Entrevista a Lucinda dos Anjos, em Gumiei no dia 19 de Março de 2015
Entrevista de Luís Costa
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Edição Audiovisual de Luís Costa
Lucinda dos Anjos relata um pouco da sua vida, a profissão que seguiu do seu pai, o casamento, o nascimento dos filhos e a sua vida religiosa.
00:54 [Alfaiataria do pai] A casa do meu pai até é uma que está a par com esta, no caminho, aquela alta, de pedra, é que era a do meu pai. Ainda lá está a porta da alfaiataria, que eu trabalhava costuras de homem. De homem e de senhora. Ele não me deixava muito, mas eu fazia de noite, eu deixava-o ir dormir e depois fazia de noite, à luz do petróleo. Antigamente não havia luz. A minha irmã também fez. Vinham lá, iam lá levar a casa, para a gente fazer. O meu pai foi tirar o corte ao Porto, foi tirar o corte ao Porto. Ele já sabia, já sabia e já dava para, ainda era solteiro, e depois foi ao Porto tirar o curso do corte ao Porto. Havia aqui uns alfaiates, sabiam pouco, que iam ter com o meu pai, que Deus tem, pra lhe talharem as coisas, pra eles fazerem. O meu pai é Frederico Rodrigues, parece que era assim, Frederico Rodrigues. Era de Covelas, não sabe onde é Covelas? Ai foram lá? Olhe que eu tenho lá terrenos. Tenho lá uns olivais das minhas filhas, está certo, mas este ano não houve azeitona, lá foram….Sim, foi à ponte? Quem fez essa ponte foi o pai do meu sogro. O pai do meu sogro é que andou a fazer essa ponte. Vai para lá para cima para Mosteirinho, Pinho, e por aí a fora.
03:02 [Infância] Eu passei sempre aqui em Gumiei. Pequenita e tudo. Pequenita e claro, olhe, pra lhe dizer também não sei ler, porque o professor que veio para cá chegou a minha casa e disse assim ‘Ó Frederico, eu quero que a Maria me cozinhe, que eu venho pra esta escola. E a pequena em estando na idade vai’, que eu ainda não tinha a idade. Mas quê? O meu pai ensinou-me a fazer as calças muito cedo. O senhor professor ‘Olha que a pequena este ano já vai. Ai senhor professor, agora não deixo, que ela faz-me muita falta. Não precisam de saber ler.’ Pronto, eu sabia os números, sabia tudo, depois pronto, fiquei assim. Pois era, mas eu já sabia os números todos. Números das calças, pra isto, a cinta e tudo, fazia, eu já sabia tudo o que havia. Mas ler, nunca fui à escola.
04:05 [Funcionários da alfaiataria do pai] Tinha rapazes. Olhe que vinham dois de São Pedro do Sul, sabe onde é São Pedro? Dois a pé, para cima e para baixo. Dois. E eram dois de Lamego. Esses de Lamego, como era mais longe, o meu pai, que Deus tem, arranjou lá um quarto num lugarzito fora da casa para eles. Tanto é, que até um deles, depois a minha irmã casou-se, foi para Oliveira de Barreiros, não sei se o senhor sabe, Oliveira de Barreiros. Foi para lá. Depois pediram ao meu pai para deixarem ir um alfaiate de cá. O meu pai, que Deus tem, deixou ir o que era de Lamego, um. Olhe ainda se lá casou, e casou-se e já morreu. Trabalhavam na costura. Na costura. Era na costura. Ai se tinha (muito serviço), se tinha. Credo. Ele (o pai) tinha isto tudo, as redondezas todas, de Bodiosa e aí tudo por aí a fora era só ele.
05:11 [Clientes vinham a pé] As pessoas vinham a casa. A pé, muitos a pé. Porque não havia. E eu fui muitas vezes a Viseu levar um fato, o meu pai acertava o fato bem acertadinho, tudo, dentro de um cesto, esses cestos que havia com asas vermelhas. E então eu ia daqui à estação de Bodiosa a pé levar essa roupa a um alfaiate onde está agora o prédio alto. Esse prédio alto era da família do meu homem, então ainda não era meu homem, não era, mas era da família dele. E então aonde está o prédio alto havia uma coisa baixa e onde metiam os cavalos e os carros porque não havia, era o que havia.
06:01 [Comboio até Viseu] Depois dali ia para o comboio. E depois chegava ali perto de, à beira da estrada, a última casa, mete-se assim depois um atalho, ali até há uma igreja, de Bodiosa, e eu punha-me a escutar, em conhecendo que ele que vinha lá, ai cum raio dava dois pulos. Quando me parecia que vinha. Ai muito burra, muito burra, e depois olhe, agora já não pulo nada.
06:30 [Batismo] (Fui batizada) aqui. Foi um tio meu que era padre, está, tive um tio padre que ordenou-se e esteve sempre na nossa igreja até morrer. Ele era padre Bernardino. O sobrenome não posso dizer. Foi sempre, esteve sempre aqui na igreja. Era tio do meu pai. Era irmão da minha avó. Eram 3. Era a minha avó, era um outro que era empregado na fazenda em Viseu, e então o padre. Pronto. Ai ele nunca saiu daqui. Vinha aqui dizer a missa e ia no carro de cavalos, que era, mais um irmão do meu pai, que o trazia. Ia daqui para lá, e ele tinha os diabetes, ia daqui para lá, o cavalo espantou-se, o meu tio caiu abaixo, partiu uma perna. Agora já tratam, não é, mas antigamente ninguém tinha isso, ia embora. Então aqui nesta casa que está, que é daqui, dali, que é do senhor doutor, que era muito amigo dele, disse para o meu pai ‘Já não temos homem’, disse mesmo assim ‘Já não temos homem’. Porque nesse tempo não havia remédios, pronto. Até que ele morreu e tinha dentes postiços e o senhor doutor dizia assim ‘Vamos abrir-lhe a boca a ver se ele mete os dentes’ e disse ‘Ouve lá Bernardino, vá, abra lá a boca a ver se você lhe põe os dentes, que vem aí gente para o ver, parece mal sem eles’, depois era para depois o levar. Pronto, morreu. Nunca saiu da freguesia. Estudou para padre, mas nunca saiu da freguesia. Nunca foi para lado nenhum.
08:27 O meu nome foi a minha madrinha. A minha madrinha é que me pôs esse nome, Lucinda Rodrigues dos Anjos. Pronto. Até ela, ela pertencia a São pedro do Sul. Há uma casa ali em baixo em frente a uma fonte, não sei se viu a fonte, há uma casa assim ao lado, vermelha, que tem assim umas coisas vermelhas, era do padre Ernesto, de Bordonhos, do irmão da minha madrinha. Olhe lá fica ali uma casa abandonada, não tem herdeiros. Morreram, pronto. É em frente à fonte, aquele prédio grande.
09:16 [Rezar] Não, a minha mãe é que rezava, o meu pai não. Ficava a fazer serão. As filhas era só eu e a minha irmã. Também (rezávamos). A minha mãe é que rezava, o meu pai não, porque o meu pai ia fazer serão até que horas, pronto. Agora a minha irmã morreu já muito cedo e morreu o homem, morreu ela e morreu o filho. Mas o filho já estava casado.
09:57 [Santos a que tinham devoção] Era o Santo António. É o Santo António e a Senhora do Carmo, aquela capelinha que está em baixo ao pé da fonte, é a Senhora do Carmo. Por acaso, olhe, a minha filha é na Senhora do Carmo mordoma este ano e a minha neta, que só tenho uma neta, é professora, mas é mordoma do Santo António. É em Junho e a capelinha também é em Junho. Sim, a capelinha pequenina também é em Junho. É a Senhora do Carmo. Aí é a minha filha e a do Santo António é a minha neta.
10:40 [Catequese] Fui, fui (à catequese). E a catequese era lá na capela. Era um senhor que dava a catequese. Nós tínhamos aqui tudo, a escola e tudo era tudo aqui. Tem lá uma escola agora tão grande, tão boa, para quê? Não há crianças. Não fiz escola nenhuma. Não porque o meu pai…Bem, a catequese eu ia aprender, que era à noite e um senhor que era lá vizinho ia lá trazer isso, aprender, tudo isso, aprendi tudo. Agora mais nada não. Sei algumas coisas, mas não, assim que casei, que agora já modificaram muita coisa, sabe. Mas ainda rezo. Olhe que eu venho para aqui e no fim de tomar o café de manhã, vou par a capela rezar pelos meus netos. Tenho só uma neta, que é professora. E tenho então 3 netos, 2 são polícias, já estão, um já é, como é que se diz, chefe ou qualquer coisa assim, polícia. Que é aquela casa que está ao pé da fonte, dentro de uma muralha, é do meu neto mais velho. Netas então só tenho 1, mas já tenho 6 bisnetas. Já tenho 6 bisnetas, é.
13:18 [Rezas à Santa Bárbara] A minha mãe é que fazia, dizia isso. Mas olhe eu nunca aprendi. Eu agora para dizer o que era não sei. Era, era.
12:54 [Trabalho desde cedo na alfaiataria] O meu pai fazia serão até que horas e depois ia dormir e eu já começava de trabalhar, enfiava-me na varanda, toca a fazer para as raparigas. Elas queriam as roupas, mas o pai não me deixava enfiar na varanda, tinha muitos rapazes. 2 de Lamego e 2 de São Pedro, e vinham a pé e iam. A pé. Ai santinho, tinha muito, muito, muito (serviço). Era uma coisa sem jeito. (Comecei a trabalhar) muito cedo. O senhor professor dizia, quando veio para cá, dizia ‘Olha que eu venho para aqui agora’, vinha de Pindelo, ‘venho para esta escola’ e eu era pequenina também estava a ouvir, e ele dizia ‘Quero que a Maria me faça o comer, que eu venho comer, e a pequena em tendo a idade vai para a escola’. O meu pai calou-se, não disse nada. Quando chegou esse dia já não deixou ir. Já fazia as calças. Antigamente aqui havia muita mulher, tinha 9 e 10 filhos, sabe, era muita coisa, agora não há, não há cá nenhum, garoto não há ca nenhum. Havia muito filho, havia muita mulher que aí vinha, tinham 10, 11, 12 filhos. E era muita coisa, agora não há.
14:26 [Tecidos] Tedilene e era o cotim, que era para coisa, e fazenda então, quando era fazenda era fazenda. Ai isso comprar traziam-nas, iam a Viseu. E aqui em baixo havia, onde está agora um café, ao pé dessa capelinha não era um café, era uma loja de fazendas. Até era de um tio do meu homem. Era de fazendas. E vendia muita coisa, vendia muita coisa. (O meu pai) comprava os forros que fossem precisos, ou assim. Ai às vezes ia a Viseu, ia. Mas ali tinha tudo, tinha tudo, nesse tempo havia tudo. Ainda conheci burel, ainda fiz capuchas, sabe o que é uma capucha? Ainda cheguei a fazer isso, de burel, que é. Havia aí um pisão, na Vouga, ali em baixo naquela, havia lá um pisão disso, e coisa, faziam. Eu não gostava de fazer muito daquilo, não, mas o meu ai talhava e dizia ‘Não, tu coses isto, coses aquilo’, pronto, olhe. Linho, linho também. Muita gente cultivava, cultivava. Havia umas mulheres que tinham uns teares, até havia lá diante no Outeiro que há aqui para lá, havia lá uma mulher que tinha um tear e tecia muita coisa dessas. Agora já tudo morreu. Era Maria do Céu, mas não posso dizer o resto. Ai camisas também. De linho. Outras tinham riscado, mas tinha aqui uma coisa e cor mais bonita, sabe, aqui assim, fazia. E tinha estas coisas de, batas para a canalha que andava na escola, tudo se fazia isso. Agora…
16:47 Havia 2 sapateiros e havia outro tamanqueiro. Mas já tudo morreu.
17:02 [Confeção de trajes para bodas] Também para batizados e tudo. Batizados era mais o crepe. O casamento é, às vezes era uma saia, outras vezes eram vestidos, era conforme queriam, sabe. Não (tinha de ser branco), era de cor. O meu pai fazia o casaco, talhava, vinha uma pessoa, queria-se casar, fazia-se, eu fazia a saia, o meu pai talhava o casaco e ajudava a fazer o casaco também, pronto. Oi, agora não. Antigamente era assim. Era saia e casaco, pronto, é o que era.
17:54 [Namoros] Olhe eu namorava um e era eletricista, não ouvia lá falar na Bejanca, ele era lá empregado na Bejanca. E depois subiu a um poste e o poste caiu com ele, e ele daí morreu. Ainda durou muito tempo, mas, se fosse agora era capaz de não morrer, mas naquele tempo, olhe, eu sei lá. Ele dizia, depois dizia então, o meu com que eu me casei, dizia ‘O Manel gosta muito de ti, mas olha, se eu morrer vais para ele, se eu não morrer não vais para ele’. Pronto, morreu. (O meu marido) era vizinho até, era vizinho. E o meu homem gostava já de mim, mas ele dizia ‘Não, se eu não morrer não vais para ele’. Eles eram até muito amigos os dois. (O meu marido) era Manuel Rocha dos Santos, esse é que eu sei. O outro era Jerónimo, o sobrenome não posso dizer.
19:12 (O meu pai) concordava, concordava. Até com esse que morreu ainda esteve na, ai que raça, ali a vender laranja em Viseu, que era no, não era no hospital, era outro. Esteve lá e depois até deixou-me ir mais a mãe dele, fomos lá. E até a mãe dele ficou, uma filha que ele tinha, ficou com a casa, que eu disse ‘Ó Maria compra a minha parte, compras a minha parte e a minha irmã vende-te a tua’. É uma casa que está a par com esta, do outro lado do caminho, toda de pedra, até lá está a porta da alfaiataria a pino, que ainda não tiraram. Partiram-na ao meio, sim, a casa é de 2 agora, 2 irmãos. E a outra está em cima e a que tem a porta tem casa, não vai para ali, pronto, está ali aquela casa aí.
20:23 [Marido] Ai, olhe, eu não queria, está a perceber, que ele depois, havia uns tios que foram para Fátima e deixaram-nos ficar, ele e uma sobrinha, mas a sobrinha era muito mais velha do que ele e era assim um bocadinho coisa, até era eu que fazia as roupas e tudo para ele. E quando deram conta ela andava grávida. Eu soube daquilo, fui a correr ter com uma tia dela, acolá em cima, e disse a ela ‘Ó tia, ó senhora Mariquinhas’, que eu fazia a roupa para ele, ‘Ó senhora Mariquinhas olhe que há isto assim assim. A Mariquinhas anda grávida. O quê? Ela era muito mais velha do que ele. O quê? Não diga isso. Diz que sim, vá lá baixo ver, vá la baixo.’ Lá veio a saber, tudo se ali arranjou. Foi, escapou. A rapariga nasceu, era uma rapariga. Nasceu. Até por acaso, olhe, está lá em minha casa.
21:29 Então o meu sogro desceu naquela em Arcozelo, não sei se sabe onde é, depois lá escolheu então aquela, que era morgada e que era muito rica. Lá casou com ela. Mas não sabia lá o filho que tinha. Olhe saíram, ela morreu com 44 anos, e deixou 9 filhos, sabe. Olhe que deixou 9 filhos. E todos morreram com a mesma doença. O meu homem não sabia que tinha, não sabia que tinha aquela doença, mas um dia andávamos aí numa terra aí em cima e ele disse assim ‘Vamo-nos embora, que eu vou ao senhor doutor’, o senhor doutor Albuquerque, não sei se conhece, tinha aqui o consultório e era o meu médico, o nosso médico. E então vamos lá. E então fui eu e o meu neto mais velho, aquele tal polícia, e a minha filha e todos quatro. Chegámos lá, o senhor doutor levou-o lá para dentro. Demorou muito tempo. Não vinha. Eu estava sentada. Ele chega pra cá para fora ‘Levante-se a cima. Pra quê? Levante-se a cima’ e eu levantei-me, claro, tinha confiança com ele. E até por acaso levávamos sempre, tínhamos sempre de dar sempre uma saca de batatas a ele, o meu homem é que dava aquilo. E então ‘Vá, vá-se embora mais o seu homem’, que era para dizer à minha filha e ao neto o que era que ele tinha. Que nunca se queixou e nunca se viu nada. E que era? Diz que tinha a próstata toda desfeita. Deu-lhe só 15 dias, disse ele, que lhe dera só 15 dias, disse a minha filha depois para mim. E esteve em casa uma semana, pra semana foi para o hospital, tornou a vir a casa, tornou a ir para o hospital, pronto. Ai olhe nem quero pensar.
23:24 [Casamento e família] Olhe aí é que eu não posso dizer agora (quando casei). Ainda era nova, ainda era nova. Mas já não sei. Esse dia foi um casamento assim à coisa, sabe, como ele estava coisa, assim viúvo e assim, foi assim um casamento, foi assim, 2 pessoas para ser testemunhas, pronto. Eu só tive 2 raparigas. Olhe só tive duas. Tenho uma que está, olhe até está em Viseu, tem um prédio em Viseu. Também era polícia, o homem também era polícia, mas está reformado já. E vão e vêm. Têm aqui muito terreno e tudo e vêm trabalhar as terras. Eu também disse ‘Ó meninos não deixem ficar a monte’. Não deixam. E então essa minha filha, a que está em Viseu, vai e vem. Agora a outra está ali comigo, estou com ela, a mais nova.
24:47 [Nascimento das filhas] Nasceram em casa. A primeira, a minha mais velha, estava cá uma senhora que era de, ai Jesus, que ela tinha cá uma filha que casou também e teve aquando a mim e ela veio assistir à filha. E depois assistiu-me a mim também. Era mesmo parteira germinada, ela estava lá no Algarve. E era mesmo parteira. E depois veio cá por outra vez à filha, mas eu andava grávida, mas andava mais atrasada. E ela depois chegou ao pé de mim disse-me assim ‘Mas lhe lá quem é que vem a si?’ e eu fui disse ‘Olhe vem fulana assim assim. Então chame-ma cá’. Chamei-a lá e ela explicou como devia ser. Realmente a mulher, já morreu também, fez-me tudo conforme ela fez a mim. Era só eu e ela. Assim como ela, também a outra. Mas a mais velha ainda nasceu aqui em casa do meu pai, a mais velha, a outra já foi mais longe. Porque eu moro ao pé da, onde está o passadiço, até tem lá uma porta vermelha, que é uma garagem, era a garagem do meu homem, agora é a garagem do meu filho, do meu genro, tem lá um carro. Mas o filho tinha um irmão, morreu de acidente de Viseu pra baixo, não tem vontade de tirar a carta. Já tem 24 anos. Está empregado em Aveiro. Está empregado em Aveiro, mas não há meio, ‘Tira a carta filho. Ó avó não diga isso’.
26:50 [Batismo das filhas] A minha filha mais velha foi batizada em Abraveses. Estava lá o tio padre, era irmão do meu homem e depois quis que o casamento fosse lá em casa dele, pronto, foi tudo lá. Foi daqui uma senhora, que até era minha comadre, pra cozinhar, para ajudar a minha cunhada. Olhe também já foi tudo embora. E levei-a então a ela para ajudar, foi lá o batizado. Agora a outra já foi aqui. Foi aqui em Ribafeita, mas não foi na minha casa, porque a minha casa tem coisas pequenas e tinha muita gente. E então o senhor professor gostava muito da gente, era o senhor doutor Carlos, que está em Viseu, o senhor doutor Carlos, agora. E a senhora chegou ao pé de mim ‘Você não se aflija. Tem a minha casa às ordens’. Eram 5 mesas de gente, naquele tempo. Depois veio lá uma senhora, era criada, ajudou, e falei com a minha comadre para ajudar à criada.
28:09 Fazia as roupas para ele. Era o senhor professor, ainda me lembra o senhor professor dali, que era o dono da casa, daquele prédio que está ali grande, de baixo, de pedra, tem uns feitios nas janelas, era dono dessa. E agora está só a senhora, está em Viseu, numa escola em Viseu. E, mas quando era o senhor professor, foi habituado a come em minha casa, dos meus pais, ficou sempre a gostar da gente.
28:56 [Santos Padroeiros da Freguesia de Ribafeita] E é uma igreja muito grande, é uma igreja muito grande ali a nossa, uma igreja bonita e grande. Ribafeita é a Senhora das Neves. Da igreja é a Senhora das Neves. Quando é aqui no Santo António, a procissão sai da capela, vem por aqui por aí abaixo, depois mete pelo passadiço para ao pé da minha casa, para cima. A gente bota as flores, pronto. E as colchas para as janelas. É festa, é uma festa. Tem música, tudo, é. A pequenina é a Senhora do Carmo. Olhe, tinha procissão, agora se fazem ou não, não sei, mas tinha. Mas é muito longe. Ir lá além ao cabo do povo, ir lá cima, é muito longe, Dizem eles, olha no ano passado não fizeram, digo assim para a minha filha ‘Olha se queres fazer, faz, não queres, não fazes’, que a minha filha é que é mordoma, mais uma que tem ali uma casa de 3 anos, é minha prima, são as duas mordomas, agora, até por acaso aos Domingos abrem-na, enfeitam-na e abrem a capelinha. Tem a Senhora do Carmo que está no oratório, não a tiram. Mas tem uma para ir no andor. Lá na capela em cima. A que está no oratório não sai, só levam a que está lá em cima na capela do Santo António. Está lá a Senhora do Carmo, está lá a Santa Marta e está o Santo António e a Senhora do Rosário. Aqui em cima (a Santa Marta) e a Santa Bárbara é lá diante, adiante, para ali. Havia muitas coisas. Agora, procissão não sei se fazem se não. Procissão faziam daqui para aquela de além, a Santa Bárbara, era muito longe, muito longe.
31:35 Saía daqui da capela até lá adiante, os senhores não sabem, lá diante? Não? É quem vai, quem vai para Viseu, está certo, depois há um caminho, mete por ali para a capela. Depois andavam a dizer que roubavam os santos e então foram busca-la, está ali na capela. E está a santa Marta também ali.
32:06 [Ladainhas] Ai ladainhas havia. Havia, havia. Isso ainda me lembra. Iam aos montes, aos montes. Coisas para pedir, era. É, é, faziam, mas agora já há muito tempo que não. Ai pois era (a pé), o padre ia na frente, no meio, era no meio, à frente iam os com a cruz e com as lanternas, e depois ia o povo atrás deles, depois ia o padre, depois as raparigas é que iam ao pé do padre.
32:59 Sabe, já morreu muita gente. Aqui agora tem pouca. Tem morrido muita gente, muita gente. Olhe a mais velha que cá está sou eu.
32:15 [Cantares] Havia cantares, havia. Também ainda fui, mas o meu pai não me deixava ver os ranchos. E a gente tinha que obedecer. Era, era destro e tinha, quer-se dizer que, deixava ir às festas, deixava ir á missa, tudo isso, às vezes até tocava o sino e ele dizia para a minha mãe ‘Ó Maria olha o sino a tocar’, que era para ela ir, pronto. Mas ele não ia. Tinha muito que fazer. Não ia. Ai ele tinha o trabalho e o trabalho, pronto. Lá levava fatos já feitos, outros para aprovar, olha lá ia, para a freguesia de Bodiosa.
34:23 [Feira em Gumiei] E havia aqui feira. Era (aqui neste largo). Lembro-me como era. Muita (gente), olhe, vinha dessa casa desse tal professor, vinha um senhor que era de Abraveses, já morreu, vinha todos os meses da feira com o carro carregado de coisas para vender ali na feira. Punha lá dentro para vender. E morreu no outro dia aqui, coitadinho, tive pena dele, que vinha com ele que era pequenito e eu, a mulher também veio com ele, e depois eu um dia vim para cima, digo assim ‘Então, então o Almiro? Ai já está morto, já está morto’, dizia a mulher, ‘já está morto, já está morto’. Coitadinha, chorava, chorava, ‘Mas não chore, não chore. Ele está no céu, deixe lá’. O senhor Nunes, chamava-se o senhor Nunes, de Abraveses. E vinha todas as feiras aqui. Carro carregado, mas vendia muita coisa, vendia muita coisa. Vendia peças, estendia as peças, e tinha coisas fora. Tinha, olhe, eu ainda lá tenho um edredom, que o trago lá na minha cama, que o comprei a ele.
35:45 Ai tinha, em primeiro tinha (animais). Depois deixaram. Ainda chegaram a vir aqui as de São Pedro com o arroz. Mas só cá vieram uma vez. Mais não, não quiseram. Porque os daqui, havia 3 lojas, não quiseram cá vir. Havia 3 lojas. Ai tinha (muito movimento), era a feira, era a feira.
36:10 [Trabalho a fazer roupa em casa dos Saldanha, noutras casas particulares] Essa casa grande que está aí, dos Saldanhas. Havia um em Abraveses, era irmão, e aqui era este. Agora, olhe, a casa, uma casa que está enorme, trabalhei lá muito. Ela pedia ao meu pai para me deixar lá ir uns 3 dias por semana. E ele ia lá muitas vezes e lá ia eu fazer e depois o meu pai não queria, e ela, mas ela aí não, ‘Deixe-me ir lá os 3 dias pra mim’, pronto. Depois veio outra também pedir, depois veio outra, olhe. (Fazia) roupa, para elas. Olhe, a dona, ainda morreu nova, tem um cemitério muito indo lá em baixo, umas campas que ela fez, mandou fazer, e andava para se casar. E ela pediu ao meu pai para me deixar ir lá 3 dias por semana, fazer o enxoval. Fiz o enxoval, rua, outro lugar, e não quer saber dela. E ela, coitadinha, chorava, chorava, chorava. E eu ‘Ó Dona Luisinha, não chore menina, não chore. Ela chorava, chorava, tanto que morreu nova, por causa disso. Solteira, solteira. E a casa agora, agora calhou ao filho de uma irmã dela. Esse senhor está no Porto, veio cá, aqui, no outro dia, estiveram lá. Eu disso olha a casa grande, a gente até diz ‘a casa grande’, é muito grande, aquilo é uma coisa enorme, é o casa grande, é o casa grande, pronto. E então ela veio cá pelo Natal, mais umas pessoas que eram de família, lá de família da mulher, mas está no Porto, está aqui tudo fechado. Uma casa daquelas…Ai, credo, uma casa enorme, com 2 andares, tem uma, você entra numa coisa, tem duas escadas, uma por cada lado, grandes. E então havia, não havia luz nesse tempo, eram candeeiros pelos corredores fora.
38:24 Ai muito (respeitada). E aqui, aqui isto aqui era do senhor doutor, era do senhor doutor. Também cá vim fazer serviço e ele, havia cá 2 senhoras, era mãe e filha, e o meu tio padre era muito amigo dele, e o senhor doutor veio para aqui, mas não lhe deram aqui casa, foram para casa do meu tio padre. E o meu tio padre, como era muito amigo dessas senhoras que estavam aqui, vinha todos os dias cá, arranjou casamento com uma, com a filha. Pronto, e de quê? Já lá vai mãe, já lá vão os filhos todos. Tinha 3 filhas e um filho. E um dia eu vinha para cima e a mais velha ia para baixo, era doutora, já era doutora, e eu fui assim ‘Ai que linda doutora aqui vem’, diz ela para mim ‘Então eu estou bonita? Então não está, ó senhora doutora, você está linda, linda, linda mesmo’, quando ela me tira o chapéuzinho, sem cabelo nenhum, cancerosa também. Já morreram todos. Agora é assim, a casa foi para aqui, foi para aqui. Até deve ser esta parte também. Deve ser isto. Foi pena.[/hide]