Entrevista ao Padre António Gonçalves de Ranhados, a 23 de Outubro de 2015.

Entrevista e Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Registo e Edição Audiovisual de Nely Ferreira

O Padre António Gonçalves relata toda a sua vivência religiosa desde a sua ida para o seminário até aos dias de hoje. A sua dedicação aos paroquianos, tanto na catequese como nos escuteiros e a sua preparação para cada momento religioso.

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00:11 [Apresentação] António Gonçalves. (Nasci a) 12 de outubro de 1925. (Em) Vila Boa, de Ferreira de Aves, Sátão.

 

00:28 [Seminário de Fornos de Algodres] A minha infância foi lá passada até ir para o Seminário de Fornos de Algodres. Fui em 15 de outubro de 1937. Falaram-me em ir e eu fui. E fiquei. E cá estou. Como é que foi? Vim por Viseu e de Viseu fui para Fornos. Foi há muitos anos, não é?  Não havia transportes por outro lado, depois passou a haver por Aguiar da Beira, que era mais perto, mas eu vim sempre à volta a Viseu. Depois de cinco anos em Fornos, vim para Viseu, para a cidade, e acabei os estudos em Viseu.

 

01:51 [Ordenação como padre] E fui ordenado padre a 22 de agosto de 1948. E comecei a trabalhar como pároco a 24 de setembro de 1948, já lá vai sessenta e oito anos. Foram os meus pais e um tio, irmão da minha mãe. Ora bem, eu vim fazer o exame de admissão a Viseu e foi esse meu tio que veio comigo. E depois meteram-me no autocarro e eu lá fui ter ao seminário.

 

03:02 [Praxes nos primeiros dias no seminário] Primeiros dias foram difíceis, porque havia, já nesse tempo, umas cerimónias especiais para com os novos que chegavam. E era preciso cuidado, para a gente se defender. Bom, já não sei, já não sei explicar. Aliás, nunca soube explicar o que era. Essas praxes. Era umas partidas, era. Consegui defender-me, eu sempre me consegui defender. Porque era um trabalhador e tinha alguma força já nessa idade. Hoje já tenho menos, mas ainda tenho alguma. Tinha feitos 12 anos. Agora já fiz 90.

04:38 Havia os do meu ano, nós éramos vinte e sete os que entrámos, e havia outros de outra idade já, mais adiantados. Nós éramos do 1º ano, eles eram do 2º, 3º, 4º e 5º. Eu andei no seminário até…até ter, deixa ver, foi em 1948, 22 anos, quase 23.

 

05:30 [Estudos no seminário] Sim (ia-se para o seminário para estudar), mas eu só fui porque queria ser padre, não fui para estudar. E porque queria ser padre fui estudar, para me preparar. Ora bem, eu não sei como é que estava o meu íntimo nessa altura, queria ser, fazia uma ideia, certa ideia, com certeza, agora não estou, não estou aqui a explicar mais nada, porque já foi há muitos anos. Foram (anos) de estudo, de oração. E também tínhamos o recreio.

 

06:34 [Dia a dia no seminário] Contar? Portanto, sei lá, então, levantávamo-nos de manhã às 6 horas e depois íamos para a oração, para a missa, depois íamos tomar o pequeno almoço, tínhamos um recreio de um quarto de hora, mais ou menos, e depois íamos para as aulas para o resto tudo. Tinha aulas de latim, de português, de história, de geografia, matemática e mais não sei o quê.

 

07:24 [Primeiros anos como padre] Eu fui para uma freguesia do concelho de Aguiar da Beira, duas, Soito e Vale Verde, fui no dia 24 de setembro, estive lá seis anos no Soito, e ia a Vale Verde quando era preciso. Como é que foi o quê? Eu gostei muito de lá estar nessa terra. E comecei logo a trabalhar, não tive vagar para me distrair. A trabalhar e a estudar, porque depois é que eu estudei, no seminário aprendi a estudar e quando vim pra fora a trabalhar é que eu aprendi o que era preciso. Até hoje, já hoje estive a estudar, e a escrever aqui umas coisas para dizer no domingo. Ainda não escrevi tudo, mas já escrevi alguma parte.

 

08:47 [Pároco da Paróquia de Ranhados] Vai em quarenta e dois anos. Entrei no dia 24 de fevereiro de 1974. Não sei (que idade tinha), é preciso fazer as contas. Andava à volta, quê, dos 50 anos, talvez, perto disso. Eu já tinha experiência, já tinha estado lá seis anos e três meses, já tinha estado noutras duas terras, São Miguel de Vila Boa, do concelho de Sátão, e Lusinde, Penalva do Castelo, já tinha estado lá dezanove anos e um mês e dezassete dias. Eu nunca me preocupei em estar bem ou estar mal, preocupei-me, mandaram-me para aqui, em trabalhar aqui, não estou a pensar nesses, nesses, nessas circunstâncias. Nem agora nem posso contar já o que eu passei. Passei de tudo, tive dificuldades, não é, tive problemas a resolver, consegui resolvê-los, a bem de todos, e cá estou e cá continuo, não sei até quando.

 

10:39 [Trabalho com os escuteiros] Houve circunstâncias que marcaram alguma coisa, mas, não sei, trabalho com as crianças, trabalho com os jovens, a partir de, vai fazer, vai fazer, já fez, não, ou faz, faz amanhã, não, no dia 27, que eu comecei a trabalhar com os escuteiros, 27 de outubro de 1991, nessa altura começou a ser um bocado diferente. Gosto de trabalhar com os jovens, com os idosos e com os que têm menos idade, com as crianças… Sinto-me bem no meio deles todos. Sinto-me criança com as crianças, sinto-me jovem com os jovens. E idoso, como sou, nos idosos. Começou a ser diferente porque participei e partilhei algumas atividades deles, que são diferentes. Sempre colaborei com eles e cá continuo.

 

12:25 [Atividades dos escuteiros] Os escuteiros? Ora bem, eles participam na missa paroquial, são eles que formam o coro. As organistas agora são duas jovens, são escuteiras. Têm os seus encontros, as suas reuniões, as suas viagens. Em agosto, primeira semana de agosto, estiveram no Pico da Europa durante seis dias. E…e volta e meia eles vão, vão para qualquer parte de Portugal. Todos os anos têm o seu acampamento geral e vão sempre para terras diferentes. Portanto, eu vou sempre ter com eles, só não fui um ano, em que eles foram para São Jacinto, de Aveiro, e era um bocado longe e eu não chegava a tempo de ir lá celebrar a missa, de resto eu vou lá sempre ter com eles. Celebro a missa para eles seja onde for. Até já um ano celebrei numa casa de bombeiros, que estava a chover e fomos prá, prá…fomos para o lugar dos bombeiros e lá celebrei a missa.

14:17 São muito importantes porque a gente participa, a gente vive tanto quanto é possível, não é, não vou fazer aqueles exercícios que eles às vezes fazem, não é, já não posso fazer isso, mas estou presente. Ainda há dias andaram aí com, com uns jogos, tinham ali umas cordas numa árvore e eles vinham de lá e vinham cair aqui à, cair não, vinham descer aqui em baixo. E eu assisti, não fui para lá, mas assisti e vi.

 

15:02 [Salão paroquial] Temos ali um salão onde eles se reúnem às vezes, às vezes querem almoçar ali, também têm por baixo uma cozinha, fazem o almoço. E ali o salão é grande, já lá estiveram, o primeiro, a primeira ceia de Natal que ali fizeram, estavam para lá quatrocentas pessoas. O salão ainda não tinha o palco, portanto era maior, agora com o palco ficou mais pequeno, mas ainda é bastante grande, ainda leva muita gente, as ceias de Natal dos escuteiros têm sempre duzentas pessoas, a passar. Daqui a uns dias vão fazer o magusto, muitas vezes é ali, que às vezes está a chover.

 

15:58 [Sede dos escuteiros em Ranhados] Eles têm uma sede ao fundo do povo, têm lá as suas coisas também, outras têm-nas ali (no salão paroquial). Ainda este ano lhes ofereci um armário para arrumarem…

 

16:16 [Via Sacra organizada pelos escuteiros] Eles este ano em 29 de março fizeram uma Via Sacra na cidade de Viseu. Demorou duas horas e meia. Foram eles que fizeram tudo. Aliás aqui temo-la feito todos os anos, este ano não fizemos, fomos para Viseu. E outras atividades que eles têm, que são também para aqui. As outras atividades eles vão pra diversas terras ou cidades, ou…eles lá vão. Claro, não posso ir sempre com eles, porque eu tenho de estar aqui. Eu não sou só dos escuteiros, sou de todos. Das crianças e dos idosos, e tenho de acompanhar a todos na medida em que eu posso. Naturalmente que isto é muito importante para eles e para nós. Faz-lhes bem a eles, faz bem a eles e faz-nos bem a nós. Nós participamos e partilhamos das suas atividades.

 

17:52 [Mudanças na paróquia de Ranhados ao longo dos anos] Mudou muito. A paróquia mudou muito. Eu tive alguma influência nisso, mas não fui só eu. Mudou também porque alargou, era maior, mas as pessoas, viviam cá todos aqui, depois veio muita gente de outras terras e o contato dos que vieram de fora com os daqui, os daqui melhoraram. E eu usei o meio para resolver os problemas que havia, tratei sempre bem a todos, com delicadeza, e isso fez mudar muito.

 

18:48 [Contato com os paroquianos] Eu nunca dei repreensões a ninguém usando termos um bocadinho duros, não. Chamo à atenção para o que é, marco aquilo que se deve fazer e o que se deve evitar, mas continuo a tratar com delicadeza qualquer pessoa que aqui venha. Às vezes posso não ter muita paciência para os atender, porque não tenho tempo, às vezes eu tenho um serviço e aparecem-me na altura, tenho de dizer ‘Agora não posso’, de resto… Também não aceito que venha para cá ninguém de noite, porque hoje não se pode aceitar desconhecidos, sobretudo de noite. Até de dia é preciso cuidado. Não é? Acontece. Ainda no outro dia, um padre que vivia na, no meio da povoação, ali para cima para o Norte, ao outro dia não apareceu, foram dar com ele com uma faca aqui espetada. E morto. Foi atacado de noite. No meio da povoação. Portanto, nós temos de ter, ser prudentes, não é. E é sempre, quando era de noite, de noite não posso atender.

20:33 Eu não posso contatar muito, eu não sou pessoa de café, eu não vou aos cafés, posso ir se me deslocar às vezes aqui e além, mas eu também é raro sair daqui. Quando me perguntaram, não sei quem foi que me telefonou, se eu cá estava, era ontem? Eu faço conta de estar, mas se eu tiver algum trabalho que eu tenho de fazer já cá não estou, não é, porque eu não estou sempre em casa, nem posso estar sempre em casa. Eu tenho de me deslocar em serviço da paróquia. Eu fiz bastantes obras, deslocávamo-nos a Braga várias vezes, a Fátima, foram as grandes viagens que eu fiz, porque…ainda há dias fomos a Lisboa, apareceu lá numa livraria um livro que falava duma Irmandade daqui e nós comprámo-lo, fomos lá buscá-lo. Quando é preciso saímos.

 

21:53 [Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Ouvida] É Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Ouvida. É o nome. ‘Da Ouvida’. A palavra ‘ouvida’ vem do latim ‘ovis’, quer dizer ‘ovelha’. E era a padroeira das ovelhas dos rebanhos. Nossa Senhora da Ouvida, que está ali numa capelinha, está ali para cima um bocadito de Castro Daire, é de Nossa Senhora da Ouvida. E naquela zona havia e ainda há, acho que ainda há alguns, rebanhos. E tinham lá a sua capela e a sua padroeira. É padroeira daqui desta paróquia. É uma imagem que está lá no cimo do, da Tribuna, Tribuna é o Altar Mor, que está, a mesa está em baixo, não é? E o resto chama-se a Tribuna, e ao cimo, mesmo ao cimo de tudo está a Imagem da Nossa Senhora da Ouvida.

 

23:07 [Imagens de Santos na Igreja de Ranhados] Dentro da Igreja está a Senhora da Ouvida, ainda nesse…nessa Tribuna, mais abaixo, está São João Batista, São José, mais abaixo está São Pedro dum lado, Santa Eufémia do outro. E nos altares de baixo está o Coração de Jesus, Nossa Senhora da Boa Morte…é uma imagem que está deitada. Até uma vez vieram aqui, uma senhora de Braga e outra de, de Guimarães, vinham juntas, tinham-lhe dito que estava aqui o corpo de Nossa Senhora, claro que não está, nem em lado nenhum no mundo, porque ela ressuscitou, portanto, o seu corpo desapareceu cá da Terra. Mas é a Imagem que tem que está na posição de deitada. E temos, há um corredor, não é grande, mas…da igreja para a sacristia, e esse corredor está cheio de Imagens. E na sacristia também há. No corredor e na sacristia estão vinte imagens de Santos. E temos já, temos os Pastorinhos de Fátima, os três, também a Nossa Senhora de Fátima está na Igreja. E temos também a Imagem de João Paulo II, São João Paulo II.

 

24:58 [Publicações dedicadas a Santa Eufémia] Aquele livro é dedicado, a primeira edição era só, era, tinha menos páginas, esta tem o dobro, esta tem, além do que tinha a outra, tem a missa, que é o dia 16 de setembro, as leituras todas da missa e a missa toda, tem a Via Sacra, da Quaresma, e a Via da Luz, não sei se sabe o que é, também há uma Via Sacra, digamos que é uma Via Sacra, mas não é Via Sacra, é a, o caminho da luz de Cristo Ressuscitado. Também tem as, que é as 14 estações. E tem o rosário todo, com imagens de cada mistério. Os mistérios que agora são vinte. São imagens pequeninas, mas tem imagem de todos. E, aliás, temos outras imagens da igreja, de dentro, já não temos, temos, estavam a tirar, mas agora já se gastaram, agora estão lá na igreja uma ou outra, já não há completamente.

 

26:22 [Casa do padre] Os padres, a partir de certa idade, não posso dizer quando, que eu também não sei, não estava cá…houve um padre natural daqui e tinha aqui alguns bens. Deixou esses bens para os sobrinhos, para as sobrinhas, mas deixou a casa para habitação do padre que cá estivesse. E eu quando vim para cá ainda fui para lá, mas a casa já estava toda a cair, mas ainda lá estive seis anos e depois mandei fazer esta. E esta já aqui estou já fez trinta e cinco anos, estou nesta residência, mas já fui eu que a mandei fazer.

 

27:24 Não (essa casa antiga já não existe), foi deitada abaixo, eu vendi, porque aquilo era só ruínas, não é, foi preciso tirar aquilo tudo e fizeram um prédio novo, não é. A casa? A casa tinha a parte do rés-do-chão, havia uma, um salão por baixo da casa, de parte da casa, porque estava assente sobre um penedo, e havia depois a parte da cozinha, que tinha uma descida, era assim, nem era no rés-do-chão, nem era no andar, era assim ao meio, era uma parte diferente, era a cozinha lá, e depois tínhamos quartos, uma sala. Quê que tinha? Eu quando a conheci tinha tudo partido, não podiam ir ao telhado compor as telhas, que caía tudo. Ainda lá estive seis anos, mas quando, até tinha cá na altura a minha mãe, uma irmã, e fugiram de lá porque tinham medo que aquilo caísse tudo. Eu estive lá quinze meses sozinho. O que tive sorte, no ano em que vim, porque só choveu na semana de São João, São João sim, porque, quando saíam as Cavalhadas, e nem saíram nesse dia, porque eu vim em fevereiro, como já disse, 24 de fevereiro, e nunca choveu nesse ano. Foi o que me valeu, porque depois quando começou a chover eu chegava à noite para me deitar e a cama estava cheia de água. Passei por tudo.

 

29:39 [Habitação atual é próxima da igreja] É o que deve ser. Eu tenho muito que fazer na igreja, portanto, preciso de lá ir, vou lá, com frequência, porque fica aqui ao lado. E às vezes até custa lá ir quando está muito frio e a chover. Isto é suficiente para…a igreja tem uma entrada aqui por cima, eu entro por ali, que é mais perto, não vou à volta. Hoje se lá quiserem ir têm de ir ao fundo, acho que a porta do fundo está aberta.

 

30:16 [Espaço da igreja sempre aberto] Esta igreja está sempre aberta, desde as 8 horas da manhã até, agora é até às 8, à noite, e durante todo o ano, porque eu tenho sempre missa às 7h20, 7h30, antes das 8, portanto a igreja está aberta cedo. As pessoas vão muito à igreja, há pessoas que vão lá todos os dias, mais do que uma vez, e há pessoas que vêm de fora, porque, ainda neste domingo, esteve a chover, vieram umas vinte ou trinta pessoas duma freguesia daqui de baixo, de Queirã, não sei se sabe onde é, eu não sei, eu não sei onde é, não, já devia ter sabido, mas não me lembro agora. E vieram cá porque tinham promessas a cumprir a Santa Eufémia, saíram de casa às 5 horas da manhã e às 9h30 já aí estavam, a missa também era às 10.

 

31:31 [Começo da frequência das funções da igreja pelas crianças] Eu…eu tenho crianças que ainda vêm ao colo da mãe e do pai. Eu gosto disso. Porque se se habituam a vir à igreja ao colo da mãe e do pai, amanhã continuam a vir. E se não vêm, têm dificuldade em se habituar a vir. Portanto, elas vêm, são muitas que não vêm, só vêm, vêm à catequese depois quando fazem…quando andam na escola, mais ou menos, e a partir dessa altura vêm mais vezes, não é, mas ainda há dias lhes disse que gostava muito de ver os meninos ao colo dos pais. Às vezes choram, mas isso não quer dizer nada. Faz parte da vida chorar. E o rir também.

 

32:42 [Catequese] Mais ou menos (na altura em que entram para a escola). E entra quase tudo, quase, já há uma ou outra que os pais não trazem, mas quase todas vêm. E temos salas para os seis anos. Se temos a catequese seis anos, também temos catequese para a crisma e…mas agora temos estas salas, temos ali o Centro Paroquial, tem três salas por baixo. Aqui por cima é um salão e nós costumamos dividir o salão. Agora ainda está aberto, mas acho que já o, hoje ou amanhã de manhã, separam, que é para estar um grupo de um lado e outro grupo do outro.

 

33:42 [Catequistas] São as meninas, as senhoras. Também já tive rapazes e outras pessoas que davam, mas a maior parte são senhoras e meninas. Gostam. Gostam de, de lidar com as crianças. E até…até têm bastante habilidade. Algumas aguentam-se mais tempo, outras vêm já com mais…temos aí uma que já é mãe, e nem reside cá, mas vem cá todos os sábados dar a catequese. São, são quase todas de cá (da paróquia de Ranhados), mas isto hoje as paróquias já, os habitantes das paróquias são diferentes, porque residem numa e os que praticam vão para outra, portanto, há pessoas daqui que nunca aqui vêm à missa. Podem ir ao Seminário das Missões, é aqui em cima, não sei se sabe, não é, é na estrada de Mangualde, onde há uma estação de serviço, e o Seminário é ao lado. E outras vão à Sé, outras vão à Igreja Nova, não sei se sabe onde é, outras vão a outras igrejas, portanto… E há pessoas de lá que vêm aqui. Portanto, isto hoje cada qual escolhe a hora, o dia e a missa que gosta mais.

 

35:40 [Mudanças na catequese ao longo dos anos] Ora bem, a doutrina é a mesma, porque há coisas que não mudam. Pode mudar a maneira de ensinar e de fazer catequese, isso vai mudando, não é, completamente ou não completamente. Antigamente, havia uma coisa que hoje às vezes falta, que é a catequese feita pelos pais. Porque é o alicerce da catequese e da vida religiosa. São os pais. Se os pais não vêm, os jovens também não vêm. Ainda no início do mês temos escuteiros, se vejo pais que vêm cá trazer os meninos e as meninas para as reuniões e para os escuteiros e vão para casa, só cá vêm à 1h busca-los, isso, claro, isso é a negação de tudo. Eu ainda há dias lhes disse que estes jovens, pois se os pais não vêm, falta-lhes o alicerce da vida religiosa. E uma coisa sem alicerce desmorona-se, não é? Esta casa ainda não caiu porque aqui o alicerce é duro, está seguro, mas se fosse de areia, já tinha desabado muita vez, com o vento que às vezes vem.

 

37:25 [Sínodo da família] É indispensável (a vivência da fé com a família). É essencial para a fé. Por isso, ainda está a decorrer o Sínodo da Família e já é o segundo, o ano passado foi a primeira parte, este ano está a acabar a segunda parte, acaba no domingo, desde o dia 4, ou do 5 de outubro. Estão lá centenas de padres e bispos no Sínodo a estudar as situações das famílias.

 

38:17 [Permanência dos jovens na Igreja] Eu tenho uma catequista que este ano foi para o Porto, anda a frequentar um curso superior, e vem cá todos os fins de semana e vem dar catequese, continua a dar catequese. Outros não vêm. Podem ir a outro lado, a gente, nunca se sabe quem vem e quem não vem, sabe, antigamente era quem víamos na igreja, porque não costumavam ir a outro lado. Hoje escolhem um lugar, portanto, nós nunca sabemos quem vai ou quem não vai.

 

39:15 [Diferenças nos fiéis de antigamente e nos fiéis de agora] Antigamente, era mais costume. Iam porque era costume ir. Hoje os que vêm estão mais convencidos, já não têm ambiente, o ambiente mudou, porque antigamente havia aqueles hábitos, aquele costume, e ia tudo para ali. Hoje vai cada um para seu lado, já não têm esses hábitos, mas aqueles que vão, vão.

39:52 Que é? 10h30, está bem. Isto é demorado. Ainda não está certo? Ainda não respondi a tudo? Eu…eu costumo ter paciência. Antigamente podia mais, mas ainda estou bem-disposto, porque às vezes tenho de deixar imediatamente. Porque…eu nunca fui daqueles que se agarram aos livros e estão toda a noite, todo o dia, não. Nem mesmo no tempo de estudo, eu ao fim de um bocado ia dar uma volta para distrair. Gosto de trabalhar, mas a seguir ao trabalho quero tomar ar e fazer outra coisa.

 

41:15 [Ladainhas] Havia as ladainhas que estavam preceituadas e aqui também havia. Eu já não encontrei, não sei se encontrei alguma, já não existiam quando vim para aqui, e já cá estou vai quarenta e dois anos. Elas ainda existem à mesma, só que é, não se costumam fazer. Olhe, existe a Ladainha da Nossa Senhora, existe a Ladainha do Coração de Jesus, existe a Ladainha de Todos os Santos, existe a Ladainha…que eram aquelas preceituadas, eram três dias as ladainhas, que era o Dia de Todos os Santos. As ladainhas estão nos livros ainda. Nos livros modernos já não estão, nos outros livros estão.

 

42:52 [Oração] Isso qualquer pessoa tem os seus hábitos, não é, e às vezes havia o costume de se dizer que algumas pessoas só rezam quando troveja, não é, nessa altura até costumavam rezar uma ladainha, uma ladainha não, um hino em latim, chamam-no a ‘Magnicia’, não é nada com ‘Magnicia’, é Magnificat, que é latim, que é o cântico que Nossa Senhora entoou quando foi visitar a prima Santa Isabel e que nós neste dia rezamos todos os dias às Vésperas. São quatro livros por ano. Têm mais de duas mil páginas os três, os do advento, quer dizer, só do advento e do Natal é mais pequenino, é só um mês e meio, mais ou menos. É o livro da oração que nós temos, que ainda tem o Ofício da Leitura, antigamente chamava-se Matinas, Matinas quer dizer de manhã. Tem as Laudes, que é a oração da manhã, tem a Intermédia, antigamente eram três, era a Terça, a Sexta e a Noa, e tem as Vésperas à tarde, e tem antes de ir dormir as Completas. Isso faz parte da oração. Os padres, as freiras, e já há leigos que também já fazem isso, sobretudo, e há livros para isso, esses livros trazem só as Laudes, a oração da manhã, até ao meio-dia, e as Vésperas, costuma trazer essas duas partes, que as pessoas, os leigos, que gostam de usar também.

 

45:20 [Homilias] Ora bem, não é fácil fazer isto. Está a ver isto aqui? Eu tenho aqui as homilias todas que fiz aqui nestes quarenta e dois anos. Eu escrevo-as sempre. Às vezes escrevo-as duas e três vezes. Esta (homilia) é a terceira vez que escrevo, para domingo. Falta metade. E procuro deixar um pensamento cada dia, porque eu, no meu último ano de seminário pelo Natal fui à missa, e o padre que celebrou a missa demorou a falar 45 minutos. E nós estávamos molhados, porque estava a chover, estávamos todos de pé, que não havia bancos nas igrejas, e demorou 45 minutos. Eu disse cá para mim ‘Bom, eu nunca vou fazer uma coisa destas’, portanto, agora, tenho aí até um doutor em Teologia, veio há pouco, há poucos anos da Universidade Católica, Lisboa, que está aí a viver e é professor de religião nas escolas, e disse que nunca ouvia homilias como eu as faço. Digo sempre qualquer coisa, mas não demoro, como regra, não demoro mais que 4, 5 minutos, porque eu sei bem o que me acontece a mim, quando é uma coisa grande ponho-a de lado, isso era antigamente, se recebesse uma carta grande punha-a de lado, às vezes nunca mais a lia, que é uma coisa pequenina a gente vai logo ver. E quando se fala muito, quando ouço falar muito, eu tenho uma memória auditiva muito fraca, portanto, eu não dava para jornalista, porque não consigo apanhar o que as pessoas dizem. Pra mim a minha memória é visual. Se ler fica cá, quase sempre. É por isso que eu, eu escrevo isto, estudo, e às vezes quando lá chego para a fazer, já vai de outra maneira. Porque me recordo que há uma forma diferente de anunciar a mesma verdade que se lhes diz. Não sei se gostam, se não gostam, mas eu, pelo menos, demorar 8 minutos deve ser muito raro, só num caso especial, de resto 4, 5 minutos, às vezes até 2 minutos chega para dizer tudo.

 

48:48 [Homilia que está neste momento a preparar] No próximo domingo há uma resposta, que não é toda que aqui vem, ‘Grandes maravilhas fez por nós o Senhor’. A seguir à primeira leitura há um salmo na missa e as pessoas repetem o refrão, portanto o refrão é este, vem lá outro, pode ser o outro, o refrão é este: ‘Grandes maravilhas fez por nós o Senhor’, e então eu lembro, na primeira leitura é o povo hebreu que deixa o desterro de Babilónia e regressa à terra, é uma alegria, não é, é o, a segunda leitura da Carta aos Hebreus, em que nos aparece Jesus, que tem a nossa vida, caminha connosco, nós não vamos sós, Ele caminha connosco, Ele viveu a nossa vida, e o Evangelho também é uma coisa alegre, um homem que perdeu a visão e ouviu dizer que ia Jesus a passar, chamou-o e Jesus parou, perguntou-lhe ‘O que é que queres? Quero ver’ e pronto, ‘Então a tua fé te salvou, ficas a ver’ e ele acompanhou depois Jesus. O princípio é isto, portanto, são boas notícias, não são? E depois vou terminar, mas ainda não está, já está ali neste caderno, está aqui, estão aqui as homilias deste ano, está quase no fim, e estas é que uma vez, escrevo-as uma vez, depois duas vezes, depois três vezes, e chego lá e ainda sai de outra maneira. Procuro descobrir maneira de comunicar aquilo às pessoas, porque a maior parte das pessoas não entendem o que ouvem, não é fácil, para mim não foi fácil, para os meus colegas também não, estudar em latim e grego e hebraico e depois ir falar ao povo. Temos de falar em português, em português correto. Eu comecei a dar catequese às crianças de caminho e, portanto, habituei-me a compreender o que as crianças compreendiam, e é o que as pessoas adultas compreendia, a maior parte das pessoas, não sabem mais, portanto, não vale a pena falar de certa maneira, porque as pessoas não entendem nada. Eu uma vez, não estava aqui ainda, o Senhor Bispo escreveu uma carta para nós lermos, depois o professor da escola primária disse ‘Opá..escreveram uma carta, eu não percebi nada’ e eu disse ‘Eu também não’, eu não li a carta, eu estudei a carta, e disse ‘Tenho aqui uma carta do Senhor Bispo pra vos ler. Eu não vou lê-la, porque custou-me muito a entender, mas ele diz isto e isto’, pronto, era assim, era assim que eu fazia, porque não valia a pena estar a ler uma coisa que ninguém percebia nada, portanto, costumo fazer assim.[/hide]