Nesta entrevista Honório Martins relata como era a vida na sua infância, tempos difíceis que o obrigaram a emigrar para Lisboa onde fez a sua vida como cozinheiro. Mais tarde voltou a Sul a sua terra natal.

[hide for=”!logged”] 00:00[apresentação] Honório de Sá Martins- 5 de Maio de de 1948 – Nasceu em Sul e vive no Cacém e em Sul, mais em Sul – está reformado e trabalhou em hotelaria como cozinheiro –

0:44[deixar Sul] tinha 16 anos quando deixou Sul – Foi se embora porque na altura passava-se muito mal e eles era 12 irmãos. Começaram a sair de Sul ainda pequenos, a emigrar para Lisboa, Inglaterra, América, tinha que ser assim- passava-se fome – agora são 10 irmãos – deixar Sul foi muito triste porque nasceu em Sul e gosta muito da sua terra, ainda hoje gosta – chorou muito quando saiu – [hoje em dia] tem em Sul a sua casinha e vai lá constantemente

1:59 [ os pais] os pais já faleceram – o pai chamava-se Manuel Martins e morreu com 56 anos, novo – a mãe morreu à um ano com 88 anos – o pai era mineiro, trabalhava em minas e poços de água – a mãe vendia peixe: sardinhas e carapaus e então andava sempre às voltas – o peixe ia de carro para São Pedro e então a mãe ia a pé para lá para vender o peixe nas aldeias – levava sempre os filhos atrás, era uma vida de sacrifício – o pai trabalhava a fazer poços de água na zona de Sul, Aldeia, Oliveira – O trabalho era muito rígido porque nas minas havia muito humidade e se calhar foi por isso que o pai morreu tão cedo – também havia pouca comida e muitos filhos para alimentar

3:30[comida] – Honório passou muitas vezes sem comer, trabalhava numa fábrica que já não existe e por vezes esperava o seu almoço e não vinha nada – Eram tempos muito difíceis – agora está um bocado melhor –

04:09[família] os pais era de Sul – tem duas filhas e cinco netos – vão a Sul nas férias e os netos passam lá as férias com eles – vivem em Lisboa e têm lá a vida deles, as casas e os trabalhos – gostam muito de ir a Sul, os netos adoram aquilo e estão sempre desejosos ir para Sul – passam com eles um mês no Verão e na Páscoa 15 dias – nasceram todos em Lisboa – os filhos também gostam de ir à terra e sentem a raiz da terra

05:17 [escola] fez a terceira classe em Sul e a quarta em Lisboa – A escola em Sul é aquela no cimo da estrada – Andava de manha na escola das 9 ao meio dia- a professora era a dona Mi Mi – tenho muitos amigos daquela altura em Sul mas a maior parte está em Lisboa também, outros já faleceram – havia a escola das raparigas e a dos rapazes – na altura havia muitos miúdos por isso é que tinha que haver duas escolas – havia muitos miúdos 20 de um lado e 20 do outro, agora há 3 ou 4 – Estudava-se com livros, havia a lousa e o giz, se se partisse o giz levavasse porrada – Havia um livro da primeira classe que tinha uma bandeira- esse livro dava para os irmãos todos, hoje não é assim .

07:35 [roupa]A roupa era pouca e era conforme o frio – Na neve ia descalço mais os irmãos para a escola e os outros miúdos da terra- a roupa passava de irmão para irmão mas já estava tudo rompido de andar a guardar a ovelhas e no monte –

8:14[trabalho em criança] trabalhavam muito a ajudar os pais- iam para as terras com os pais e a enxada era maior que eles, nem podiam com a enxada – os pais não tinham terreno nenhum o terreno era dos outros – trabalhavam os terrenos dos ricos e depois ricos ainda ficavam com metade do que o seus pais cultivasse, – era metade metade- se tivesse 50 quilos de feijão era 25 para cada um

9:00 [juventude] A maior alegria foi ter saído da terra para emigrar – a partir daí é que começou a ganhar a vida – em sul não havia nada, acha que se tivesse permanecido em Sul já lá não andava – fez tudo sozinho

9:32[casamento] Para casar teve que pedir autorização – na altura era aos 22 anos e teve que pedir aos pais para mandarem uma autorização para casar mas eles não queriam permitir – Ia casar em Lisboa por igreja – O pai acabou por permitir porque Honório disse que estava com a mulher à 13 meses e assim o pai deixou casar- a mulher é de Vieira do Minho de uma terra chamada Roivães- conheceu a mulher no trabalho em Lisboa – achou-a bonita e jeitosa e ao fim de 7 meses casaram – o casamento foi em Lisboa na igreja Calçada de Santana – da família estavam só 7 pessoas – A família já estava em Lisboa –

10:50 [meios de transportes] em Sul era sempre a pé, não havia transportes – Em Lisboa apanhava 3 transportes para ir para o trabalho – em sul era sempre a pé, não havia carros –

11:15[casa de infância] a casa de infância fica ali para cima na vila, ainda lá está a casa velha – moraram em várias casas: naquela esquina, com os irmãos, em várias casas – a casa que gostou mais é a do cimo da vila onde ficou mais tempo – era de pedra e tinha tábua em cima, era de tabica e cal – era muito antiga a casa, tinha cento e tal anos – tinha dois quartos, como era muitos tinham que dormir quatro numa cama, dois para casa lado –

12:16 [Inverno na aldeia] Era muito frio mas aguentavam-no bem porque andavam sempre a correr –

12:26 [cozinhar na altura] era na panela de ferro, um bocado de coves lá para dentro com Feijões, comiam pão quando havia broa, quando não havia não se comia nada.

12:53[lembranças] lembra-se da miséria que passou – da fome que passou, embora ninguém tenha morrido à fome passou-se muita fome – era um sardinha para três quando havia sardinha assada e o pai perguntava-lhe qual a parte da sardinha que queria, se o meio, o rabo ou a cabeça – diz que como era mau não queria nenhuma parte e como não queria nenhuma parte era no fim metade para cada um – Era tão pouco que Honório recusava para dar aos irmãos-

13:38[ os irmão ] os irmãos também passaram mal, o que passou pior foi Honório e o irmão a seguir, até ao quarto passaram mal -os outros já passaram melhorzinho – Os irmãos que foram para Lisboa já mandavam algum dinheiro, uns escudos –

14:07 [ Cozinheiro] Quando o levaram para baixo de carro levaram-no diretamente para a cozinha – havia uma pessoa de Sul que tinha um restaurante em Lisboa e levava para lá os miúdos para trabalhar – levaram- no para a cozinha para lavar tachos e pratos – depois viam os cozinheiros a fazer a comida e aprendiam logo – quando saiu de lá saiu já como chefe de cozinha – começou a ajudar os cozinheiros e começaram a deixá-lo fazer a comida e aprendeu logo, ao fim de um ano já não lavava tachos

14:56 [onde trabalhou] – trabalhou em muitas casas: trabalhou na feira popular, na costa da Caparica, trabalhou em cinco casas ou mais – trabalhava aos fins de semana para ganhar dinheiro extra- os tempos em Lisboa foram os melhores tempos da sua vida, trabalhava com vontade – ao fim do mês tinha aquele dinheirinho e teve também uma mulher que o ajudou muito, que está ali a ouvir – me –

15:41[morte dos pais] quando o pai morreu foi muito triste – esteve muito tempo em Lisboa a fazer tratamento e sofreu muito – a mãe sofreu com a morte dele porque era muito novo quando morreu – A mãe teve uma morte linda não sofreu nada, foi para o hospital e 8 dias depois morreu – As mortes nunca são boas mas ela não sofreu muito – o pai morreu quando Honório estava já em Lisboa, esteve muito tempo internado e na casa de um irmão dele para recuperar mas já não foi a tempo, como a doença que ele tinha já foi tarde de mais[/hide]