Vítor Andrade é professor e foi responsável pela dinamização do projeto Eco Aldeia em Covas do Monte. Nesta entrevista conta como chegou até esta aldeia da Serra de S. Macário e como foi trabalhar com aquelas gentes no desenvolvimento deste projeto inovador.

[hide for=”!logged”] 00:16 [projeto] conheceu Covas do Monte numa altura em que trabalhava no projeto Escola Rurais – a escola estava fechada há uns anos e tinham aberto o restaurante pela primeira vez – foi lá com um grupo de professores em 97 – esteve uns anos sem ir a Covas do Monte – soube que o projeto Progride ia abrir quando estava em São Pedro do Sul e pensou em fazer o projeto -falou com o professor Adriano e avançou com o projeto – esteve várias vezes com Ângela Guimarães e avançou para uma aldeia – o projeto era trabalhar uma aldeia do interior e com as suas pessoas – queria criar um futuro para essas aldeias – o nome que se deu, Criar Raízes, não foi o seu nome de eleição – queria, Uma Aldeia para o Futuro ou qualquer coisa que desse sentido – acabou por ficar Eco Aldeia – não estava decidido que era Covas do Monte, tinha apenas ficado decidido que seria uma aldeia dentro do espaço natura – aceitaram propostas da aldeia, associações e freguesias que candidatavam a sua proposta ao projeto Eco Aldeia -Entre uma série de aldeias da serra optou por Covas do Monte -achou em conjunto com os técnicos que Covas do Monte tinha aspetos fundamentais: pessoas, vida, era um aldeia que funcionava e estava situada num extremo, era a que fisicamente estava mais afastada da sede do concelho e do centro das coisas – começaram então a trabalhar a aldeia

2:55 [Covas do Monte] o que foi determinante na escola da aldeia foi a vida que ainda existia na aldeia e a vontade que as pessoas tinham em transformar a aldeia em qualquer coisa – mais tarde veio a saber que a vontade das pessoas não era propriamente a mesma, estavam mais preocupados com o dinheiro do projeto -tem a ver com a lógica materialista das pessoas -a lógica da câmara não é materialista tem mais a ver com o poder e famílias politicas

03:50 [restaurante] o restaurante já existia desde 97 – porque o restaurante foi organizado no primeiro programa de luta contra a pobreza – teve algum impato na aldeia e região -devido à rivalidade entre as pessoas entrou num processo de decadência – fechou e estava num processo de reabertura quando começou o Criar Raízes – o que se tentou fazer com o restaurante foi criar regras de funcionamento e contratualizar algumas coisas e não continuar a funcionar como associação explorada e pagar a alguém que fazia as refeições – no sentido temporal era muito arcaica – a associação tem uma gestão cultural e recreativa que é o que existe na serra

 

05:25 [iniciativas]quando se trabalha num local e esse local tem relação consigo mesmo e pouca relação com o exterir tem que se provocar algumas coisas -procuraram trazer públicos e pessoas que implicassem em Covas do Monte – ao mesmo tempo procurou-se criar relações com as pessoas de lá – foi feito durante alguns anos – neste momento estão num processo de provocar novamente as coisas – as pessoas criaram expetativas e no momento as pessoas estão a fazer uma reavaliação e reflexão que as coisas não podem ser assim – não é possível continuar alguém a fazer – têm que ser os próprios locais a fazer – se querem realmente fazer algo eles estão prontos a ajudar mas não podem continuar a ser os promotores das iniciativas, têm de ser eles -pensa que neste momento há algo a acontecer -as pessoas estão preocupadas porque as coisas não se fazem -as pessoas questionam-se – as pessoas sabem mas é sempre mais fácil serem as pessoas a fazer e não avançarem com o processo -ao surgir o questionamento por parte das pessoas tem que surgir disponibilidade para trabalhar com as pessoas -sempre que alguém faz cria dependências e quando se vai embora as coisas desaparecem – interessa que o processo seja feito no local – têm os contatos e podem colaborar – não interessa fazer interessa que as pessoas façam e eles vão ajudar – fazem o que se acha que as pessoas querem fazer – o processo é muito complicado – há quase um tensão – em qualquer momento de mudança há tensão entre dar o passo ou ficar na mesma – essa tensão é semre uma vantagem -é essa a estratégia

08:30 [lagar] o lagar é um local na aldeia que é o único local coletivo – podia se desenvolver na aldeia porque não estavam todos equidistantes -a aldeia é toda privada à exceção daquele espaço – era possível lá fazer algo coletivamente e todos colaboraram por uma coisa que não era de ninguém – foi uma maneira que encontrou de envolver pessoas do exterior que se solidarizaram com a construção do lagar com as pessoas da aldeia -era um momento de encontro e de se vir para a aldeia fazer qualquer coisa – quando traz alguém do exterior tem que dar que lhes dar que fazer, eles não querem ir e estar de braços cruzados – querem interagir com as pessoas ao mesmo tempo que colaboram – isso foi um tempo em que poderam provocar um encontro e provocar momentos de conversa em volta – o processo não está acabado e pensa que pode transformar aquilo num bem coletivo da aldeia mas tem muita dificuldade em fazer as pessoas da aldeia apropriar-se do coletivo -as pessoas vão ter com ele preocupadas com as telhas que estão a cair -diz que podia passar um fim de semana a desmontar as telhas como acham – tiveram um problema com uma verba que tinham que gastar senão tinham que devolver o dinheiro – contrataram um empreiteiro para fazer a obra e essa parte ficou mal feita porque ele queria fazer depressa e não quis fazer com as pessoas, fez sozinho – não reconstruiu a história – as pessoas puseram-se de lado – as lousas foram mal colocadas e as pessoas no fundo sentiram-se expropriadas de uma coisa em que estavam a colaborar -é um espaço de memória coletivo – para as pessoas que não lhe dão sentido de futuro mas no fundo quando falam do espaço têm muitas histórias – para alguém que vem de fora é qualquer coisa que dá identidade e que marca a historia da aldeia – as pessoas de fora vivem essa história e isso é benéfico para quem vem -era uma coisa que estava degradada – o espaço estava degradado e se reconstruísse aquela parte a aldeia tinha muito a ganhar – se o ribeiro estivesse em condições com os muros de pedra e com a queda de água a aldeia tinha logo a ganhar como imagem para o exterior -do ponto de vista funcional para as pessoas dali talvez não tivesse nada -para o exterior a aldeia ganhava muito e esse é que é sempre o confronto entre o que as pessoas imaginam e o que no fundo traz as pessoas do exterior -as pessoas não têm essa perceção – as pessoas têm a perceção do trabalho do dia a dia -o que conta é o dia a dia da aldeia – a questão que o outro que está fora pode ser fundamental não existe na aldeia – não é palpável – quando estiveram muitas pessoas a falar da vida deles gostaram disso e isso desapareceu – tem que se tornar isso claro – isso não acontece se não se adaptarem a acolher as pessoas -diz que estão no meio do mar que começaram a caminhada e agora vão para a frente ou voltam para trás – é sempre um problema porque estão sempre à mesma distancia – é fundamental –

13:02 [piscina] ela surge em conversas com jovens – os jovens da aldeia não tinham um espaço agradável para passar um tempo de férias – achou por bem que seria um espaço agradável para quem viesse de fora -para alem de contatar com a aldeia tinham um espaço agradável de gozo e fruiçaõ – um espaço natural – a custos reduzidos, apesar de se lhe chamarem piscina aquilo é um lago de água – como no verão é muito quente tornava-se agradável, era um espaço de encontro e os jovens contatavam uns com os outros -era atrativo para as outras aldeias e transformava a imagem que os jovens têm da sua própria aldeia –

14:30 [Covas do Monte][Ana] qualquer processo social é repetível – Covas do Monte tem de paradigmático a rusticidade e tipo de vida tão marcante e quase da era pré industrial – é uma aldeia que teve acesso ao exterior há muito pouco tempo – os acessos são tão difíceis que a preservaram -fecharam as pessoas à volta dessa dificuldade e isso uniu-as -nao há uma casa que se venda – nos sítios vendem muitas casas -embora não usufruam não conseguem desfazer-se do que é das pessoas -há algo de muito rústico e rude – nesse sentido Covas do Monte é único -não conhece outra aldeia com características tão vincadas – há outros processos com enormes potencialidades desde que trabalhadas – não conhece uma identidade tão forte e um tipo de relacionamento tão vincado como esse – diz que não existe em todo o país tal coisa – Covas do Monte tem essa mais valia, tem essa rusticidade que marca – já foi a outras aldeia bonitas como o fujaco ou Nodar e até são mais limpas – quando se vê a rusticidade de Covas do Monte é único – é bonito mas não é igual – tem que ser trabalhado -quando trabalha na área do social costuma dar como exemplo a questão do restaurante que tem muito de social – há coisas que marcam como os pratos ou a qualidade da comida – há a sua própria indentificação e a pessoa que está à frente -na aldeia há isso também – as coisas têm sucesso porque há alguém com uma capacidade relacional boa – vai a muitos lados do ponto de vista geográfico e não tem essa proximidade com as pessoas -nao tem uma história que o ligue e que o faça ligar à pessoa- Covas do Monte tem isso – há uma pessoa que considera que é a Ana – ela tem essa capacidade relacional e não se apercebe disso -faz isso de forma involuntária mas tem que tomar consciência de que pode ser uma grande possibilidade para Covas do Monte -tem uma facilidade de se relacionar com as outras pessoas – um empresário veio e disse-lhe logo que havia uma moça muito simpática – isso é determinante – voltam a Covas do Monte para estar com a Ana -teve lhe a contar a sua história e vão voltar para estar com a Ana -é preciso essas pessoas terem capacidade de ser mobilizadoras – são estas pessoas que têm o contato – quando vai a algum lado contata com as pessoas – é recorrente transformar-se os locais na imagem da pessoa -precisa de contatar com alguém e precisa de ter pessoas de referência -é uma capacidade racional que é específica das pessoas que com algum tempo se pode melhorar mas há pessoas que naturalmente as têm – as pessoas só precisam de ser tal e qual como são – quem conhece a Ana sente isso, as pessoas percebem – acha que a Ana é a pessoa que mais pode fazer o elo de ligação entre o local e o exterior – ela fala muito das dificuldades que tem em se relacionar na aldeia mas é uma coisa que tem de ser capaz de fazer com a ajuda de todos, tem que ser ela, não há volta a dar – não lhe interessa criar um imaginário para Covas do Monte se o imaginário não for assumido por alguém da aldeia -interessa-lhe mais criar o imaginário do outro do que criar ele um imaginário – quando lá chegou ninguém tinha imaginários e teve que criar ele imaginários – podia ser isso ou aquilo – não é esse o caminho – acha que podem sempre falar e contar histórias e o imaginário interegir com o outro – a Ana está casada com o Filipe e interessa-lhe mais saber o que é que eles imaginam para o futuro deles -o que é que precisam para criar o seu futuro –

21:45 [paisagens] [imaginário] diz que pode transformar as aldeias em paisagem e consumir paisagem – qualquer investimento exterior pode rentabilizar enquanto a paisagem existir – a paisagem também é construída e reconstruída localmente – se as pessoas no local não tiverem imaginários sobre a paisagem e ação que há sobre essa paisagem a paisagem desaparece a curto prazo -não há volta a dar – a questão é como é que trabalham e disponibilizam a trabalhar com as pessoas para elas continuarem a ter imaginário da própria terra e a evoluir – não se pode parar no tempo tem que se estar sempre a evoluir -é preciso que as pessoas queiram ficar e queiram lutar por isso – essa luta é guiada por um futuro e não pelo passado – o futuro é que o leva a transformar imaginários -nao pode continuar a dizer que as coisas estão mal – para mudar tem que ter um imaginário para mudar – é guiado pela frase de Timor, já tenho saudades do futuro – tem saudades desse imaginário – como já o imaginou queria que ele existisse e já tem saudades – socialmente também é muito difícil, o que se chama os agentes de desenvolvimento – quando vai a Covas do Monte cria um imaginário -quer que as pessoas recriem um imaginário elas próprias e isso demora muito tempo -quem quer trabalhar nessa área tem que ter uma resistência à frustração e conseguir realizar-se em pequenas coisas -essas coisas surgem muito desfazadas daquilo que se imagina que quando existem já não são valorizadas -às vezes as pessoas estão cansadas – diz à Ângela que Covas do Monte é um processo de muitos anos – o projeto vai passar e outros projetos virão – é fundamental perceber e trabalhar nas possibilidades existentes – teve muitas discusões abertas porque havia coisas simples de mudar e as pessoas não faziam – daí a frustração – é simples para uns para outros não – as pessoas não estão lá e tem que se perceber porque as pessoas não estão lá e dar tempo para que as pessoas lá estejam – diz que tem abandonado isto um pouco estrategicamente para provocar nas pessoas um certo tipo de reação – diz que não pode andar lá constantemente[/hide]