Entrevista integrada no projeto “Pedras Faladas: Memórias Geológicas de Bodiosa”, uma homenagem às pessoas concretas que estiveram e estão ligadas ao universo geológico desta freguesia do município de Viseu.

José Dionísio não esteve ligado ao mundo da pedra, mas sim ao da resina. Não obstante, dá-nos conta de uma parte importante do contexto sócio-económico de Bodiosa, pelo que a sua entrevista é de extrema relevância para perceber como em Bodiosa as gentes de antigamente buscaram alternativas à agricultura de subsistência, seja com o minério, o trabalho nas separadoras ou, como no seu caso, na resina, uma exploração de extrema importância em toda a zona de pinhal nas freguesias a norte da cidade de Viseu, como Bodiosa, mas também Calde, Ribafeita, etc. Junto à estação de comboios de Bodiosa existiu uma das principais fábricas de resina na região: a Fábrica Manuel Raimundo por onde passaram gerações de rapazes da região, a qual sofreu um enorme incêndio e que, como aconteceu um pouco por todo o país, acabou por encerrar quando o mercado se virou para outras resinas mais baratas.

A entrevista a José Dionísio tem ainda o interesse de referir um conjunto de outras atividades na freguesia de Bodiosa, como o cultivo e processamento artesanal do linho, as tradições religiosas e profanas como o “cantar as cruzes”, o “cantar os martírios” ou o “serra a velha” e formas de sociabilização da freguesia, como os namoros nas fontes, as festas nas várias aldeias e os grupos de baile existentes na região.

Entrevista a José Dionísio em Oliveira de Cima, Bodiosa a 18 de Março de 2015. Condução da entrevista de Susana Rocha, registo e Edição Audiovisual de Nely Ferreira.

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00:06 [Apresentação] José Manuel dos Santos Dionísio. (Nasci a) 2 de Fevereiro, dia da Senhora das Candeias, que é a Santinha cá da terra, de 1947. Dizem que foi ali em baixo na casa dos meus pais, dizem. Eu estava lá, mas não me lembro.

00:30 [Enquadramento em Bodiosa] Algum interregno que…É assim, a residência oficial foi quase sempre aqui, exceto quando estive na tropa e quando estive uns anos em Moçambique. Estive lá uns anitos, uns 10 talvez, e depois vim para cá, tive sempre a residência aqui, embora não morasse cá a maior parte das vezes. Morava no estrangeiro. Não era emigrado, mas era pior que emigrado. Nem morava lá, nem morava cá. Era motorista internacional, ia e vinha.

01:03 Ora, é assim, eu quando saí da escola, fui para o seminário, fui estudar, fui quase padre. Não cheguei lá, estive lá dois anitos. Depois fiquei por aqui, andei aqui a ajudar os meus pais até atingir a maioridade. A maioridade não é bem o termo, mas comecei a trabalhar sensivelmente com 16 anitos, é que comecei a trabalhar. Andei aí na resina, a trabalhar na resina até ir para a tropa. Depois, fui para atropa, fiz a guerra do Ultramar. Entretanto, a mulher, que era daqui, a minha namorada da altura, foi para lá ter com os pais, os pais estavam lá. Coincidência, eu fui para Moçambique, os pais estavam em Moçambique, aquilo até foi juntou-se a fome com a vontade de comer. E pronto, foi lá ter e lá continuámos a namorar mais um anito e depois casámos. Casei lá. Fizemos lá a nossa vida, entretanto dá-se o 25 de Abril. O 25 de Abril foi a pior asneira que podiam ter feito a este país, mas depende do critério de cada um. Eu digo que nunca mais temos um estadista como o Salazar, isso nunca mais. Já conheci vários, é tudo uma cambada de chulos, mas pronto. E depois dá-se o 25 de Abril e eu regressei, vim a Portugal ainda, em 76, e depois regressei definitivamente em 77. Entretanto fui dar uma volta pelo leste europeu, estive na Rússia, para conhecer. Estive na, na altura, União Soviética e sinceramente é muito bonito, mas não gostei. Não gostei, pronto, não gostei daquilo, era muito frio. E depois vim para aqui e aqui refiz a minha vida a seguir, pronto, fiquei por cá, e foi assim.

02:54 [Primeiro trabalho que teve: resineiro] Fazia o que faziam todos os resineiros. Esfolava o pau, como dizia o outro. Era assim, fazia-se o trabalho de…Primeiro desencarrascava-se o pinheiro, depois vinha o Março começava-se a picar, que era meter a bica. E depois, portanto, nos fins de Março, princípio de Abril, começava-se a renova, isto era, dar o primeiro talho, para começar a sair a resina. Depois era semanalmente, passava-se, de semana a semana, passava-se no mesmo pinheiro. Tínhamos uns talhos próprios, que se fazia de…portanto, havia uma renova da sangria, normalmente, de semana a semana. E depois era uma semana que andávamos só os homens, a renovar, semana seguinte andavam os homens e andavam as mulheres. As mulheres a fazer a colha. E o desgraçado cá do rapazito gostava de mulheres, e gosta, ainda gosto delas, podem ser o diabo, mas são, eu costumo dizer que é a obra-prima de Deus, mas pronto. É assim, eu carregava, as mulheres que andassem comigo, eu carregava a lata delas. De pinheiro para pinheiro, quem passava a lata era eu. Andávamos juntos, eu renovava o pinheiro, ela fazia a colha. Depois eu passava-lhe a lata para o outro pinheiro. E depois claro, depois ia despejar o barril, e pronto, e era assim que se processava. E depois no fim da campanha, em Novembro, fazia-se a raspa, isto era, recolher os restos da resina que ficava agarrada ao pinheiro, e essa depois tirava-se toda para baixo. E depois ia, aquilo mandava-se para a fábrica e depois era lá processada à maneira deles. Ainda lá trabalhei uns meses numa fábrica de resina, mas não percebia nada daquilo. O meu pai sim, o meu pai foi um queimador de resina, eu não.

04:48 [Pinhais] Aqui, aqui em Bodiosa. O primeiro trabalho que eu tive era metade da semana em Bodiosa, outra metade, embora do mesmo patrão, fazíamos Abravezes, fazíamos Baçar, Figueiró, e depois vínhamos fazer o resto aqui, outra vez a Bodiosa. Andávamos assim, era onde ele tinha os pinhais alugados para nós trabalharmos. Depois passei num segundo patrão, era só em Bodiosa. E tive uma altura que fui ajudar, pronto um intervalo, ainda fui fazer uma desencarrasca a Carvalhal Redondo, concelho de Nelas. E fiz Mundão também, o princípio de uma desencarrasca num ano, para um indivíduo que já faleceu. Todos, já tudo foi embora, já cá estou só eu. E trabalhei sempre por aqui.

05:52 [Complemento dos rendimentos agrícolas] Tudo, não havia um pinheiro que não fosse resinado. Era onde o lavrador ia buscar o dinheirito, era ali. Era ali que o ia buscar, não tinha outro. Tinha, os lavradores tinham, era um reforço, é assim, eles, vender produtos da terra não dava grande coisa, embora vendessem milhos, vinhos e tal, mas onde eles tinham um reforçosito era a venda de algum, uma cria, uma vitela, ou a resinasita e tal. Era, tudo ajudava, o dinheiro era pouco, mas aproveitava-se todo.

06:29 [Trabalhadores da resina] Sim, embora a maior parte trabalhasse na agricultura, mas trabalhava aí bastantes pessoas na resina, mais mulheres. Ou mais aqui, de Oliveira de Cima trabalhávamos, ora 2, 3, 1, 2, 3, 4, 5…5 homens de Oliveira de Cima permanentemente na resina. 6, o primeiro morreu, já não me lembrava dele. Trabalhávamos, portanto, esses daqui de Oliveira de Cima, embora outros, de outras povoações limítrofes também trabalhavam algumas pessoas. Daqui trabalhávamos 6 homens e trabalhavam à volta de 12 mulheres na resina. Cada homem tinha direito a 2 mulheres. Dizem que a cada homem pertencem-lhe 7, nós só tínhamos 2. Tínhamos 2 mulheres, que era, portanto, enquanto uma ia ao barril, a outra ficava a trabalhar connosco.

07:28 [Transporte da resina] O barril, é, tinham que despejar as latas e os barris eram uma espécie de uma pipas, que estavam estacionados num determinado sítio e tinha que se lá ir levar a resina, que aquilo ficava longe. Depois era passada com os carritos de bois, mais tarde com tratores, mas no princípio era os carritos de bois que passavam aquilo, porque as camionetas não chagavam a todo o lado, não é, aquilo no meio da mata, no meio da serra, no meio das pedras, era assim que a gente trabalhava.

08:05 [Dia a dia no trabalho] Curiosamente, nós tínhamos uma maneira muito própria de trabalhar, nós, o meu grupo, os outros…o meu grupo era assim. Nós tínhamos um talho marcado, isto é, a resinagem que se fizesse num dia, tinha que se fazer no mesmo dia da semana seguinte, isto é, não se podia passar à frente sob pena de tirar o pinhal verde, chamava-se aquilo renovar pinhal verde, e então era de 8 em 8 dias. Quanto mais cedo acabássemos, mais cedo vínhamos embora. Curiosamente tive uns colegas a trabalhar 1 campanha ou 2, andavam sempre a correr, éramos todos rapazes novos. Um está agora em Paris, já está reformado como eu, o outro infelizmente está ali em baixo, debaixo dos torrões, morreu em Moçambique, curiosamente bem perto de onde eu estava. E na véspera de ele morrer dei-lhe boleia, da ilha de Moçambique para o Lameal e depois ele foi para a companhia e eu segui a minha vida. Quando ele ia no dia seguinte a passar lá, tiveram um acidente de automóvel e olha foi-se, passou para o outro lado. Mas andávamos sempre a correr nós. Começávamos a trabalhar por volta das…ao nascer do Sol e depois abre, vamos embora, que em estando pronto está pronto e quando fosse à 1 hora, 1 e pouco estávamos em casa a almoçar, estávamos descansadinhos, era assim que a gente fazia. Quando era na altura da recolha da resina, portanto na semana que andavam as mulheres, não podíamos andar a fazer isso, sob pena de não fazermos nada, andávamos mais devagar e então levávamos quase o dia inteiro. Começávamos aí por volta das 7 da manhã, até às 4 da tarde, 4, 4, 5 horas mais tardar e é assim. Porque elas também queriam, aproveitar vir mais cedo um bocadinho, para ajudar os pais na agricultura, isto era assim que funcionava.

10:02 [Bucha] Quando andávamos longe, levávamos uma buchita para comer ao meio dia. Chamava-se a buchita, era uma sandes, uma coisa qualquer. A bebida era a água do ribeiro, do ribeiro, da nascente, não é. A água da nascente, porque nós não podíamos andar de garrafa à cinta, não é, porque não dava muito jeito. Quando andávamos aqui mais perto, as mães é que lá iam levar o almoçozito, almoçavam lá com nós e tal. Quando era na volta, não precisava que as mães lá fossem, porque nós vínhamos almoçar a casa.

10:38 [Salário] Nós até ganhávamos bem, curiosamente, nós, era uma profissão que era bem paga, embora não fosse o ano inteiro, nós tínhamos uma maneira…Era assim, nós tínhamos 8 meses que era salário fixo e o resto do ano era os dias que se fizessem a X por dia. Curiosamente nós, os resineiros, éramos muito bem pagos, nos meses de salário fixo ganhávamos tanto como um polícia. É, ganhávamos 1000 escudos por mês, naquele tempo era muito dinheiro. Muito dinheiro. Nos restantes meses, que não havia tanto trabalho e era meses que só se faziam determinados dias, não era sempre, às vezes até se passava o mês inteiro sem se fazer nenhum, depende, aí ganhávamos 25 escudos por dia. Epá, era muito dinheiro. Eu lembro-me que o primeiro dinheiro que eu ganhei, nunca me esqueço, 10 escudos. 10 escudos, o que traduzido agora para euros dá a módica quantia de 5 cêntimos. 5 cêntimos, é bonito, não é? Era 5 cêntimos, foi o meu primeiro dinheiro que eu recebi. Claro que era miúdo, foi uma gorjetazita, digamos assim, mas 25 escudos também não era tanto por aí além, os 1000 escudos também não era, eram 5 euros num mês. 1000 escudos eram 5 euros num mês. Mas era o ordenado de um polícia. E era o ordenado de um professor, era igual, mais ou menos, portanto até estávamos bem pagos. Comparativamente com outros, os pedreiros, embora fosse mais forçados, ganhavam 30 escudos por dia, e já não era mau. Era bom, os 30 escudos na altura era um bom ordenado. É assim, normalmente os pedreiros ganhavam o equivalente a um alqueire de milho. Era o equivalente ao preço de um alqueire de milho. O alqueire de milho, não sei se sabe o que é um alqueire, era uma medida de, para medir o milho e o feijão, para medir secos, que aquilo dava mais ou menos 10 quilos. E o equivalente ao preço ao preço desses 10 quilos de milho era o ordenado de um pedreiro por aí. Nós éramos privilegiados nesse caso, ganhávamos mais um bocadinho. Porque se fosse a 30 escudos por dia, a ganhar só os 30 escudos por dia, mesmo trabalhando domingos e tudo, dava 900, nós já ganhávamos 100, não é, já era bem bom. Até éramos privilegiados nesse aspeto.

13:26 [Componentes e usos da resina] Ora bem, aquilo tinha várias, aquilo era essencialmente para a indústria, aquilo era, portanto, tirava-se a água rás, que era para tintas, e o pez louro, pez preto, para, não sei para que era, mas aquilo devia ser para vernizes, ou qualquer coisa, e o pez louro para verniz mais sofisticado, normalmente era assim que se usava, que se fabricava.

13:48 [Fábrica Manuel Raimundo] Tínhamos aqui em Bodiosa uma fábrica, lá em baixo na estação, perto da estação, a fábrica Manuel Raimundo, onde o meu pai trabalhou, onde eu trabalhei lá um mesito ou coisa que o valha. Ainda conheci o velho patrão daquilo, o velho Raimundo, um indivíduo curioso, esteve viúvo 40 anos, ao fim de 40 anos casou-se outra vez, mas está bem, pronto…Eu tenho hoje uma mata aí em baixo que era dele, que foi o meu pai que comprou aquilo já a um enteado dele. Ele depois casou com uma viúva, ele não tinha filhos, ficou tudo para a viúva quando ele morreu e depois foi para o filho dela, que era o engenheiro Pimpão. E no dia que estava o meu pai, que tinham combinado vir assinar a escritura, o Pimpão morreu. É verdade, o Pimpão não aparecia e o meu pai telefonou para lá ‘Então o engenheiro e não sei quantos. O engenheiro não foi nem vai. Está deitado em cima da mesa. Acabou-se.’ Depois veio mais tarde um filho dele, um genro, ou qualquer coisa, assinar a escritura, não tiveram problemas nenhuns. Só que naquele dia não calhou. E então esse, isto a propósito do Manuel Raimundo, que tinha aqui uma fábrica de resina em Bodiosa.

14:55 [Outras fábricas de resina] Havia uma outra aqui em cima no Campo, que era Álvaro Pinto e Cia. Havia outra que ainda lá está, todas elas ainda lá estão, uma lá cima em Abravezes, que era de um tal Manuel Luís, e depois aquilo depois ficou para a Socer, que era a Sociedade Central de Resinas. Havia outra em Santa Comba Dão, que era do Manuel Raimundo também. E havia aí várias, havia na Ponte do Abade, havia várias, várias. E agora, com a decadência da resina, parece-me que só temos uma em Portugal. Pelo menos aquilo que me consta é que só temos uma em Pombal, não temos mais, não conheço mais nenhuma. Pode haver mais uma ou outra, mas que eu conheça não, só conheço aquela, Pombal.

15:41 [Trabalho na fábrica de resina] Sim, trabalhei lá uns tempitos, no tempo, quer dizer, um sobrinho desse Manuel Raimundo também era resineiro, embora ele nunca andou com o ferro, andou quando era novo, mas era empresário, chamam-se aquilo os empresários de resina. E eu ainda cheguei a trabalhar para ele, para esse indivíduo. E esse indivíduo morreu há bem pouco tempo, sem pernas, também pronto enfim, porque tiveram que lhas cortar. E o homenzito, o homenzão, não era homenzito, ele já era homenzão, bastante forte até, boa pessoa, no intervalo das resinas, da campanha da resina, punha-me lá baixo a trabalhar na fábrica. Era uma maneira de ganhar uns tostões, não fazia nada. Ia lá, ia raspar a barca, chamávamos aquilo a barca, que era o depósito da resina, limpar aquilo. Fazíamos a queima das borras da resina, porque entretanto já tinha acabado a campanha, já não entrava mais resina. Carregávamos camiões de pez louro e de água raz e pronto. E concertávamos as barricas para o ano seguinte. E de vez em quando aparecia cá o velhote, começava a chatear, lá o tal Manuel Raimundo, a chatear a gente e tal. Estava sempre vestido de preto aquele homem, sempre de preto, parecia um corvo, da cabeça aos pés vestido de preto. Era uma figura tradicional, que a gente quando via ‘U olha vem lá o corvo’. Era assim que a gente dizia. Eu trabalhei lá, embora não conheça bem bem os segredos daquilo.

17:16 [Trabalho do pai como queimador na fábrica de resina] O meu pai sim, o meu pai foi queimador. Queimador era a figura principal duma fábrica de resina. Primeiro era um, quando eu lá trabalhei, não trabalhei lá com o meu pai, o meu pai passou a trabalhar lá quando eu saí, quando eu fui para a tropa. O meu pai entretanto andava aí, andou lá em baixo a…foi moleiro. Teve uma história também assim um bocadinho….foi mineiro, foi moleiro, foi tudo. O meu pai foi tudo na vida. E eu segui-lhe quase os passos, também fui quase tudo. O Manuel Raimundo, quando eu saí, o Manuel Raimundo, o sobrinho dele, o encarregado da fábrica, o Artur, o Artur Parreira, ele, quando eu saí, saiu também o queimador na altura, emigrou para França, e o homem ‘onde é que eu hei-de ir, onde é que eu hei-de ir’ e veio bater à porta do meu pai, o meu pai foi para lá, para lá ficou até à reforma. Até à reforma foi queimador.

18:13 Depois aquilo passou para uma outra sociedade que era, pronto, aquilo depois foi, o engenheiro Pimpão teve sociedade com outros gajos, depois alugou aquilo a outros indivíduos e o meu pai ficou lá sempre a trabalhar. Ficou lá sempre. Até à reforma. Pronto, e eu trabalhei lá, mas não conhecia muito bem a maneira de trabalhar da fábrica. Embora soubesse mais ou menos como era, mas não era muito, muito, não era especialista.

18:44 [Ofício de queimador] Quase aquilo que fazem os alambiqueiros, aqueles que fazem aguardente no alambique, quase a mesma coisa. Só que em vez de sair aguardente, saía água raz, e o que estava, o bagaço que ia para dentro da coluna era a resina, que depois saía pez louro. Não saía bagaço para deitar fora, aproveitava-se todo. Pronto, era, ele fazia a destilação da, o queimador destilava a água raz e aproveitava o pez louro. E depois classificava-o, que curiosamente o queimador tinha que classificar o pez louro. Como? Com os olhos. Tinha um monóculo que, onde levava duas pedras, uma do pez que estava a sair e outra do pez que já estava programado para ser aquele. E eles iam comparando, quando estivesse afinadinho, ‘é este!’. É, depois era o K, era o M, era o S, era vários tipos de pez louro. E quando era mesmo o resto era pez preto, já nem era louro, é preto mesmo. Esse devia ser para fazer piche ou coisa que o valha, não sei para que era o pez preto. O outro era tudo para indústrias. Tanto a água raz é muito utilizada nestes diluentes, água raz, para lavar as mãos com água raz ficavam branquinhas, era diluente, era verdade.

20:09 [Ambiente de trabalho na fábrica] Quase uma brincadeira, quase uma brincadeira. Aquilo era uma rotina que a gente fazia e depois o pessoal que lá trabalhava era de tal maneira dado, que aquilo, levava-se aquilo quase a brincar. Havia um que trabalhou lá comigo, mora aqui em cima, aqui perto, pouco mais novo do que eu, mas pronto, andava dentro da barca, às tantas ‘olha já aí vão os meus botins’, vinha junto com a resina, vinha os botins dele, que o gajo já não tinha força para os tirar, ‘já aí vão os botins’. Prontos, e ele ‘lá se vai triturar dentro do Maxxor’, que era aquela maquineta que desfazia a resina toda. ‘Olha se vais para lá para o Maxxor, lá ficas feito em bocadinhos. E brincávamos aí com certas coisas e, mas trabalhava-se a sério, hã?

20:57 [Diferentes funções no trabalho na fábrica] Tínhamos o maquinista, não fazia mais nada senão enfiar lenha para dentro da fornalha e ver a pressão dos vapores, estoirar uma caldeira de água em vapor cuidado, era um perigo. Assim como ter cuidado para não haver incêndios, porque trabalhava-se com lume e a água raz altamente inflamável, tínhamos de ter muito cuidado, tínhamos ao fundo aqueles depósitos enormes. Uma vez houve lá um incêndio, era estoiros por tudo quanto era canto. Aquilo ardeu tudo. quando começar a arder, não valia a pena tentar apagar, porque não apagavam mesmo. Água raz era petróleo, género de petróleo, começando a arder não vale a pena. Tínhamos que ter máximo cuidado. E depois era assim, ajudávamos o queimador a transportar o carro da resina, despejava-se a resina nas barricas, depois era preciso tapar as barricas, depois era preciso timbrá-las e depois era preciso rolá-las e carregá-las, enfim. Depois mais tarde deixou de haver essas barricas, já eram em madeira, e passou a haver tambores, tambores de alumínio, coisa que o valha, assim do género. E era mais fácil, já não havia tanto trabalho e era só enfiar lá para dentro, tampar e deixar ficar. Mas isso já foi mais tarde, já foi mais tarde.

22:21 [Incêndio na fábrica de Bodiosa] Foi um incêndio tremendo, tremendo Eu era miúdo, mal me lembro desse incêndio, muito mal. Mas lembro-me de ver tudo a arder, aquele fumo negro e era cada estoiro que metia medo, metia medo. E eu lembro-me daquilo porque eu andava na catequese lá na igreja lá ao lado e lembro-me daquele incêndio. Do resto era preciso ter muito cuidado para não haver incêndios e daí é que o indivíduo que estivesse entregue da máquina, chamávamos aquilo a máquina também não sei porquê, mas, aquilo era mais uma caldeira a vapor, mas era, aquilo queimava para ali lenha que era uma coisa sem jeito, carvão lá para dentro, muita coisa, nafta, ultimamente era nafta. Era um maçarico, enfiar para lá nafta e pronto, era mais barato do que a lenha. Mas no princípio era lenha.

23:16 [Ambiente no trabalho na resina nos pinhais] É assim, quando tínhamos vagar, púnhamo-nos a cantar em cima das pedras. O meu grupo era o grupo de 3 rapazes novos. É assim, o Ricardo era mais velho, era mais velho que eu 1 ano, depois eu era o do meio e tinha-mos um mais novo, foi o tal que morreu na guerra colonial, se era mais novo do que eu 2 anitos, por aí, pronto, éramos rapazes da mesma altura. E começávamos a, cantávamos as cantiguinhas que se cantavam na altura, aqueles conjuntos da época faziam aqui uns bailaricos, António Mafra, já era conjunto nessa altura, conjunto António Mafra, Maria Albertina e Só Pai e Filhos. E nós aproveitávamos, de ouvido ouvíamos as cantigas deles e íamos para cima das pedras cantá-las. Quando tínhamos vagar, claro. O resto nós dávamo-nos sempre bem, era, aquilo era uma festa, andávamos sempre a cantar. Não valia a pena a gente chorar, porque também ninguém nos dava nada. Às vezes havia as suas coisas que, pronto, mais, depois mais tarde com outros, às vezes começavam, quando se metiam os chamados gados de saia no meio, já era um problema, pronto, já começava a haver rivalidades.

24:40 [Músicas que cantavam durante o trabalho na resina] Nós tínhamos uma, que eram os Galinhos de Barcelos, que eu gostava muito de cantar, eu e os outros. Eu gostava muito de cantar aquilo ‘Olha os galos, Olha os galos, Olha os galos de Barcelos, Quando tem galinhas no alto’ já não sei como é que era ‘brancos, pretos, amarelos’. Era assim e olhe que eu gostava de cantar, só que hoje já não tenho voz para isso. Ainda canto de vez em quando, ainda canto de vez em quando, mas já não tenho voz. Isto é assim, a voz é muito bonita quando a gente é novo. Depois é preciso puxar por ela e eu já são quase 70 anos. Já começam a…não estou velho, não estou velho, mas já começam a faltar as forças, já, já sinto. Já não chego onde chegava quando era mais novo. Aliás, mas chego a outros sítios que quando era mais novo também lá não chegava. Verdade. Fazíamos uma espécie de um conjunto, mas era só a cantar, não tínhamos mais nada, não tínhamos mais instrumentos, era assim que nós cantávamos. Era isso e era ‘Ai cachopa se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita’. Era assim, eram as cantigas da época.

25:56 [Outros ofícios em Bodiosa] Maior parte agricultura. Como aliás o país inteiro era assim, a maior parte agricultura. Trabalhava-se na resina, trabalhava-se em extração de granito, extração e trabalho em granitos e trabalhava-se mais, como se diz, em casa, não é, portanto, trabalhos caseiros. Tecelagens, fiar, isto é, fazer o ciclo do linho. Faziam o ciclo do linho. Semeavam o linho, depois ripavam-no, depois afogavam-no, depois punham-no a secar, depois davam-lhe um arraial de porrada em cima, batiam, batiam, batiam, até ficar coiso, depois era dessedado, depois era fiado, depois era tecido e saía tecido feito. Faziam tudo aqui. E faziam muito, havia aí muito a tradição das mantas de farrapos, chamadas mantas de farrapos, que ainda devo ter aí uma não sei aonde, uma manta de farrapos e mantas de, mais hoje fazem mais é passadeiras de farrapos. Isto é, o que é que era usto? Era, a teia era urdida com fio de linho e era entrelaçada com pedaços, fitas de panos, panos velhos, farrapos, uma blusa velha, uma camisa velha, umas calças velhas, sei lá, tudo o que fosse velho. Cortava-se aquilo às tirinhas e fazia-se uma, chamado aquilo as firmas, firmas, e depois aquilo era posto em novelos e enchiam as canelas, passavam ali e faziam uma manta assim e ficavam lindas, pesadas. Não eram quentes, mas arretavam o frio. Não eram quentes, mas arretavam o frio. Era, havia várias, ainda há aí algumas, quem tem aquilo guarda-as religiosamente, assim como eu guardo aquela toalha religiosamente, ali, linda. Toalha tecida em linho, tecida, tecida na aldeia. Aquilo tecido na aldeia, não é comprado, foi tecido na aldeia o que está ali. Tecida num tear artesanal, era da minha avó, era da minha avó, depois ficou para a minha mãe e depois ficou para mim. Era da minha avó, não ficou para a minha mãe, ficou para a minha tia Ana depois. A minha tia Ana é que era uma senhora muto simples, gostava muito de meninos, mas nunca teve filhos, nunca se casou, mas gostava muito de meninos. Vivia com um tio meu, com um outro irmão que também morreu solteiro, em Aval. Era irmã do meu pai, quando o irmão morreu, ela para não ficar sozinha, o meu pai trouxe-a cá para cima para ao pé dele. Pronto, ficou por aí, e depois o meu pai morreu e ela ficou com a minha mãe, e depois quando ela morreu ficou lá a toalha em casa. Pronto, e depois veio para mim. Está aí. Uma recordação que tenho, linda.

29:12 [Tempo e locais de convívio] Olhe, depende das pessoas. Depende muito das pessoas. As tardes dos homens, as tardes dos rapazes, era à procura das raparigas. Os bailaricos, onde houvesse um bailarico, uma gaita-de-beiços quando não era à roda, aquelas cantigas de roda cantadas e dançadas. Depois começaram a aparecer os realejos, ou as gaitas-de-beiços e fazia-se bailes lindos com aquilo. Uma grafonola, ou qualquer coisa, depois começaram a vir os gira discos, depois as aparelhagens sonoras e depois os conjuntos e por aí fora. Aquilo foi evoluindo assim. Pronto, os rapazes era mais à procura das raparigas e a entreterem-se assim. Os casados, o tradicional, de adega para adega. ‘Agora vamos para a minha, depois vamos para a tua’, entretinham-se aí toda a tarde, quando chegavam ao Domingo à tarde andavam a cair cada um para seu lado, mas era assim.
30:04 As mulheres entretinham-se aos domingos a concertar as roupas para usarem durante a semana. A roupa que traziam durante a semana lavavam-na ao Domingo, que era para secar, para vestir outra vez à segunda-feira, porque em tempos pobres era assim. Os rapazes durante a semana entretínhamo-nos na fonte.

30:35 [Namoricos na fonte] Na fonte. Na fonte para quê? Olha para nos metermos com as raparigas, que elas iam à fonte, era lá que iam buscar a água, não havia água canalizada em casa, iam à fonte com um caneco. Um cântaro de madeira, curiosamente, aquilo feito com aduelas de madeira, e era esses canecos com que elas iam buscar a água para gastar em casa. E nós metíamo-nos com elas e às vezes lá ia o cântaro, o caneco para o chão, lá se partia aquela porcaria toda, ficava tudo escangalhado, olha enfim. E era assim que nós arranjávamos namoricos. Era assim que se arranjavam os namoricos e quando já a coisa estava bem pegadinha, as raparigas vinham à fonte, não estava lá o conversado, quando chegavam a casa despejavam, já não subiam lá para cima, era cá em baixo no pátio, despeja o cântaro, vai à fonte outra vez, a ver se o via. Era assim que nós nos entretínhamos.

31:25 [Cantar as cruzes e os martírios] Tínhamos depois durante determinadas épocas, por exemplo, na quaresma, entretínhamo-nos à noite, do meio da quaresma em diante, a cantar as cruzes. Só os rapazes. Só os rapazes. Depois na semana santa já eram rapazes e raparigas. A cantar os martírios. E depois na noite de sábado para domingo de Páscoa, era toda a santa noite a cantar aleluia. E de manhã estávamos rouquinhos de todo, aquilo depois vinha o padre, já ninguém cantava atrás dele, estava tudo rouco.

32:04 [Cantar as cruzes] Cantar as cruzes era a emenda das almas. Cantava-se em determinados sítios aquelas, como é que se diz, era um cantochão, era uma maneira de cantar que era semi-religioso, digamos assim. Nós tínhamos um sistema que começávamos a cantar a determinada hora à noite e até chegarmos, era diversos pontos até chegarmos à, terminávamos sempre na capela, terminava-se lá com a Salve Rainha, e desde o princípio que começávamos a cantar até à Salve Rainha ninguém falava. Não havia nada para ninguém. De mudar de um sítio para o outro tínhamos um pai-nosso e uma Ave-maria para rezar. Era assim que nós fazíamos. Curiosamente, cantava-se sempre a mesma coisa, quando era a cantar as cruzes, era cantar sempre os mesmos…Deixa lá ver se ainda me lembro daquilo, ‘Aqui estamos de joelhos’, mentirosos, que ninguém estava de joelhos, mas pronto, ‘Aqui estamos de joelhos com o crucifixo na mão, ou nos venham dar a esmola, ou do céu venha o perdão’. Era, havia assim, uma coisa assim, tinha umas 3 ou 4 quadras que se cantavam, assim com aquele canto a arrastar, a arrastar, e depois no fim pedíamos pelas almas um pai-nosso e uma Ave-Maria e rezávamos o pai-nosso e a ave-maria, mudávamos para o poiso seguinte, e fazíamos assim até ao fim.

33:39 [Cantar os martírios] A cantar os martírios, na quaresma, era diferente. Porque cantávamos mesmo os martírios do senhor. Como? Curioso, que era, cantávamos as quadras alusivas, aliás, os martírios era de cantar toda a paixão de Cristo, desde coroação de espinhos, quando foi flagelado, coroado de espinhos, sei lá, cravado, as mãos cravadas, enfim, era cantar toda a paixão. E cantavam-se 2 quadras em cada sítio. Eram determinados sítios durante a emenda das almas, durante as cruzes, e depois era nos mesmos sítios e mais um ao meio, para terminar na capela com a paixão toda cantada. Depois havia, na sexta-feira santa à noite, já se não cantavam os martírios, mas cantava-se ‘ Morreu Jesus, Morreu Jesus’ e era só assim. E depois no sábado pronto já era aleluia, pronto já toda a gente cantava, já toda a gente dançava, já havia festas. Os martírios do senhor, sou capaz de puxar um bocado pela cabeça e cantá-los, cantá-los não digo, porque não sei, mas é difícil, eu sei-os todos, mas tenho que os enrolar todos seguidinhos, seguidinhos. Se quiserem um dia eu escrevo-vos isso e dou-vos isso escrito em papel. Papel, ou até, se tiverem email, eu mando-vos por email, não tenho problemas nenhuns.

35:22 [Serrar a velha] (Depois da Páscoa) já havia bailaricos, durante a quaresma é assim, nós brincávamos no Carnaval e depois quaresma não havia nada para ninguém. Havia uma brincadeira a meio da quaresma, curioso, que era a partir daí que se cantavam as cruzes, havia uma brincadeira a meio da quaresma, quarta-feira de serrar a velha. Serrava-se a velha. Curiosamente, em certos sítios, e aqui era um deles, serravam-se as novas, não era as velhas. Não havia velhas, serravam-se as novas. Era uma tradição linda e depois aquelas velhas algumas chateavam-se, e quanto mais se chateavam, mais nós chateávamos as velhas. Aquelas que se não chateavam ‘Olha meninos venham cá outra vez para o ano, só tenho pena de não ter aqui uma pinguinha pra vos dar’, ai sabia tão bem quando elas diziam aquilo. Chegávamos ao pé da casa, à casa de uma velha, chamávamos pelo nome dela ‘Fulana! Queres que te serre? Não! Serro, serro!’ Esfarrapávamos no chão, com uma lata velha a fazer barulho e elas quando se zangavam estávamos ali horas, não é, porque elas vinham lá com uma baciada para cima da gente, quando não eram outras coisas, quando não eram mais coisas além das águas, e quando se não chateavam, 2 minutos 3 vamos embora, siga. Quando se chateavam, eu lembro-me que uma vez estávamos ali em baixo numa casa a serrar uma velha nova, velha não era tão velha como isso e o papelinho foi tanto, tanto, tanto, que o meu pai vinha de trabalhar da tal fábrica de resina, pra cima, de noite, chegou lá pôs-se a apreciar, e depois já metia era os pais das novas a chatear-nos. E o pai a apreciar aquilo, chega ao pé nós ‘Rapazes, descansem aí um bocadinho, que eu vou a casa poisar o cesto, já venho ter convosco’, foi até de manhã, o meu pai andou connosco até de manhã. Havia destas coisitas que dava-nos uma certa alma. Os próprias, as pessoas mais idosas, às vezes acompanhavam aos mais jovens e sabia-nos bem, sabia-nos bem.

27:52 Era à noite, isto é, depois da ceia, hoje é janar, naquele tempo era a ceia. Naquele tempo o jantar era ao meio-dia, mas era assim. Portanto, depois da refeição da noite, é que se começava, serrar a velha e tal, quando eles já estavam uns a fazer serão, a seroar, e outros a pesar figos, estarem a dorminhar chamavam a pesar figos, e outros estavam na, portanto, a fazer serão. Trabalhavam noite fora, faziam, ai tantos, naquelas noites de Inverno fazia-se tanto serão. Às vezes fazia-se cera, não era só serão, às vezes também se fazia cera, mas isso eram outras coisas, às vezes ia para lá os namoricos começar a chatear e já não faziam serão, faziam cera. Era assim.

38:47 [Festas na freguesia] Festas tipo mundanas, religiosas. Religiosas e mundanas havia sempre, havia e há, ainda hoje há. Embora as festas mundanas ou pagãs, como se chama assim, nem todas, hoje já todas as aldeias têm, naquela altura não, era mais Travanca, Oliveira de Baixo e Silgueiros, Silgueiros e Aval, juntavam-se as duas povoações faziam uma festita. Depois começaram a haver mais, juntarem-se e a fazerem, depois passou a ser Queirela, depois passou também a ser Oliveira de Cima, e depois passou a ser cada aldeia faz uma festa, o que na minha maneira de ver é errado, deviam-se juntar todos, fazer uma festa a nível de Bodiosa, a nível da freguesia, e em vez de fazerem uma festa de 3 dias, faziam uma festa de 3 semanas, e ficava uma coisa bem feita. Assim, pronto, eles, também é os bairrismos que fazem isto, não é, os bairrismos também fazem isto, curiosamente, a de Oliveira de Cima e a de Queirela são quase sempre feitas nos mesmos dias, é verdade, e, mas é assim que eles…A nossa não pode ser feita no dia da festa da santa da terra, porque senão era no Inverno, que é a festa religiosa do dia 2 de Fevereiro, no dia que eu faço anos, no dia 2, embora a festa seja feia no domingo seguinte. A de Queirela é feita no Verão, ora bem, nós temos que fazê-la também no Verão, e então como é que faz, temos aqueles determinados domingos para. Travanca faz no primeiro domingo de Agosto, nós fazemos no domingo antes. Porque não podemos fazê-la no mesmo dia de Travanca, nem no dia da de Lustosa, porque o problema é esse, nós estamos metidos no meio de duas festas, que se fizerem a festa fora daquele domingo, não fazemos nada, não temos cá nada. E é assim, eles no ano passado, este ano não sei como é que está a correr nem sei o programa ainda, mas sei que o ano passado por este tempo já tinham o programa todo e tinham….tinha orçamento pra uns milhares de euros muito largos, 14 mil euros, salvo erro, é um bocadinho puxado. É assim, tiveram logo a abrir, é assim, eles também têm sorte, eles também, é preciso saber escolher os conjuntos, eles tiveram logo a abrir tiveram logo o Hi-Fi, pronto, e foi a uma quinta-feira, tiveram Hi-Fi a uma quinta-feira, tiveram quinta, sexta, sábado, domingo e segunda, e depois tiveram lá aqueles conjuntos normais, o Hi-Fi foi para dar ânimo. Primeiro, o dia mais morto para eles, portanto, mais barato, depois um bom conjunto, tanto que não sei se sabem, mas o Hi-Fi está, lançou agora um single, um CD, já está pronto, já o editaram. E o Hi-Fi é aqui de Travanca. O Hi-Fi é daqui, os donos são daqui, conheço-os bem, amigos até. E há cá outro, há cá outro conjunto, mas ainda não sei como é que aquilo funciona, ainda não o vi tocar. E o Hi-Fi, como é daqui, é um conjunto de fama, um conjunto que se vê várias vezes na RTP, já várias vezes, é um conjunto que já ouvi alternar com os Alafum nas Termas de São Pedro do Sul, portanto, era os dois grupos a fazerem a festa, e é assim, então eles quiseram ter um Hi-Fi aqui, escolheram o dia mais barato, foi a quinta-feira, mesmo assim, salvo erro, levaram 5 mil euros, 5 mil euros é para montar os palcos. E depois tem, tem os TZ’s e os Repúblicas e os AS’s e não sei quê, mas normais, como é aqui, não é. Eu curiosamente fiz uma vez a festa daqui, festas religiosas fiz várias, festa de arraial fiz 2 vezes, 1 vez quando a fiz não estava cá, quando a fiz era reitor, depois fui fazer uma época à Alemanha, uma época, uns meses, fazer lá umas calçadas lá dentro de uma prisão, atenção não estava preso eu, não estava preso, fui lá fazer uma nova prisão que eles fizeram e então arranjaram pessoal daqui e eu fui para lá, eu e um filho meu e mais uns moços daí e tal tal, e eu nessa altura estava, era o reitor da festa e não estive cá, esteve um outro filho a fazer o meu trabalho, que remédio, e outra vez, a primeira vez que fiz…Mas nesse ano quando fui à Alemanha, tivemos cá os Xutos & Pontapés, tivemos cá os Xutos & Pontapés nessa altura. E a primeira vez fizemo-la aqui, aqui atrás naquele largo onde vocês viraram, aquilo era tudo largo, não havia lá nada, foi ali que nós fizemos a festa. E tivemos cá um ilusionista, tivemos cá fadistas, tivemos não sei quê, não sei quantos, tivemos fogo preso, fogo do ar, chuva de ouro, uma série de coisas que, é assim, olhe um dos artistas que cá esteve nessa altura foi o falecido António Albernaz, morreu há tempos, há-de haver, quê, meio anito. Esse rapaz esteve aqui, esteve cá ele, esteve cá a Lúcia Ferraz, esteve um ilusionista lá de não sei quê, lá desencantaram aquilo no Porto vieram com aquilo para cá, pronto. Sei que fiz duas vezes as festas pagãs e fiz duas vezes a festa concorrente, ora a festa da Senhora das Candeias, fiz as festas do Rosário, fiz 4 vezes as festas do Santíssimo, enfim, olhe eu sou um homem de festas. Fiz 2 mandatos como secretário da Junta, fiz 1 mandato como presidente da Assembleia de Freguesia, fiz um mandato como deputado municipal, fiz mais o quê, pá, mais o quê, uma série de coisas, já nem sei o que é que fiz mais, fiz tanta coisa, tanta coisa, que é assim, olha agora os outros que façam que a minha vez está feita, já fiz tudo, agora façam vocês.

45:36 [Tempo que esteve fora de Bodiosa] Primeiro tropa, primeiro tropa e naquela altura ninguém podia escapar da tropa. Naquela altura, menino, se tivesse que meter um pedido ao Salazar, o Salazar dizia assim ‘eu não, eu com uma penada, tenho cá os homens que quero, portanto vaia para ali, vais trabalhar para lá’, era assim. E pronto, eu saí daqui quando fui para a tropa, e depois fiquei por lá, fiquei a trabalhar em Moçambique. Quando regressei fixei-me outra vez em Bodiosa, fiquei por aqui, a trabalhar por aqui, depois primeiro como tinha uma fabriqueta de artefactos de cimento, depois meti-me a fazer aí umas obras de pavimentação de calçadas, fiz várias, em vários lados, algumas memoráveis até e depois tinha em vários, tinha no concelho da guarda, concelho de Pinhel, fiz em vários lados, fiz aqui no concelho de Viseu bastantes. Curiosamente, fui fazer uma às Termas, às Termas de São Pedro (do Sul), mas essa era particular. E fiz assim muita coisa por vários lados, e depois começou, isto começou a dar para traz nas construções, começou a vagar, começou muita gente a trabalhar no mesmo ramo e eu então apanhei um furo, camionetes, fui para as camionetes e prontos, fiquei, fiz motorista internacional e andei por lá 15 anos agarrado à roda, conheci a Europa toda, conheci quase tudo, quase tudo, conheci muito alcatrão, muito alcatrão, mas tenho saudades daquilo, tenho saudades. Espanha fazia de olhos fechados, Espanha, França, Itália, minha bela Itália, tenho tantas saudades daquilo, bela Itália, Milão, Turim, Bréscia, Bergamo, Padova, Venezia, Belluno, Trieste, Udine, Padova, Mantova, Firenze, Roma, de Roma para baixo pouco, até Roma fiz bastantes, Genova e aquela zona toda por ali abaixo até Roma, fiz ali ao lado de Roma, Anzio e Aprilia, fiz ali algumas ali ao lado, fui a Assis 2 ou 3 vezes, e dali pra baixo, de Roma para baixo, fui 1 vez a Bari, 1 a Cosenza e 2 a Nápoles, mais nada. Agora o Norte de Itália a palmo, conheço aquilo a palmo. França conheço razoavelmente bem, fiz lá muita coisa em França, trabalhei também, trabalhei, fiz, trabalhei motorista, Luxemburgo, aquilo é fácil de conhecer, que é pequenino e a gente quando chegar lá e quiser uma informação vai ter com o motorista e fala em português, os motoristas lá é quase tudo português, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Alemanha, muito, conheço muito bem Alemanha, Luxemburgo, Bélgica e Holanda conheço muito bem. Fui 2 ou 3 vezes à Inglaterra, a primeira vez, curiosamente, fui no comboio, não fui de barco, depois as outras já fui de barco, é bonita a viajem de barco, mas no comboio foi mais bonita, meti-me lá dentro, pus o camião dentro de um vagão e fui para uma carruagem que era só para pessoas, a gente chega ali, acenderam as luzes, olhava para o lado não via mais nada, só via as luzes que lá havia dentro, ia debaixo da água, não se podia ver nada. Começaram de servir uma refeição, quando acabou a refeição estava na Inglaterra, estupendo. Fui a outros países, embora não conheça tão bem, fui à Eslovénia, fui à república Checa, fui à Polónia, mais, à Dinamarca, à Suécia, já estive dentro de Estocolmo, no porto de mar de Estocolmo, para ir para lá para o porto de mar é como em Lisboa, tem que se atravessar a cidade, e ali foi a mesma coisa, eu não conhecia nem uma palavra, não conhecia a Suécia, nunca lá tinha ido, primeira vez porto de mar e eu fui lá ter, lá dentro, pronto, e é bonito, a Suécia é bonito, é, aliás, todos os países são bonitos. Quem tiver vagar e dinheiro para andar a passear, os países são muito lindos, mas eu digo assim muita vez, primeiro conheçam o seu país, primeiro conhecer Portugal e depois o resto. De vez em quando, nós damos aí umas passeatas, por exemplo, nós temos um passeio paroquial todos os anos e este ano andavam lá com a ideia ‘Ah não sei quê, vamos a penha de França, é um santuário ali em Espanha, ali ao lado de Salamanca, vamos a Penha de França, Vocês estão malucos ou quê? Primeiro vamos conhecer o nosso país. Olha, vamos lá para Guimarães’, e pronto, Senhora da Penha, pronto, para Guimarães, acabou-se. O ano passado foi para Senhora da Assunção, Vila Flor. É assim, a gente vai, já fomos ao Sameiro, já fomos a vários lados.

51:23 [Regresso a Bodiosa] Tinha 32 anos quando vim. Fui para lá com 20, 12 anos depois estava cá. Vim cá muita vez. Vim cá em 76, 77 fiquei cá, mas tinha 32 anos quando vim para cá. É assim, quando saí daqui as casas eram todas velhas, quando vim já havia casas novas. Já havia algumas casas, ‘mas isto não estava qui, aquilo também não estava cá’, eu hoje fazendo uma retrospetiva começo a dizer ‘se a minha avó, morreu há 55 anos, vai fazer 56 anos, não, 55, vai fazer 60 anos, ela morreu em 1955, vai fazer 60 anos em 1 de Agosto, curiosamente, tem um neto que nasceu nesse dia, no dia que ela morreu nasceu o neto dela, é o meu primo, mora aqui ao lado, e essa mulherzinha, punha-me assim ‘ quando a minha avó morreu’, a avó madrinha, morreu em 1955, se cá viesse hoje morria de susto, não conhecia isto. Quando ela morreu, Oliveira de Cima não tinha uma estrada, não tinha, não havia uma estrada aqui. Havia, depois fez-se mais tarde esta, por onde vocês subiram aqui, depois, e ficou assim uns anos, eu quando vim ainda era terra batida, era macadame. Curiosamente, eu andei ali 15 dias a ajudar os indivíduos a alinhar as valetas para entregar à Câmara, por conta de um empreiteiro e depois ficou assim em macadame, empedrada e tal, mas em macadame, aquelas estradas antigas que havia na altura, muitos anos, eu quando vim de África ainda estava assim. Mas era a única que tinham, depois foi-lhe posta uma camada de alcatrão, hoje já tem um tapete, embora já esteja rebentado porque, enfim, depois passa o saneamento, não havia ponta de saneamento, não havia nada, não havia água canalizada em lado nenhum, quando eu vim, já havia 2 ou 3 casas com água canalizada, quando eu vim de África. E depois fizeram-se o resto das estradas, quando eu estava na Junta fizemos esta daqui para Lustosa, depois mais tarde, acho que 2 anos depois, 2 anos ou 3 depois de eu sair da Junta, estive lá 8 anos, o presidente foi o mesmo, ficou o mesmo, ficou até o correrem de lá para fora, eu não, antes de me mandarem embora fui eu, e depois fizeram aquela daqui, lá de cima da capela, que vai ter a Oliveira de Baixo, vai ter lá baixo a Pinheiro Manso. E depois bastante mais tarde, ainda o mesmo presidente fez esta daqui, dali até às Vendas, até lá baixo às Vendas. Portanto, e já se está a pensar noutra daqui para o Casal, freguesia de Ribafeita, vejam bem como as coisas, já estão a pensar naquilo, ‘temos que qualquer dia fazer aquela’, então façam, com certeza, acho que está bem. O progresso nunca fez mal nenhum a ninguém. Agora, eu quando cheguei, quando cheguei cá realmente isto estava bastante mudado, estava, embora hoje esteja muito mais, mas já havia umas casitas novas, já, já havia umas casitas, embora a maior parte delas foram feitas depois. Esta é uma delas, não havia aqui nada, nem uma palheira aqui havia. Nem uma palheira aqui havia. Eu é que fiz a casa. O meu irmão já tinha a dele feita ali, baixinha, rasteirinha e tal, tinha ali uma casita. Depois fiz eu esta aqui, depois veio o meu cunhado fazer ali, depois fez outro ali atrás. Aquela lá em cima, a primeira em frente ao largo já estava feita quando eu vim, aquela já estava, e uma outra lá mais atrás. E depois foram fazendo, ainda gora, há-de haver, quê, um mês ou dois que acabaram aí de fazer uma naquele largo.[/hide]