Entrevista a Ilda Lourenço realizada no dia 23 de Fevereiro de 2015
Entrevista de Luís Costa
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Edição Audiovisual de Luís Costa
Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Agradecimentos ao Centro Social Nossa Senhora das Neves, Gumiei (Ribafeita)
Ilda Lourenço relata a sua história de vida. Como eram os trabalhos das mulheres em casa, as várias tarefas que faziam, a ligação com a religião e do seu casamento.
01:01 [Nascimento] (Os meus pais) contaram nada (do meu nascimento), oh, coitados, viviam do trabalho das terras. E nós continuámos a trabalhar com eles, foi o que nos eles ensinavam, era trabalhar com uma enxada nas mãos e…a fazer todo o serviço, cortar estrumes e tratar dos animais, cortar ervas e tratar dos animais. A parteira foi uma senhora que vivia no Casal. Chamavam essa senhora e essa senhora é que atendia. Ela chamava-se Neves. Ela chamava-se Neves.
01:56 [Batismo] A minha mãe batizava-nos sempre, aí uns 15 dias o mais tardar, mas cedo sempre que nos batizava. Coitadinhos, pois víamos lá aquele meio, do meio deles, não é, era quando…Quem é que escolheu (o meu nome)? Foram eles, os meus pais. Os meus padrinhos foram, foi uma tia, uma irmã do meu pai, e uma tia da minha mãe, um tio, um tio da minha mãe.
02:51 [Casa dos pais] Uma casinha antiga, uma casinha velha, coitados, e apertados, umas casinhas pequenas. Agora são casas grandes, mas naquele tempo eram pequeninas, eram casas pequenas. Era de pedra, era. Vivia, tínhamos um quarto só e, está claro, os meus pais tinham um quarto separado e os outros era dos filhos. Estava cheio, uns às vezes dormiam aos pés, outros à cabeça. Uns para os pés, outros para a cabeça. Dormíamos às vezes 4 numa cama. No tempo antigo era assim, agora…ah não, não (havia luz), a luz já veio, ai credo, era a petróleo, a petróleo e outras vezes era uma pinha em cima da lareira a alumiar, acesa, era o que se vivia daquilo, era a nossa luz. Tínhamos a cozinha e a lareira, era a lareira, onde se cozinhava. Aonde cozinhavam.
04:24 Comecei a ajudar, só quando a gente já entendia alguma coisinha é que íamos, ou lavar a loiça, ou arranjar coisinhas para por aos animais, e ensinavam-nos assim a fazer aqueles trabalhos. Era a mais velha, tinha que fazer aqueles trabalhos. E depois eles, coitados, iam por aí a fora, quando já, deixavam-nos em casa, deixavam-me em casa mais os mais novos. Já me lá, estávamos à espera que eles chegassem à noite. Às vezes quando chegavam já estávamos a dormir, encostados. É verdade, era assim.
05:29 [Os pais] Ai sim, sim, sim. Eram pessoas de religião. Educaram os filhos sempre em educação de religião todos. Graças a Deus, foram uns pais em condições nisso. Davam-nos, dava, eles, coitados, para alimentar os filhos, até compravam umas garrafas de óleo, naquele tempo, óleo de fígado de bacalhau, e lá vão os filhos, aquilo para alimento, para fortalecerem, era aquilo que nos davam, coitados, aquilo que podiam, mas sabe Deus. Trabalhavam na agricultura. O meu pai e a minha mãe não tinham arte nenhuma, nada, trabalhavam na agricultura. Sim, senhor. Tudo. Vivíamos daquilo. Então não gostava (deles)? Gostava, gostava dos meus pais. E os meus pais também gostavam dos filhos, também eram amigos dos filhos. Educavam, era conforme os educavam, era assim, coitados a trabalho na regra. Ai, nas regras, a mais nunca nos deixaram andar à liberdade. Nós tínhamos que andar na lei, senão…senão apanhávamos. O meu pai era Avelino, é ‘pai’, ‘pai’, ‘pai, ‘pai’, nunca tratávamos senão pai isto, pai aquilo. ´O pai faça isto, ó pai posso fazer isto’, era só assim. Era Avelino (e) Maria das Dores.
08:00 Olhe não sei, não sei se foi (à guerra), se não foi, não sei. Sei que ele foi tropa, agora se foi lá fora não sei.
08:21 [Trabalho dos pais nas terras, à renda] Cultivavam milho e batata, feijão, centeio, cevada, eles fabricavam de tudo. Ai, à renda. À renda, que eles pouco tinham, não é. Eles trabalhavam terras à renda. Tinham que pagar. Tinham que pagar os salários aos donos para colherem alguma coisa para eles. Trabalhava-se à renda. Tinha que se dar aquela, tantos alqueires, ou tantas medidas, ao fim do ano.
09:07 Tinham juntas de vacas. Tinha que ter, tinha que trabalhar muita largueza para sustentar os animais, as vacas, ovelhas e os animais de casa, com licença, porcos e os animais de casa.
09:33 [Catequese] Era na igreja. E era uma mulherzinha velhinha que vivia aqui em cima, muito velhinha, mas ensinava-nos, era a catequese que ensinava-nos lá. Na igreja, na matriz. Sim, senhor. Íamos, éramos garotos e íamos, era uma ceita. Depois ficavam lá, as estavam de volta de nós. Era a doutrina, Pai-nosso e os Atos e assim. Agora é tudo por letras e tudo coisa, agora. Era tudo (a decorar). Agora nem sabem nada do que a gente sabia no tempo. Nem eu também já sei nada.
10:33 [Santos a que tinham devoção] Era, era. Era de todos coitados, eles era tudo, a Senhora das Neves, que é a padroeira, e o Santo António, coitados, eles eram devotos de todos. Tudo, tudo, tudo. Nunca faltavam nem deixavam faltar um filho à missa. O filho tinha que ir na frente dele para a missa. Ai daquele que lá não fosse. Eles lá para isso eram, olhe, agora não fazem caso, mas naquele tempo.
11:17 O Santo António. Santo António, Senhora do Carmo, Santa Marta, Santa Bárbara, são esses que tem cá na povoação. Olhe eu gostava delas todas, gostava delas todas. Cada uma tem o seu andor, sua bandeira. Antigamente eram uns guiões grandes, agora não, são umas bandeiras pequenas. Mas antigamente eram aqueles guiões grandes. Coitadinha de mim, não, mas chamavam pessoas de mais categoria (para enfeitar os andores), pessoas que já soubessem aprumar aquilo, não é.
12:22 [Ladainhas] Ladainhas, era, corriam as capelas todas. Agora não, agora nada fazem. Diz que era por causa dos terrenos, de bichos que apareciam nos terrenos, faziam aquelas coisas, para pedir para votos da natureza. Ai, corriam as capelas todas na freguesia. Eram as capelas todas da freguesia. Eram 2 dias, era 1 dia para a parte de baixo, outro dia para a parte de cima. Pois, era, sempre sempre ‘ora pro nobis’, sim senhor. Era (lanternas) e a cruz. Pois, e o padre é que acompanhava.
13:33 [Padre Moura] Foi, um senhor que pertencia ali em baixo, era o, ele era de Cotães, acho que era de Cotães, era de Cotães. Esteve aqui 20 e tal anos. Isso era um padre, mas um padre. Ai gostavam, olhe os meus pais, ele já tinha uma confiança coma gente, que entrava por a casa dentro e ia comer o que lá estivesse e tudo, chegava ali ao pé da minha mãe ‘Ó Sra. Dores, eu venho de tal festa, venho quase em jejum’, lá a minha mãe ia-lhe lá dar comer. Ai era uma pessoa…Era como se fosse de família aquele padre. O Padre Moura. Padre Moura. Ele chamava. Ele chamava as crianças, aquele chamava, agora não querem saber, mas aquele chamava a juventude, gostavam muito dele. Foi-se embora, pronto, coitadinho, já foi, já morreu.
15:01 [Rezas a Santa Bárbara nas trovoadas] Ai Jesus tínhamos muito medo. Nós tínhamos muito medo. E depois a minha mãe, coitadinha, tinha os ramos, e depois ia acamar aqueles ramos de, que eram benzidos, por exemplo, um tojo de 8 dias, ia queimá-los para abrandar a trovoada, tínhamos muito medo da trovoada. A Santa Bárbara. ‘Santa Bárbara nos livre dos trovões’, era assim. Queimavam para acalmar a trovoada, era assim. Era assim a fé deles.
15:52 [Trabalho desde cedo não deixa ir à escola] Nunca tive escola. Nunca tive escola, nunca lá fui porque os meus pais nunca me deixaram ir, queriam que eu fosse com as ovelhas, tratar de, e nunca me deixaram ir à escola. É assim. Conheço alguns números, conheço. Mas ler não sei. Tinham muito trabalho, pois era, mas, coitados, o que eles queriam era arranjar pão para os filhos comerem, depois punham a gente a…Eu, por exemplo, punham.me a guardar as ovelhas, até às vezes me levavam de comer ao monte para eu lá andar com elas.
16:44 [Brincadeiras de infância] Brincava? Com quem? Com os meus irmãos em casa. Olhe, às vezes de pancada, às vezes batíamos uns aos outros. Não senhora, não, não (havia brinquedos). Os brinquedos, umas bonecas de papelão que nos davam. A minha madrinha vinha cá de ano a ano de Lisboa e trazia-me uma boneca e eu com aquela boneca uma ocasião fui para a lavar começou-se a desfazer, a desfazer toda. E eram assim as nossas brincadeiras. Mais, não tínhamos nada de brincar. (As irmãs tinham) diferença de 2 anos, mais ou menos. De 2 em 2 anos. Agora o mais novo já está com uma certa idade também. É assim.
18:24 [Aleitamento, deu leite a outras crianças] (A minha mãe) alimentou (os filhos). Eu também alimentei os meus, graças a Deus. E dei muito leitinho aí a crianças. A outras crianças, iam-me lá chamar a casa. Iam-me lá chamar a casa, ‘Olha vem-me dar leite aos meus filhos, vem-me dar’, e eu sustentava-os aí 2 dias, até a mãe ter leite com abundância. Tinham (leite) fraco. Fraco e era, vinha ao de tarde, o leite vinha ao de tarde. E depois iam-me lá chamar só para, tenho aí, há aí muitas crianças que o pai diz que eu que fui lá a mãe deles. O pai das crianças, casou-se um rapaz com uma rapariga, que eu fui lá e eles tinham sorte, quando eu tinha filhos, eles também o tinham. E depois, foi verdade, esse rapaz casou com uma filha desse sujeito, ‘olha que vocês estimem bem aquela mulher, que olha que ela foi a mãe dos meus filhos’. Pois, que eu que fora a mãe deles, e dei, graças a Deus, dei muito leite. Graças ao Nosso Senhor, olhe. Quem não tinha, quem não tinha, tinham que arranjar um biberão, uma qualquer coisa. Leite de vaca, leite de vaca. Então ainda nem havia estes leites, eram leites de vaca, depois davam-se, tomavam. É a vida, é assim. Tinha que comprar (vacas), tinham que as comprar quem não tivesse. Não sei, coitados.
20:44 [Refeições] E os pequeninos, coitadinhos, os pequeninos, já lhe davam aqueles da sopa, os caldinhos, quando começassem a comer, era com aquilo que se criavam, que se criavam, era. É assim, agora já faz de tudo, já há fartura para tudo. Ai credo, então não era, complicado e bem complicado.
21:20 Ai era um caldinho de cebola, ou umas batatinhas, às vezes sem nada, só com azeite e vinagre. E assim se comia. Caldinho de cebola. Nada. Nada. Era azeitinho, batatinha e a cebola. E era assim o almoço, quando fosse à refeição do meio-dia, era logo de manhã, conforme se toma agora o café, era logo de manhã, e quando era ao meio-dia, era a sopinha de feijão, o resto era feijãozinho com couves, era feijãozinho guisado. Era assim o comer dos pobres. Era. Não senhor, comia-se pouca carne, era só a carne, com licença, dos porcos, que se matavam e às vezes os coelhitos. Era a carne dos pobres era aquela. Ai vitela…Ai vitela…A vitela nem… Lá se matava um frango ou uma galinha, mas a mais o nosso alimento era aquele, sardinha era o que mais comiam naquele tempo, era a sardinha, nem é peixe deste que se compra agora, era a sardinha. Às vezes uma sardinha, uma sardinha, a minha mãe, coitadinha, pra coisa comia só os cornitos da sardinha, a mais o resto era dividido pelos filhos, sardinha que era dividida por 3 filhos e mais, sabe Deus.
23:17 [Uma bacia de onde todos comiam] Era uma bacia grande no meio da mesa, dali tudo comia, mas depois uns comiam, outros não comiam, e ele ‘não come, tens que lhe por à parte’, depois começaram então a por pratos para cada um comer. Porque muitos tinham a bacia, comer, não apetecia comer não comiam, e eles com o medo que eles não comessem, põe, ‘tens que lhe por à parte’, para a minha mãe, ‘tens que lhe por à parte porque ela não comeu quase nada’, e é assim. Com o garfito e às vezes nem havia garfos que chegassem, comíamos às vezes ‘come tu, como eu, come tu’, só com um garfo. Era, não havia garfos para todos.
24:11 [Água da fonte para gastar em casa, casas de banho] Era água. Íamos à fonte busca-la. A mais em casa não havia nada, não havia ninguém que tivesse águas ligadas. Era fonte, iam lá à fonte buscar. Íamos à fonte buscá-la, os cântaros dela e era a água que gastávamos. Casa de banho tinham. Era uma sanita, tinha um aloja em baixo com estrume e tinha assim um, e era ali, era só…Não, não, não tinha (duche). O banho tomava-se numa bacia. Numa bacia. Era, (dávamos banho) aos mais novos, aos mais novos. Era sabão, era o sabão normal, o sabão cor-de-rosa ou azul. Era para os lavar, para tomar banho. Nada, nada, nada, não havia nada disso (champôs). Não havia nada disso, ó meu Deus. Aquecia-se uma panela dela, uma panela, e ia-se botando na bacia, temperava-se com fria e ali se lavava. Antigamente era assim.
25:59 [Namoricos] Ai namoricos, eu era pouco namoradeira. Era pouco namoradeira já comecei a namorar tarde, enfim. Não, o meu pai não deixava, mas ele, a gente também não andava, se falasse para um rapaz era ali ao pé do pai, porque ele ó ó…E estávamos ali a falar, a falar, a namorar, mas o quê, alguns 30 metros à frente, ele chegava ao cabo da rua, aos domingos, que a gente aos dias da semana nem tempo tínhamos, mas chegava ao domingo à tarde, a gente estava a falar e ele chamava a gente para irmos regar ou, para irmos regar e ele ia embora e eu vinha. Mas era. Pois, era. Ele era assim.
27:01 [Bailes] Havia bailes, havia, havia bailes, mas eu não, ele também não gostava que a gente andasse lá nos bailes, mas às vezes fugíamos. Fugia eu mais a minha irmã, fugíamos e vínhamos bailar para ali para uma casa, bailar, mas depois que fosse à meia tarde tínhamos que ir embora, senão…e era assim.
27:40 [Casamento] Casei, graças a Deus, o meu marido…Olhe, aos domingos, conheci-o, ele vivia ali perto, e aos domingos os rapazes vão ter com as raparigas, olhe, a gente já se conhece. Já (o conhecia) de rapaz novo, já o conhecia. Era dali de Ribafeita. Pois era, e a gente é assim, os nossos antigos é assim. Foi falar com o meu pai e depois o meu pai perguntou se era da nossa vontade ou se era, a gente disse que sim, pronto, combinou-se o dia, combinou-se o dia, a um mês, olha. As posses eram mais ou menos. Eram mais ou menos, porque isto é assim, o pé tem que acompanhar o sapato. A gente não pode ser alta e casar com um baixo nem pode ser baixa e casar com um alto. As coisas têm que ser mais ou menos.
29:14 [Enxoval] O enxoval? O enxoval tive que o fazer, poucochinho, mas tive que o fazer. Andei a servir em Lisboa e depois tive que arranjar alguma coisinha para, para me arremediar, as primeiras alturas, não é. Servir, antes, antes, tinha os meus 14 anos quando fui para Lisboa. Eu casei-me com 23. Estava lá a minha tia e tinha lá mais gente, tinha lá uns irmãos também, e a gente olhe. Era de comboio, era de comboio, ainda nem havia autocarros como há agora, como há agora, era de comboio, comboio e lá vamos. Não, vim sozinha. Ia sozinha e esperavam-me lá. Até Lisboa. Não (tive medo), vai muita gente. Lá eles esperavam-me, esperavam-me e seguíamos para onde tínhamos de seguir. Depois casei-me, fiquei por aqui. Não tive saída nenhuma.
30:59 O meu pai, o meu pai estava numa quinta no Casal e depois tínhamos aqui a casa e vim viver para esta casa daqui do povo e ele ficou no Casal. Ficou lá na casa com os patrões. Ele foi lá o feitor duma quinta e depois… (Vim para a casa) onde nasci. Não, a minha casa agora é do meu filho, que casou, é do meu filho. Depois arranjei uma já maior, uma casa grande, onde vivo. E aquela, nas partilhas agora da morte do pai, calhou ao filho.
32:16 [Padaria onde trabalhava o marido] Era uma coisa e outra, trabalhou muito aqui na padaria. Trabalhava na padaria. Era empregado, era o empregado, ai dono…Era onde está este Centro, era aqui, era aqui a padaria. Levantava-se, vinha fazer a noite, vinha à noite e saía de manhã. (Eu) sempre, sempre na agricultura, sempre.
32:58 [Filhos] 8, tive 8. 4 rapazes, 4 raparigas. Sempre cá, nenhum emigrou, não senhor. Todos, depois casaram-se e cada um foi para seu lado. Alguns estão em Lisboa, outros estão cá na freguesia. (Partos) tudo bem, tudo bem, graças a Deus. Não, tinha-se tudo à vontade. Um médico, médico ou se ia para o hospital, ou até havia aqui também um médico. Vivia aqui em Gumiei um médico, a par com a padaria, com a casa da padaria, havia aqui um médico. E depois era lá que se ia às consultas. O médico? Era Américo. Era Américo, doutor Américo. Noutros lados caminhavam para o hospital. Os meus pais nunca foram também para, também foi em casa sempre que tiveram os filhos e eu também foi sempre em casa que tive os meus. (Com ajuda) das parteiras.
35:23 [Gumiei era povoação com muito movimento] Havia muito, havia cá mercados, quer dizer, lojas de fazendas e mercearias e assim, havia. Havia uma, duas, havia cá três. Aqui havia muita coisa, aqui havia muita coisa, era médicos, era professores, professor também era dali, era professores, era médicos, era sapateiros, era latoeiros, não havia aí nada que não houvesse aqui nesta povoação. Agora já tudo, morreu tudo. Correio? Correio era lá em baixo, era o correio, correio, ia a gente levar-lhe as cartas, vinha um de Bodiosa buscar ali o correio, ia para Bodiosa, era assim. Ah pois havia, havia aqui muito movimento nesta povoação. Eu gostava, era a minha terra. Gostava e gosto ainda. Ai tanta vez (quando estava em Lisboa) chorava com saudades, mas…depois a gente começa a conhecer depois as coisas melhor, já vai passando.
36:59 [Avós] Conheci a minha avó e o pai da minha mãe e a mãe do meu pai, conheci. Agora os outros não. Já morreram com idade. Foi o pai da minha mãe e a mãe do meu pai. Viviam cá também. Cada um tinha sua casa. Olhe o meu avô, o pai da minha mãe, coitadinho, parece que ainda o estou a ver, estava deitado na cama, e disse para a minha mãe ‘Olha vira-me para aquele lado’, virou-se para o lado, de coração morreu logo. Parece que ainda o estou a ver, coitadinho, chamava-se Manuel, e ele disse olha ‘Vira-me para aquele lado’, primeiro esteve com nós e coisa, mas ‘Olha vira-me para aquele lado’, virou para aquele lado, acabou logo. Agora a minha avó não a vi a desfalecer. Olhe que não sei, já não eram novos, já não eram novos, eram. Era pequena. Ai Jesus. Fica, a gente fica sempre com aquela ideia. Eram, coitados, viviam, quer dizer, viviam como os pobres e como outras, viviam, eles, meu amigo, antigamente, era assim, era só trabalho e mais nada. Eram, coitaditos, eram alegres, mas a vida, quando tinha a saia a gente tinha que contentar-nos com a vida que tínhamos. E a minha avó, coitada, trabalhava, tinha a casinha dela, tinha o quintalzinho e lá andava entretida naquilo. Tinha as filhas em Lisboa e socorriam a mãe, não é. E o meu avô, coitadinho, trabalhava, era barbeiro, trabalhou até poder, depois foi a saúde. É assim.
40:33 A gente tinha que nos alimentarmos com aquilo que tínhamos, quer dizer, contentarmo-nos com aquilo que tínhamos, ou bem ou mal tínhamos que…A Deus nada falta. É assim a vida.[/hide]