Na sua entrevista Maria de Deus relata a sua infância: a escola, os trabalhos no campo e com os animais, as festas na aldeia.
00:19 [parteira][partos][irmãos][pai] a parteira foi uma senhora que era tia de seu pai, Maria do Patrocínio Ribeiro, já faleceu – ela é que fazia os partos – Maria tem uma irmã gémea – a parteira assistiu as duas corretamente -foi parto natural – a mãe disse -lhe que a irmã nasceu de manhã e ela à noite -a mãe diz que sofreu muito com o parto de Maria de Deus -não havia anestesias – eram cinco irmãos e foi tudo de parto normal -a mãe mão percisou que o médico viesse- teve cinco filhos de parto normal em casa – as irmãs gémeas, Maria de Deus e Maria da Glória que reside em Lisboa – um irmão que já faleceu e mais duas irmãs – quem cortava o cordão umbilical era a parteira- guardavam e punham a sercar o cordão, havia quem queimasse pois tinham medo que os ratos destruíssem aquilo pois os miúdos ficariam ladrões como os ratos, era o que as velhitas diziam antigamente – diz que fez sempre o que os antigos diziam porque há coisas que batem certo – quando as gémeas nasceram foi uma festa o pai ficou todo baboso -um senhor disse ao pai que se chamava Amadeu para ter cuidado que eram duas – passado pouco tempo esse homem também teve duas – o pai contava-lhe isso muitas vezes – quando uma criança morria durante o parto sem ser batizada não sabe ao certo o que lhe acontecia- diz que talvez chamassem o padre para vir fazer uma oração – felizmente não foi o seu caso porque tudo nasceu bem – o padre seria capaz de vir e deitar água benta na criança
03:12 [batismo]o batismo antigamente era logo em pequeninos porque as pessoas tinham muito medo- fez o mesmo aos seus filhos pois a criança podia morrer- batizou todos os filhos com cerca de um mês com medo que os bebés tivessem algum problema -não queria essa responsabilidade de morressem- antigamente eram as madrinhas que levavam os bebés para o batismo mas os pais também iam – agora é os pais que pegam na criança – antes até exigiam que pusessem o nome dos padrinhos -no seu caso não foi porque a madrinha se chamava Laura e tinha uma cunhada que lhe disse para pôr Maria de Deus que era muito lindo – não ficou Laura por esse motivo – a irmã ficou com o nome da madrinha que era Maria da Glória – batismo era na igreja de Sul – não sabe se quem a batizou foi o padre Manuel ou Adelino mas acha que foi o último -havia depois uma boda à maneira de antigamente que as posses eram poucas – hoje matasse um vitelo ou um cabrito e se não se tiver em casa vai-se comprar -cabrito come-se muito durante o ano – no batismo do neto disse ao filho que escusava de ir paa um restaurante porque tinha muita comida em casa-não sabe se quer ou não – antigametne era tudo em casa das pessoas nas aldeias
05:23 [bailes]os bailes eram espetaculares – as cascadas ao domingo – iam todas contentes fazer o baile – agora tem uma filha que só vai para a interent – não tem outro meio para passar o dia, só se tiver algum convite – diz que a alegria já não é a mesma
05:53 [casamentos] [rancho] [pais]os casamentos eram em casa – ia para os restaurantes quem podia, só os mais ricos o resto era feito em casa – o avô era um homem com mais posses na altura e a mãe quando se casou o pai fez a boda em casa – usavam uns xailes pretos bonitos que ainda guarda e leva para o rancho – ainda há pouco tempo atuou em Macieira do Sul – o xaile é velhinho – a mãe se fosse viva tinha 101 anos -e o pai teria 109 –
06:43[pais] [tear]os pais eram agricultores- a mãe era também domestica- teceu muita teia a mãe e Maria também chegou a tecer -a mãe tinha um tear – quase todas as famílias tinham tear – quem não tinha iam à tecedeira ou pediam para tecer em Adopisco – Maria teceu uma teia recentemente para uma prima que já faleceu – não foi no seu tear porque tinha-se desarranjado mas a prima tinha um tear de uma comadre -foi tecer lá uma teia para a prima e para a sua casa –
07:35 [casamentos] não vestiam vestido branco – a mãe foi com um xaile – mais ultimamente é que utiliza vestido branco -Maria foi de vestido branco – ia-se a pé para a igreja antigamente mas Maria foi de carro – iam em grupos para a igreja – levavam um calçado velho para não estragar o novo e quando chegavam a Sul trocavam o calçado -os chinelos iam para o saco de plástico e os sapatos para os pés – quando saiam da igreja tornavam a calçar o calçado velho -no seu caso não foi preciso mudar de saia porque os seus pais já tinham algumas possiblidades -antigamente usava-se a saia durante a semana e ao domingo virava-se de avesso para ir à missa –
09:13 [roupa] [avós] [terrenos] [marido]usavam muito roupa de cotim – antigamente usavam ? e blusas de chita -a saias eram de riscados – eram blusas e saias de cores por vezes – o cotim era azul – quem tivesse uma calça de cotim já era ? – no geral usava-se burel, camisas de linho ásperas – as mulheres também usavam camisas de linho – era mais no inverno e lã também se utilizava muito mas era mais meias para os pés- a mãe fazia-lhe meias com buraquinhos no cano muito bonitas – era por isso que ia para a cama cedo -fiava muito- havia o forno com uma pilheira que era uma pedra – quando ia para a cama o forno estava vazio, quando se levantava a mãe tinha lá posto massarocas – Maria perguantava à mãe como conseguia fiar tanto – o avô chamava-se Mateus e a avó Emília -o avô por vezes não dormia para trabalhar nas terras – a mãe se fosse morgada Maria era rica – tinham muitas terras – Maria tem um marido que quanto mais terras compra mais enrascado fica porque as terras não valem nada hoje – diz que o marido tem essa ideia e que se tem que respeitar -os filhos são contra e mandam vir com o pai – antigamente dizia-se casa que caibas e terra que não saibas – tem uma casa espaçosa mas não rica -o marido já tem 74 anos e Maria 60 –
12:29 [depois do casamento][casa][bênção][cozinha] antes de casar era a única filha que a mãe de Maria tinha em casa -quando casou a mãe deu-lhe o melhor quarto que tinha em casa -ficaram em casa da mãe uns tempos, ela e o marido, no melhor quarto da casa – o marido pensou em fazer a sua própria casa – ia comprando os materiais e construindo – ele trabalhava num lado e ela noutro – diz que nunca teve problemas em trabalhar-construiu-se a casa – depois de casar, passado um ano teve o filho mais velho que tinha 6 anos quando foi para a casa nova -levou uns anos, foi construída devagar – agora costumam benzer as casas mas Maria nunca acreditou nisso -antigamente rezava-se mas não se fazia isso – o padre vinha na Páscoa dar a bênção – o primeiro ano que lá foi ficou admirado por não ter benzido – não se lembra de ter pedido ao padre para benzer – tem um santo António e uma Nossa senhora de Fátima -tem diversos em santos em casa a quem pede proteção – há quem diga que havia uma ervas que se punham em casa mas ela nunca pôs nada-não sabe o nome das ervas – mas lembra-se de pôr ervas em casa – a casa dos pais era muito antiga – o pai herdou-a dos avós – herdou o pai e o tio Henrique que deu ao seu filho uma parte-a parte dos pais é antiga que uma irmã de Maria herdou e vendeu e hoje é tudo do filho de Henrique -chamam-lhe Silveira – quando nasceu já era construída -uma parte era dos avós e construíram a cozinha em pedra – tinha um forno bom para cozer o pão e uma mesa enorme que dá para uma grande família -tinha um tear para tecer e um armário antigo e jeitoso – não havia banca na altura, eram uns alguidares que se usavam para pôr as louças – de um lado lavava-se e do outro passava-se por água – num outro alguidar punha-se a escorrer e punha-se as louças no armário – havia uma gaveta para os talheres e era assim que viviam – toda a gente tinha um forno em casa em geral -agora também têm e quase ninguém coze pão -o padeiro vai à aldeia diariamente – tinha um forno na cozinha e depois pôs lá outro – diz que não faltam lá fornos –
16:23 [forno] [vitela] [criança] [pais] [primo] [irmãos]- cozia-se o pão e fazia-se assados – fazia -se bons assados de vitela -a vitela é temperada de véspera e depois leva muitos ingredientes – o alho é indespensável – há quem ponha um dente de algo e Maria põe alho que baste -sal é indespensável – leva loura, vinagre, linha, cerveja, vinho branco, salsa, cebola picada- põe muitos ingredientes – fica 24 horas a apurar e diz que fica um assado à maneira -com o cabrito faz igual – põe o mesmo no cabrito e no vitelo – diz que a mãe sabia cozinhar mas que antigamente não cozinhavam como agora, agora cozinha-se melhor -aprendeu muita coisa depois de casar – casou nova com 21 anos -diz que tem desempenhado o seu papel – sempre viveu em Adopisco nunca saiu – quando era pequena mal saiu da escola foi servir para a aldeia- pediram à mãe para a filha ir servir e ela foi – era muito criança e de noite chorava muito – dizia à senhora que a foi buscar para ir para o pé dos pais em Adopisco – havia lá uma rapariga ao lado que lhe disse para se deixar estar que depois iam para a festa em Oliveira no carro da patroa dela -aguentou lá 8 dias – quando acabou a festa disse que ou a iam levar a casa ou ia pelo seu próprio pé -chegou a casa, a senhora foi lá trazê-la, e quando chegou a casa os pais não estavam lá, estavam numa casa com o mesmo nome do sítio onde Maria reside -chegou lá e abraçou-se aos pais dizendo que nunca mais os deixava – e nunca mais os deixou – a mãe ficou muito comovida e o pai era espetacular – se a mãe lhe desse uma chapada o pai chateava-se com a mãe – o pai dizia que tinha medo da educação dos filho e a mãe dizia que isso era com ela para não se preocupar – o pai não tinha coragem de bater nos filhos se o fizesse era porque já estava perdido- quando a mãe ia para bater nos filhos o pai protegia-os – diz que nunca precisou que lhe batessem -no tempo dos pai o pai dizia sempte que Maria de Deus era o seu braço direito -em mulher era para ir para o Brasil porque tinha lá um primo que pedia aos pais de Maria para a levar -o pai disse que sim – esse senhor era afilhado da mãe, compadre e sobrinho – afilhado porque a mãe o batizou- compadre porque batizou o irmão – e sobrinho porque era filho da irmã da mãe- Maria era a única filha que estava em casa -as irmãs já tinham saído- o irmão andava a trabalhar e só vinha ao fim de semana e depois foi para a tropa – o pai disse ao primo que não queria estragar o futuro dos filhos que se a quisesse levar para o Brasil que a levasse -tinha lá uma irmã vinte e tal anos que agora reside em Lisboa – como tinha lá a irmã também queria ir – mas o pai nessa noite pensou duas vezes e na manhã seguinte pediu à filha para não ir para o Brasil porque o irmão ia para tropa e depois ficavam sem ninguém – ela disse que não ia – depois vou havia o primo que compreendeu, disse que tinha muito gosto em levá-la mas se os pais não queriam que fosse não iria -então não foi e depois casou – diz que tem traabalhado e lutado muito
21:33 [trabalho] [animais] tem trabalhado sempre com uma e duas juntas de vacas – sempre com suínos, cabras, ovelhas – tem vacas e vendeu há pouco tempo uma porque não criava – tem galinhas – diz que o marido é manco e que não é fácil – a filha está empregada – gosta de ter animais e precisa de os ter porque gosta de ajudar os filhos e que eles tenham comida em casa – diz que não pode muito mais porque está muito mal dos ossos – tem pena, por vezes chega a casa e sente-se tão em baixo que começa a chorar – diz que precisa – diz que os filhos não querem que trabalhem tanto e ralham com o marido de Maria – mas o seu marido não quer reduzir esforços porque diz que há muita miséria -está muito habituado ao trabalho -tanto para um como para o outro parar é morrer – diz que as coisas se fazem mas tem que ser com mais calma, porque já não pode correr como corria – tem uma prima, a Fernanda que diz que já não se faz uma mulher como ela – diz que trabalhou muito – criou quatro filhos a ir levar a comida ao marido com os filhos ao colo – tinha que vir para casa a correr e ainda tinha animais para tratar e ir para o monte – diz que teve uma vida muito difícil –
23:45 [rancho] diz que ainda vai para o rancho – vai fazer 20 anos que anda no rancho e já toca no instrumento com a mão direita porque com a esquerda não consegue – tem muita pena mas é muito difícil – diz que já fez 60 anos – o professor diz para ela ter calma que há-de lá chegar -diz que que frequenta apenas as aulas para o professor ganhar a aula, que lhe custa ter-se inscrito e desistir -diz que vai sempre tentando –
24:34 [animais] [galinhas] quem mata os animais é outra pessoa, no caso dos suínos – as galinhas mata ela e frangos também – cabritos também tem que os mate -a galinha não custa nada matar basta apenas dar um corte por cima do cachaço ou garganta- diz que também não custa nada comer porque dá boas canjas -o ano passado tinha 16 galinhas e não sabia o que fazer a tanta galinha, então começou a matá-las – cozia a galinha e fazia uma boa canja- depois punha agalinha inteira no fogão, juntava vinho branco, alho e uma folha de louro, um cubo de caldo knorr – abria a galinha para ficar bem temperada – punha no fogão a corar e era uma delicia, toda a gente comia lá em casa dela -não tinha nem tem medo de matar a galinha – diz que se tem que ser tem que ser e uma pessoa habitua-se – lembra-se da primeira vez que matou e a forma é a mesma – começou a matar devia ter 15 ou 16 anos, a mãe também matava e aprendeu com ela -diz que está mais evoluída que a mãe que criou 5 filhos e não tem nada a dizer dela -mais era uma pessoa mais antiga –
26:21[vacas] [leite] [comida] [sardinhas]as vacas iam para o monte, eram criados de pequeninos, eram crias que as vacas produziam -mamavam nas mães, quando criassem uma vitela tinham que a prender cedo para ela se ir habituando à corda – era complicado porque são animais muito fortes e rústicos e tinha que ser uma pessoa forte para a segurar – depois iam amansando devagarinho para começarem a trabalhar – depois era alimentá-los- cortava-se a madeira ao meio para secar, corta-se a palha, e semeia-se a erva, em geral no meio de Agosto -quando chegasse altura de seifar tinha-se ervas boas -era assim que se criava os animais e levava-se para o monte- as vacas nasciam nos currais – antes não havia veterinários – haver havia mas não se chamava – agora se houver um caso de um animal que não esteja bem para ter a criar chama-se – naquela altura não e chegaram a morrer animais mas era raro -uma vez chegou a ajudar adar a luz as vacas e o veterinário não gostava -uma vez a vaca estava com dificuldades em despejar e Maria depois chamou o veterinário que disse que não devia ter ajudado a vaca a dar à luz e devia tê-lo chamado antes e Maria disse que ele queria era ganhar o dinheiro – despejou o animal e ficou logo bem, diz que nasceu para isso – há dias vendeu um vitelo – amarrou a perna e a cabeça à vaca para ela ficar quieta – disse lhe a prima que Maria nascera mesmo para aquilo e que o marido não faria o mesmo com a vaca- a vaca é ruim para tirar o leite mas Maria tirou-lhe as manias – prendeu-lhe com uma corda, na perna e nos cornos para ela ficar quieta se não leva porque a vaca também tem que respeitar as pessoas -as vacas não dão sempre leite, a vaca agora já está a secar – quando vendeu a vitela já ia fazer 10 meses – quando estão prenhas o leite seca-lhes mais depressa -quando estão vazia o leite leva mais tempo a secar – se as vacas forem muito leiteiras levam 15 dias se forem pouco leiteiras secam em 4, 5 dias – antigamente até se comia o leite -quando as vacas pariam chamavam carrouchos – lembra-se de ver e comer carrouchos – os primeiros leites que as vacas tinham não se deitava fora era para fazer carrouchos – diz que nunca gostou muito mas havia quem gostasse se não não se fazia – não se faz manteiga naquelas terras, queijo também não – gostava mais de leite de cabra, agora nem de vaca nem de cabra, agora compra – antes de se casar, no tempo dos pais, também tinha vacas – quando casou sempre teve vacas-o leite fervia-se, levava-se para o lume e fervia-se- se ele coalhasse deitava-se fora – tinha um tio chamado António que tinha uma vaca que dava muito leite e deu muito leite à mãe para ajudar a criar – a vaca chamava-se Castela -a mãe dizia lhe que bebeu muito leite da Castela do tio António – era mais ao pequeno almoço que se bebia leite -durante o dia só as criancinhas pequenas- de manhã era um café e um caldo de cebola que as pessoas comiam – comia-se caldo de farinha – o leite era para os velhos que estavam na cama – por vezes iam para a escola apenas com o caldo da noite-de manhã aqueciam o caldo – diz que não é velha e que se lembra de na sua casa a sardinha ser partida por três, ainda é do seu tempo – agora come-se às 3 e 4 sardinhas, quantas querem – para ela as sardinhas dão para um mês – antigamente era dividida por três – perguntava-se aos filhos se queriam o meio, o rabo, ou a cabeça da sardinha no tempo de Maria.
32:23 [sardinhas] [missões] Para comprar sardinhas vinha à aldeia uma pessoa que se chamava naquele tempo choupeiro o sardinheiro – vinha uma senhora de Sul com uma canastra à cabeça, vinha o senhor Figueiredo a quem chamavam de Lino- vinha a pé – esse homem um dia chegou a casa de Maria com uma grande bebedeira- os pais de Maria não estavam em casa – nesse tempo fazia-se as missões da igreja e os pais tinham ido para as missões – as missões eram no tempo da quaresma, eram rezas que se faziam, iam para lá rezar – o homem chegou bêbado lá a casa e só dizia asneiras – Maria disse para o homem se ir embora porque o pai dela estava na loja mas não estava, estava na igreja – estava com as irmãs e ele à porta, a chover muito, e elas cheias de medo dele – depois começaram a dizer que o pai podia ir lá em cima e o homem lá se foi embora –
33:30[escola] foi à escola e foi boa aluna – ensinou lá muitos – andou na escola de Sul – fez a quarta classe que naquele tempo era muito puxada – tinham que saber os mapas, rios, serras, reis e tudo – diz que a professora era muito boa, a Dona Aida que morreu há uns anos -ela marcava o trabalh, se soubessem tudo bem, se não soubessem não perdoava -dizia que preferia explicar duas três e quatro vezes do que os meninos dizerem que compreenderam e não compreenderam -dizia que se não compreenderam para dizer que não tinham compreendido que ela não se importava de explicar – os rapazes tinham uma sala e as raparigas outras – eram muitos alunis, trinta e tal de cada lado -tinha a irmã gémea, ela não era bem burra mas tinha mais dificuldade – a dona Aida inventou que a mãe queria levar as duas gémeas a exame – a mãe queria que Maria saísse primeiro porque tinha muitos animais e queria que ela ajudasse – a Dona Aida tinha gosto de levar as gémeas a exame, não era a mãe por isso inventou isso – Maria ia para a sala estudar os mapas -estava-se na escola das nove ao meio dia e da uma às três – o almoço era na cantina e comia lá sempre como os irmãos – os outros nao comiam mas eles tinham mais possibilidades e comiam – no final da comida iam os da quarta classe para a sala estudar o mapa- Maria ensinava os mais burros – ensinou uns até mais velhos que tinham mais dificuldades – era obrigatória a escola – agora usa-se a calculadora para fazer contas – ela não precisa de calculadora, sabe a tabuada de cor de salteado -os filhos têm que pensar muito – sabe porque a professora era exigente e eles tinham que aprender
36:36 [festas][procissão][rancho][graças][santos]a festa religiosa de Santo António antigamente era espetacular – os andores iam de Adopisco para a igreja todos enfeitados -as mordomas tinham muito trabalho – hoje os andores não saem da aldeia – tinham que levar os andores de manhã, tinham que arranjar homens para os levar para a igreja, três andores – e depois havia a procissão, com guiões, música e os andores muito bonitos -formavam a irmandade na igreja- chegavam lá, havia missa, pregação e tudo – no fim da missa havia a procissão em volta do povo e depois recolhia à capela-houve tempos que o primo Dias ainda trouxe iluminação de espinho que era uma coisa linda que ia pela estrada até lá acima ao arraial – começou a ficar velho e a deixar-se disso – o pessoal não tinha conhecimentos e desistiram – hoje faz -se uma festa normal apenas religiosa- naquele tempo havia conjuntos e ranchos – o rancho de Sul do qual faz parte atuou diversas vezes no Santo António – agora faz-se a festa religiosa, bonita e com música- não autorizam foguetes por causa dos fogos – no fim da missa faz-se procissão – faz-se um leilão como é habitual, de coisas que se oferece ao Santo António – é o santo protetor dos animais – o pai de Maria nas graças dizia sempre Padre Santo António que livraste o vosso pai de sete sentenças falsas, livrai-nos também a nós do poder do demónio e não nos deixeis morrer os nossos animaizinhos, Pais Nosso -não se esquece – o pai pedia graças assim: Santas graças santos louvores oferecemos ao nosso senhor Jesus Cristo, agradecendo o que ele nos tem feito e continuamente vai fazendo em Vosso louvor Pai Nosso -o pai dizia Senhor que nos dê para agora que nos dê para toda a hora, não nos deixeis morrer sem receber o vosso santíssimo corpo em graça Pai Nosso – aprendeu com o pai – depois há os Santos todos – Santa Luzia nos dê vista e caridade até à hora da morte -São Macário nos dê juízo entendimento até à hora da nossa morte-Santo Adrião -Santa Ana – São Joaquim – foram os pais da Nossa Senhora, aprendeu com o pai – o terço rezava-se mas não se rezava muita vez – as graça era rara a noite que não diziam -e depois dizia bênção meu pai e bênção minha mãe, no fim de rezar -era uma educação – agora tratasse os pais por tu – com os filhos de Maria não é esse o caso porque Maria não deixa pois nunca tratou os pais dela por tu – diz que não há o mesmo respeito
40:10 [pais][irmãos] tratava os pais por você – impesável tratar os pais por tu ou tratá-los mal – a mãe uma vez falou um pouco áspera porque se viu muito sobrecarregada quando Maria se casou -tinha trabalhos em Sul e o marido era de Sul, tinha lá o gado, Maria ia dormir a Adopisco mas ia para Sul com o marido – a mãe uma vez passou-se mas nem assim Maria abriu a boca à mãe, começou antes a chorar porque sabe que a mãe tinha razão e estava sobrecarregada com o trabalho -Maria ia para Sul com o marido e tinham muito trabalho – a mãe pedia para Maria ficar com ela – a mãe um dia passou-se e Maria chorou – o pai tratava a mãe por tu, entre eles – o pai tratava bem a mãe, gostava de ajudar – ia à serra ao estrume, à serra grande e vinha por vezes falar com a mulher que se ela não pudesse ia ter com o Martinho- a mãe oferecia-se para ajudar – o pai ia então com o carro de estrume e dizia para a mulher se sentar – coitada com dois bebés na barriga, e quando foi com os outros também -o pai dizia à mãe para descansar – depois pegava no carro para não tombar porque os caminhos eram muito incertos – diz que o pai foi sempre espetacular e respeitador – preza-se de ser filha de que é – o pai tinha menos coragem para castigar o filho – estava sempre atento aos filhos – o irmão foi para a tropa para o ultramar e deu cabo do pai – foi para Angola dois anos e o pai não tinha coragem para ver os filhos emigrar -queria tê-los à volta dele, e não podia – uma vez a irmã de Lisboa ficou doente e o pai ficou logo a imaginar como a filha Carla estaria – Maria pedia-lhe para ter calma porque a Carla já tinha dito que estava melhor – estava sempre preocupado – com o irmão foi o mesmo porque quando veio do Ultramar veio muito magro – quando o pai o encarou nunca mais teve saúde- era daqueles pais não agressivos, eram muito amoroso, até de mais – a mãe era boa mas tinha outro feitio, tinha mais coragem para enfrentar -mas também era boa, Maria não tem que dizer dela, mas tinha outra coragem[/hide]