considerarem a sua música “exterior” ao conceito de tradição oral pura, tornou-se impossível ignorar a sua importância social. A tuna rural de baile tornou-se o centro da vida comunitária em romarias e casamentos, fundindo a instrumentação de cordofones tradicionais, como a viola braguesa e o cavaquinho, com a sofisticação das danças de par enlaçado. Hoje, o estudo comparativo entre bandas filarmónicas e tunas é essencial para compreender como a música rural se apropriou de modas globais para construir uma identidade regional vibrante e única.
A Orquestra Regional Sons da Beira Alta foi um grupo da zona da serra de Montemuro que existiu na primeira década do século XXI, sendo composto por Manuel Salgueiro (Saxofone), Abílio Pinto (Violino), Antero Ribeiro e Joaquim Ribeira (Violas) e João Cunha (Banjo).