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00:00 [Apresentação e Filiação] António João Martins – Nasceu em Nodar mas depois foi para Lisboa para ser “desapartado” e foi para Sequeiros com quatro anos – A mãe era de Nodar e o pai de Sequeiros – A mãe era Maria Anunciação Duarte Santos e era da família dos Ferreiros, de Nodar, que moravam à beira da Paiva – A sua avó era irmã do Ferreiro, do pai do Zé, a sua mãe era prima direita do José do Ferreiro, do que casou com a Piedade – O seu pai era João Duarte Martins

[Escola] Andou muito tempo na escola mas “deu pra burro”, não aprendeu nada que prestasse, andou na escola até aos 13 anos – Lia bem mas nas contas “era um burro”. A sua família até brincava dizendo que ele “não gosta de dividir com os outros” pois não aprendeu a fazer contas de dividir na escola. A escola era ali em baixo ao pé da casa da Quintã, que era do Aideira, do falecido Anselmo, no “meio do povo”. Depois mais tarde é que fizeram a escola em cima.

2:24 [Infância] Saia da escola e tinha que ir apanhar ramos para as ovelhas, por isso é que depois não aprendia. Tinha que ir trabalhar, apanhar ramos, trazer molhos de fentos (fetos) para fazer cama às ovelhas, lenha para o lume, era uma vida do caraças.

2:49 [Irmãos] Tinha um está no Brasil, três anos mais novo, se ainda não morreu faz em Março 83 anos – ele já fez 86 -ele era da idade do Floriano, o seu irmão nasceu a 19 de Março e o Floriano a 21, já faleceu o Floriano.

3:40 [ Como era a aldeia em pequeno] [linho] A aldeia era melhor que agora pois agora não vale nada- havia Linho, semeava-se o linho, maçava-se o linho. Conta que as raparigas iram maçar o linho naqueles maçadoiros e os rapazes agarravam-lhes as pernas e às vezes elas deixavam cair tudo no chão. Numa ocasião, conta que “tinha vinte e tal anos, 25 talvez, andava a regar e trazia um molho de erva para as vacas. Cheguei ali abaixo onde havia uma fonte e havia lá maçadoiros e cheguei ao pé de uma e agarrei-lhe as pernas e o que vale é que ela caiu por cima de mim e eu a segurei pois senão tinha caído à poça (tanque) de água que lá havia”.

5:36 [Propriedades dos pais] [Como era a aldeia em pequeno] lá em baixo (em Nodar) não tinham nada, tinham uns “lameiritos poucos”, quem tinha era os seus avós mas em Sequeiros e começaram a comprar. Falando de antigamente, diz que agora não há as desfolhas, as desfolhadas em que se faziam bailes.

6:12 [Bailes] Havia muitos bailes todos os Invernos. havia bailes com os tocadores de Paradela (Nespereira, Cinfães), de Quinhão (Tendais, Cinfães) e com os tocadores de Sequeiros da família da Quintã – refere que era muito mais bonito que agora.

6:38 [Gado] [Vigia] [Cabras] [Ovelhas] – Diz que a família tinha cabras e ovelhas – fala de como se fazia a vigia (o pastoreio comunitário de animais no monte): quem tinha 7 cabeças de gado uma vez ia e outra vez não ia para o monte, quem tivesse oito já ia a todas corridas (ou seja, cada percurso que os animais faziam durante o dia). – fala de um episódio: uma vez com a sua patroa (a sua mulher), andava ele na floresta, e ela estava com o gado a fazer vigia (com os animais deles e dos outro), passou lá um lobo e espatifou uma cabra e a mulher ficou muito nervosa e chorava por aquela cabra que nem era deles era de um outro, mas que as pessoas depois diriam que ela não tinha ligado ao gado e tinha deixado o lobo atacar. A vigia depois foi acabando.

07:42 [percurso da vigias]. O caminho da vigia era para o lado da Ameixiosa, para sítios que chamavam “azevedos”, “chão da mó”, “coutada”, aqueles montes. Mas para a serra de Sequeiros não. Para a serra de Sequeiros iam os de Sete Fontes. Depois o gado começou a ser menos, cada um começou a tomar conta do seu gado e a vigia acabou.

08:36 [As minas] Nas minas nunca trabalhou nem a família – lembra-se no entanto das pessoas que trabalhavam nas minas e de passarem sacos de terra como ele também passou alguns, para tirar o “estanhito” eram várias pessoas a fazer isto. Só da Ameixiosa andavam lá k﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽m à ida e outros 8km Àdois km um começou a tomar conta do seu gado e a vigia acabou. que ela nidade sem constrangiment uns 10 rapazes e raparigas novos e as pessoas de mais idade eram os que lavavam a terra – diz que a vida era muito complicada e que agora também vai ser complicada outra vez.

9:19 [O trabalho na floresta] trabalhou na floresta (ou seja para os Serviços Florestais do Estado) “ em dias” durante oito anos. Passou lá as “penas do Algarve”. Em 82 e 83 fez 400 e tal dias em que fazia 16 km a pé por dia. Ia até ao São Macário, de Sequeiros até à Padela, como quem vai para Pena, são 9 Km. Mas não ia até Lobígios, cortava caminho e poupava 2 km e fazia mais 1 km até ao destino, ou seja fazia 8 km à ida e outros 8km à volta, todos os dias durante 400 e tal dias. Diz que o trabalho em si não matava e que tinha era responsabilidadepor quatro “gandulos” ali do lado de Sul. – Os quatro rapazes cortavam a madeira dos Serviços Florestais e era ele que “selava” o pinheiro depois de cortado, com uma machadita que tinha um “olho” que era marcado no toro e que dizia “Serviço Florestal” e tinha-se que registar no livro a quantidade e a grossura do pinheiro (de 5, de 10, 20, 25 e uma vez apareceu lá um de 40 no meio de um silvado).

11:58 [O trabalho na floresta]- fala dos encarregados do trabalho na floresta. Havia um de Macieira, outro de Covas do Rio, um do Gafanhão que saiu e o de Macieira ficou lá até à última. Foi para lá depois o falecido Albano de Nodar. Depois andou lá também o Fernando Gomes da Costa de Nodar. De Sequeiros havia muita gente a trabalhar na floresta, como o Eduardo do Penedo, o pai do Manuel Pereira, o falecido José Maria e outros. A coordenar o serviço primeiro estava o Engº Quintela e depois foi para lá outro que se chamava Aniceto. Havia outros dois vigias, um do lado de Leiria que tinha um braço que não trabalhava e outro era ali do lado de Carvalhais (São Pedro do Sul) e também lhe faltava um braço. E quando veio para lá esse Aniceto ele dizia, “mas isto aqui é algum asilo ou quê?”.

13:57 [O que fazia na floresta]… Cavava, Semeava, plantava – A plantar era um de Covas do Rio, havia um guarda que vinha ver o trabalho – conta um episódio com o guarda que era de Covas, que pertence a Vouzela: uma vez o guarda veio ter com ele e dizia “vocês cavem torrões”. Uma vez pela maré (por alturas) do São Macário esse de Macieira ia para o São Macário de Baixo por conta do padre do Sul, procurar as esmolas, e vinha para lá um guarda que era “esturrado” e tinha um bigode preto e era meio “negralhado”, mas não era mau guarda. E ali é só pedra é só cascalho e ninguém queria ir para essa zona (para plantar) para ao pé dele. E esse guarda (que carregava muito no “rê” a falar) dizia: “O ferreiro não faz a enxada de pau, são de ferro!” e isso vai mal feito, está mal feito”. E o guarda pegou numa enxada de um e começou a cavar e ao encontrar terra debaixo do cascalho disse para os trabalhadores: “então há terra ou não há terra?”.

16:10 [A resina] Nunca andou na resina porque não tinha nada a ver com os serviços florestais, o processo da resina é muito anterior. Lembra-se que a canalhada (os miúdos) da aldeia quando andavam na vigia do gado encontravam os vasos da resina depois de apanhada todos alinhados no chão e com o pau partiam os vasos todos. Os vasos para a resina depois passaram a ser de plástico.

17:18 [trabalho na floresta] ainda não tinha 39 – foi para a floresta em Junho de 1959 e andou lá 50 e tal anos. A floresta foi uma ajuda para o pessoal da aldeia e se não fosse a floresta não fazia a sua “barraca” (casa).

18.01 [estradas] quando acabou a cava do monte (o trabalho de plantar árvores) começou-se a fazer estradas o que era um pouco mais complicado oito horas a trabalhar. Explica como foram abertas as estradas na área, por exemplo a estrada que vai pela Barrela fora até à Ameixiosa foi toda aberta a picareto, como a estrada que vem do são Macário (até ao cimo da Serra de Sequeiros) foi também tudo “a pico”, assim como a que vem da serra para baixo até Nodar. Tudo antes do vir o alcatrão foi a equipa dos serviços florestais que abriu as estradas da zona.

18:52 [como faziam as estradas] primeiro fizeram pelo alto da serra, pelo lado do Gafanhão e assim os jipes já podiam passar e vinham fazer os pagamentos (ao pessoal). Mais tarde pelo lado de Covas do Rio para o lado do que chama à fonte de Matos” e outra que vai até Azevedos até ao lado da escola de Ameixiosa. Explica que fizeram as estradas pelas aldeias “tudo a pico”- “era tudo a monte, à picareta e a fogo”- usava-se uma broca até fazer o buraco e depois punha-se lá o rastilho a pólvora para arrebentar com aquela porcaria toda – a estrada levou mais de dois anos a fazer e chegou a Nodar por volta de 60 e era de terra batida – aquela lá de cima do Monte redondo para baixoaté a uma cova grande que chamavam a “Cova da serpe”, diziam que havia lá uma serpente grande. Em 64 a estrada já tinha chegado à serra. Para o lado da Pena, há ali um souto grande e diziam que as pessoas esconderam-se da serpente por detrás dum fraguedo e diziam “ai que pena” e foi daí que o nome da aldeia da “Pena” ficou.

21:17 [Incêndios] [espécies de árvores] Naquela altura não haviam incêndios eram muito raros. Daí para cá é que começou a haver incêndios. Antigamente não havia porque não “botavam”. Os eucaliptos começaram a vir depois que começou a haver a floresta (ou seja os serviços florestais), aí é que começou a haver a plantação de eucaliptos – não plantavam eucaliptos. No monte plantavam pinheiros e onde era o terreno melhor plantavam pinheiro finlandês, carvalhas francesas e outras árvores que há a caminho do são Macário, castanheiros também, depois houve um incêndio e ardeu tudo.

22:41 [plantações] [Portucel] As árvores vinham avulso, não vinham como vêm agora em vasos. As árvores vinham nos tratores da floresta e depois era distribuídas para as equipas as plantarem. Da Portucel também era os tratores que as traziam mas essas já vinham em caixas e em vasos pequeninos como os pinheiros – Os serviços florestais acabaram em 81, 82 e em 85 já havia cá a Portucel.

24:48 [25 de Abril] Diz que a vida não melhorou depois do 25 de Abril

25:04 [reforma] reformou-se com 70 anos, em Fevereiro de 87- a reforma é pequena – quem fizesse 5 anos em dias tinha direito a uma pensão. Mas tanto valia trabalhar 5 anos como 10, a pensão era igual.

26:24 [nomes dos sítios de Sequeiros] Aqui é o Pinheiro, Campo da Porta, Fondevila, Bandeireija que é a parte do Aido, O penedo, o Barroco do Cêpo, Barroco do Crestial, Barroco da Ribeira que vai desaguar ao rio Paiva, Cadabulho, Costa, as Cães.

28:06[Relação entre as pessoas] [água] [Sete Fontes] As pessoas nunca se deram bem com a aldeia vizinha de Sete Fontes – Agora no fim quiseram tirar a água a Sequeiros. A água de Sete Fontes para Sequeiros foi sempre no dia 1 de Abril até ao dia 31 de Outubro. E agora em 2008 dois senhores meteram na cabeça que não queriam deixar vir a água, só em Agosto – Até acabou em tribunal – vá lá que os de Sequeiros ganharam – a água sempre foi do dia 1 de Abril até 31 de Outubro, até lá foi testemunhar e não tinha terra nem um minuto dessa água. O senhor ( ainda perguntou, o senhor nunca foi para a estrangeiro? E ele disse não – e nunca foi para Lisboa? E ele disse, não: Nascido em Sequeiros (não podia dizer que não era verdade) E ele perguntou – “Então isso nunca aconteceu?” – “Só em 2008”, respondeu – Então ele disse – “Então se a água não fosse para lá como é que as pessoas regavam as terras?”. Se a água não for, (as pessoas só podem) utilizá-las para plantação de eucaliptos, porque é uma árvore rápida, o pinheiro não dá nem para os filhos nem para os netos.

30:19 [Água] [moinhos] A água vem desde sempre de Sete Fontes a Sequeiros – desde a antiguidade. Antigamente enquanto a água não fosse preciso para regar estava nos moinhos para moer – Se fosse preciso iam lá buscá-la – mas tanto moíam os de Sequeiros como os de Sete Fontes – Em Sete Fontes a água de dia ia para os moinhos, mas se fosse para regar iam lá buscá-la para regar, regavam e voltava para os moinhos. Os moinhos eram pelo ribeiro abaixo e eram utilizados quer pelos de Sete Fontes quer pelos de Sequeiros. Agora está tudo no chão, as pessoas começaram a comprar moinhos eléctricos – eu também tenho aí um – mas eu não tinha moinho tinha que pedir para moer – eu não tinha muito – agora vai tudo ao mesmo – acaba tudo – Por exemplo estes antigos de há 50 anos – se cá viessem hoje ficavam malucos – as terras todas a monte… Há aí lavradores que tinham alguns 200 ou 300 alqueires de milho e hoje nas terras deles não tem um grão (de milho). Por exemplo, a casa lá debaixo de Roriz, aqueles terrenos de Roriz, só aquele campo que era aqui dos pais da Beatriz, carregava quatro sebes de milho de “vacas ao cambão” (aparelho, pau longo que ligava duas juntas de vacas). O Portieiro que era dos Quintãs e tinha lá um caseiro (um criado) – hoje está tudo destruído – está tudo destruído (…) pronto há lá Carvalhos, plantam lá carvalhos – mas isto um dia ainda oxalá… não percebo nada.
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