00:30 [escolaridade] fez a 4ª classe em São Martinho das Moitas. Mais tarde fez o 9º ano nas novas oportunidades e pensou começar a fazer o 12º ano mas entretanto o programa das Novas Oportunidades acabara. Porém considera que ler, escrever e aprender quer tire o 12º ano quer não tire está dentro do seu espírito e dentro da sua génese.
00:50 [Rompecilha] A Rompecilha é uma aldeia muito antiga, Arlindo possui em casa documentos escritos em latim que falam da existência da aldeia já em 1500 e qualquer coisa, século XVI. A enciclopédia Luso – Brasileira fala em Rompecilha em 1100 e qualquer coisa, século XII. É uma aldeia muito antiga portanto. Inicialmente a Rompecilha pertencia ao ? Arouca. Houve uma revolta com Augusto Aguiar que foi chamado o “mata frades” e extinguiu as ordens conventuais. A partir daí a Rompecilha deverá ter sido entregue a três famílias: Dias do Redolho, Dias de Cimo de Vila que acabaram por ? e a família dos Gomes. Havia uma quarta casa que era a casa dos Pereiras, relativamente mais pequena. Estas quatro famílias deveriam ser possuidores de 90 % do património de Rompecilha. As três primeiras famílias têm três casas de Lavradores Abastados: Duas situam-se no Lugar do Redolho e a outra situa-se no Cimo de Vila. Apraz-lhe referir que ao contrário da maior parte das casas que se vêem pela maior parte das aldeias, em Rompecilha as casas, a nível da cobertura, estão muito bem tratadas. As casas vão durar muito tempo dado o estado de conservação em que se encontram. Acha muito bonito registar este facto. As casas de Rompecilha tinham particularidades muito importantes: eram muito grandes, de granito, granito este que não terá vindo de Rompecilha, terá talvez vindo da terra de Sá. Pode-se assim imaginar o trabalho que terá sido construir essas casas. Em relação às primeiras duas casas referidas, do Gomes e Dias do Redolho, as casas eram todas em pedra nem sequer tinham cal. Tinham dois salões muito grandes, o primeiro normalmente funcionava para reuniões de festa, almoços e jantares, e, o segundo, serviria para as reuniões a meio e fim do trabalho. Eram mesas muito grandes e não havia talheres. Os pratos também eram muito grandes e normalmente comeriam 8 pessoas de cada prato. Os quartos eram muito pequenos. Está-se a referir às assoalhadas situadas no primeiro andar. No rés do chão situar-se-iam as adegas e os currais dos animais. Escusado será falar das casas de banho porque eram inexistentes. Não havia água canalizada, a casa de banho era o campo de milho que existia à porta de casa.
05:00[vivência das pessoas] toda a gente vivia exclusivamente da agricultura. Era a agricultura de subsistência, as pessoas pouco compravam e também pouco vendiam. Portanto não somavam dinheiro nem teriam dinheiro para gastar. O único dinheiro que poderiam realizar seria o dinheiro do vitelo da vaca que produzia de ano e meio em ano e meio. Ou por vezes um cabrito. Borrego não porque na altura não se falava em borregos. Quando as ovelhas tinham crias e eram fêmeas era para fazer continuação, para dar lugar às velhas que envelheciam, se eram macho era diferente, não havia a tradição do borrego. O macho era castrado e quando atingia a fase adulta era vendido. Estas eram as formas que as pessoas tinham de realizar dinheiro. Havia também o lavrador abastado que já vendia milho, azeite e até vinho. Há um aspecto muito importante em relação ao vinho que se referirá à frente. Este lavrador abastado normalmente não cultivava as terras todas e então dava parceria aos mais pobres alugando-lhe a terra, sendo que o mais podre lhe daria metade do que produziria. Dantes dizia-se que o agricultar que trabalhasse neste sistema trabalhava apenas com um braço. Era uma situação muito má.
07:08[milho] o milho era a fonte fulcral da alimentação e as pessoas lutavam muito para ter milho. Era uma benesse para a maior parte das famílias ter milho para se alimentarem todo o ano. A maior parte das famílias chegava ao fim de Agosto sem milho então faziam o chamado entrecolher ? – quando o milho acabava (a maior parte do milho amadurece em meados de Setembro princípios de Outubro portanto em Agosto ja não havia ) iam ao campo à procura das espigas mais maduras e faziam o chamado entrecolher, isto é cortavam em quatro as espigas e como estavam verdes acendiam o forneto ?, metiam lá as espigas para secar, malhavam-nas, debulhavam-nas, moíam-nas e depois de cozer já dava para fazer pão para comer.
08:06[vacas] o gado bovino era de uma enorme importância na vida das pessoas. A vaca era quase sagrada para as pessoas de Rompecilha e das aldeias em redor. Quando morria uma vaca era uma grande desgraça para uma casa, em primeiro lugar porque a vaca era a força motora de todo o trabalho agrícola, era com ela que se lavrava, que se transportava as lenhas, logo, se não houvesse uma vaca não havia condições para viver e a força motora era a das pessoas que tinham que transportar as coisas as molhe e às costas, daí a importância da vaca. A vaca juntava a utilidade e o trabalho que prestava, com a vaca faziam tudo além de dar o vitelito que era onde iam buscar algum dinheiro. Em termos de consumo haveria famílias que por mês não gastavam dinheiro nenhum visto que, em relação ao vestuário era uma teia de linho que dava para vestir no verão ou uma teia de lã que dava para vestir no Inverno. Podiam, quanto muito, comprar alguma peça de roupa para terão guardada em casa e vestir num dia de festa.
09:40[a vida de antigamente] A vida era muito duro, ia-se trabalhar para terras muito longe. Porém havia um espírito de entre ajuda muito grande entre as pessoas. (…)? …já implicava mais pessoas. Juntava-se três ou quatro vizinhos e fazia -se a ? e o que interessava era fazê-la. A ? era feita e assim a panela levava mais um bocadinho de comida e assim comiam todos.
10:28[ refeições] A alimentação era muito pobre, era mais à base de feijão, couve, a batata veio um bocado mais tarde. Havia uma coisa que se utilizava muito que era chamada a castanha pilada, a castanha era levada para casa e era seca no chamado caniço e havia os cestos chamados os cestos de picar e as pessoas com o pé picavam aquilo, depois tiravam a casca e ficava só a castanha. Aquilo dava uma sopa muito boa, ainda hoje não se importaria de comer uma sopa de castanhas. E apesar de já não ser do seu tempo pensa que antigamente a castanha era um substituto do arroz e da massa.
11:23[Rompecilha] Em inícios do século XX mais concretamente até 1920, Rompecilha deveria ser, em proporção à sua área, a aldeia que mais vinho, azeite e castanha produzia. Estes ? que vemos lá fora de pinheiros era praticamente tudo olivais e castanheiras. Havia também a Carvalha Boleteira? que as pessoas não perdiam porque funcionava para a alimentação dos porcos. Isto porque havendo bolotas poupava-se o milho para a alimentação humana e ficava a castanha para alimentar os porcos.
12:26[transformações em Rompecilha] Por volta da segunda década do século XX, a videira que havia em Rompecilha era de emburdaduras ? de Carvalhas que era chamado o vinho Amaral. A porção era enorme. No ano em que o pai do Arlindo nasceu, em 1910, a sua casa teve 550 ? de vinho. As pessoas bebiam muito vinho na altura e o vinho Amaral era excelente. Por volta de 1915 surgiu a doença da Filoxera e matou as videiras todas. Essa destruição foi tão grande que a sua casa que em 1910 tinha 550 ? de vinho, entre 1925 e 1935 não chegou a ter vinho para deitar ao lagar. As videiras secaram todas e fazia-se muito pouco.
13:55[ a salvação ]Até que veio a salvação disto tudo com os bravos americanos que eram imunes a essa peste chamada filoxera. Na década de 40 o governo não permitiam que as videira dessem vinho porque elas não vinham para isso, as videiras vinham para servir de porta incertos ? – havia algumas videiras como o catolo ?- havia algumas videiras como o bravo que não dava mas o catolo? dava vinho – como o catolo? dava muito vinho e era ? e aos ovídios ?, então as pessoas fizeram dessa videira produtor direto. Deixou de funcionar como um porta incertos ? e passou a funcionar como produtor direto. Imagina aquela gente habituada a viver à grande e à francesa de repente ter que fazer uma lei da seca posta pela própria natureza. Naquela altura a coisa começou a ser compensada pelo vinho vido da região de ? -Havia uns entrepostos talvez na região de ? Cinfães e as pessoas iam daqui até lá com os carros das vacas trazer os pititos de vinho para as lojas e para as tasquitas porque para as casas privadas não dava. Então o vinho tornou-se um luxo porque as pessoas não tinham acesso ao vinho, bebiam apenas um copito aos domingos para alegrar a alma.
15:53 [castanhas] mais ao menos nessa altura foi introduzido o pinheiro bravo ali na zona. A Rompecilha foi talvez a aldeia onde foi introduzido o pinheiro bravo. Isso deu-se devia a um tio do Alcino que era padre. Não sabe como seria o tio porque nunca o tinha visto mas pelo que conhecia e se era um bom padre seria também um excelente agricultor. Aliás, um excelente agrónomo, foi ele que introduziu muita da vegetação na aldeia inclusive o pinheiro. Ele colocou cimenteiras de pinhais em zonas estratégicas – a semente do pinheiro é transportada pelo vento e então quando esses pinheiros começaram a produzir sementes, os pinheiros deciminaram-se em Rompecilha e não só. Isso trouxe uma conflitualidade na natureza. As oliveiras dos montes desapareceram, os carvalhos e os castanheiros também mas deu-se também uma paragem porque o pinheiro não cobriu e eliminou a outras árvores. Tiveram então um período de duas décadas de ilusão. Quando vinha uma trovoada e vinha uma enxurrada arrastava tudo. A água entrava nas terras e os prejuízos eram imensos. Entretanto o pinheiro acabou por se assumir, os gados diminuíram porque era terrível encontrar mato para as camas dos gados até à década de 60 porque os terrenos estavam todos limpos e tinha que se ir muito longe encontrar mato para as camas dos gados.
18:37 [transformações/dec.60] as aldeias tinham muita gente e os casais tinha os seu 6, 7, 8 filhos. Na aldeia existia a chamada selecção natural em que um casal para ter 4 filhos tinha que arranjar pelo menos 7 filhos porque 3 deles morriam até aos 5 anos de idade. Os filhos que chegassem aos 7 ou 10 anos eram altamente resistentes porque tinham sido vacinados contra as gripes e contra os garotilhos ? e contra outras doenças. Seriam portanto seres muito fortes. Normalmente os casais tinham filhos de dois em dois anos porque o único anti conceptivo que tinham, apesar de haverem já outros anticonceptivos com algumas habilidades, era enquanto a mãe amamentasse não engravidava. Isto deve ter uma explicação cientifica que é uma hormona que deve ser desviada para o aleitamento e inibe a ovulação.
20:07 [dec. 60][trator] começasse a dar a emigração para as grandes cidades, especialmente Lisboa, um pouco timidamente logo a partir da década de 50 mas na década de 60 talvez fosse mais. Isso trouxe o despovoamento das aldeias. Em rompecilha por cada um habitante haverá seguramente dois a viver em Lisboa, ou talvez ate três. Isto trouxe um esvaziamento e uma alteração de tudo o que era Rompecilha, nomeadamente a nível dos campos. Enquanto tudo era feito com tracção animal aparece nessa altura o trator e isso alterou tudo. Por exemplo enquanto que uma vessada ?, como nós chamávamos, era preciso uma junta de vacas ou até duas, um dia inteiro, e 8 ou 9 pessoas para tratar de meio hectare, com o tractor uma única pessoa pode fazer uma vessada dessas.
21:40 [ainda o passado] no passado havia três fases muito bonitas; a cimenteira, quando as pessoas juntavam-se todas, faziam a vessada, cantavam e comiam; a fase da primavera/verão, em que era a fase das regas e neste sentido a fase das festas. Era uma fase em que as pessoas se deslocavam às festas. Como se sabes em Rompecilha temos a festa principal que é o São Macário.
22:35 [São Macário] O São Macário era altamente mobilizador em todos os sentidos. Em primeiro lugar era um grande encontro de culturas onde se encontravam gente daqui, gente Serra da Estrela, do Douro ou gente à Beira Mar. As pessoas novas quando iam ao São Macário vinham sempre com uma cantiga nova no ouvido que tinham ouvido nesses diversos sítios: era portanto um encontro de culturas. O São Macário tinha uma importância muito grande naquele tempo – (se o São Macário tivesse nesse tempo um aspecto negativo..)- O ser humano sempre foi um ser um bocado bélico por isso não havia um São Macário em que não houvesse umas pauladas. Um homem que fosse a São Macário para roubar um carapau ? era um fraco romeiro. Normalmente as confusões e zaragatas no São Macário eram de tal ordem que durante o ano quando acontecia uma coisa qualquer normal as pessoas diziam “ai que desgraça vai? no são Macário” (no dia de são Macário, está a ver a ideia)
24:04[ outras romarias] Havia a senhora da Penha em Alva, a senhora dos Remédios, Havia as sardinha de ? em que as pessoas iam a pé. Para alem das festas que havia à volta da aldeia e em que as pessoas participavam.
24:22[fase agrícola ][cascada] Havia uma parte muito interessante na fase agrícola que era a fase das colheitas. Era uma fase muito interessante, o milho era cortado nas serras e transportado no carro das vacas para a aldeia, havia o sitio escolhido onde o milho era posto durante o dia, e à noite havia a cascada. As cascadas juntavam muitas pessoas e por vezes as pessoas eram tantas que a cascada acabava por durar apenas meia hora. Na cascada havia depois o lanche da cascada que consistia em figo seco que era colhido no Outono, era seco no telhado das casas e guardado para a cascada, em pão de milho e aguardente. Por vezes era também acompanhada por uma garrafinha de vinho. No final da cascada, na maior parte das vezes, havia um bailarico. Em Rompecilha nunca houve grandes tocadores de concertina mas de realejo. Um realejito dava para abrilhantar um baile admiravelmente bem.
26:00 [alfaias agrícolas] [ferreiros] algumas eram feitas na aldeia pelo artífice, o chamado carpinteiro. Normalmente existia mais que um carpinteiro nas aldeias, o que já não acontecia com o ferreiro que era o que tratava das enxadas, era o chamado ? , era aquele que ferrava os carros que inicialmente era com pregos mas depois passou a haver um sistema com aros, que era uma peça de ferro que era posta à volta do carro que era feito em madeira – posteriormente passou a ser tudo em ferro. Esses ferreiros não existiam em todas as aldeias, carpinteiros normalmente existiam uma ou dois em casa aldeia. Nós tínhamos em nossa casa ? que era a tenda, então onde houvesse ferreiro chamavam-no e ele ia lá a casa fazer o serviço, ficava lá o dia inteiro ? e o dono das ferramentas dava o carvão e tudo o resto e o homem lá fazia o seu trabalho. Quando o trabalho era mais especifico tinha que se levar ao ferreiro, havia dois artistas no Outeiro do Sul e no Ervilhal do Sul. Também havia um senhor muito bom em Reriz, Castro D’aire.
28:02[madeiras] em madeira os carpinteiros faziam praticamente tudo. Nas famílias havia sempre alguém que percebia de carpintaria e dava um jeito às coisas. Quando havia alguma coisa especial então lá vinha o carpinteiro ou de alguma aldeia próxima.
28:20 [animais][castração][matança] O castrador dos animais normalmente era de fora, dificilmente havia um da aldeia. Para matar os porcos em todas as aldeias havia dois matadores. Com os outros animais aí já era um pouco mais complicado. Aqui na aldeia quando chegava a altura da festa vinha o senhor Américo David de Sequeiros, que vinha mais o irmão David e também havia um senhor do Ervilhal. A matança era uma coisa que ocorria várias vezes. Quando chegava a altura as pessoas já sabiam que era preciso e então fazia-se esse trabalho.
29:29 [papel da mulher ] Arlindo vai falar do papel da mulher na agricultura praticada até ao inicio dos anos 60 – Era uma missão muito difícil porque a mulher tinha muitos filhos e um parto é sempre um trabalho muito complicado e difícil. Depois desempenhava também o papel de mãe. Tinha que fazer o papel de mãe, de esposa, de dona de casa, e tinha ainda que ajudar o marido nas tarefas agrícolas tal e qual como ele. Um caso de arrepiar que acontecia aqui numa aldeia próxima relacionado com o facto de que uma mulher grávida aguentava o mesmo trabalho de como se não tivesse grávida, foi uma senhora no período final de gravidez, a mulher e o marido lavraram a terra e a mulher tinha que agradar o marido. Estava mesmo mesmo no final da gravidez e o marido pediu-lhe que tivesse paciência e que aguentasse mais um bocadinho que depois a levaria no carro. O homem aguentou e a mulher pôs-se no carro das vacas e teve a criança entre a terra e a sua casa. Esta situação é verídica e aconteceu, isto para se referir ao papel da mulher. Talvez agora no que vai dizer haja um pouco de influência árabe. O homem media a sua capacidade pela sua masculinidade e virilidade. Por isso talvez 40 ou 50% dos homens teriam as suas aventuras e claro que a mulher não e tinha que ficar calada com isso tudo. A posição da mulher quando nascia é muito interessante. A mulher que tinha umas territas era uma privilegiada mas também corria os seus riscos. Casava-se muito nova e com um rapaz que normalmente também tinha umas terrinhas e era escolhido pelo pai de um de outro. Este aspecto é muito interessante. A mulher que não tivesse nada não arranjava marido e a situação dela era ser amante dos homens casados da aldeia acabando por ter 3 e 4 filhos e às vezes até mais de homens casados da aldeia. Essas mulheres tinham uma diferenciação terrível porque como não existia a lei da paternidade eram filhos de pai incógnito. Esses pais cobardemente podiam passar pelos filhos a morrer de fome na rua e nem para eles olhavam. Quando os homens se juntavam todos falavam dos filhos que tinham feito e das mulheres que tinham engravidado e aqui se vê a tal masculinidade doentia e podre que existia. Lembra-se de um caso de um senhor que num ano engravidou três mulheres e elas foram todas ao São Macário. No São Macário o homem foi elogiado por todos os outros homens e ele exibiu essa façanha: o facto de ter levado três mulheres grávidas ao São Macário. Havia uma masculinidade e machismo horrendo naquele tempo.
35:36 [as crianças] As crianças começavam logo a trabalhar assim que pudessem por exemplo a pastorar o gado. Logo a partir dos 5 anos começavam a colaborar. E depois iam continuando a fazer o que podiam, por vezes a fazer até mais que aquilo que podiam. 36:15 [escola das crianças] Pelos estudos que tem feito em relação a isso, e já tem feito alguns, nos fins da monarquia já havia uma escola muito interessante. O seu tio Manuel que nasceu em 1899 e o senhor Manuel Costa de Sá que nasceu no mesmo ano, fizeram uma escolaridade completa naquele tempo. Com a entrada da primeira República foi uma desgraça nacional porque para todas aquelas crianças que deviam frequentar a escola, entre 1915 e 1945, nas aldeias, apenas 5% das crianças frequentaram a escola. Porque para já não era obrigatório, só ia à escola quem queria, quanto muito iam os rapazes, raparigas nem pensar. Depois as crianças eram uma força de trabalho e era um vergonha as mulheres saberem ler porque não era preciso. Por último por aquilo que sabe porque a mãe falava-lhe muitas vezes, num ano lectivo um professor podia dar aulas durante 2 meses e depois já não havia professor nenhum. Portanto não havia continuidade no ensino. O Arlindo foi para a escola em 1950 e discorda totalmente do ensino que era praticado que era de violência onde a principal arma era a régua. Recolhesse no entanto que a partir dessa altura todas as pessoas passaram a ir à escola. Se uma criança ficasse uma semana sem ir às aulas a professora mandava um recado ao pai e pagava 5 escudos de multa. Isto no inicio da década de 50.
38:45 [ décadas 30 e 40] [guerra civil espanhola] [2ªguerra mundial] [racionamento] Rompecilha foi marcada por duas coisas, refere-se à décadas de 30 e de 40. A década de 30 foi marcada por um fluxo muito grande de refugiados da guerra civil espanhola. Já não é do seu tempo, quem lhe dizia eram os pais, que não roubavam e dedicavam se a várias tarefas, por exemplo se lhe fosse pedido rachavam uma lenha, era a sobrevivência. Arlindo tem lá em cima uma casa que já não é sua que é uma casa de cal e que ainda lá tem muitos escritos em espanhol escritos por essa gente. Isso foi terrível porque, relativamente às aldeias, a década de 30 e talvez metade da década de 40 porque houve esse problema da guerra civil espanhola, em que Espanha estava em guerra, e o que tinham era pomar ? . Depois veio a 2ª guerra mundial em que aí ficámos cortados de mar e terra. Tinham que viver com o que tinham, veio o chamado racionamento em que as pessoas vinham às juntas de freguesia, cada família tinha a sua senhazinha e iam ao taberneiro da aldeia, que em São Martinho das Moitas era Rompecilha, no Gafanhão era o senhor Martins dos Santos e em Sequeiros era o António ? Almeida. Levavam as senhas e levantavam as coisas, havia muito pouco . Na aldeia a necessidade de dinheiro era tanta que do pouco que tinham ainda vendiam. Uma coisa muito importante que havia era o petróleo para a iluminação. A carência era maior no petróleo. As pessoas mais pobres vendiam o petróleo porque iam aos pinheiros, escavavam torrões de resina e traziam nos para casa e acendiam nos para iluminar a casa. Na segunda década de 40 deu-se a revolução económica das aldeias através do minério, o volfrâmio. As aldeias incendiaram-se de gente e de dinheiro. sequeiros chegou a ter à volta de 600 pessoas. Houve quem beneficiasse imenso mas no fim de contas todas as pessoas acabaram por beneficiar com o volfrâmio. Lembrasse que na sua aldeia as pessoas chegavam a fazer poupanças de milho e a levar canastras de milho a Regoufe. À uma vizinha que chegou a fazer esse trabalho que dizia que quando os minérios viam as canastras a chegar lá no alto que parava tudo, tal era a fome, porque as pessoas eram muitas e a comida pouca porque não havia importação de alimentos. Não havia importação de alimentos por isso tinha que se viver com o que se tinha. Gostava que os políticos ouvissem o que diz, como seria se caíssemos na recessão e tivéssemos que viver apenas com o que temos, à semelhança da década de 40. Diz que não está a defender Salazar mas que a fase das senhas do inicio da década de 40 foi um marco para a vida das aldeias.
43:50 [superstições e mitos ]a coisa que mais aterrorizava a agricultura era a trovoada. Os montes estavam todos limpos mas bastava que viesse um carga de água para estragar tudo. As pessoas ligavam muito às fases da Lua. Nas fases da lua não se podia matar os porcos, não se podia fazer o vinho, as barrelas, que serviam para lavar a roupa de casa. Havia varias coisas que não se podia fazer nas fases da lua, as pessoas eram muito rigorosas em relação a isso. Superstições existiram sempre. As pessoas era também muito religiosas mas Arlindo nesse aspecto da religiosidade das pessoas, não acredita muito nisso, porque as pessoas eram religiosas só na teoria porque na prática eram pouco religiosas. Porque por exemplo em relação ao pai que fazia um filho num mulher e depois passava por ele e nem o olhava era porque não tinha religião nenhuma.
45:48[fases da lua] as fases da lua eram muito importantes, as pessoas olhavam para a lua e sabiam qual era a fase. Achavam ter influencia sobre as coisas. Também havia a meteorologia, o seu pai antes de se deitar ia lá fora e pelo deslocamento das nuvens ele fazia logo as sua previsões para o outro dia. Aprendeu com o pai e Arlindo ainda hoje liga um bocado a isso. Na aldeia quando o vento é de sudeste é sinónimo de chuva….sob influência de uma corrente marítima chamada maresia. Sabe perfeitamente que se à noite vê as nuvens a caminhar de nordeste para sudoeste é evidente que a chuva vem, ou muita ou pouca. Às vezes não funciona porque pode haver uma mudança brusca de ventos. O pai dizia que os ventos estavam ligados, sentido noroeste/nordeste. De um momento para o outro pode haver uma mudança brusca que altera tudo. Na aldeia sabia-se que de sudoeste tinham chuva forte do este tinham aguaceiros no noroeste tinham aguaceiros raros, norte e nordeste tinham tempos secos, vento e frio, de leste também, (…) No verão era um tempo ? a trovoadas.
47:47 [o pinheiro] é uma arvore condenada por duas razoes: pela doença que veio agora que é o ? – por outro lado por causa do eucalipto e segundo pela própria natureza. O que acontece é que como há mato as sementes do pinheiro são levadas pelo vento. Essa semente ao entrar em contacto com o solo tem que entrar logo na terra porque se houver um terreno com bastante mato e a semente não consiga chegar à terra, a semente não germina. Isso já não acontece nem com a bolota nem com a castanha porque é muito mais pesada e consegue chegar à terra. É a natureza a ditar as suas leis. Nao se admira que daqui a 20 anos voltem a ter as matas cheias de castanheiros e carvalho tal e qual acontecia há 100 anos. O que faz isto é uma ave que é o gaio e os melros que vão às Carvalhas mas nem sempre conseguem levar as sementes e deixam-nas cair, há uma disseminação – Arlindo tem terrenos que tem mais Carvalhas e castanheiros que pinheiros.
49:29 [eucalipto] está à vontade para falar disso. Dizem que é o inimigo, não pelo ?, evidentemente que dá um pouco cabo dos ? – só que tem uma vantagem muito grande e neste momento é a arvore que dá mais dinheiro e em menos espaço de tempo. Podem vir os naturistas para combater o eucalipto. É muito difícil lutar contra o eucalipto porque é uma fonte de rendimento enorme. O eucalipto pode tornar-se uma coisa monstruosa quando daqui a 5 10 20 anos se arranjar um substituto para o papel. Aí é que vai ser o problema, como eliminar o eucalipto. Neste momento está a orientar a tiragem de uma mata de eucaliptos, uma mata de 5000 metros cúbicos. Já teve a oportunidade de ir às fábricas de celulose que gasta 7000 toneladas por dia. É curioso porque para alem de termos muito eucalipto não temos eucalipto que chegue. Ainda vem muito eucalipto do Brasil e da África. Voltamos ao principio, isto vai ser uma catástrofe quando houver substituto para o papel, o que se fará ao eucalipto.
51:25 [lugares específicos que estejam ligados a lendas] temos lá em cima um castelo dos suevos mas para o povo era tudo mouros. Os mouros eram tidos pelas pessoas como grandes trabalhadores. Todo o sistema de regas com aquelas levadas à beira do rio, segundo os estudiosos, é uma técnica trazida pelo árabes. Muito embora esta área não tivesse influência árabe muito grande visto que tem mais dos suevos. Os romanos também tiveram uma grande influência na zona. Dizem até que os suevos eram grandes inimigos dos romanos naquela região. Para salientar as lendas sobre os mouros lá em cima existe uma pedra muito grande a que chamam fraga ? que pesa centenas de toneladas e as pessoas diziam que aquela pedra foi lá posta por uma moura que a levou na cabeça com um filho ao colo e ainda a fiar uma roca.
53:46 [o nome Rompecilha] A Rompecilha fica num vale, no fim do vale sul. No limite da Rompecilha virada para norte começa o vale do Paiva. Antigamente a sardinha chegaria aqui através sardinheiros, nuns burritos. Na aldeia a sardinha era sempre mais cara que nos outros lados. Então questionaram ao sardinheiro porque era mais cara ao que ele respondeu: eu para subir até aqui rompo a cilha do burro por isso para compensar o desgaste da cilha do burro tenho que vos levar mais dinheiro. Daí o nome de Rompecilha. Evidentemente que depois de Arlindo andar a aprofundar a origem talvez tenha chegado a estas definições: uma é a própria configuração da aldeia, a cilha era um cinta que acabava por ter uma forma arredondada porque era a forma de prender o arreio à barriga do cavalo ou do burro. Se repararem Rompecilha tem também uma forma arredondada e acaba num funil que é a Portela. Talvez venha daí porque há quem fale que cilha vem de cadeira em espanhol. Mas Arlindo a ultima versão mais própria que encontrou tem que ver com o primeiro habitante da terra que se chamava Rompecilho. Em 1540 chamava-se Rompicilha e talvez tivesse existido um homem com esse nome na aldeia. Chega a essa conclusão porque em Vieira de Alva os primeiros habitantes froam os sigredos? – é muito provável que venha daí – Mas se era Rompicilho porque não ficou sempre Rompicilho? Na aldeia poderá haver uma influência do francês. Acha que no francês a maior parte das palavras são femininas e não é por acaso que as pessoas chamam a Paiva ao rio Paiva. Talvez aqui haja influência dos franceses por nas invasões francesas ainda se lembra de os antigos dizerem para intimidar as populações saltavam o rio de uma ponta a outra a cavalo. Também pilhavam, eram uns pilhões horríveis, pilhavam tudo e as pessoas para se precaverem mandaram fazer umas caixas em lata e puseram lé os seus haveres mais importantes e foram enterrá-la num sitio lá em cima a que chamamos a Fândega ? que é um sitio muito recôndito que é lá em cima na fonte do Carvalhedo ? – pode-se gabar que ainda lá tem um lençol com uma marca de ferrugem que dizia a sua mãe que era desse tempo.
58:16[invasões francesas] não sabe de nenhuma pessoa que ascenda dos franceses das invasões mas em Ester e Parada de Ester existem alguns. Aí é que estava a origem da ? .[/hide]