A mãe de Noémie Antunes foi a primeira a emigrar, para França. O marido seguiu-lhe as pisadas e os três filhos já nasceram em Versalhes. Quando a filha tinha sete anos, resolveram, por razões familiares, voltar a Monteiras, a “simpática” aldeia onde já tinham casa e onde passavam as férias de verão. As primeiras impressões ficaram marcadas pelo choque cultural, entre a diversidade que tinham no país natal e o mundo rural de Castro Daire, mas também por muitos amigos novos.

Seguiram-se os estudos, na Escola das Carvalhas e no Colégio de Lamego, um estabelecimento muito conservador.  Noémie Antunes, que diz ter crescido “numa bolha”, formou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, e fez o Mestrado em Direito Europeu Internacional, na Universidade Católica, no Porto, cuja tese a levou até à Holanda.

Apesar da sua perspetiva de ver abertas as portas de uma instituição europeia, tal não veio a acontecer, e optou por seguir para o mercado de trabalho em Portugal, tendo desempenhado funções, durante três anos, no ramo do Direito. O seu então marido, ligado à área de Gestão, lançou a ideia da emigração, para o Luxemburgo, dadas as vantagens financeiras e as oportunidades de progressão na carreira.

Na altura, a jurista vivia em Lisboa e não conhecia o Luxemburgo, mas o feedback que tinha não era positivo. Diziam-lhe que a vida era muito baseada na dicotomia entre casa e trabalho e que iria perder a liberdade que tinha em Portugal, mas decidiu arriscar e tirar o bilhete de avião numa companhia low-cost. Chegou há cerca de oito anos, com duas malas e diz que, desde então, o Grão-Ducado não para de a surpreender.

“Acho um país muito confortável e muito fácil. É muito acolhedor”, garante, acrescentando que “há muitas oportunidades profissionais”. Embora “ninguém pague por gosto”, nota que com “mérito, capacidade de trabalho e amor à camisola”, se consegue. O segredo passa por “querer e investir em si”.

No seu caso, concorreu para a Ordem e trabalha em Direito Financeiro para uma empresa americana, um cargo que, reconhece, dificilmente conseguiria em Portugal, embora realce que o país tem evoluído e seja bastante digital.

Noémie Antunes salienta que o português é visto como um ser que se adapta e resiliente, mas destaca que, após uma vaga de trabalhadores indiferenciados, se tem assistido à chegada de mão de obra qualificada, que concilia “capacidade de trabalho com competência”.

“Adoro o Luxemburgo, podia ser embaixadora aqui, mas o meu coração é português”, atira, sublinhando que “os vínculos afetivos nunca se perdem”, bem como as memórias do jardim e da casa grande dos avós e da ligação à natureza que distingue o concelho de Castro Daire.

O seu marido é de Armamar e em casa falam português com o filho, pelo que a cultura lusa continua enraizada.  “A língua é o que nos define”, considera, notando que, de vez em quando, faz questão de regressar às origens para visitar os amigos e os pais, embora tenha também um mundo tão vasto para descobrir.