Fátima Monteiro é uma mulher com habilidade para o artesanato. Fez diversos cursos ligados à tecelagem e aos bordados e faz parte da Associação de Artesão de São Pedro do Sul. Nesta entrevista conta-nos como é viver desta arte e como chegou até ela.
00:20 [trabalho] trabalha na estação há 11 ou 12 anos mas tirou o curso há 16 anos na área da tecelagem. O seu trabalho consiste em tecelagem, também cozinha, faz bolos e tudo um pouco. Tirou vários cursos como o de cozinha, mesa, bar, tem curso de tecelagem, bordados. Tem muitos cursos. Trabalhou 11 anos no hotel Vouga em hotelaria e foi aí que começou. Depois foi para o desemprego e tirou o curso de tecelagem. Na altura foram escolhidas quatro e Fátima continua. Participou no projecto Serra Nostra através do iefp.
01:39 [o projecto] o projecto era um projecto camarário. Na altura estava lá a doutora Ângela. Esteve a trabalhar por sua conta, foi colectada, depois formou a associação há uns 14 anos.
02:11[Associação] A associação nasceu depois do projecto. Tiveram a ideia com a dra Ângela e formaram a Associação na qual haviam também colegas de Azulejaria mas que entretanto foram embora. A associação surgiu quando conheceu essas pessoas. Havia curso de Azulejaria e Cestaria, mas a senhora depois não quis ficar. Azulejaria também foi através do centro de emprego mas desconhece se era da Serra Nostra. As colegas com quem trabalha conheceu nesse curso.
03:26 [ o que aprendeu] não aprendeu bordados pois tirou o curso de bordados fora. A formadora deu um pouco de bordados mas o curso era realmente de tecelagem. Deu pouco de bordados. Ao principio foi difícil porque não estava habituada e só via fios mas adaptou-se bem. Não sabia nada por isso foi um pouco difícil. A sua área foi sempre restauração por isso o curso foi uma coisa nova para ela. Foi lento o processo, iam aprendendo, iam criando, sempre juntas. Agora são três, a Fátima a Lurdes e a Fátima Monteiro, colectaram se individualmente. Foi difícil mas tiveram o apoio do centro de emprego para estarem colectadas e adquirirem o tear e a maquina de costura. Submeteram portanto um projeto e obtiveram subsidio. Em cinco anos tinham que estar colectadas, não havia hipótese. Fizeram a associação e começou a ter um ordenado, estipularam-lhe um valor pelo que fizesse.
05:37 [quando iniciou] faziam feiras de artesanato e tinham o apoio do centro de emprego.
05:49 [diferenças entre hoje e ontem] vendia-se muito mais porque havia muito mais procura. As pessoas ainda comprar mas passam bem sem um tapete. Vendia-se muito bem, não propriamente nas feiras mas tinham encomendas. As feiras era mais para divulgar o produto. Nas termas vendia-se muito bem o artesanato. Agora tem sido mais fraquinho.
06:36 [diferenças no trabalho criativo] há uma diferença até grande. O trabalho diminui, agora estão na outra parte, antes tinham o comboio que andava, as pessoas viam e encomendavam, se as pessoas estavam a fazer uma passadeira de puxadinhos as pessoas viam e faziam encomendas e sugestões. Agora está bastante parado. Naquela altura estavam sempre, sempre a tecer. É um trabalho que Fátima gosta muito.
07:40 [ o que consite]primeiro têm que cordir a teia, depois têm que montar o tear, depois têm que enfiar o pente nas malhas. Têm uma cabula porque se se enganarem têm que desmanchar e voltar a enfiar. Depois é começar a trabalhar.
08:18 [linho] Não fabricam linho porque se fosse linho já daria muito mais trabalho.
08:25 [materiais]Mara, desperdícios de algodão. Tirela que são restos da roupa. Linho. Borel. Lã de ovelha, pura. Algodão que é a teia.
08:57 [padrões] são elas que escolhem. Se algum cliente quiser escolher elas elaboram. Normalmente são elas que puxam pela cabeça e depois uma coisa leva a outra. No curso não aprofundaram muitos matérias, foi mais a tirela e Mara. Muito pouca coisa. Chegaram a pedir ao ceart se lhe davam uma formação complementar de tecelagem. Eles disserem que sim mas entretanto só tiveram de bonecas e trapos que Fátima também tirou o curso. O outro curso de tecelagem foi basicamente a mesma coisa. Elas queriam aprofundar outras matérias primas que nem sequer encontram.
10:17 [trabalhos] trabalham mais em tirela e Mara. Fazem também tapetes, tapetões, mantas e passadeiras, carpetes. Vestuário não. Queriam que relataivamente ao borel que houvesse uma pessoa que lhes ensinasse a fazer casacos mas isso já tinha a ver com costura.
10:52 [se gosta] gosta muito.
11:00[cozinhar] gosta muito de cozinhar. Também tem curso de cozinha. Quando estava no hotel Vouga fazia de tudo lá, era polivalente, tanto estava nos quartos como na cozinha como ia às mesas como estava na recepção. Também tiraram um curso de coxinha na associação e começaram a elaborar. Gosta de fazer coisas diferentes, gosta muito de cozinhar. Pastelaria já não gosta tanto.
11:48 [família] [pai] a mãe já faleceu foi sempre domestica. O pai também fazia trabalhos manuais, era canastreiro. Fazia canastras e cestos e foi sempre a forma de sobrevivência dele. Trabalhava muito bem. A avó era tecedeira mas não conheceu as avós. O pai ainda é vivo tem 89 anos mas já não faz trabalhos. Fátima tem pena de não ter aprendido com ele. Ele trabalhava em casa só que vendia nas feiras. Tinha muitas encomendas. Ele trabalhava madeira de castanho. Não trabalhava nada com mimosas. Quando ele ia cortar a madeira Fátima ia com ele. Fazia canastras pequeninas, cestas de vindimas, fazia tudo. Era agricultou mas a sua ocupação era essa, foi assim que criou os filhos. A mãe nunca trabalhou, vivia da agricultura. Ele é que era o sustento da casa. Trabalhava sozinho, nenhum dos irmãos quis aprender. Na aldeia o irmão do pai também fazia isso, eram os dois que trabalhavam em canastreiros. Trabalhavam separados eram um pouco rivais. O pai fazia as coisas muito bem feitas, muito perfeitinhas. O trabalho era complicado, chamava-se esquentar ? a madeira. Tinha que aquecer os paus e depois as mãos já estavam calejadas daquilo. Mas ele trabalhava muito bem eram realmente profissional. Se a madeira arrefecesse ele já não conseguia fazer a cestaria ? . as suas mãos ainda hoje estão calejadas dos paus farruscos. Era muito rápido a trabalhar, por vezes tinha muitas encomendas mas ele era muito rápido a trabalhar.
15:38 [ferramentas] ainda possui as ferramentas que o pai utilizava, como recordação. O pedão, um cavalete onde punha os pés, um ferro grande para cascar a madeira e ficar lisa para fazer as canastras e as cestas.
16:11 [partos]eram em casa, era raro ir para o hospital. Chamavam as parteiras que sabiam alguma coisa. Na aldeia de Fátima havia parteiras agora já não. Tinha que ser uma pessoa que soubesse para cortar o cordão. Era um trabalho difícil e não havia higiene.
16:50 [animais] os animais antigamente morriam muito porque agora quando algum animal adoece chama-se um veterinário. Antigamente não haviam veterinários, haviam apenas pessoas que percebiam qualquer coisa. Agora os veterinários vêm mesmo a casa ver os bichos.
17:30 [gravidez]Antes não faziam exames, a mãe de Fátima nunca fez nenhum exame. Nem ao médico iam. A mãe de Fátima ficou grávida na altura da menopausa. Foi um surpresa, nem sabia que estava grávida, só soube quando estava grávida de quatro meses porque começou a sentir dentro dela. Sentiu-se enjoada e deduziu que estava grávida e estava mesmo.
18:40 [mãe ] como a mãe já tinha uma certa idade não tinha grande abertura com ela, era mais com a cunhada que era como uma mãe para Fátima, era a mulher do irmão mais velho que sempre morou ao pé dela. Com a mãe não se sentia à vontade para falar de rapazes mas com a cunhada sim, contava-lhe tudo. À mãe não porque antigamente não era como agora. Agora as raparigas têm liberdade que antes não tinham, Fátima não podia ir a uma festa sem o irmão. Se não fosse o irmão tinha que ir o pai. não ia a lado nenhum sem um deles. Diz que as coisas agora mudaram muito, que casou com 21 anos porque antes casava-se cedo não tarde como agora. Agora as raparigas querem-se formar, querem ter a ida organizada para depois se casarem. Não vê a filha casada que tem 22 anos e ela com a idade da filha já estava casada, teve a filha com 24 e já teve 3 abortos.
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