00:20 [Lisboa][agricultura] diz embora posso não saber tudo por ter ido nova para Lisboa, aquilo que fazia com a mãe sabe – foi para Lisboa com 17 e regressou há seis anos atrás, com 62 anos – antes de emigrar trabalhava na agricultura, lavrava a terra, semeava-se o milho, dava-se as voltas que fossem necessárias – apanhava-se o milho, cortava-se e fazia-se as desfolhadas à noite – já fizeram na aldeia –
01:15 [pais] [agricultura]os pais era da mesma aldeia embora o pai fosse de Santo Estêvão , a mãe era de Covelinhas – trabalhavam na agricultura e tinham animais – antigamente era como as pessoas sobreviviam, à base da agricultura, não havia ordenados – a pessoa tinha que ter um pouco de tudo, semear batata, milho, cebola, hortaliças, couve, nabal para o grelos, feijão verde, para ter sustento o ano inteiro -criavam animais, cabras, ovelhas, porcos – quando matavam um porco salgavam-no e dava para o ano inteiro – na altura não havia arcas, era tudo conservado no sal, a carne do porco, e daí fazia-se chouriços para a pessoa ter sustento – um dia comiam uma coisa e noutro outra – não havi dinheiro para se ia às mercearias -a pessoa comia o que tinha em casa, a batata, o feijão, a cebola
02:58[animais] os animais eram utilizados na agricultura e na alimentação – apanhava-se comida para os animais comerem no curral e quando chegava a altura de ser amanhar o porco, depois da matança, salgava-se o porco –
03:25 [matança do porco]acontecia em Novembro ou em Fevereiro, Janeiro se não fossem muito grandes – amanhava-se normalmente o porco em Novembro ou Dezembro que é o tempo mais frio, para as carnes não se estragarem – no verão era uma altura mais propícia para a carne se estragar e há a varjeira que deixa bicho na carne e estraga-as -agora a carne vai para o frio e mata tudo –
04:07[currais][símbolos][Santo António] Na terra de Maria do Carmo não punham símbolos nos currais – na altura de tratar do porco para que não ficasse doente até à matança as pessoas prometiam ao Santo António dar-lhe a cabeça e o chispo para ser leiloado e ter dinheiro para a ajuda da capela onde estava o santo – de que se lembre ninguém punha imagens nos currais – esse Santo António é o que se festeja a 13 de Junho – faziam essa promessa a Santo António – lembra-se da mãe ir ao Santo António a Rariz levar a cabeça para ser leiloada e o dinheiro verter a favor da capela –
05:15 [Santo António][devoção][festa] o santo António é o padroeiro dos animais, porcos e outros animais – as pessoas prometiam -era a devoção que tinham – na aldeia as pessoas tinham essa devoção com o Santo António – fazia-se uma festa que consistia em tudo o que dissesse respeito ao porco que era a base da alimentação – no dia em que matavam o porco as pessoas juntavam-se – os familiares juntavam-se no dia em que matasse o porco – juntavam-se todos em casa de determinado familiar que matasse o porco – conviviam nessa altura – no Natal os familiares juntavam-se também – passava o Natal com os tios, na véspera e no dia de Natal –
07:13[Natal]o Natal era festejado com couve, batata, bacalhau, fazia-se a sopa seca e a aletria – naquela altura não havia muita coisas para se fazer e o dinheiro não era muito – fazia-se a filhoz de abóbora que era cozida e juntados outros ingredientes -As filhozes fritavam-se no óleo e ficavam redondinhas – era o que havia na altura – não se dava prendas pois não havia dinheiro – nessa altura apenas se queria que não faltasse comida para se encher a barriga nessa altura – se a cozinha fosse grande as pessoas juntavam-se lá para ficarem mais quentes , punha-se uma mesa junto à lareira depois do jantar e o pessoal sentava-se lá à volta dessa lareira funda e comiam lá – se fossem muitas as pessoas usavam uma mesa que as pessoas tinham – na altura não havia muitas casas disponíveis, a sua família não tinha grandes possibilidades e então tinham uma mesa encostada na cozinha onde comiam
08:59[irmãos] [estradas] [transportes] tinha uma irmã que estava em Lisboa e vinha à terra no Natal – tinha outra irmã que estava no Brasil – os que estavam longe não podiam vir -não havia dinheiro para viagens – as pessoas que estavam em Lisboa tinham pena e gostavam de estar ao pé dos familiares mas não havia possibiliadade- não havia estradas como hoje e não havia transportes – não faziam carreiras como hoje fazem e o comboio ficava muito longe, em São Pedro, e depois não havia transportes para a aldeia -as pessoas das aldeias não tinham carro – era uma vida dura – as pessoas comunicavam através de carta – por vexes estavam oitos dias à espera de uma resposta- mais tarde quando apareceu o telefone é que se telefonava de mês a mês e por vezes dois meses –
10:02[Lisboa][bailes][linho][desfolhada] Foi para Lisboa trabalhar em restaurantes, primeiro na copa e depois num balcão -depois de se casar ficou mais em casa mas fazia umas horas quando estivesse disponível mas ficou mais em casa a fazer a comida e tratar da lida da casa – o marido tinha horários diferentes porque era motorista e não tinha horários certos – por vezes vinha mais cedo e outras mais tarde – tinha filhos e tinha sempre bastante que fazer -foi difícil deixar a aldeia – diz que chorou muito – tinha 17 anos – nessa altura havia muita mocidade da sua idade – era divertido, havia os bailes, cantavam, faziam a desfolhada, na altura de massar o linho era uma festa – faziam uma festa ao fim de ceifar o centeio -a caminho de casa vinham a dançar e cantar – era tudo muito alegre na altura -da sua idade havia muitas moças – quase todos os domingos havia bailes – chegou a Lisboa num táxi de Sul mais umas pessoas amigas que já estavam em Lisboa que foram à aldeia passar o natal – falaram sobre isso e Maria do Carmo aproveitou – a sua mãe não queria que fosse porque tinha pena mas Maria do Carmo cismou que tinha que ir ganhar dinheiro -na aldeia chegou a apanhar azeitona e a trabalhar no campo mas era muito duro
12:25[marido] [mudanças na aldeia] [vias de comunicação] [casa] conheceu o marido em Lisboa – quando estava em Lisboa ia à sua aldeia com frequência – na altura não verificou mudanças na aldeia, diz que as mudanças vieram mais tarde – puseram estradas e já ligação para todos os sítios – na altura anterior andava-se a pé – antes não havia telefone, para usar o telefone tinham que ir a outras povoações assim como para usar o serviço dos correios – havia muita diferença em relação à vida atual – hoje a vida é muito mais fácil e não há comparação -hoje têm três e quatro telefonones em casa e antes andavam quilómetros para se servirem de um -hoje em dia há muito conforto, na sua casa tem muito conforto -tem lareira e tem os quartos quentes – antes tinha que gastar na lenha – as pessoas antigas já faleceram todas – hoje em dia convive mais com as pessoas que eram da sua idade, continuam a dar-se bem – Maria do Carmo diz que nunnca se desentendeu com ninguém -mantém a boa relação que tinha com as pessoas – as pessoas ajudam-se umas às outras – quando alguém tem uma coisa a mais que a outra não tem ajudam-se – não têm falta dos bens que na altura estavam em falta
15:07[comida] na altura comia-se batata com torresmo – carne de porco, bacalhau, sardinha – pão, era o que havia na altura, não havia muitas coisas diferentes -foi aprendendo a fazer as coisas, em Lisboa também cozinhava e hoje ainda ainda cozinha para a família – os filhos e o marido gostam da comida que faz –
15:36[ciclo do linho] ia para o campo com mãe, via-a trabalhar e acompanhava-a – cavava a terra, deitava o estrume para semear a linhaça -trabalhava com o ansinho – quando o linho começava a ficar maior arrancava-se as ervas daninhas – regava – quando estivesse bom para arrancar arrancava e levava para casa – faziam o ripanço e e tiravam a baguenha fora – fazia-se molhos e punha-se na água, ao fim de 8 dias punha-se ao sol – apanhava-se quando estivesse seco e depois era massado – nas massadas da altura juntava-se muito pessoal – depois a mãe levava para o tear, apesar de não possuir um tear havia vizinhas que tinham – na altura quem tecesse para fora depois era paga -lembra-se de ir com a mãe urdir a teia – urdir nao sabe, nunca fez a teia, mas chegou a ver como se fazia – até ir para o tear sabia fazer tudo, a partir de aí não sabia – fazia-se com o linho sobretudo lençóis e toalhas – mais tarde quando começaram a aparecer os outros lençóis deu e fez muitas toalhas – tem família no Brasil a quem deu muitos naprons – tem coisas em linho – acha que era muito bom continuar a tradição do linho havendo pessoas para isso -a roupa principal eram os lençóis para a cama – mais tarde quando começou a haver outro tipo de lençóis começou a fazer toalhas e naprons -antigamente um enxoval para casamento era à base do linho, o de Maria do Carmo não foi pois comprou tudo em Lisboa – mas mais tarde fez toalhas que tem guardadaspara pôr na mesa no dia de Páscoa – tem naprons que estavam sempre por cima da mesa, mesmo em Lisboa, e na mesa de cabeceira – diz que hoje em dia já não se põe tanto mas ainda tem em casa -tem uma feita em tira de linho e tira de renda, tanto dá para colcha como para toalha[/hide]