00:20 [lembranças de Infância] [trabalho]lembra-se da miséria e de andar descalça ao frio e à chuva – lembra-se da fome, comia apenas uma sopa de cove com miolo de pão, era geralmente o que comia – começou a trabalhar com 14 ou 15 anos na floresta
00:55 [trabalho]trabalhou na floresta bastantes anos e depois passou para o campo – depois de casar foi sempre no campo- trabalhava sozinha, a fazer pão, no feijão, cebolas, batatas – diz que a partir desse momento já tinha a casa farta pois produzia o que comia-
01:29 [irmãos] eram 6 irmãos – enquanto não começou a trabalhar e a ganhar repartia uma sardinha por três irmãos – quando foram para a floresta trabalhar já compravam caixas de sardinhas inteiras, já comia sardinha com fartura
01:51 [trabalho na floresta ] [trabalho] na floresta trabalhava a rossar ? mato para semear depois o pinhão no pinhal – depois trabalhou a romper a estrada ao pé da casa dos lameiros que agora o juiz comprou, trabalhou lá três anos no viveiro a ? as árvores com mais outra rapariga – depois de casar trabalhou nas suas terras
02:38 [casamento]casou com 21, 22 anos – o casamento foi em Macieira – foi um casamento simples com padrinho e madrinha e família – comeram vitela assada – o casamento foi na casa dela não foi junto do povo – a comida foi feita na casa dos pais dela ou na casa de uns vizinhos – depois levaram a comida numa canastra – foram a pé apesar de se usar muito os cavalos – foi um casamento simples –
03:58 [ depois do casamento ] depois do casamento foram morar lá para baixo para uma casa numa povoação – a casa era da família do marido, era uma casa sem cozinha, só tinha a sala e dois quartos – depois utilizou um quarto para a cozinha, usava uma máquina a petróleo – Maria gostava da máquina, fazia muito barulho para fazia a comida depressa – Andou muito tempo com essa máquina a petróleo mas depois um irmão seu que era guarda na ? em Manhouce e que tinha ido para guarda com os seu 20 anos e vivido muito tempo em Manhouce, como não tinha nada para cozinhar Maria dispensou-lhe a sua máquina a petróleo. Então depois passou a cozinhar na casa da sogra até comprar um fogão a gás já com tampa e com forno. Foi uma vida muito difícil.
05:22[quando o marido esteve emigrado]quando o marido esteve emigrado Maria nunca saiu de macieira. Teve que passar a fazer o trabalho sozinha, criar os filhos, um filho e uma filha, tinha uma pocilga de porcos, uma vaca, uma ovelha ou duas, e Maria é que dava vencimento a tudo. Diz que hoje é que não dá vencimento a nada.
06:05 [filhos] teve dois filhos, a Isabel e o José. Nasceram com 5 anos de diferença. Não nasceram em casa, o José foi de cesariana e a Isabel teve parto normal em São Pedro.
06:50 [Salva-almas] Ao inicio o dia a dia era como na sua terra de origem, ainda não sabia cozinhar muito bem. Ninguém lhe ensinou nada, foi tudo da sua cabeça e até deu o nome à casa. Fazia cabrito, arroz de cabidela, cozido, vitela. Quem decidia o que ela cozinhava eram as pessoas por isso tinha os produtos organizados, primeiro na salgadeira e depois, após um corte da eletricidade que houve passaram a usar a arca.
08:23 [clientes] [salva-almas] vinha muita gente de fora. A casa já foi fundada à mais de 30 anos. O nome surgiu através de um senhor de Macieira, o José ? , o boca negra, porque passava lá muita gente e então o senhor chamou o restaurante de apanha almas porque apanhava tudo. Depois passou a Salva-Almas. Esteve vinte e tal anos à frente do estabelecimento, trabalhou lá muito, de noite e de dia, de manhã aviava os fregueses e à noite ficava a trabalhar até às 2 da manhã a lavar loiça e limpar depois é que se deitava . Lavava tudo à mão, não havia máquina. Foi ela que cozinhou para o Sampaio, vieram 80 e tal pessoas. Passou tudo pela sua mão. Quando vinha muita gente chamava uma senhora para a ajudar a lavar a louça e varrer, mas na cozinha era só ela.
10:31 [marido] [salva almas ]fazia tudo sozinha, o marido só levava uma jarra de vinho à mesa, não sabia fazer mais nada. Só levava o vinho e o cesto do pão. Ela cozinhava e servia os clientes. A casa era mais pequena, foi construída às prestações, um bocado de cada vez. Nos tempos iniciais existia só a sala com o balcão. Depois mais tarde foi a cozinha com o forno a lenha que depois foi lá para fora. Depois foi a sala e depois mais tarde foi a sala grande.
11:41 [ficou conhecida] já lá esteve a Eunice Muñoz umas duas ou três vezes. Ganhou nome até no estrangeiro no tempo que lá esteve a trabalhar no restaurante. As pessoas gostavam do facto de haver uma pessoa a cozinhar e a servir, factor que também conta bastante.
12:15[ passagem do restaurante para o filho ] passou o restaurante como ele está . O filho esteve em Lisboa, quando lhe passou o restaurante começou logo a trabalhar. Quando veio de Lisboa Maria passou-lhe o restaurante. Diz que já tinha os olhos abertos porque também tinha trabalhado num restaurante em Lisboa embora trabalhar na cozinha do Salva Almas fosse diferente. Então Maria deu-lhe as dicas da sua cozinha e ele adaptou-se bem. Ficou feliz por passar o restaurante ao filho porque ela já não podia, diz que já estava inutilizada.
14:14 [história do rapaz]Houve um rapaz que lhe bateu à porta às 5 ou 6 da manhã, de inverno, era muito de noite “mas nesse tempo ainda andava deus pelo mundo”. Ela abriu-lhe a porta e ele pediu-lhe para telefonar porque já não sabia onde estava. Fez lhe um galão e uma sandes e não lhe levou dinheiro nenhum, ele sentou -se e debruçou-se pela mesa e passou pelas brasas à espera que os pais viessem. Depois disse a Maria para ir lá para fora pôr-se ao sol para os pais o vissem quando chegassem até que os pais o vieram buscar. Diz que fez muito bem a muita gente que chegava toda molhada. Diz que até lhes punha a roupa dos filhos para se mudarem.
16:00[São Macário] A casa nessa altura tinha mais animação, muita gente, estava quase sempre cheia mas também havia muita mais confusão. Lá fora vinham famílias fazer piqueniques aos domingos debaixo dos castanheiros, estava tudo repleto de gente a comer, agora não, vêm de carro e vão de carro, já não há disso.[/hide]