Gravação num bar local onde o proprietário recorda os tempos antigos.
Gravado com Fostex FR-2LE e um par de microfones shotgun Rode NTG-2
01:22 [Taberna] [Proprietário] Há quantos anos está a taberna aberta ? – Isto está aberto desde 13 de Março de 1918, há 90 e poucos anos – 93 anos – 13 de Março de 1918 foram abertas estas portas – Pelo seu pai – Tinha mercearia, tinha ferreiros, vendia-se de tudo – Então só teve dois donos? – Era do meu pai e depois passou para mim – Então desde 1918 só teve duas pessoas à frente – Sim – Em quase 100 anos, e o senhor está aqui desde quando?- Estou aqui há muitos anos, há 60 anos – Que idade tem? – 78 anos – E já muita coisa passou por aqui, muita mudança – Jesus! A minha vida (..) estava aqui uma irmã minha que faleceu, a minha vida foi mais ?, andei com taxi 24 anos, andei com camião (..) com a camião anda o meu filho
04:12 [Lisboa] [Taxi] Fiz muita viagem a Lisboa, saía daqui com um carro que não dava mais de 80 km/hora, ele dava mais mas se puxasse mais ele aguentava-se pouco – Fazia à beira de 400 000 (..) Ia daqui a Lisboa e dormia em Lisboa no mesmo dia – Era 5 horas e meia até Lisboa – Sabia onde estavam os buracos na estrada- Ia pela antiga estrada, pela nacional número 1 – Às vezes naquele tempo em Alenquer apanhava-se (…) um camião – Nessa altura quem estava aqui ? – Era a minha falecida irmã, faleceu com Alzheimer – Quem a orientava era eu – Ia às povoação e por cada passageiro cobrava 100 escudo até Lisboa, para qualquer ponto de Lisboa, tanto fazia ser Dafundo ou Benfica – Corri Lisboa de ponta a ponta, naquele tempo era perigoso ir de noite para o Casal Ventoso, não estava muito à vontade, mas de resto corri aquilo tudo – Andava mais de noite que de dia, se desse o sono agente encortava (…)Naquele tempo agente encortava em qualquer lado e descansava um bocadinho.
06:50 [Pesca] [Moinho] O pessoal antigamente ia para a pesca como hoje ? – Vinham, pesca houve sempre – Há gente que vem de longe aqui a Pinheiro – Vinham uns senhores de Vila Real, chegavam a dormir cá – Havia mais pessoal a trabalhar que hoje, hoje não temos sequer que comer quando temos fome – A minha esposa trata da cozinha e da agricultura, é ela que trata de tudo porque eu não tenho vagar – (…) Vila Real e tornava sempre – O que mais gostava era feijoada – Não era peixe – Era uma feijoada à maneira, comia salpicão (..)e chegavam a dormir cá – Apanhavam muito peixe, muita truta e metiamos no frigorífico para conservar (…) – Mas hoje há menos peixe que antigamente? – (…) sabiam pescar, ele coitado teve pouca sorte, esse senhor que comia cá muitas vezes tinha um (….) na Régua e em Vila Real(…) depois o filho também se meteu na droga (…) – Continua a haver peixe então aqui? – O ano passado o vizinho agarrou numa truta de quilo e meio – Antigamente o meu rapaz brincava nuns campos que eu tenho ali com moinhos, agora os moinhos estão parados, antigamente havia sete rodas a moer todo o dia e toda a noite, quatro de um lado e três do outro – Tinha quem tomasse conta daquilo, era a meias, metade para mim, metade para ele – (…) agarrou uma truta de cinco quilos (..) – Isso dava para alimentar uma família – As trutas até se acabavam por estragar de mão em mão – O primeiro foi (…) de Castro Daire (…) acaba por não ser comido – Não se vendia aqui peixe para as aldeias ? – Não, quer dizer, daqui iam vendê-lo à vila, (…) agora está mal – O Ti António de Rariz não se se conhece? Ali de Nodar, vendia muito peixe e tem a sua idade – Eu conheço-o (…) podia vender o peixe à vontade – (…) Eu conheço-o – Ele tem a sua idade – Dizem que desde que meteram a ETAR a água piorou em qualidade – O peixe não gosta (…) o peixe já não presta – Dava-me muito bem com o falecido ? – Era muito boa pessoa, conhece o filho, o Albertino? – Conheço, ele até tem um neto – O bogas, o Fernando – Passa aí de vez em quando? – Passa, passa, ele trabalha na eletricidade – (..) Esse é o Rui, também conhecido por Bogas, os dois irmãos são conhecidos por bogas, é o Rui que trabalha em Castro Daire e tem a mulher em Ester e o outro que tem o negócio das cabras – O que casou em Ester foi o que fez a instalação (…) fez a um bom preço e otrabalho ficou perfeito – Ele é boa pessoa – (…) depois ao fim do trabalho … ficava lá até de noite – A ganhar mais algum.
13:53 [Antigamente] [Feiras] Antigamente o pessoal passava aqui e prendia aí os cavalos – Sim, e comia ums sardinha das grandes, meio litro de vinho (…) – Não havia zaragatas ? – Não – 500 litros de vinho não duravam uma semana – Ia -se buscar vinho perto de Pereiró ?, (…) – Era o pessoal que andava a negociar e ia para as feiras – Os animais comprávamnos em Nespereira e vinham com eles a pé para Castro Daire, vinham 20 e 30 vacas (…) – O meu avô era de Meã, era o Américo David e ele passava muito aqui – Conheci-o, o tio Augusto caiu do Cavalo, o cavalo morreu logo – (…) Também andei a fazer despesas, andava com uma camioneta (…) npor São Pedro, Viseu, Cabril, Parada, Castro Daire, Cinfães, com uma camioneta a transportart gado – A vender? – A transportar gado, mas também comprava (…) – E aquelas feiras de Montemuro? – Só ia às feiras das povoações, em Cinfães, 10 e 26, em ? no dia 6, em Parada, Cabril, São Pedro do Sul na primeira quinta feira de cada mês e ? – E agora ? – Parou tudo – Já não há nada – Em São Pedro do Sul muitas vezes levava para lá uma carrada de gado e muitas vezes ainda vinha buscar mais – Ia às 4, 5 horas da manhã carrgar para as feiras e ainda vinha buscar mais, agora não há nada – Agora vai tudo ao supermercado – Vai tudo ao supermercado, as feiras acabaram – (…) ultimamente (…) para ir para Vale de Camera ia daqui ao São Macário pela serra toda e (…) ia sempre pela serra de noite (…) – (…) É assim a vida.[/hide]