Entrevista a Jorge Figueiredo em Silgueiros, a 23 de Setembro de 2015
Entrevista de Manuela Barile
Registo e Edição Audiovisual de Nely Ferreira
Transcrição de Susana Rocha

Jorge Figueiredo é um produtor de vinho do Dão e relata toda a sua experiência nesta prática agrícola. Fala das diferentes fases da uva, desde a videira até ao lagar.

[hide for=”!logged”] 00:10 [Apresentação] Jorge Manuel Ferreira Figueiredo. (Nasci em) Pindelo, de Silgueiros. (Em) 1971.

 

00:22 [Apresentação] Esta vinha foi comprada pelos meus pais em 1970. Sofreu, na altura, uma, parte dela, sofreu uma reconversão. E está neste momento também em fase de reconversão, estou a arrancar tudo aquilo que não está de acordo com as castas da Região do Dão, para voltar a, para ter, produzir apenas castas novas.

 

00:51 [Castas que produz] Touriga Nacional, principalmente. Tinta Roriz, Alfrocheiro e Tinta Pinheiro e Jaen, nas castas tintas. Nas castas brancas principalmente Malvasia Fina e Encruzado. Sim, é, são castas obrigatórias da zona do Dão, todas as outras vinhas onde existem outro tipo de castas foram plantadas antes de 1990, mas as pessoas estão a arrancar e a reconverter.

 

01:27 [Como começou a trabalhar na vinha] Não (nem sempre trabalhei aqui nesta vinha), eu sou professor, de formação, estive, inclusive, na Alemanha, a coordenar o ensino português no estrangeiro, e apenas há três anos me dedico à produção de uvas e tenciono futuramente dedicar-me à produção de vinho também. Já era tradição na família, esta aqui, este local aqui onde estamos era do meu pai, a minha mulher possui uma outra exploração maior que esta, e como já era tradição de família teria que de alguma forma dar seguimento a isto e então decidi dedicar-me a tempo inteiro. Sim, (estou a gostar) bastante, bastante, bastante.

 

02:12 [Fases do trabalho na vinha] A primeira fase é sempre a poda. Depois depende do sistema de condução da própria vinha, nesta aqui, como o sistema é, e utilizo o sistema de Poda Royat, não tenho o que chamam tradicionalmente de empa, que é atar a vara ao arame, não é necessário. Onde podam com a poda tradicional, que já, que se utilizou aqui desde os anos 50, desde que eu saiba, que é a Poda Guyot, aí aplica-se a empa. Logo de seguida, começa-se então a aplicar a matéria orgânica onde há necessidade, os adubos. E depois começam as pulverizações e por altura de maio começam-se a cortar as folhas, peço desculpa, a tirar as folhas e a cortar as varas para se poder passar com as máquinas, até que depois culminamos com a fase da vindima nesta altura.

 

03:08 [Enxertia] A enxertia é quando se plantam videiras novas, videiras novas não, quando se plantam plantas novas, hoje em dia é uma prática, está a sair do uso. Planta-se, derivado a uma doença que houve no início do século, foi a filoxera, começou-se a plantar o porta-enxertos, o que aqui toda a gente chama de bacelo, que não produz, que depois tem que ser enxertado com a espécie que nós queremos, a determinada casta, ou Jaen, o Tourigo, após a enxertia é que ela começa a produzir a casta que queremos. Hoje já se utiliza muito, muito pouco, porque já se compra a planta enxertada com a casta que nós queremos. O tratamento é diferente, á um acompanhamento diferente, também, da planta, mas é mais prático.

 

04:01 [Mudanças no trabalho na vinha ao longo dos tempos] As vinhas tradicionalmente não tinham estas larguras, antigamente, tinham 1 metro e 10 (cm) e, portanto, não podiam, não se podia trabalhar bem a vinha. Na poda fazia-se o mesmo, não havia arame, a poda era feita, após a poda a empa era atada em paus que se cortavam nas matas, para poder segurar as videiras. Depois fazia-se a chamada cava da vinha, que vinham os homens com enxadas cavar para remover o solo, para poder haver penetração de água. Não se cortavam pontas, por exemplo, que não havia necessidade, uma vez que não se trabalhava com as máquinas. Fazia-se era uma desfolha da videira, também de modo muito diferente, hoje fazemos intensamente mais próximo à vindima, na altura começava-se e fazia-se duas ou três vezes, mas retirando apenas alguma folha.

 

04:04 Isto numa fase muito anterior, quando depois as vinhas dos 70 começaram a ter estas dimensões, começaram a ser trabalhadas com máquinas, o modo de trabalho teve forçosamente que mudar. Deixou-se de fazer a cava e passou-se a fresar as terras com as fresas, isso hoje é totalmente desaconselhado e já quase ninguém faz, pelo menos a nova geração de agricultores, como vê aí, as minhas são fresadas, promovo, inclusive, um enrelvamento da vinha, para que a erosão não afete tanto o solo. Basicamente, foi isto que mudou, depois durante a vindima o sistema de tirar as uvas da, que era muito, muito cansativo e um trabalho muito difícil mesmo, porque era feito numas gamelas de madeira, em que o peso chegava a ultrapassar os 60 quilos, e tinham, as mulheres tinham que o trazer todo à cabeça. Hoje não, hoje, como verificaram, é com o trator, nestes poceiros, mas também já não é isto que os usam hoje, hoje, para que a uva tenha melhor qualidade, já se utiliza o sistema de caixas. Eu é que estou a aproveitar ainda o material que me deixaram, futuramente também tenciono mudar para o sistema de caixa. Basicamente, o que mudou foi isto, e nas pulverizações os produtos também são diferentes, não são tão nocivos à agricultura. Sim, (a vindima é mais fácil do que antigamente).

 

06:21 [Memórias da vindima na infância] Sim, sim, eu lembro-me em miúdo, com 10 anos, vindimarmos a chover, com essas ditas gamelas, que era um peso brutal. Não se levavam as uvas nos tratores, eram em carros de bois, com umas dornas em madeira que só transportavam metade do peso. Na Adega Cooperativa, a receção demorava duas, três horas, para se conseguir despejar. Era um trabalho muito, muito pesado, na altura, mesmo. Muito pesado. Não (as pessoas não se queixavam), a gente aqui da agricultura sempre esteve habituada ao trabalho árduo, hoje é que fomos sempre simplificando, mas as pessoas aqui, de idade, que vêm ajudar à vindima, que já só vêm mesmo por gosto, dizem que hoje que sito é uma brincadeira, comparado com o trabalho de outros tempos, apesar que a minha geração, continuamos a considerar um trabalho muito pesado.

 

 

07:24 [Cantos durante a vindima] Sim, durante a manhã normalmente não, durante a manhã mais…as pessoas conversam mais um pouco, mas à medida que depois o cansaço vai afetando, a maneira que arranjam de se incentivarem a elas próprias é precisamente através do canto, e cantam normalmente as músicas tradicionais aqui da zona. Há, inclusive, até aqui também um rancho folclórico, cantam as músicas todas do rancho folclórico, que era isso que andavam a cantar há pouco.

 

07:57 [Relação da família com o trabalho na vinha] Sim, ambos os meus pais nasceram cá (nesta aldeia). Não, não (viviam da vinha), o meu pai era padeiro de profissão, exerceu a profissão em Portugal até 1970. Depois emigrou, como adquiriu esta vinha, mas regressou a Portugal nos anos 80. Na altura abrimos um restaurante, dedicámo-nos à hotelaria até 2005 e quando eu comecei a dar aulas, então fechámos o restaurante, o meu pai, já numa fase mais por desporto, começou a tratar das vinhas. E, portanto, agora fui, agora chegou a minha vez de pegar nelas. Sim, era algo que eu já tinha, que já tinha, fazia tenção de fazer, não tão cedo, mas já era um objetivo, após, durante a minha formação inicial fui sempre fazendo paralelamente formação na área da vinha e do vinho, pensando sempre na possibilidade de um dia me dedicar por inteiro à vinha e ao vinho.

 

09:10 [Doenças da vinha] Sim. Sim, as doenças tradicionais da vinha são fungos, normalmente o míldio e o oídio, isso são as doenças que sempre houve, e que existem diversos tratamentos, está tudo controlado. Hoje em dia começamos a ter outros problemas, normalmente, com a aranha, com a cicadela, portanto, hoje em dia temos que variar os tratamentos aplicando inseticidas, acaricidas, os fungicidas, e a última grande peste, por assim dizer, que afetou as nossas vinhas foi algo que já é conhecido no mundo há algum tempo, mas que só chegou aqui ao Dão há três anos, que é o Black Rot, normalmente toda a gente o conhece pela denominação inglesa, mas basicamente é uma podridão muito intensa, que acaba por fazer com que se perca mais de metade da produção. Isto diretamente na uva. Recentemente, também começou a aparecer um outro fenómeno aqui, que é a Esca, que aí já é uma doença da própria videira, que acaba por matar a videira em muito pouco tempo. Aquilo que afeta a nossa zona basicamente são estas, de resto não temos assim mais nada.

 

10:29 [Trabalhadores presentes nas diferentes fases do trabalho na vinha] Não (a vinha não tem sempre muitos trabalhadores), esta vinha, portanto, que aqui veem são, aqui temos 3,1 hectares de vinha, sou eu e a minha mulher que fazemos o trabalho todo. Na outra quinta que temos, na outra quinta que temos, aí temos mais um bocadinho de vinha, são 4 hectares e meio, aí são três pessoas diárias e depois, quando tenho necessidade, contrato mais alguma mão de obra, mas nada de extravagante, diria que mais um homem por semana um dia apenas, aquele trabalho espontâneo. Depois na fase da vindima não, na fase da vindima, aí sim, trago, em média, somos quinze a vinte e cinco pessoas por dia, durante cerca de duas semanas para conseguir vindimar tudo.

11:17 Toda a gente que anda nas minhas propriedades é de cá. Parte da mão de obra é contratada por mim, a pagar, mas depois aquelas pessoas amigas também vêm ajudar à vindima, hoje, por exemplo, metade das pessoas que aqui andam vieram de livre espontânea vontade, à hora que querem, à hora que lhes apetece, para ajudarem a fazer, sem…e depois, é óbvio, eu também faço o mesmo quando é a vindima deles, há uma partilha.

 

11:52 [Influência das condições atmosféricas nas diferentes fases do trabalho da vinha] Nas diversas fases contam muito (as condições atmosféricas). Se tivermos um inverno chuvoso faz com que a rebentação da videira seja melhor e a própria rebentação, faz com que possamos ter uma maior rebentação. Depois, ao longo de todo o ciclo, se a temperatura for amena e se não chover muito, dá-nos um crescimento gradual da uva, o que faz com que a qualidade aumente. Depois, se normalmente chove um mês antes da vindima, a mesma coisa, vai beneficiar ainda mais a qualidade da uva, quando chove na altura da vindima, como foi este ano, que tivemos aqueles dois dias de chuva intensa, aí já começa a ser prejudicial, principalmente quando ultrapassa os 40 litros por metro quadrado. Ora, nós tivemos em dois dias 90 litros por metro quadrado, faz logo diretamente a implicação direta que o grau, o teor alcoólico vá baixar e depois, quando vem o tempo bom, a salubridade da uva também começa a perder, começa a apodrecer, o que faz depois com que aumente também a acidez da própria uva, perca, o caso do tinto, perde taninos, que são a cor, e a vinificação torna-se mais difícil.

 

13:20 [Uvas seguem para Adega Cooperativa de Silgueiros] A uva? A uva da vindima vai ser agora, nós aqui pessoalmente entregamos na Adega Cooperativa de Silgueiros. A Adega Cooperativa de Silgueiros é que faz todo o processo de vinificação. A uva tinta é tratada de maneira diferente da uva branca, porque a uva branca é macerada e o vinho branco sai logo de imediato, e é fermentado só posteriormente, ao fim de vinte e quatro horas, enquanto que a uva tinta tem que ser macerada, passa por um processo de fermentação mais lento, em que a temperatura tem que ser muito controlada, normalmente à volta dos 25 graus é sempre o ideal, para que se consiga fazer um bom vinho. A uva é tratada apenas, o que sobra depois, os restos, é que vão servir para fazer as aguardentes também.

 

14:15 [Lagar] As pessoas, quando não existia a adega, toda a gente fazia o seu vinho em casa, vinificado pela moda tradicional, quase toda a gente na aldeia tem o seu lagar, pequeno ou grande, consoante as necessidades que tinham, consumiam o seu próprio vinho e o excedente era sempre vendido através de contatos, mas sempre em pequenas quantidades, e não havia esta quantidade grande de vinhas que há hoje.

 

14:39 [Propriedade da vinha] O caso daqui desta quinta e da da minha mulher, foram vendidas nos anos 70, havia só três produtores de vinho aqui na aldeia, cada um com quantidades muito, muito grandes, nos anos 70 os filhos saíram daqui e foram para Lisboa e começaram a vender as propriedades. Nessa altura, os emigrantes que já tinham um bocadinho de poder de compra começaram a comprar, não as quintas na sua totalidade, mas começar aos poucos, esta aqui concretamente foi comprada a meias com uma outra pessoa, que é a parte do lado de lá, mas que não se dedicou à vinha. A da minha mulher foi comprada também a meias, mas posteriormente adquirida na totalidade, e toda a gente foi fazendo isso, por isso é que hoje temos produtores de média dimensão, com 3, 4, 5 hectares aqui na zona, porque antigamente toda a gente tinha os seus dois, três mil metros apenas de vinha.

 

15:41 [Pisa do vinho] Os homens, os homens, o trabalho do lagar e o trabalho da vinificação foi sempre um trabalho do homem, um bocadinho também por causa das superstições, por causa das, com as mulheres, mas também porque era a tradição, o vinho, o homem é que bebia, que bebia o vinho, e, portanto, era o homem que o vinificava e fazia todo o trabalho do lagar. A mulher ficava mais encarregue da própria vindima e de tratar das refeições, pronto, mas isso tem a ver com a cultura do próprio país também.

 

16:17 [Superstições] Não (se usavam amuletos), dizia-se muito que a mulher, por causa de ser diferente, por causa do ciclo menstrual da mulher, que não convinha ela aproximar-se do lagar, porque isso iria fazer com que o vinho azedasse todo, o termo utilizado na altura é o azedar, que era aumentava a acidez e depois ele perderia toda a qualidade. Então nunca era permitido à mulher andar a pisar o vinho. Hoje não, hoje essas superstições desapareceram, sabemos que nada disso é realidade, e hoje a mulher já vai pisar o vinho para o lagar e já ajuda a vinificar. Aliás, hoje tende-se a dizer que a mulher consegue ser melhor enóloga que o homem.

 

17:11 [Influência das fases da lua no trabalho da vinha] Não, aqui na nossa zona não, esse tipo de superstições nunca houve, o que há muito ainda é, hoje também começa a estar muito em voga, aliás hoje surgiu um termo para isso, que é o ‘biodinâmico’, as pessoas aqui sempre tiveram superstições com as fases das luas, principalmente, e então há determinados serviços que eles só faziam estando de acordo com aquela fase da lua. A utilização de matéria orgânica na terra era feita numa época própria. Hoje em dia a maioria, isto perdeu-se, esta tradição perdeu-se, mas tem-se vindo a verificar, com novos estudos, que efetivamente valia a pena mantermos, aliás, é isso que eu tento fazer aqui neste momento, optei por aquilo que hoje se chama a produção integrada, quando faço aplicações de produtos fitofármacos nas pulverizações menos nocivos ao planeta, por assim dizer, e à Terra, já, aqui nesta vinha concretamente, já há dez anos que assim procedemos. E agora eu dei o passo a seguir, que é, faço alguns desses tratamentos tendo em conta as fases da lua e as crenças antigas que sabemos que efetivamente resultam, a fim de evitar a utilização de herbicidas, por exemplo, algumas ervas que cortadas na época certa nunca mais voltam a crescer e, portanto, não há necessidade de estarmos a poluir o solo com herbicidas.

 

18:47 [Trabalho dos jovens na vinha] Essa pergunta é difícil. A nossa juventude aqui na aldeia emigrou toda. E quando me refiro a juventude refiro a, à faixa etária dos 20 em diante, nos últimos anos desapareceu toda a gente derivado à crise aqui, aqui em Portugal, e emigrou tudo. As pessoas, temos aqui um fosso entre os dos 20 anos para baixo e dos 40 para cima, na aldeia. Os, aquilo que eu chamo de miúdos, mas que não são, são adolescentes, como é óbvio, entre os 15 e os 20 anos têm todo o gosto em vir ajudar na vindima, se em período de férias, como aconteceu este ano, andaram a ajudar aqui, a ajudar ali, a ganhar algum dinheiro extra também para as suas próprias despesas, e gostam bastante disso, pelo menos é essa a impressão que eu tenho. Agora, é como digo, a outra faixa etária desapareceu toda e não, não…aos poucos, que eu cheguei, regressei há três anos e há três anos já não encontrei ninguém, não posso responder concretamente por…

19:50 Sim, sim, sim. Sim, antigamente toda a gente, mesmo aquelas pessoas com 20, 30 anos que trabalhavam na cidade, estavam empregados na cidade, guardavam sempre os quinze dias que podiam marcar de férias para a época da vindima, para virem ajudar as pessoas amigas, ou para virem ganhar algum dinheiro extra também, toda a gente fazia isso e aqueles que ainda

 

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