Delfim Dias nasceu na Rompecilha mas cedo emigrou para Lisboa para arranjar trabalho. Na sua entrevista conta-nos como foi a sua infância na aldeia: a escola, os trabalhos no campo e as brincadeiras. Regressou à aldeia há 5 anos por uma razão especial: para cuidar da sua mãe que sofre de alzheimer.

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00:00[Apresentação] Delfim Tomás da Rocha Dias -nasceu a 4 de Setembro de 1961 – diz que nasceu na casa que está atrás dele –

00:25 [mudança na aldeia] A aldeia fisicamente não mudou nada, continua como há 50 anos atrás – as pessoas mudaram muitos os hábitos, houve uma mudança grande desde os seus 15 anos, a partir do 25 de Abril houve uma mentalidade enorme na mentalidade das pessoas e na organização das famílias – em relação à aldeia continua tudo igual – as ruas estão escangalhadas e não há investimentos em nada – as pessoas vão se embora porque não há condições – na aldeia tudo funciona ao contrário do que os políticos dizem -dizem para descentralizar mas cada vez centralizam mais e as aldeias vão todas ao ar – fisicamente nada mudou mas a organização das pessoas e sociedade mudou muito

01:33[emigração] umas pessoas emigraram e outras imigraram – uns para fora do país e outros para dentro mas tudo emigrou -na aldeia não nascem crianças há cerca de 20 anos –

01:56 [onde viveu]viveu 35 anos em Lisboa – foi-se embora da aldeia com 13 anos e voltou há 5 anos – teve muito tempo fora da aldeia -diz que tem muita recordação da aldeia, foi lá que foi criado até aos trezes anos e foi lá que fez a escola

02:17[escola][caldo de castanhas] a escola era em São Martinho – diz que comiam muito caldo de castanhas no Inverno para ficarem quentes porque tinham que subir até ao alto, a São Martinho -o caldo de castanhas era bem forte e no inverno dava força para lá chegarem -iam a pé – não havia transportes

02:42[transportes][estradas]na aldeia havia quem tivesse burros – ainda tem essa recordação – não havia estradas – lembra-se de fazerem a estrada que agora existe – ia -se a pé até ao Ervilhal – quando vinha pessoas de Lisboa levavam as malas no carro das vacas e depois ia-se a pé – ainda era lonje, não pode precisar quantos quilómetros mas talvez uns 4 ou 5 – para a escola iam a pé pelos caminhos – não havia outras vias de comunicação

03:22[escola][irmãs][professora][ensino]a escola era mista – na aldeia foi sempre mista porque eram poucas crianças e não se justificava turmas separadas – no tempo da mãe iam mais os meninos porque as meninas ficavam em casa a lavar a loiça – a mãe não foi à escola- na altura de delfim toda a gente ia à escola que já era mista – as irmãs foram já à escola – tem uma irmã mais velha e uma mais nova e tanto uma como outra foram – teve várias professoras – houve uma fase em que mudavam muito de professora – a que foi mais tempo foi a professora Cidália que ainda é prima e vizinha- Essa foi durante três anos – havia diferença no ensino em relação ao do pai – o pai ainda hoje sabe as serras e os rios – Delfim também aprendeu mais ao menos mas não como ele – o ensino era focado em muitas poucas coisas mas eram aprendidas bem -no tempo de Delfim o ensino era mais abrangente – não se aprendia tanto o que o pai sabe dos rios, que conhece todos- diz que era importante mas no caso de Delfim saba menos rios mas saberia mais de cultura geral- diz que ficara num buraco e que não sabia como seria no resto do pais -viver numa aldeia daquelas não se sabe como é o ensino fora -na sua altura era mais abragente – no tempo do pai aprendiam poucas coisas mas sabiam-nas bem -era diferente

05:52 [profissões][azenha][pai][irmãos][brincadeiras]na aldeia as profissões era a agricultura -os próprios agricultores faziam de tudo – tinham uma forja de ferreiros -lembra-se que em miúdo havia poucos pratos porque comiam todos numa travessa grande – mas se se partisse essa travessa não havia outra nem dinheiro para comprar – nem havia onde comprar -o pai compunha a travessa com os ganchos dos cabelos das mulheres -eram agricultores mas faziam do resto – faziam coisas muito rudimentares – havia uma   azenha, o pai foi lagareiro 20 anos – fazia-se azeite, bagaço – havia um pouco de tudo na aldeia e não havia onde se ir buscar – o essencial fazia-se tudo – as profissões eram todas viradas para a agricultura, era disso que se vivia mas também se fazia o resto – fazia-se obras nas casas se fosse preciso – as casas era a malta da aldeia que se organizava inventava e fazia -aprendeu toda a gente – os irmãos mais velhos sabem fazer essas coisas mais ele não pois nunca foi muito virado para aí – sabiam trabalhar no campo – tem um irmão mais novo, o António que fez um banco de carpinteiro para trabalhar – eram todos quase autodidata, todos se desenrascavam – não se lembra de comprar brinquedos, faziam motas e carros para brincar, moinhos de vento, com madeira – era o que tinham e era o que faziam eles próprios – o pai ajudava pois tinha jeito para isso – eles é que arranjavam as brincadeiras – os brinquedos eram feitos – portanto profissões eram viradas para a agricultura mas não só

08:08[emigração] [vias de comunicação] [dinheiro] [estruturas]emigrou porque foi uma altura em que houve uma grande abertura – na altura do 25 de Abril – chegaram as estradas e houve mudança de mentalidades – a mudança não foi física porque as ruas da aldeia continuam iguais mas houve mudança de mentalidades e na aldeia o meio era muito pequeno – na sua idade, os irmãos mais velhos já tinham ido há algum tempo, já traziam algum dinheiro – tinha 13 anos mas o dinheiro resolve, diz que pode não ser importante mas sem ele não se faz nada – vive-se numa sociedade assim – quando ia para a escola não tinha dinheiro e quando ia à loja levava ovos de galinha para trocar por cadernos ou lousas para escrever – depois soube que não era preciso levar ovos de galinhas para ir trocar por um caderno porque podiam ter moedas e dinheiro – na aldeia não se ganhava – é um chamamento – hoje à distancia vê que muita gente foi embora porque, não quer culpar os políticos, mas é pela organização da sociedade – se ao mesmo tempo que se fazem vias de comunicação fizessem os caminhos para virem – quando fizeram os caminhos para as pessoas virem aconteceu que como não havia estrutura para as pessoas estarem na aldeia, os caminhos que foram feitos serviram para levar as pessoas que estavam na aldeia – se tivessem sido feitos ao mesmo tempo que as estruturas, as estradas serviriam para ir e vir – não havia estruturas nenhumas na aldeia nem aldeias próximas, naquele interior abandonado – investiu-se milhões de contos em estradas que considera terem feito falta como as vias de comunicação, mas devia ter sido dado prioridade às estruturas para as pessoas terem estrutura para se cediarem – investiu-se apenas nas vias de comunicação para tirar as pessoas da aldeia ao invés de possibilitar as pessoas a ida e vinda para a aldeia –

10:50 [linho][memórias]tem memorias do linho – quando foi para Lisboa a mãe tinha a roca carregada- ainda tem a roca carregada com o linho que ela carregou -já estava em Lisboa quando a mãe deixou de semear linho – todas as memórias são viradas para o linho – o linho ocupava a vida de muitas famílias porque era extremamente importante para a roupa – os colchões da cama eram feitos em linho por fora e por dentro eram cheios de palha centeia -era das coisas que ele e os irmãos e outros irmãos gostavam para a paródia, saltar para cima dos sofás e para cima das camas – iam para cima da cama mexer a palha – a mãe mandava a palha ser mexida todos os dias – dava para roupa, para as mulheres dava muito para as saias de dentro – diz que devia picar muito nas pernas – para os homens servia para camisas – servia para toalhas de mesa

12:17[fé] [linho] [curas] [maias] [tradição] a fé faz parte da vida, o linho mais fino servia para as toalhas da igreja, eram do melhor linho – as famílias faziam isso porque a igreja pedia as melhores toalhas e o melhor linho -a fé acima de tudo – o outro linho era para as toalhas de mesa e para o resto – lembra-se da tia estar doente e de fazerem papas de linhaça para curar – curava-se com papas de linhaça – faziam outra cura com ventosas com álcool e linho e a estoupa a arder lá dentro – era assim que se curava – era usado como medicamento – era uma das coisas que gostava na altura em relação às tarefas que lhe eram incumbidas com o linho -a primeira tarefa dos miúdos e Delfim fez isso várias vezes era no dia 1 de Maio antes do sol nascer ir a correr à terra do linho para espetar as maias – era muito importante – já nessa altura se questionava para que seria aquilo – diz que não faria bem ao linho mas era tradição, espetar no dia 1 de Maio antes do sol nascer à volta dos currais dos animais – era por causa das carraças para o linho crescer melhor -outra tarefa que gostava muito era ripar porque funcionava um bocado na brincadeira, travavam uns aos outros a puxar o linho e isso acabava por divertir – a partir daí os rapazes, homem não fazia isso de massar, tascar, tear – no inverno os miúdos mandavam-se para a cama – a tia tinha esse papel de mandar a garotada para a cama porque elas tinham que ir fiar linho -as mulheres juntavam-se, e a irmã mais velha já fazia parte disso, para fiar o linho e cedar a dubar – os miúdos iam para a cama e de vez em quando iam espreitar enquanto elas iam à loja trazer o copo de água ardente – fazia falta nas noites dev frio beber aguardente – tem muitas memórias do linho, fez muitas etapas do linho – toda a gente de Rompecilha viveu isso – refere a importância nas pessoas essas memórias e o linho – diz que vai continuar a ter importância e vai voltar a ter importância – é uma fibra que não se pode perder, dá muito trabalho mas tem muita importância – lembra-se da tia tecer e de ir para lá quando estava a urdir a teia – diziam que era preciso puxar o rabo da teia e queria ver -espreitava para ver o rabo da teia – tinha que ser um homem com bastante força- pôr a teia no tear, acompanhou isso tudo e tem muitas memórias -o linho era essencial em Rompecilha e em todas as famílias -era uma das coisas que todas as famílias semeavam e todas as famílias tinham teias –

16:30 [regresso à aldeia] [mãe] [linho] [associação]quando voltou há cinco anos não se fazia linho – a Cidália ainda semeava de vez em quando – Delfim voltou a semear por uma razão especial – a mãe tem Alzheimer e Delfim percebeu que como não há centros de dia por lá para ela estar lá, não tinha que dar que fazer à mãe – a mãe não aprende nada como todos os doentes de Alzheimer por isso só fará coisas que já fazia – deparou-se com essa situação depois do médico lhe ter dito que se a mãe soubesse ler, fosse interessada por notícias ou visse televisão que seria muito mais fácil – veio para casa a pensar que a mãe não sabe isso mas sabe outras coisas -pensou então em ir-lhe servindo o passado – dosear o passado e servir – chegou a casa não tinha linho pois não tinha semeado aquele ano e pedi aos vizinho – começou a fiar e a fazer meias – voltou a fazer o que sempre fez – o linho veio por isso – pensou que se sempre viveu do linho tal como a mãe que ela saberá fazer – voltou a semear linho por causa da mãe – nos dois anos seguintes ajudou bastante, foi ela que lhe ensinou e recordou algumas coisas que Delfim tinham na memória – o Alzheimer vai sempre piorando e então ela deixou de fazer – mas gostou porque as memórias vieram-lhe à cabeça e reviveu a infância – desafiou a associação a continuar a semear como sempre se fez – houve um intervalo de 30 anos que foi o tempo que esteve em Lisboa – o linho foi-se embora quando partiu e regressou quando voltou, engraçado – a associação pegou na aldeia e voltaram a semear linho – vão voltar a fazer teias, é essa a ideia, têm feito apenas da terra à roca mas é para continuar – quer voltar a fazer linho e teias, toalhas e camisas
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