[hide for=”!logged”] 00:00 [Apresentação] Silvina Soares – Nasceu em 15 de Novembro de 1935 – tem 77 anos e nasceu em Sá, São Martinho das Moitas –

00:33: [Infância] Lembra-se da escola em São Martinho e depois com 10 anos foi para Rompecilha – Os tios tinham uma mercearia e uma taberna trabalhavam com terras e com gado e então foi para o pé deles para trabalhar porque eles não tinham filhos- Em Rompecilha foi criada e trabalhava no campo e na mercearia a ajudar os tios – permaneceu em Rompecilha até aos 26 anos e depois foi para Lisboa.

1:14[trabalho] empregou-se na fábrica de munições de armas ligeiras em Moscavide onde trabalhou quase 7 anos e depois foi para Holanda trabalhar numa cozinha de um hospital- em 77 regressou à terra porque o tio morreu e a tia ficou viúva e a Silvina pegou novamente na mercearia que já era velha – a tia morreu com 90 anos – depois fez uma casa/café novo e cuidou da tia que já era velhinha – com o dinheiro que ganhou em Amesterdão construiu um café novo onde começou a trabalhar com 45 anos

2:14 [irmãos] tinha 6 irmãos,hoje tem quatro : Aníbal Fernandes Martins, Valentim Fernandes Martins (já morreram) Cassiano Fernandes Martins. , Vítor Manuel Fernandes Martins, Esmeralda Soares Martins e Maria Cassilda Soares Martins – eu fiquei só com o Soares pois no tempo em que eu nasci no registo as meninas obtinham apenas o nome da mãe e os meninos o nome do pai- quando os irmãos começaram a nascer puseram o nome do pai e quando nasceu já não puseram o nome do pai – eram 4 rapazes e 3 meninas, é a segunda mais velha, o mais velho já morreu e o terceiro também – Todos os irmãos nasceram em casa em Sá De Martinho das Moitas – diz que a mãe nunca foi a uma maternidade para ter os 7 filhos

3:46 [os partos] quem ajudava a mão a dar à luz era uma tia irmã do pai – os pais andavam a trabalhar no campo quando a mãe estava grávida e a uma certo momento o pai dizia à mãe para ir para casa e para chamar a tia para ter as crianças – A tia era uma parteira muito jeitosa e era ela que aparava as crianças na aldeia – nasceram todos na casa onde viveram – a mãe era muito saudável e todos os filhos nasceram gordos- a mãe morreu com 94 anos

4:40[os pais]os pais nasceram e foram criados em Sá, eram vizinhos- trabalharam no campo em Sá – o avô ficou viúvo novo e trabalhava o pão para os filhos trabalharem as terras deles e dos caseiros – depois o pai foi trabalhar para o minério no tempo que covas do rio dava minério – a mãe trabalhava no campo com o avô que era muito saudável e trabalhava no pão para alimentar toda a gente que comia canastros de pão. Comiam milho, muito feijão, batata, mataram 3 porcos, venderam um bezerro para ajudar a comprar roupa para toda a gente – os pais trabalharam muito para ninguém passar fome

5:33 [pai ] [escola] tinha 9 anos quando andava na escola em são Martinho e ao meio dia a sua mãe fazia a comida para levar ao alto de covas do rio para o pai comer – a escola era de manhã e de tarde em São Martinho, ao meio dia ela e os irmão iam todos comer a casa porque vivam perto da escola enquanto os de longe levavam comida – a mãe dizia-lhe que fosse juntamente com as pessoas que partiam de são Martinho ao alto das Covas do rio levar comida às pessoas que trabalhavam no minério, e que da parte da tarde voltasse para a escola, isto com nove anos. Então ela comia lá em covas do rio com o pai e voltava para são Martinho para a escola. Uma vez o pai falou com a professora dizendo-lhe que se a filha alguma vez chegasse atrasada era porque ia levar a comida ao pai. Então ela vinha, em esforço, para a escola onde fez a terceira classe.

07:11 [escola] [4ªclasse] a professora era da Cobertinha ?, morreu há anos , chamava-se Maria Olímpia Reis de Pinho. Fez com ela a terceira classe que na altura tinha muita importância- A quarta classe fez em adulta . Quando foi para a Rompecilha tinha só a terceira classe e como os engenheiros queriam trazer para lá o telefone e o correio e os seu tios não tinham habilitações literárias, disseram-lhe que fizesse a quarta classe. Foi então fazer o exame da quarta classe a castro d’aire já em adulta. Andou em solos na escola para se preparar para a quarta classe -foi assim que o correio e o telefone passaram a vir para a rompecilha em nove da Silvina.

8:20[correio e telefone] havia um posto de correio em cimo de vila mas o povo achava que devia haver outro em Rompecilha e o Engenheiro Santos que sim também, que se devia pôr um posto de telefone e correio para Rompecilha mas para tal se suceder exigiam que se tivesse a quarta classe e na altura ninguém tinha. Isto é, exigiam a quarta classe para ter o correio e o telefone em nome das pessoas, naquele tempo era um telefone público –

9:00 [4ªclasse] [correio] o seu tio era também tio do Engº Santos porque tinha casado com uma tia de Silvina. Então o Engº falou com o tio para pediu-lhe para a pôr a fazer a quarta classe pois assim o correio e o telefone já podia ir para o pé dos pais do Engº. Havia uma senhora em Castro d’aire que ensinava adultos, de dia era a escola primária e de noite era para os adultos. Como era um bocado longe ia de dia para a escola para aprender . em três meses fez a quarta classe porque o Engº falou com a professora. E assim veio o correio e o telefone para Rompecilha onde Silvina ficou durante uns anos.

10:00 [trabalho em Lisboa e na Holanda ] Tinha o irmão mais velho na policia de segurança pública e como em Rompecilha ganhava pouco pensou em ir para lá uns meses na condição de que voltaria de Verão para ajudar os tios. Então foi trabalhar para a fábrica da pólvora e o tio entretanto morreu. Depois trabalhou sete anos na Holanda .

10:21 [regresso à terra] A tia deu-lhe a mercearia e umas terras mas como já não quis a mercearia que era muito velha fez uma casa com o dinheiro que ganhou num hospital e Amesterdão

10:48 [mercearia][cavalo]lembra-se muito bem da mercearia onde trabalhava com os tios, trabalhavam também nas terras porque só a mercearia não dava. Tinham um cavalo e ovelhas. Ficava uma pessoa por dia na mercearia a aviar as pessoas e a fazer a comida enquanto as outras pessoas trabalhavam no campo – tinham um fogo de lenha. Se ficasse o tio na mercearia ia ela com a tia e mais umas pessoas de fora sachar o campo. Se ficasse carne a cozer a tia dizia lhe para acrescentar a hortaliça para comerem ao meio dia e depois à tarde voltavam para o campo. As pessoas de fora não levavam dinheiro para trabalhar era apenas para comer, se estivesse muito calor pediam para descansar e depois faziam mais um bocadinho. Na altura não havia carros, só em Sul e era muito dinheiro e muito longe, então o tio que era merceeiro quando precisava fazer compras ia a cavalo para São Pedro- Quem tivesse um cavalo ia a cavalo quem fosse pobre e não tivesse dinheiro para pagar um táxi ía a pé para São Pedro ou Castro d’aire buscar porquitos para fazer criação e para fazer compras. A tia ia a cavalo para pagar alguma conta do armazém . ela não ia a cavalo para ir a São Pedro, apenas para ir para os campos

13:19[estradas]As estradas eram só até ao Ervilhal. Tinha-se que chamar um carro de Sul. Havia lá três táxis mas levava muito dinheiro então ia-se a pé. Uma vez quando tinha nove anos foi, a partir da casa dos seus pais, com a mãe, a pé, todo aquele caminho só para comprar um vestido para estrear no dia do exame da terceira classe – A mãe disse-lhe que ela não aguentava dali a pé até à vila mas ela insistiu com a mãe para a deixar ir. A mãe disse-lhe que ela tinha era que ir para a escola e ela respondeu à mãe que então ia dizer à professora que queria muito conhecer a vila e para a deixar ir. Nunca tinha ido a São Pedro até ter 9 anos de idade. Foi toda contente pela estrada a baixo porque. Naquele tempo as pessoas juntavam-se aos grupos para ir à vila – Juntavam-se três e quatro grupos, uns mais depressa outros mais devagar, iam todos a pé. Só iam eram aqueles que tinham nota, que viviam bem, ela nunca foi de carro –

14:44 [mercearia] A mercearia tinha muita gente, havia só aquela mercearia na aldeia. Ela e os tios viviam quase só da mercearia mas campo, tudo junto: feijão, batata, porcos que matávamos. Tínhamos o auxilio do campo, vendíamos um borrego, um carneiro, uma ovelha. Vendíamos um cavalito. Depois de vendermos o cavalo tínhamos uma burra a criar. A mercearia dava mais dinheiro do que hoje, vendia-se muito na aldeia principalmente nós em Rompecilha. Porque não vinham só os da aldeia, vinham os de Soles ? porque não havia mercearia, de Covelinhos, de todas as aldeias próximas. E vinham ao domingo para encher a casa, às vezes estávamos os três a trabalhar porque os aldeões vinham ao domingo aviar-se.

15:40[produtos da mercearia]Era arroz, massa, açúcar, azeite, tínhamos uma medidora. Vendia-se petróleo. Detergentes era pouca coisa, tivemos o Omo mais tarde. Vendia-se muito açúcar, arroz , bacalhau em sacos, seco da Noruega. Vendia-se muito bacalhau seco da Noruega – o teu tio tinha muita fama de ter coisas boas na mercearia – os sacos da mercearia não eram de plástico ? eram sacos de 50 quilos. E tínhamos umas tulhas, chamava-se tulhas naquele tempo. E tínhamos um corredor e depois tínhamos os pacotes e pesava-se na balança, era tudo pesado. Depois vinham os carros de vacas do ervilhal, porque havia lá uma casa que tinha uma mercearia e um armazém e então aí aguardavam que da mercearia do seu tio lá fosse um carro de vacas buscar os sacos de 50 quilos. Quando chegavam à Rompecilha os carros viravam-se às tulhas e tinha arroz, açúcar, tudo identificado, a do arroz, da massa, do açúcar, bacalhau, café. Mas tudo empacotado. Não havia maquina de café, o café era em cevada. Vendia-se muito aos pacotes. E diversas outras coisas, coisas mais miúdas, rebuçados, figos, no tempo dos figo, ceiras? de figos. O figo era muito bom, vendia-se em Novembro, Dezembro, porque no natal tinha que haver muito figo então o seu tio vendia muito. Chocolates, mas chocolates vendia-se pouco porque era caro quando vinham com os filhos compravam aos 5 rebuçados, 10 tostões de rebuçados – fazia-se negocio. O meu tio andava sempre a vender? na mercearia porque havia muita gente e ali perto era a mercearia mais forte apesar de haver uma no Gafanhão mas era mais fraca. Mais tarde vendia-se adubo para os campos. Púnhamo-los numa casinha por cima da loja. Vendia arame, as pessoas pediam uma meada de arame, para as videiras. ? hoje já não querem saber disso – tio Bandeiro quero uma meada de arame! Mais tarde quando tiveram telefone em seu nome telefonavam ao tio para fazer encomendas. Não havia máquinas de café.

19:39 [ regresso a Rompecilha]veio com 10 anos para Rompecilha e foi-se embora com 26 – teve 16 nos em Rompecilha mas depois voltou mais tarde. Não gostava muito da Holanda, foi só até arranjar dinheiro para a casa. Não gostava do clima húmido, sofria dos ossos. A tia também insistia com ela para voltar, ela recusava mas os irmãos pressionavam-na porque era solteira e assim ficaria ao pé da tia, que era irmão do pai e assim ela herdaria as coisas da tia porque os irmão não queriam nada – voltou ficou com a casa e abriu um café porque não gostava da mercearia onde foi criada porque era muito pequenina- tinha muitas coisas misturas, tinha omo e já vendia um pouco de papel higiénico – fez um café, comprou uma máquina de café, abriu a casa onde vive e olhou pela tia que ainda lá viveu.

21:08[Holanda] viveu 7 anos na Holanda. Foi trabalhar para o hospital mais antigo de Amesterdão, o ? … huis. Foi em 1970 e voltou em 1978. Como a tia precisava dela porque já estava muito velha e queria alguém para pegar na mercearia voltou. – falava um pouco de holandês, trabalhava com muitas holandesas e elas puxavam muito por Silvana e como era nova aprendeu. Desenrascava-se, não falava bem o holandês mas já se defendia – por exemplo esta senhora é portuguesa: diese vrouw is portugese, e bom dia boa tarde boa noite – goidemorgen, goidemiddag, adeus querida, dag schat .

23:10 [saudades] vinha à terra todos os anos – vinha sempre gozar as férias de verão – lá nunca soube o que era um natal, ano novo, feriado, a pascoa… porque a cozinha principal de um hospital nunca fecha e ela ia sempre trabalhar, um turno de fim de semana era para a ela e outro turno para outro – fazia os turnos das colegas e então fazia o dela e o das colegas para ganhar um dinheirito – pediam lhe sempre e ela ia porque queria ganhar dinheiro para fazer a casa –

24:12 [ a viagem para Holanda ]A primeira vez foi de avião em 1970, a 20 de Maio às quatro e meia da tarde apanhou o avião em Lisboa – a irmã dela foi à terra para a ir levar mas na altura ela ainda não tinha o passaporte porque na altura era muito difícil ir para a Holanda ou para o estrangeiro – tinham que tirar a ? ou o ? – então nesse dia não tinha o passaporte porque era feriado na embaixada e não tinha o carimbo no passaporte e então a irmã foi-se embora e ela foi sozinha – Depois o avião foi a um domingo às 4 da tarde e ia só com marroquinos que também vieram de ferias. Ficou toda envergonhada. A irmã disse-lhe para à chegada quando saísse do avião pegar na mala que ela estaria lá à sua espera com o cunhado e o sobrinho. Estava muito nervosa mas quando ouviu o seu nome soube que estava com a sua gente. O aeroporto era muito grande, esperou pela mala até aparecer. Só ouvia os marroquinos a falar até que a irmã foi ao seu encontro.

26:04 [viagens para Portugal] [viver na Holanda] Viajou sempre de avião, esteve lá sete anos e voltou à aldeia sete vezes nas férias – na Holanda estava sempre isolada, sempre a trabalhar. Saía do ?huis e ainda ia trabalhar três horas para um banco porque tudo ficava perto – a viagem não era cara e voltou sempre de avião porque a tap fazia desconto dentro da Europa a qualquer português desde que estivesse a trabalhar – a viagem ficava mais barata do que vir de carro –

27:02 [viver na Holanda] vivia a irmã o cunhado e o sobrinho – eles chamaram-na para casa deles que já tinha um quarto para si – e depois foi trabalhar com a irmã que trabalhava no hospital – e o meu cunhado trabalhava no aeroporto que se dizia schiphol – foi viver com a irmã e ela é que a ajudou – os fins de semana passava sempre a trabalhar, nunca passou lá um fim de semana – no fim de semana trabalhava ate às 4.30 depois de dar a comida aos doentes, quando fechava a cozinha – vinha sempre uma pessoa abrir a porta principal da cozinha e por tudo a trabalhar – morar ali perto e sempre gostou daquela vida – ia a pé por era tudo perto, é como daqui à casa do Dias – isto era no fim de semana, dias úteis saia do hospital e ia fazer três horas mas era tudo perto da sua casa ?? – queria juntar dinheiro, não se sentia lá bem dos ossos e queria voltar – mas olhava para o dinheiro e concluía que se ganhava do que na fabrica de munições em Lisboa – quando teve dinheiro para a casa voltou – gosta mais do seu pais mas Amesterdão é que lhe deu a vida – voltou começou a sua casa, viveu nas casas velhas que lhe deu a tia, nas casas onde foi criada.

20:24 [tricote] aprendeu tricot antes de ir, antes da idade de 26 anos- fazia comisolas, renda,meias, fazia para fora , fazia meias a pessoas de idade quando lhe pediam. Tricotava muito na mercearia quando ficava sozinha e então nunca perdia tempo- fazia meias para os tios fazia camisolas , fia lã. Naquele tempo viviam da lã das ovelhas (…) na altura não tínhamos dinheiro para meias de compra era tudo à base de lã, capuchas de ? – fiava-se e depois fazia -se a teias tecia-se aqui no ? , diz que sabe pouco sobre isso mas que a tia é que tecia o fio da lã das ovelhas – gosta de trabalhar com o fio à mão (tricotar] tear não gostava muito – também fazia na Holanda e levava lã da aldeia – as colegas gostavam de a ver tricotar – às vezes ao meio dia depois de dar comida aos doentes sentavam se a aproveitar um bocadinho de tempo e comiam do que sobrava. Se não sobrasse mandavam fazer -Era uma cozinha que fazia muita comida, para médicos, enfermeiros, comiam todos muito bem chegou a fazer tricote nessas altura mas poucas vezes – Aprendeu a tricotar em criança na aldeia toda a gente sabia – vivíamos do linho e da lã – tem uma roca se quiser q fie eu fio – (…) No meu tempo uma rapariga que não soubesses fazer meias ou camisola era chamada de pedão – toda a gente fazia porque era do que se vivia – quando andava na escola ja sabia fazer meias, com dez anos

32:41 [dureza da vida] quando foi para Lisboa era mais difícil do que quando foi para a Holanda – em Lisboa morava em Marvila e trabalhava na fabrica em Moscavide – para poupar 4 escudos de viagem de autocarro metia-se na linha do comboio de lado a pé com os sapatos no saco e chinelinho no pé para poupar 4 escudos – quatro escudos naquele tempo era muito dinheiro e ela usava esse dinheiro para comprar o jantar para fazer em Marvila- dava 25 tostoes por uma posta de pargo e 15 tostoes por um molho de grelos – as batatas a mãe e a tia mandavam-lhe – com 4 escudos tirava do corpo para poupar para o jantar e poupar um dinheirito para comprar um terreno em Lisboa que custava 40 contos e era mesmo dinheiro que tinha, 500 metros quadrados – 37.500 pagou depois e 40contos a prestações – andava lá terreno nas fábricas e ela comprou . as colegas ficaram admiradas, foi na quinta do mercado segundo – e ela fugia das colegas para que não a vissem e não a seguissem – ainda hoje se fala disso – há aqui uma pessoa que é da povoa do meu vizinho que fala disso, que fazia 10 km por dia para poupar quatro escudos – sempre teve a ideia de construir algo para lhe dar mais dinheiro para depois vende lo como vendeu – depois de dois anos já estava na Holanda com o dinheiro que tinha pedido emprestado ao pai porque o dinheiro que tinha gastou-o no terreno – dois anos depois quando voltou para ver o terreno já não o conheceu pois tinham aberto lá uma rua com uma escola e uma igreja e ela já não dava com o dinheiro – era 1587 mas não dava com ele – pediu ajuda ao irmão Cassiano para a ajudar a encontrar o terreno pois quando veio a Portugal a primeira vez de férias não deu com ele – o irmão disse que ia lá de mota para o encontrar – mais tarde vendeu o terreno por 200 contos – ainad rendeu dinheiro porque tinha pago a pronto 37.500 contos – se fosse hoje diz que o venderia mais caro mas na altura não quis pensar muito nisso – ela queria era que o terreno desse juros pois na altura quem tivesse algum dinheiro ficava com os juros – para comprar aquele terreno fez aquele sacrifício de trabalhar na fábrica – havia um autocarro de Moscavide para Marvila, Poço do Bispo, o 28 que ia por baixo e havia o 24 que ia por cima, quando via que as suas colegas vinham por baixo dizia ter vindo no 24 e quando vinham por cima dizia que tinha vindo no 28 – mentia para elas não a censurarem – quando as colegas lhe perguntaram como tinha arranjado aquele dinheiro disse que tinha sido por andar a pé e que se as colegas não tinham era por não andarem a pé – ainda hoje as suas colegas que vivem na aldeia a lembrar da economia que Silvina conseguir fazer – na altura quando o comboio passava ela desviava-se – ninguém sabia o que andava a fazer só mais tarde é que descobriram porque a verdade vem sempre ao de cima –

37:52 [regresso a Rompecilha] [sistema das reformas] quando veio da Holanda veio para o pé da tia ficou com umas terras e a mercearia – havia muita gente idosa em Rompecilha e em Soles – começou logo a fazer a casa para ter mais larguesa e começou a pagar a reforma às pessoas – nesta terra se alguém perguntar qual é a senhora a quem chamam banco timorino? – era a Silvana, porque pagava as reformas e então havia um senhor que a chamava de banco ultramarino – pagava a reforma para as pessoas a ajudarem e então vendia na mercearia com a reforma das pessoas idosas – chegava a ir buscar às 30 reformas a são Pedro, quando não tinha dinheiro em Rompecilha ia buscá-lo a São Pedro – Se Silvana lhes pagasse as reformas as pessoas gastavam da mercearia: um quilo de arroz, massa, bacalhau, açúcar, peixe, frango. Governava-se com as pessoas idosas de Soles

39:27 [sistema das reformas] Pagava algum dinheiro ao peixeiro ou ao beira frio ?, em vales , pagava à mercearia quando vinham senhores trazer as faturas que pagava de mês a mês, por exemplo se tivesse 20 vales pagavam lhe apenas 8 porque correspondia ao dinheiro que devia – pagava o que podia de forma a que não tivesse que ir gastar dinheiro à vila – quando lhe faltava dinheiro fechava o café e ia buscar dinheiro : tinha sempre 200 ou 250 contos de stock para pagar aos velhinhos para lhe pagarem a mercearia e eles ficavam todos contentes – diziam que parecia um banco mas ela governava-se com as reformas porque assim as pessoas já não iam comprar a outro lado – era reformas pequenas, 6, 7 contos, se fosse 10 contos já era grandes – vinha o correio que deixava tudo na sua casa e as pessoas perguntavam, então já veio a minha alegria ? – assinava por algumas pessoas que não sabiam escrever – e as pessoas iam lhe buscar a reforma para depois comprar aos quilos na mercearia e ela davam a diferença em dinheiro por isso tinha que ter sempre dinheiro de parte e era ela que pagava as reformas às pessoas de Solos e Rompecilha-

41:49[o café] o café foi inaugurado em 1992 quando lhe entregaram a chave – ainda tomou conta daquilo uns 15 anos mas depois veio o Gil e ela reformou-se porque queria era andar no campo e na mercearia era tudo muito pesado e antes queria andar à vontade – O Gil esteve lá 9 anos e depois a Isabel 1 ano – trabalha antes no campo

43:54[do que sente saudades]sente-se feliz pela vida que fez – gostou de ter voltado para a Rompecilha – irmãos que estavam em Lisboa diziam-lhe que não fosse mas tinha um irmão que dizia que devia ir para olhar pela tia que tinha cuidado dela – gostava muito da província, estava farta de Lisboa e de ver balas na fábrica da pólvora – teve pena de ter saído de Amesterdão por causa do dinheiro mas como não era um sítio saudável por ser frio e húmido e ela preferia o seu clima – perguntavam-lhe me Amesterdão porque aguentava aquele clima com um clima tão bom no seu pais mas ela dizia que era pelo dinheiro – 1 florim dava 8 escudos em Portugal e queriam era juntar para fazer casas em Portugal .[/hide]