Ilda Magalhães da Silva tem 59 anos e é natural de Relva, no concelho de Castro Daire. Cresceu numa família de lavradores, pobre, com cinco irmãos, pelo que, depois de ter estudado até à quarta classe, a sua infância ficou marcada pela pastorícia e por ajudar nas lidas agrícolas.
Entre as suas memórias, guarda a flor da carqueja, bem como do rádio da avó, onde ouvia os discos pedidos da Emissora da Régua.
Não via futuro na sua aldeia, pelo que, em janeiro de 80, quando teve a oportunidade de ir para o Luxemburgo, com uma tia, não hesitou. O seu trabalho era cuidar dos primos. “Eu, uma criança, fui guardar outras crianças, e cuidar de uma casa com cinco pessoas”, recorda, com um sorriso.
Apesar de partir rumo ao desconhecido, confessa que, “naquele momento, queria era sair daqui”, pois “pensava que aquilo era muito bom”. Seguiu-se uma longa viagem de carro, com muita neve.
Como estava clandestina, pois não tinha papéis, praticamente não saía de casa, a não ser para visitar a família ou fazerem alguns picnics no verão.
Em junho do mesmo ano voltou para Portugal e permaneceu até 82, ocupando-se a trabalhar no Douro.
Mas a falta de perspetivas mantinha-se e acabaria por regressar ao Luxemburgo, onde já tinha a irmã mais velha, para cuidar da filha de um casal. Com os vizinhos, da mesma idade, começou a aprender a dominar a língua francesa e recorria ao dicionário quando tinha dificuldades.
As saudades matavam-se por carta ou pelo telefone fixo da aldeia, ou ao domingo, quando a família se juntava para partilhar uma refeição.
Em 83 conheceu o marido, casou no ano seguinte e aos 20 teve o primeiro filho. Dado que não tinha retaguarda para deixar o menino, começou a trabalhar à noite, saindo quando o marido chegava a casa.
Mais tarde, conta que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o aeroporto. Apesar de ser um emprego estável, teve de sair quando, em 1991 nasceu o segundo filho, pois continuava sem ter com quem deixar o bebé. A solução foi trabalhar mais dias – três por semana – a fazer limpeza numa casa particular, pois a patroa deixa-a levar o menino. Ilda Silva não esquece a ajuda que recebeu nessa altura.
Quando a senhora ficou doente, considerou que tinha de começar a pensar no futuro, até porque a família tinha comprado casa, e conseguiu trabalho num ATL, onde permaneceu dez anos, até ficar doente e reformar-se por invalidez.
A família vive em Mondercange, uma zona rural a cinco quilómetros de Esch. A Portugal costuma vir no verão, mas não esconde que gostava de ficar mais tempo ou, até, definitivamente.