Como a sua mãe era regente escolar, Glória Silva, natural de Alva – Castro Daire, foi criada pelos avós, no Douro, até aos 10 ano. Nessa altura, os pais emigraram para Bremen, na Alemanha, e ficou interna no Grande Colégio Português, até aos 17 anos, continuando a ir, aos fins-de-semana, de 15 em 15 dias, a casa.

Depois deste período de menor liberdade, casou e fez a sua vida, com altos e baixos e passando por diferentes cidades. Não tendo tirado um curso, como era vontade dos pais, optou por trabalhar na área da restauração e tinha um trabalho seguro, em Viseu.

Há cerca de três anos, com 62, dois dos seus filhos convenceram-na a juntar-se-lhes, e, juntamente com o marido, emigrou para o Luxemburgo.

Apesar dos receios com a idade, foi a primeira a arranjar trabalho, com contrato de trabalho por tempo indeterminado, em Differdange, mais uma vez na área da restauração. Apesar dos problemas de saúde, garante: “Baixar os baixos, não baixo”.

A questão linguística também não foi uma barreira e garante que consegue tratar das questões do dia-a-dia de forma autónoma. “Se não compreendo vou ao tradutor”, explica, acrescentando que há muitas formas de as pessoas se desenrascarem. Por outro lado, nota que 60 por cento da população da zona onde mora são portugueses e há sempre um conterrâneo em todos os estabelecimentos de saúde ou serviços.

Já em relação à paisagem, a questão é diferente e não encontra no Luxemburgo a beleza do Norte de Portugal.

Glória Silva continua a visitar o seu país a seguir ao Natal e no verão, mas, embora antes fizesse viagens mais longas para descobrir os seus encantos, atualmente prefere resguardar-se em casa, em Viseu, sobretudo depois de ter tido perdas familiares muito grandes – a mãe e o filho mais velho faleceram, com três meses de intervalo, há dois anos.

A emigrante recorda ainda tradições da sua terra, como as passadeiras de flores em Alva, pelo Corpo de Deus, um legado que a sua mãe iniciou, bem como o Rancho “As Rosas de Alva”. “Gosto muito da minha aldeia, apesar de ter sido criada no Douro”, frisa.

Quando está longe das raízes, a gastronomia ajuda a matar saudades. Tripas à moda do Porto, arroz de cabidela, bacalhau com natas, arroz de pato e feijoada à transmontana, enchidos e queijos estão entre os sabores que não dispensa.

A Rádio Limite, a Rádio Latina e a música portuguesa são também uma companhia.

Com os olhos no futuro, diz que o seu objetivo é trabalhar mais sete ou oito anos, antes de se reformar, de modo a que possa escolher entre Portugal e o Luxemburgo ou dividir o tempo entre os dois países.