O pai de Maria Celeste Verónico era moleiro e a mãe, uma “mulher de pulso”, vendia peixe. Por isso, em sua casa, em Paraduça, na freguesia de Calde, “não havia fome”. “Quando não houvesse para cozer a broa, fazíamos o caldo da farinha; quando não houvesse para caldo de farinha, bola na telha. E era bem boa”, recorda, acrescentando que, quando se cozia o pão, a mãe usava logo o primeiro pedaço de massa para fazer uma bola na sertã, com um pouco de azeite.

Ainda assim, as dificuldades eram muitas e todos tinham de ajudar na economia de casa. Antes de entrar na escola primária, Maria Celeste já participava nas tarefas: ia dar uma volta com o rebanho das ovelhas; acompanhava o pai ao moinho, no rio Vouga; ou ia, descalça, vender peixe pelas aldeias.

“Éramos pobres, mas a minha mãe nunca me deixou ir suja para a escola”, conta, explicando que, quando as peças rompiam, os remendos iam sobrepondo-se. Por outro lado, a roupa secava-se no fogão de lenha e era passada com o ferro de brasas.

Quando deixou os estudos, aos 10 anos, foi trabalhar para a resina e tinha de acartar uma lata maior do que a sua altura. Ali permaneceu uma década, em jornas que duravam de sol a sol. Noutros dias, ia sachar milho para Ribafeita, onde recebia cinco escudos, que usava para comprar um chapéu de palha; ou ia passar areia, à cabeça, na Levada dos “Espanhóis. “Quando a areia estava muito longe, fazíamos um quarto. Eram 12 escudos e 500. Quando fazíamos meio metro, eram 25 escudos. E quando a areia já estava mais perto, a gente fazia 50 escudos. Era muito dinheiro. E vínhamos a pé, cantávamos, bailávamos. Não havia tristeza”, garante. Como costuma dizer, “naquele tempo, a fome era música”.

A família tinha um rebanho com doze ovelhas e cinco cabras, cujo leite era aproveitado para criar leitões, sendo, mais tarde, a carne preservada na salgadeira ou transformada em torresmos, que se guardavam no unto em caçoila de barro. A mãe fiava a lã para as meias, para que os filhos não tivessem frio e, outras vezes, vendia para ter “algum tostão”. Também Maria Celeste aprendeu a tecer para ter mais roupa na cama.

Desde tenra idade, quando acompanhava o pai ao moinho, habituou-se a ouvir o pisão “a tocar”: “pum pum, pum pum”.

De vários lugares das freguesias de Calde e de Côta e também de Moledo, Coura, Aguadalte e Casais chegavam os clientes, com as teias de burel à cabeça. Quando eram pessoas de mais idade, às vezes deixavam a mercadoria em Calde e o responsável ia lá, com o burro, e trazia a carga.

Alimentado pela água que saía dos moinhos e seguia pelas caleiras, o pisão tinha “uns pesos que iam bater no burel”, para ganhar corpo, depois de tecido no tear. Maria Celeste Verónico recorda-se de que ia de propósito, com a irmã mais velha, para espreitar e ver funcionar o engenho, que às vezes trabalhava de dia e de noite, para dar resposta aos pedidos. Pelo caminho, encontravam sempre uma e outra pessoa. De modo a distinguir os seus proprietários, as peças eram marcadas com riscos feitos por um tição e, posteriormente, o tecido era transformado em calças, casacos, boinas e capuchas.

O pisão, nota, era o cofre da família, lamentando que hoje já não funcione, pois “faz muita falta na povoação”.

Apesar das dificuldades, Maria Celeste conta que gostou muito da sua infância. Aos 17 anos ganhou os primeiros sapatos e, uma década mais tarde, emigrou para a Alemanha, com a saudade de deixar o pai, a mãe e os irmãos sempre presente.