[hide for=”!logged”] 00:08 [apresentação] [Lisboa] Maria Odete Martins Dias Coelho -nasceu em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1949 – chegou a Rompecilha porque os pais eram de lá – a mãe teve um parto muito rigoroso e foi avisada pelos médicos, porque já tinha tido dois partos anteriores cujos bebés morreram, foi avisada pelos médicos se por acaso voltasse a ficar de um bebé tinha que ir para Coimbra ou Lisboa – optou por Lisboa porque tinha lá um irmão, tinha lá família e foi lá tê-la mas com medo que fica-se outra vez sem a filha batizou-a e registou-a em Lisboa – por isso é natural de Lisboa

01:10 [Lisboa] [irmãos] sempre viveu na terra – a mãe unicamente esteve em Lisboa cerca de um mês na maré do parto – Maria sempre viveu na terra – os irmãos morreram no parto, o irmão veio morto porque eram muitos dias de parto… ou já estivessem mortos…. não sei… a minha irmã diz que ainda vinha viva mas depois …ficou mas ainda mexia… assim eles me contavam…

01:48[partos]quem tivesse realmente um parto normal havia uma senhora que sabia e vinha ajudar, deitava mão, sabia qualquer coisinha, tinha experiência e ajudava -quem não tivesse parto normal era mais complicado, como foi o caso da sua mãe, e tinha que vir um médico para os tirar- as pessoas não iam ao hospital ter os filhos e não havia transporte, tinham que ir a cavalo – a sua mãe passou muitos problemas com os irmãos e com Maria também mas aí já estava noutro sítio, já estava onde lhe deitavam mão -essa senhora que fazia os partos era da aldeia e chamava-se Joaquina – geralmente era raro que lhe passasse pelas mãos uma coisa que realmente estragasse( não ajudavam a fazer partos que realmente não soubessem fazer) – realemnte quando o parto não era bom não havia hipótese, não havia quem lhe fizesse-antes de as crianças serem batizadas andavam com elas com muito medo, se estivessem bem tinham muito medo de os ter por batizar, também não sei porquê – nunca podiam ter o bebé mais que um mês sem resgistar porque pagavam multa – por isso muitos nasceram numa altura e foram registados noutra, que era para mentir, para dizer que eles que não tinham mais idade- quando a criança nascia morta era enterrada no cemitério normalmente, quando eram mais grandinhas tinham umas caixinha para enterrar no cemitério, era, era uma criança – a parteira cortava o cordão e ajudava a amparar, era ela que fazia tudo, essa senhora – não sabe o que fazia ao cordão

04:23 [Rompecilha][escola] toda a juventude foi em Rompecilha – a juventude não foi má mas não é como as de hoje em dia- teve altos e baixos – quando era maior foi melhor e em criança foi mais rigorosa – iam a pé para São Martinho- entravam na escola às 9 da manhã e saiam às 5 da tarde – levavam lanche para lá comer – em dias de chuva e temporais trovoadas e assim  graves era mais rigoroso – quando saiu da escola foi normal, com altos e baixos

05:10[casamento] quando se casou foi mais ou menos normal – a mãe deu-lhe um avc muito cedo e esteve invalida mais de três anos – a vida de Maria estava no principio e tinha uma filha pequena – o marido não se estava a dar bem na aldeia e foi para Lisboa – ficou com os pais – tudo passou com saúde e ajuda de deus – depois ainda ficou com o sogro – agora está feliz, tens netos, filha, genro e marido – se deus lhe der saúde é feliz

06:00 [agricultura] em jovem ajudava os pais – trabalhou sempre na agricultura com eles – quando casou não saiu de ao pé deles – andava contente, queria estar com os pais porque o marido foi para Lisboa e Maria ficou sozinha – nunca pensou deixá-los -viveu sempre com eles – triste, mais tarde teve a mãe doente – viveu sempre da agricultura e de todas as raparigas só lá ficou ela, saiu tudo – elas seriam mais ou menos infelizes que ela lá – lá ficou e lá ficará até deus deixar

06:48 [educação][religião] a educação foi tarefa do pai e da mãe -eram religiosos – Maria também é religiosa – rezavam, gostavam de ir à missa, a mãe nem tanto, a mãe como ela gostava de caminhar – iam a pé até São Martinho, não havia carros – agora vão à missa mas de carro – ela ultimamente já nao podia ir a pé e então não ia mas o pai foi sempre à missa -em casa rezava-se sempre à noite – nunca se podia ir para a cama sem rezar o terço ou dar graças que era uma oração aos santos(…) – Às vezes acontecia-lhe estar à beira do lume nas lareiras fundas, onde deu o avc à mãe, no fim da seia dar sono e estarem a rezar – o pai ou a mãe chamavam-na logo a atenção – agora não reza só se se lembrar -esse habito nunca teve cá em casa, à noite era sempre- não se rezava antes das refeições, não havia esse hábito, só à noite antes de ir para a cama – nunca tiveram esse hábito

08:52[festas religiosas] as festas religiosas eram festejadas – eram bonitas, principalmente a festa da aldeia, Senhora da Guia e Santa Eufémia -faziam tudo por tudo para fazer uma grande festa – a festa era a quinze de Agosto, nunca é bem a quinze de agosto, é mais para a frente ou mais para trás – festejava-se a festa do senhor se fossem mordomo – o pai foi mordomo – almoçam agora fora – antes dava-se o almoço ou o jantar na casa do mordomo – faziam -se um almoço bom nem que se pedisse ajuda ao vizinho -essa era a festa maior – a festa da capela tem a senhora da guia como padroeira – fazia-se uma procissão, missa cantada – nesses tempos de dificuldade havia musica em rariz – de manhã cedo fazia -se uma almoço bom e levavasse à cruz braceiro -vinham de Rariz para cá e tinham que levar para lá uma canastrada, bacalhau frito e pão e vinho, comiam lá – não vinham direitos para Rompecilha vinham direitos para São Martinho – de Rompecilha é que se levava os andores de manhã no dia de festa direitos à freguesia de São Martinho -formavam a procissão  pelo rua abaixo para para quando chegassem lá começar a missa – a festa começava de manhã, depois a missa e a procissão –

10:39 [capela][sino] não sabe quando a capela foi construída mas pensa que foi há muitos anos – lembra-se dos pais lhe falarem na capela mas não lhe disseram o ano – tem sino e relógio – na altura das missas o sino era tocado mas ultimamente tem deixado de tocar – na altura da missa quando dessem conta do padre o sino era tocado -tocavam porque dava sinal a quem ainda não tinha chegado que o padre já tinha chegado -as pessoas apressavam-se para ir à missa – agora talvez por relaxo não se tem tocado -na terra não têm tocado, mas é uma questão de se habituarem a tocar – nas igrejas tocam porque é automático – no tempo de Maria iam senhores uma hora antes da missa tocar o sino na capela – as pessoas percebiam o alerta –

12:08 [missas][funerais] para a missa semanal na capela vem um padre –  se for um funeral também é na capela que se faz a missa do corpo presente – e faz-se as festas – aos domingos apenas se se peça para fazer uma festa muito especial – mas ao domingo não – antes quando alguém morria, na hora do funeral pegava-se nas urnas e levava-se até São Martinho, eram os homens que levavam à mão – se as pessoas fossem muito pesadas não era fácil – iam pela rua fora, sempre pelo caminho não por estradas – toda a aldeia participava no funeral, pessoas conhecidas -para levar a urna eram pessoas da aldeia – as mulheres também participavam mas não pegavam na urna, iam a pé também – ultimamente começaram a ir as carrinhas funerárias – era tudo muito diferente – as pessoas morriam em casa a não ser que tivessem um problema que necessitasse ir para um hospital e morresse lá – se fosse uma doença prolongada morria em casa ao pé da família –

14:20 [quem tratava]as filhas tratavam dos pais – se fosse o marido a adoecer era a mulher que tratava – se for a mulher é difícil ser o marido a tratar, apesar de ainda haver, por isso normalmente são os filhos – na povoação quando algeum morria ouvia-se a notícia, se a pessoa estivesse mal já se esperava e até se ouvia a família a gritar – quando morre alguém sabe-se logo – primeiro comunica-se a funerária, o padre- agora o padre quer primeiro que se comunique a ele e depois à funerária

15:49 [padre] havia um padre na Rompecilha, José Gomes Figueiredo -foi padre em 74/75, foi a ele que Maria se confessou para casar – vivia na casa dos pais – depois formou-se padre e ficou em Covas do Rio – diz que houve muita coisa na terra – professores, engenheiros – é uma terra no fundinho mas teve muita coisa – também sabem tocar acordeão , ainda há quem toque na festa

17:21[festas][bailes]utilmante não há bailes mas no tempo de Maria havia muitos – havia um rapaz na povoação de Soles que tinha um gira-discos o que naquele tempo era uma admiração – gostavam muito dele, era bom rapaz – arranjou um gira-discos e trazia-o por vezes ao domingo – não havia músicos para fazer bailes – fazia-se às vezes com um rádio nas cascadas – a juventude juntava-se para fazer um baile – isto no tempo de Maria, em tempo mais atrasados ouvia dizer que faziam bailes e faziam realejos –

18:49 [agricultura] a agricultura mudou em relação a antigamente- nos outros tempo todos os bocadinhos eram aproveitados – vivia-se com o pão cozido no forno de pedra e moído no moinho – cozia-se em fornalhas – o pão estava cheio de pão, muitas broas – quando acabasse cozia-se mais – tinham que trabalhar nas terras para ter o pão – se não trabalhassem não tinham milho – havia mais gente, cada casa tinha muitas pessoas – a dela não tinha muita – havia casais com 5 ou 6 filhos – agora não há pessoas para trabalhar – Maria é só com o marido e já deixou muitas terras porque não consegue – com os vizinhos é igual – por isso diz que a agricultura mudou bastante –

20:06[linho] nos outros tempos o linho dava o tecido com que as pessoas faziam roupas, lençóis, toalhas – Maria diz que nunca teve – os homens tinham camisas de linho e fazia-se as saquinhas com que se levava o milho para as paivas e para os moinhos – os sacos eram de linho – toda a gente cultivava – agora já não se cultiva – pediram à associação para ver se a cultura de linho voltava – quem semeava era o marido geralmente, era o chefe de casa que semeava na sementeira -o campo de linho não era sempre no mesmo sítio  -semeava no campo que se chamava Regada – semeavam sempre num campo mais perto mas nunca no mesmo sítio – dependia do terreno e das características – terrno bom tem que ser fresco e ter água, terrno seco não dá nada -preparava-se o terreno antes de ser semeado com estrume, não havia adubos – tinha que ser bem estrumado – a terra era lavrada com as vacas e com o arado – depois cavavam o terreno todos, agradava-se, semeava-se e agradava-se novamente com um garruncha – os pai usavam uma garruncha – utlimamente agradavam a terra com uma grade de pau e davam uma picadela para depois aplanar – havia pessoal que fazia de forma diferente- o linho exige muita rega, se tiver com sede fica muito pequeno -a monda cada qual mondava o seu linho, tinha que se mondar as ervas – o linho semeava-se em Maio – colhe-se em Julho ou Agosto – era tudo à mãe, arrancado – deita-se a mão ao fundo e arranca-se fácil pela raiz -tira-se toda a raiz, sai tudo – a linhaça tira-se no ripanço quando sara – tira-se a cabeça – convem estar um pouco ao sol para as cabeças secarem – depois até abre- se não forem muitos tem que se debulhar-mesmo no calor depois de seca ela abre -a semente é a linhaça – as cabecitas é a baganha – é a raiz, linho e a semente por cima – a baganha põe se ao sol e ela abre  – fica a semente para o outro ano para se poder semear da mesma semente- quando se arrancava vai para o ripanço ripar, para as cabecinhas saírem e ficar só o próprio linho – as cabeças caem numa manta para se por ao sol, para o linho ficar limpinho – depois é atado aos molhos e põe-se num poço na água com uma pedra por cima – fica lá oito dias para ficar curtido e depois sacode-se e estende-se- depois de estar seco apanha-se aos molhos para massar, para levar para os massadoiros que é uma pedra para massar – massava-se no calor se não ele não abre tão bem – para ficar linho aberto quer calor – massa-se assim sem dificuldade

27:43[São Macário] [linho] dizia-se na sua terra que quem não massasse antes do São Macário que ia massa-lo à terra- talvez fosse por tradição, mais nada – dizem isso porque é o mês mais quem, que se massa melhor – depois do São Macário os dias são mais frescos e tinha que se ir para a Pena mas na Pena ainda era pior, lá é que não dava sol nenhum – depois de massar fazia-se as estrigas e tascava-se – quem tascava eram as mulheres – no tempo de Maria os homens não tascavam – depois de tascado ele nunca fica muito bem apurado então voltava-se a tascar dizendo que se ia limpar o linho – voltava-se a limpar como se se estivesse a tascar -nessa fase já só deitava fora o que estivesse mais fraco – nunca se acedava sem se limpar- quando se tascar o linho ainda não está totalmente limpo, ainda tem muitos pauzinhos, se se for a abrir ainda tem muitos paus direitos por dentro – então limpa-se para se acedar -há o linho mais fino e o mais grosso – no seu tempo ainda não se separava, juntavam depois de amassar – depois de atascar o que é mais grosso cai – é um linho mais forte que não abre tão bem, o mais fino abre melhor -muitas vezes quando se atasca o mais forte tem uns pauzinhos  que caem conforme se lhe bate com a espedana que é com o que se tira o mais grosso – para limpar também é com a espedana, acedar é que não, é de outra maneira – depois vai para a roca – acedar é com o cedeiro e depois vai para a roca – a parte grossa que cai vai para tomentos e dá fiação – aproveitava-se para tapar com os tomentos – o lençol de linho com tomentos notava-se porque ficava mais áspero mas usava-se na mesma era tudo aproveitado – depois fiava-se e depois ficava nas massarocas – depois vai para a dubadoira – para o sarinho, a roda grande para fazer as meadas – depois do sarinho são as meadas – o sarinho é uma roda grande onde o linho dá as voltas para fazer a meada – depois é deitada fora e têm de ser coradas ir para a barrela para o linho ficar mais branquinho – no tempo de Maria usava-se um cortiço e depois assenta-se por baixo um bpcadinho de linho à barrela ou à roupa – não havia lixívia, era barrela que se fazia os lençóis – depois põe-se tudo lavado e com água quente e cinza e juntava-se umas ervas na água e o linho fica mais claro – depois fica muito tempo a corar – o linho dá muito trabalho até chegar ao tear -corar é para ficar o linho com outra cor porque ele é escuro e fica branco – mudava de cor, mais branco e mais bonito no tecido  – depois dessa fase quando as meadas estiverem preparadas é dubado para ficar aos novelos para urdir a teia – a dubadoira tem uns furinhos em volta e andava se com aquilo à volta para fazer novelos e preparar o linho na teia – cada novelo tem buracos para urdir -urdia-se com algodão e tapava-se com linho – vivia-se com esse tecido, não havia outro – toda a gente cultivava linho, poucas não o faziam – os lavradores cultivavam todos no seu temp – na altura de amssar o linho havia muitas pessoas – as pessoas que sabiam massar massavam contente – comia-se sopa seca a massava-se – não era muito pesado, elas tinham sempre o desejo de fazer melhor que os outros – esforçavam-se muito por vezes sem ser preciso – nas sementeiras era o pessoal de casa que fazia, normalmente não se pedia a um vizinho – a massar pedia-se ajuda se fosse muito, às vezes juntavam-se 5 e 6 mulheres -cantava-se, era alegre – lembra-se de as raparigas se meterem com os rapazes mas no tempo de Maria não – fiava-se o linho à noite – de dia quem fosse com os animais por vezes levava a roca a trás mas era mais à noite – a luz era com uma lanterna, luzinhas pequenas – via-se tão bem como se vê hoje com a luz da eletricidade – se faltar essa luz não se vê nada – lembra-se de ver com a luz da lareira no tempo em que não havia luz – fiava mais a mãe que por vezes lhe dizia que não fiava nada que prestasse – diz que por vezes era muito preguiçosa para fiar – a mãe fiava mais que ela – mais tarde começou a fazer renda para fazer lençóis – fez assim o enxoval, fazia renda a pregava nos lençóis- começou a fazer pano cru – sabe tecer, talvez hoje em dia não soubesse mas chegou a tecer linho  em casa de pessoas – tinham poucos cobertores mas não como agora – cortava-se as tiras e tapava-se com isso – quem sabia tinha mantas muito bonitas – uma vez chegou a puxar tiras  -conserva ainda lençóis e uma toalha – desapareceram as talegas -deixou-se de dar valor ao linho- o seu enxoval não foi de linho – ficou com uns poucos de lençóis no fundo da mala – o resto do enxoval foi feito de pano cru e de rendas[/hide]