Entrevista integrada no projeto “Pedras Faladas: Memórias Geológicas de Bodiosa”, uma homenagem às pessoas concretas que estiveram e estão ligadas ao universo geológico desta freguesia do município de Viseu.
António Bento é um dos herdeiros dos antigos mestres da pedra de Bodiosa. Começou a trabalhar ainda nos tempos de escola primária, com o ofício de servente ou, nas suas palavras, de “pincha” (velha palavra beirã etimologicamente ligada à raiz latina “pinso[are]” que significava dar golpes para derrubar muros ou muralhas), aquele que chegava aos “artistas” as ferramentas como o ponteiro ou o pixote (ponta de ferro usada para abrir pequenos furos nas pedras ou para as dividir a partir das fendas) ou que, no final do dia, às vezes sozinho, tinha que contar as ferramentas para que nenhuma faltasse e ainda tinha que as levar para o afiador ou ferreiro, como o Ti Carlos Roseiro para que este à noite afiasse os picos para a manhã seguinte, muitas vezes com os serventes a ajudar, dando ao fole na forja artesanal.
Do árduo ofício de operário de pedreira faziam igualmente parte ferramentas como a maceta ou martelão que pesavam entre três e oito quilos e se usavam para bater nos pixotes em lugares estrategicamente posicionados para abrir a rocha por onde se pretendesse. Depois de rachada, a pedra começava a ser desmontada a golpes de pico e com o esquadro garantia-se que ficava à esquadria e preparada para assentar onde fosse necessário. Para tombar as pedras para o lado eram precisos vários homens e muitas vezes tinha de se usar alavancas com cordas, dado o enorme peso das mesmas. De entre vários ofícios ligados à pedra, António Bento trabalhou também como calceteiro, tendo descrito as técnicas de assentamento da tradicional “calçada à portuguesa”.
Entrevista a António Bento de Travanca de Bodiosa, Bodiosa a 24 de Março de 2015. Entrevista e Transcrição da Entrevista de Susana Rocha. Registo e Edição audiovisual de Nely Ferreira.
00:15 [Enquadramento em Bodiosa] Já cá vivo desde sempre. Até agora, pronto, 66 anos, 67.
00:25 [Primeiro trabalho] O meu trabalho, olhe, ainda andava na escola, já ia com ferramenta às costas para o trabalho. Era de manhã cedo até à noite. Era de sol a sol, pronto, era assim. Vinha às vezes ao meio-dia, ou assim, ainda ia às vezes aos meios dias lá para baixo para as pedreiras, lá para fazer umas pinche, era pinche, andava a chegar, servente, pronto, chegar o material aos profissionais, aos pedreiros.
00:58 [Servente na pedreira] O servente fazia de tudo. Era chegar, por exemplo, precisava de um pichote, ou do ponteiro, ou de qualquer coisa que fosse preciso, ou até ir buscar bebida para eles beberem, a água, e era assim, e depois pra de vez em quando contar a ferramenta se estava toda certa ou não, que é pra depois quando fosse para vir embora, quando viesse os pedreiros embora, ficava lá o pinche a arrumar a ferramenta sozinho. E depois ver se estivesse tudo, se não estivesse tinham que andar lá depois a mexer, la nos cortes, onde cortavam a pedra, pra ver se encontravam aquela peça que faltava, era assim. Depois à noite trazíamos a ferramenta, trazia a ferramenta à cabeça, até às vezes numa saca e íamos com ela para o afiador, chamávamos nós o ferreiro, para afiar os picos. De manhã cedo, às vezes 4, 5 da manhã, lá íamos, estávamos lá, tocar o fole ou a ventoinha, conforme usavam, também antigamente havia um fole. Depois deslocávamo-nos com eles outra vez para a pedreira outra vez para ao pé deles, para eles começarem a trabalhar.
02:11 [Ferramentas de trabalho] Sim, e havia o pico depois para picar a pedra. E havia um martelão, como a gente chamava, o martelão, ou uma macetazinha mais pequena, uma marreta, com 7 quilos, ou com 8 e com 3 ou 4 ali mais coisa, para bater nos pichotes para abrirem a pedra, fazia os buracos com o ponteiro, com a maceta, depois metia os pichotes e depois de cortada, a gente quadrava-a, punha-a toda em esquadria mais ou menos e depois começávamos a trabalhar com ela ao pico, a desmontar a pedra, para ficar a pedra preparada para assentar. O pichote era uma coisa mais pequena, tinha o bico um bocadinho mais ao esmurrado, que era para depois, para firmar na pedra. E o ponteiro era bico aguçado, que era para fazer o buraco para meter o pichote. E o pico era a peça que era enfiada num rabo próprio, de madeira, para desmontar a pedra, para a picar.
03:17 [Manutenção das ferramentas de trabalho] Tinha cuidados, eles tinham, por exemplo, chegava-se ao fim do dia e a peça já estava um bocado rompida da pedra, era a tal peça que vinha depois pra, alguma ainda aguentava até ao outro dia um bocado, para ir fazendo alguma coisa mais…desmonte mais…e depois vinha para afiar outra vez. E era, tinha outro cuidado, às vezes ao pegar no pico, fosse para a gente tombar a pedra para o outro lado, para às vezes virá-la de outra face, começávamos do outro lado, tinha as faces todas, púnhamos num sítio onde não desse cabo do, caísse uma perna por cima, partisse o rabo do pico, ou do martelão. Às vezes quando era no Verão, às vezes até quando vínhamos almoçar, ou assim, deixávamos ficar num coiso com água, às vezes ficavam soltos com a própria temperatura. Outras vezes não havia outro meio, era uns fios de uma giesta metidos por baixo por o olho do pico, ou do martelão, para firmar, ou uma solazinha própria, para firmar, era assim.
04:25 A ferramenta em grosso, por exemplo, os ferros, as alavancas para depois tombar as pedras, era o esquadro, era para fazer a esquadria e pichotes, ponteiros, isso ficava tudo lá na pedreira. Arranjávamos um buraco próprio, para os agachar, para não ficar visível, que passasse alguém para as lavrar, mesmo assim às vezes ainda lá faltava peças. Os picos, os que ficavam lá para o outro dia e era assim, tínhamos que proteger essa ferramenta. Só trazíamos para casa era o guarda-chuva se estivesse às vezes o tempo de chuva, e ficava lá o resto, ficava lá tudo, não vinha maia nada para casa.
05:10 [Ferreiro, onde se afiavam as ferramentas] A gente deslocava-se de lá para cá e por acaso era mais aqui, na chamada, atravessar o rio, a gente antigamente aqui era Travanca Grande e Travanca Pequena, agora já não se, já, pronto ainda há, há aí documentos que ainda, por exemplo a energia elétrica ainda vem fatura Travanca Grande e Travanca Pequena, e outras coisas. Mas íamos, cortávamos ali para ali a casa de um senhor, que chamavam-no o tio Carlos Roseiro, afiava-nos essa tralha, no meu tempo, esse material, era assim. A gente deixava lá ficar às vezes à tarde, à noite e as mulheres iam buscar, aquilo é mais a falecida, a mulher dele, às vezes afiava a ferramenta, nós íamos lá busca-la, às vezes tinham que estarmos lá presentes para ajudar a aquecer a forja, era assim. Depois tornávamos de manhã para o pinhal outra vez lá para longe, lá para os Paranhos, essas zonas.
06:08 Aquilo era metida num, por exemplo, quando era uma forja, aquela forja de fole, que era um pau e tinha aquele, aquela manga de coiso, um fole mesmo e os picos metiam-se em cima duma coisinha própria que tinha, enfiavam-se ali de bico, depois aquilo descia, vinha mesmo em brasa, depois é que eram pegados com uma própria peça que era daquelas de ferro, às vezes até com um bocado de, dum chapéu desses que só usam aquilo os velhos, chapéu de cabeça, pra não queimarem as mãos, e punham e depois com a maceta, uma mão, outra a bater, para os afiar. Depois molhavam-se na água, que era para temperar a peça. Já tinham aquele tempero certo que é para aguentar a pressão, a força da pedra, porque é muito rija, podia amassar ou partir, tinham aquela temperatura já feita para isso, aquela tempera, era assim.
07:10 [Caminhos a pé e à noite] Tudo a pé, tudo a pé. De noite às vezes até tropeçávamos pelos carreiros acima, aquilo não se via, e à vinda para baixo na mesma. Era escuro, era mesmo escuro, mesmo, só se arrumava a ferramenta ao escurecer, não era como agora no tempo agora moderno, que iam cedo, iam às 8 horas, ou assim, não, na altura era mesmo cedo, era a ver estrelas, viam-se estrelas, é verdade. Não saíamos dali enquanto não estivesse que não se pudesse ver, a gente às vezes vinha por o caminho abaixo, já quase que nem via. Quando era dias de Inverno, assim era complicado, escuro era mais complicado, quantas vezes, ia sempre assim, por causa dos lobitos, quando era novo.
07:49 [Pedreiras] E, bom, andávamos ali naquelas pedreiras, havia várias pedreiras, havia aqui, outra aqui para o lado, chamam a Gonta, e mais assim, aqui mais perto, aqui Oiteiro da Guia, que foi onde saiu a pedra toda. Aqui pouco trabalhei, aqui, esta já foi já muito depois, mas o trabalho novo foi tudo lá para cima, lá para o lado dos Paranhos. Depois aqui, mesmo este oiteiro que está aqui, que é o Oiteiro da Guia, a maior parte da pedra saiu daqui, saia o propianho, saía o rachão, saía alvenaria, era assim, brita, era tudo o que saía daqui. Por exemplo, a ferramenta ficava no trabalho, na pedreira, ficava tudo escondido, não era, a gente já tinha lá um buraco próprio para isso, às vezes até mudávamos de sítio, que era para não…pronto e arrumava-se. Às vezes só se trazia, alguns às vezes traziam uma maceta daquelas redondas para afiar o, bater o pichote, os ponteiros, mas a maior parte ficava sempre lá. A ferramenta ficava quase sempre lá toda escondida. Só deslocávamos a ferramenta quando era pra afiar, para a trazer para o ferreiro e, depois, depois de afiada, tornava para lá para o trabalho. Era sempre à noite para cá para lá, pra cá e de manhã cedo estávamos lá à hora lá no trabalho, ainda com tempo ainda coiso, pra depois começarmos a trabalhar, já o dia começar a aclarar um bocadinho, não é, a gente também picar uma pedra, por causa daqueles calços que saiam, iam para os olhos, iam para as vistas, era complicado, quantas vezes, durante o dia, era assim que se trabalhava.
09:33 [De servente a profissional da pedra] Depois comecei, depois começaram-me a por, deixavam-me uma pedra começada e depois, já meia feita, faltava só a parte do desdobre, que era o que faltava, para desdobrar. Deixavam ficar aquela parte ali em bruto e eu chegava ali, começava a ir a eitinho, começava a ir mais ou menos, depois começavam a saber desempenar a pedra, que a pedra metia-se uma tirada, quando comecei então a desbastar mesmo a sério, por a pedra completa, metia-se uma tira e outra tiradazinha na pedra, por exemplo era este comprimento, botávamos aqui uma tiradazinha, mais ou menos 10 centímetros, que era a mestra, que era para depois a gente desempenar. Púnhamos a régua, púnhamos em cima da perna assim, a desempenar, risquinho nesta ponta, outro naquela, a gente pegava na régua, riscava. Depois era dali desdobrada, martelada com um martelão, mas era tudo trabalhado a pico, para ficar sempre certa. Era assim, começávamos a pedra na face, depois no leito, depois mesmo nas juntas, depois virava a pedra para cá, tornava a fazer outro leito, depois é o final, do desdobro, o final da pedra era a parte de outra face de lá, a última, ficava a pedra toda quadradinha, com as quatro estrias, esquinas vá, vá, são 8, vá, mas era assim. Depois comecei, pronto, já era profissional de trabalho na pedra, pronto, já trabalhava, já cortava, já, pronto, já fazia tudo o que pertencia à pedra fazer, era assim.
11:07 [Desempenar a pedra] O desempenar era isto, pronto, uma pedra tem 1 metro, não é, tem 40, e tem 25, de grosso, não é. A gente, por exemplo, a gente quadrava a pedra, deitada consonte está, como se estivesse em bruto, ficava mais ou menos já feita, quase já quase toda em esquadria, e depois a gente levantava a pedra, assim a meio tombo, como um lavadoiro, mas mais um bocadinho. Metíamos uns calços da pate de trás, umas pedras, ela ficava ali assim. E a gente riscava, a pedra se apanhar esta ponta com esta, se tivesse aqui um buraco apanhava mais um bocadinho para diante para disfarçar o buraco, está a perceber, a gente metia-lhe aqui assim depois a régua e cortávamos assim na pedra, para fazer uma tiradazinha, que é uma esquadria própria, que é para depois virarmos a pedra ao contrário para trabalharmos até àquela esquadria, depois a gente virava a pedra, picávamo-la bem picadinha, metíamos-lhe a régua em cima, ficava certa nas duas pontas, desde que não fazia lomba no meio, ou vaga, ficasse certa consonte está isto, sem fazer buraco nenhum ou lombo, depois virávamos então a pedra dali para cá, na mesma posição, mas a tirada já virada para baixo.
12:23 A gente metia a régua das pontas salientes para o lado, que era para depois a gente ver a face, a parte da pedra. A gente punha-se aqui assim, ela estava assim, a gente punha-se assim a olhar, olhava para ali para aquela régua e para aqui para a ponta da pedra, mas não podia mexer, era com aquela…e dali dava aqui assim, via mais ou menos se estava mais ou menos, riscava com um riscote próprio que a gente tinha, às vezes com um bocado de uma de uma tijela, chamavam uma tigela da resina, que ela partiam, partidas, riscávamos aqui assim e riscávamos dali, mas sempre a vista fixada nas duas pontas da régua para olhar, e depois daqui, este risco estava aqui, a gente via que estava mais ou menos a cobrir o, a pedra vai ficar direita, a gente pegava na régua, metia-a em cima, como a gente faz num lápis, fazer isto, para fazermos o risco direto, e riscávamos e depois dali era martelada à face e de lado, depois começávamos a desmontar a pedra, a aparelhá-la por aí a fora, sobre a tirada, para ficar mais ou menos certa, para ficar toda desempenada, para não ficar torcida de um lado ou de outro, era assim. Pronto, aprendi assim e era assim que se trabalhava, pronto, na altura da pedra, era o que eu fazia.
13:49 [Trabalho nas calçadas] Agora das calçadas era, depois já foi mais tarde, já trabalhei mais uns anos lá também nas calçadas. Comecei também a fazer serventia. Posso falar agora nas calçadas, não? Comecei a fazer serventia também nas calçadas, andava lá com um tamper a passar a pedra pro pessoal. Andavam lá os calceteiros, 4 ou 5 calceteiros, eu chegava ali, preparava a caixazinha mais ou menos, com a ajuda deles também às vezes, lá ia buscar uma carrada de, um temper de saibre, que é um saibro não sei se sabem que é saibro, é tipo barro, que há, por exemplo, a gente vai surribar um terreno e sai aquilo amarelado, não é? Não é terra preta. E espalhávamos, depois levava um bocado de areia por cima, como calhava e chantávamos e então, pronto, deixava ficar, ia buscar pedra, carregava pedra, chegava ali descarregava, ia buscar outra. Depois cheguei a um ponto comecei a andar a fazer umas valetazinhas, tirar os pontos, aí 50 por 50 ou 60, uma fiadazinha, depois fazia a valeta. Comecei a ir, comecei a ver, comecei a fazer então, assentar bem pedra, assentar calçada, afiar.
14:54 Tanto era em espinha, como era em arco sobreposto, ou em redondo, era assim, com aqueles desenhos, quando foi pra chegar às pontas já foi mais um bocado difícil, eu estava habituado só a trabalhar na, a fiar de corrida e depois em espinha, quando era em desenho já era mais complicado. Depois lá comecei e, pronto, não vou dizer que era um grande profissional, trabalhava junto com os outros e fazia o meu trabalho, era assim, nas calçadas, era isso.
15:27 [Aprendizagem do ofício] A gente via. Agente via porque eu também trabalhei algum tempo, a maior parte do tempo, essas coisas quando aprendi foi junto com o meu pai. E quando era novito, como eu estava a dizer, quando fui para servente, foi para ele, a gente chegava a trabalhar para ele e para o patrão dele, que era um senhor daqui, que já faleceram todos. E comecei também depois a ir e o meu pai começou ‘pronto agora tens uma pedra, vais desmontar a pedra, vais desdobrá-la’, a gente chamava desdobrar, que era tirar o último dessoube das tiradas, pronto, era as primeiras coisas mais responsável eram eles. Pronto, comecei a aprender a desmontar a pedra, a desdobrar, comecei a ir, a ir, a ir, comecei a estimar como é que se vai fazer, comecei primeiro depois a saber como é que se desempenava a pedra e, pronto, daí para a frente já sabia como é que se trabalhava a esquadria. O esquadro metia-se numa ponta, por exemplo, daqui, para cortarmos a junta com a outra parte da pedra daqui, tinha que se meter o esquadro aqui assim e depois com o esquadro também fazer a parte direta pra não ficar a pedra, pra ficar certa e riscávamos, depois ficava assim certinho para ficar a pedra toda com as faces todas feitas. Comecei dali assim, comecei a aprender a desempenar, a pessoa sabendo desempenar e sabendo pegar num pico já faz tudo. Foi assim que fiz, foi com auxílio do meu pai, na altura, e também via nas outras pessoas que andavam lá, vários idosos também, não é, é assim, que trabalhavam até velhos, até assim a uma certa idade, era era.
16:52 [Falta de quem continue o ofício] O que é que agora a mocidade não quer nada disto, num raio destes 50 anos pra trás não sabem fazer nada. Nada, não querem, não querem seguir a profissão, não era dizer que fosse muito pesada, era complicada. No Verão aquilo era calor ali, mas que era a gente movimentava o corpo, os braços acima, depois ‘vais puxar aqui, ajuda aqui’, virávamos a pedra para o outro lado, vinha outro ‘vai-te juntar ali’, ajudávamo-nos uns aos outros e às vezes quando era com os buracos tirar a pedra cá para fora e a gente ficava os pés da parte de trás, às vezes escorregávamos, aquilo era um problema. E quando às vezes não ficavam os dedos por baixo das pedras….E é assim a vida de pedreiro era complicado, pá. Pedreiro, os que trabalhavam na pedra, agora também quem não soubesse desbastar uma pedra, também não a sabia assentar, porque quem souber desbastar uma pedra também a assenta, sabe como é que ela há-de ficar, não é, fica um bocado mais às vezes, há outros artistas, que fazem esse trabalho melhor, porque também se deve assentar como deve ser, não é de qualquer maneira, tem que se travar as juntas, pra não ficar a junta aberta, não é, como está aqui assim, a pedra disto assim. E era assim o tempo, o meu tempo era assim e os antepassados também era na mesma, não é. O que é que depois para o futuro já não há nada pedreiros. Os pedreiros novos que cá há, poucos ou nenhuns. Agora, mas há muitos da minha idade e mais velhos, ainda há alguns, e trabalham nisso ainda, nesse ramo muitos.
18:24 Fui para as calçadas, depois tive problemas, também andava sempre abaixado, começou também a ter problemas de arritmia, uma coisa e outra e eu então deixei ficar o trabalho, pronto, pedi até na altura reforma de invalidez, não ma quiseram dar, então ia por antecipada, prejudicaram-me, mas pronto, mas foi melhor, senão já estava debaixo da terra há muito tempo. Ainda aqui estou. E foi assim a minha vida, vá, agora há algumas coisas mais que eu não estou bem…
19:02 [Diferentes locais onde trabalhou na pedra] Bom, eu trabalhei, o meu primeiro patrão, pronto, trabalhei para, pra onde foi pinche, fui trabalhar para um senhor que também já faleceu, que era serventia, por intermédio lá do meu pai, levou-nos para lá para nos tirar às vezes das borgas, uma coisa e outra. Depois trabalhei para vários patrões, agora também primeiros, trabalhei para um que era, também já faleceu, por azar até ainda sonhei com ele hoje, esta noite, com esse senhor, que era chamavam-no, que agora é da Embeiral, não sei se conhece ali aquela firma que está aqui da Embeiral, tem as bombas, mas na altura era o António Lopes do Carmo, que era pai e filho, depois passou a Ramos e Marques e comecei aí, depois comecei a andar por outras firmas aí, pra um senhor que também já faleceu, trabalhámos aqui, depois fomos para Pinheiros de Tabuaço. Aí ainda fui solteiro e fui. Depois é que comecei também a trabalhar aqui pra um chamado também Manuel Mendes e cunhado. E mais, mais, é assim.
20:07 [Salário] Ai na altura, no tempo do meu salário, quando era no tempo do meu pai não sei, que eu não via o dinheiro nem sabia quanto é que pagavam. O que eu sei é que depois também fui trabalhar ali pro lado, primeiros trabalhos fui trabalhar ali para o lado de Vilharigues, não sei se conhecem Vouzela, na altura aquela estrada que estava feita quem vai pro castelo, ali naquela zona quem vai para Ameixas, andei lá a medir brita, partida numas caixas de madeira, pra depois empedrar, pra por nas estradas, com forquilhas, na altura tudo à mão, fui para lá ganhar 7 escudos, 6 ou 7 escudos na altura, foi nessa altura, e dormia até, tive alturas que dormi lá em cima de uns molhos, de umas morganiças, que chamam aquilo para depois o gado roer, num curral de cabras, é verdade. Foi lá acho que foram 6 ou 7 escudos, não estou bem certo, depois comecei a trabalhar aqui na área, comecei a ganhar aos 22, 25, cheguei depois aos cento e tal escudos. Depois pronto, depois comecei a ganhar ao mensal, foi até quando fui para o falecido Lemos, 4 contos e meio e acho que não…depois agora para o final já ganhava 800 e tal euros, 900, ou que era, nas calçadas. Pronto, mas agora não trabalho, pronto, não tinha possibilidades de trabalhar mais porque, possibilidades não, a saúde não permitiu, pronto e estou aí, até estou a ser prejudicada, na reforma. Pronto, agora não faço nada, vou lá, ando para as terras, a ajudar lá a fazer algumas coisitas, uns caminhozitos, planto umas batatitas, umas cebolitas e assim. E comer e beber. É assim.
21:50 [Tarefeiros] Ai aqui isto, estas pedreiras aqui, chamam aqui Oiteiro da Guia, aqui esta zona toda, Paranhos, lá de Oliveira de Cima, aquelas pedreiras todas, pro lado da Gonta, quem vai para Lustosa, a gente na alturas aqueles que trabalhavam nas pedreiras era quase tudo tarefeiros, trabalhavam por conta própria, está a perceber, quase tudo tarefeiros, havia alguns que trabalhavam numa firma ou duas assim aqui para cima, mas era quase tudo tarefeiros, por exemplo, eu tinha 2 ou 3 empregados ou 4, era uma junta, chamavam aquelas pessoas assim era tipo tarefeiros, a gente depois daquela pedra iam lá empreiteiros, por exemplo, buscar a pedra com um camião e levavam-na e pagavam x por metro cúbico da pedra, mas era tudo, e os novos lá não apareciam naquela altura, eles fugiam, que era só sentiam picos a trabalhar aí pumba até de noite, sempre. Era tudo cheio de pessoal aí por aí acima, era mui, muito, muito pedreiro a trabalhar. Esta zona aqui de Travanca, daqui da zona foi, de Bodiosa, foi a zona da pedra. Até vinha pessoal aí de Vila Nova pra cá trabalhar, de Oliveira de Baixo também para cá, porque a zona era aqui esta zona assim, aqui já era, era aqui no tempo do minério, era volfrâmio.
22:56 [Transporte da pedra] Pedra daqui para lá para Viseu, aquela pedra de Viseu do tribunal, diz que o Palácio da Justiça foi feito com pedra daqui. E era tudo passado a carro de bois, carro de vacas pra lá tudo de noite e de dia. Depois começaram a vir os camiões, a transportar, era uns a vir, outros a sair, era sempre a andar, sempre a andar. Uns com propianho, outros com rachão, que era uma pedra mais pequena, que era para as fundações, depois calçada à portuguesa, que é a calçada à portuguesa também para fazer aquelas ruas antigas, tipo romanas, e havia alvenaria, havia aquela alvenaria mais tosca e havia outra alvenaria de uma face que era alvenaria rústica, quer dizer já se faziam umas faces para se assentar, para ficar mais coisa. Era assim que saía daqui tudo das pedreiras, e era assim.
23:48 [Sabedores do ofício da pedra estão a envelhecer] Havia pessoal na pedra começaram a trabalhar de novos já até uma certa idade, já idosos, não é, e assim ainda os há aí com 60 e tal anos, 70, trabalham na pedra ainda aí. E vão fazer obras, pedem para ir desbastar pedras, vão, não é, o que é que já não vão ali para as pedreiras tirar pedra, já nas pedreiras já é difícil, já não se vê nada. Isso as pedreiras findaram. Pronto, isto tudo deixou de, da pedra, não tem saída, mas a pedra saía se houvesse queme levasse de cá a pedra, mas ninguém se dedica a isso agora. Abandonaram, também já estão todos, os que trabalhavam na pedra já estão todos com pra cima de 60 e tal anos, não há nenhum pra baixo que trabalhe na pedra, com menos idade, 50 há aí 1 ou 2, ou assi, mas o resto é tudo já, tudo avançado. Esta mocidade nova dos 15, 20, 30, não querem, não querem, não querem, nem sabem como é que se faz, é como plantar uma couve, se for preciso põem-na agora de, a folha pra baixo e a raiz pra cima, muitos nem sabem trabalhar com isso.
24:56 [Horário de trabalho] Sim, depois vieram aquela coisa das 9 horas, trabalhavam 9 horas, depois vieram depois as 8 horas e daí, pronto, não alterou mais nada, foi sempre aqueles horário, mas em outro tempo era de sol a sol, era, às vezes vinham, na altura falava-se nos fiscais, vinha malta ‘opá põem-te a andar que vêm aí os fiscais’ e depois iam pelos pinhais fora e fugiam, por causa do horário, depois acho que veio para as 9 horas, ou o que foi, foi 9 horas, depois das 9 horas, ainda poucos, ainda hoje poucos trabalham as 8 horas, mais só estas firmas coiso, mas ainda trabalham quase as 9 horas também. E é assim um bocado, mas quando era de sol a sol aquilo era mesmo, de sol a sol, era de estrelas, ver-se as estrelas no céu já. Aí por aí abaixo, uns quilómetros ainda para chegarmos aqui abaixo, aquilo chegávamos ca baixo era…não se via nadinha. Nada. Aqui na altura também era escuro, porque na…a luz elétrica aqui pra Bodiosa acho que foi em 52, 53, a inauguração da luz. Ainda me lembra de, por cima não havia fios nenhuns, não havia nada, era tudo a candeeiro a petróleo, uma coisa e outra…mesmo ao pé de casa, petróleo, ao outro dia chegávamos com o nariz parecia uma máquina do comboio cheio de ferrugem, de respirar o petróleo.
26:28 [Bucha] Bom, ali a maior parte, a gente levava uma buchazita pra comer e depois à hora do meio dia às vezes iam as mães ou as esposas levar o comer ao trabalho, às vezes longe um bocadinho, pra saber onde havia condições para comer, debaixo de sombra, não era. Chegavam ali, levavam a comidazinha num cesto ou numa coisa própria e, pronto, a mesa era o chão. Às vezes, quando não houvesse toalha, era pegar no prato na mão e toca a comer assim, era assim. À noite não se comia nada, à noite íamos, ora à tarde íamos, por exemplo, daqui de Oliveira, muitas vezes quando era pinche, ir daqui de Oliveira de Cima lá nos pinhais, conhece Oliveira de Cima, a parte de baixo, dos pinhais, ia a Lustosa buscar o garrafãozito de vinho às vezes para beber. E não se comia nada, era, pronto, a gente andava, também não havia comida para comer, não tínhamos comida, não tinha comida, por exemplo, na altura, passava mal. Éramos 9 irmãos, era complicado. Mas ia para o trabalho, depois quando trabalhei, depois de já ter uma vida, casar-me, depois a mulher lá me ia levar também o comer lá ao pinhalzito também. Nós ficávamos também em baixo um bocadinho, para apanhar as condições para comermos protegidos do Sol. E era assim que se comia, púnhamo-nos em cima de uma pedra, de um calhau ao alto e toca a comer ali, sentados, não era aldrabão, como dizia o outro. E era assim. Mas eram tempos difíceis, eram tempos complicados naquele tempo. O que é, digo, eu hoje até tenho saudades de trabalhar na pedra.
28:10 [O correr da pedra] Aquilo era, pronto, era uma coisa que a gente movimentava muito o corpo, não precisávamos de fazer ginástica, andar ali naquela posição ali com o pico ali horas e horas, sempre, às vezes, quando era pra tombar a pedra, enquanto não fizesse aquela parte não parávamos. Quando quisesse ir fazer xixi ou qualquer coisa tínhamos de nos deslocar um bocadinho, não era, tornava a vir, era ali, acabávamos com esta, com esta pedra preparada, tombávamo-la uns metros para a frente, tudo ali preparadinhas, que era pra depois quando viesse o homem para carregar, tornávamos a por outra em ação, toca outra vez, 4, 5, 6 pedras, às vezes 7, 8, conforme trabalhávamos, conforme as pedras fossem. Se fosse uma pedra muito trabalhosa, que às vezes calhava o correr torcido, aquilo era o troço era complicado para a levar, não saiam as falcas como haviam de sair, que moía, moía e aquilo não saltava, aquilo era mais complicado. Havia pedras a gente apanhava-lhe o correr, aquilo era bota para lá. Movimentava-se assim o corpo, a puxar, a baixar as costas, levantar, tombar, tornar a vir, é assim.
29:18 [Tarefeiros e trabalhar ao centímetro] Depois lá vinha às vezes na altura ‘agora o camião vem carregar pedra dali’ e lá vinha carregar. Carregava-se a pedra toda certinha no camião até estar carregada. Media-se a pedra, antes às vezes não se media fora, no terreiro, media-se, o terreiro onde estava a pedra, desmonte, media-se às vezes em cima do camião, era assim que se fazia. Proto, depois ao fim, passavam 4 ou 5 ou camionetas de pedra, a gente ia receber aquele dinheiro, não é, lá iam receber. Fazíamos maio ou menos a conta aos metros cúbicos, pagavam x metros cúbicos. Quem trabalhava tarefeiro. Porque quem trabalhava por conta de outro, o patrão depois que…se era para o patrão, fazia isso.
29:58 E havia quem trabalhasse ao centímetro. Por exemplo, eu trabalhava por contra de outro, não era, você era o meu patrão, eu trabalhava para si, pagava-me o ordenado, mas depois assim, pronto, eu vou-te dar ao centímetro, a centímetro como era? Quanto mais eu fizesse mais ganhava, por exemplo, se havia de fazer aí 60 centímetro cúbicos, ou 70, ou 80, ou 1 metro cúbico, às vezes fazia-se, mas isso era difícil, quando a pedra estivesse mesmo boa, a gente ganhava aquilo em centímetros, por exemplo, podia ser a 3 tostões, na altura, ou 5 tostões cada centímetro, era assim, a gente fazia a conta aquilo, ao fim de contas, multiplicava os centímetros uns pelos outros, pronto, depois tínhamos a receber x. Era assim que se fazia.
30:43 Bom, rendia mais ao centímetro por um lado, porque a gente também tinha que ter uma pedreira em condições, que tivesse uma pedra própria, já à maneira para trabalharmos, não era, porque a gente tinha que a cortar, tinha que a desmontar, a gente tinha que a fazer. Agora a dia era só uma coisa, às vezes dava mais, tinha alturas que dava mais a dia que dava a centímetro, que às vezes havia dias que não se fazia, não era, não se fazia quase nada, que a pedra não ajudava. Mas pronto, centímetro tirava-se muito dinheiro, também se tirava dinheiro. Também uma coisa é certa, a gente para o patrão, eu sou sincero a dizer, que é o patrão, a gente abrandava mais um bocadinho, tínhamos que dar o seu rendimento, não é, saber que tínhamos que andar a sol a sol todo o ano. Mas quando era a centímetro a gente tentava bota fora para lá mais, não era assim. Era assim que faziam. Muita gente trabalhava a centímetro, a maior parte da gente trabalhava a centímetro numa certa altura.
31:46 É tarefeiro, trabalhei também. Trabalhei com mais um senhor que já faleceu, era mais ou menos da minha idade. Era tarefeiros. E acho que foi só, só com esse, tarefeiro. Ah e trabalhei lá também na altura, com o meu pai também fomos tirar pedra, um bocado de pedra, como tarefeiros, também num pinhal que tínhamos ali em cima. Agora até nos pertence, era de uma tia minha.
32:13 [Invernos rigorosos, menos trabalho na pedra] Também trabalhei a tarefeiro, ou mais o resto era tudo a dia, era tudo a ganhar mensalmente, vá, a dia, fazia a dia, mas antes trabalhar só ganhava quando fizesse aquele dia, se não fizesse não ganhava, estava a chover, vínhamos embora, não ganhávamos. Era assim, era tudo pago assim, porque havia na altura, os Invernos eram muito prolongados, muito prolongados, estava aí aos 3 meses ou mais a chover. Era assim. Era difícil porque a gente chegava às vezes nem saíamos de casa, às vezes nem chegávamos, que isto estava sempre a chover e às vezes chegávamos ao trabalho, estava uma aberta, depois chegávamos lá, depois às vezes até entrávamos em trabalhar, 5 ou 10 minutos, depois como estava a chover abríamos o guarda-chuva, quem não tinha na altura metia-se debaixo de uma pedra, uma pedra que houvesse própria, e esperávamos ali às vezes umas 2, 3 horas. Via que o tempo, a gente via que mais ou menos que o tempo, os velhos, na altura, os idosos n altura já sabiam se o tempo era para durar a chover, ou se era para abrir. Eram as estações do ano mais certas do que agora. E eu pra mim era, ficava todo contente, quando era mais em pinche ficava todo contente de ver que estivesse a chover, que era para vir embora, esté a perceber, para vir para casa.
33:30 Mas depois era complicado. Não havia…que eu lembra-me bem de eu ir a casa do patrão. Também foi o meu segundo pai. Às vezes o meu pai na pedreira não fazia os dias que havia de fazer para receber o dinheiro do salário, chegava a um ponto já tinha mais dinheiro emprestado, que o patrão tinha dado a ele, do que o que já tinha feito de trabalho. O que vale era o homem compreendia, nunca o deixou vir pra casa sem dinheiro, chegava lá ‘ó Sr. António’, o meu pai tinha, não gostava de ir, mandava-me, eu era o mais velho, e era bem recebido, eu até gostava de ir porque ele dava-me lá uma sandes em casa, uma categoria, dava-me muito bem com ele, ele às vezes tirava-me da pedreira para ir descarregar com ele uma camionete só para me pagar uma sandezinha para comer. Santa Cruz da Trapa, aquele zona ali por aí acima, comi lá tanta sandinha. Chegava lá a casa ‘ó Sr. António. Ó Tónio’, porque havia aí outro que também lá ia, porque ele era malandro e ele não…estava sempre a botá-lo para trás, ‘espera aí um bocadinho, mas eu também não tenho cá dinheiro, mas eu vou-vos desenrascar’, o homem, havia um senhor, tanto lhe pediu dinheiro para me emprestar, às vezes lá trazia aos 100 escudos, aos 50, a gente pedia só 20, ‘leva este não te preocupes’. Para comprar às vezes uma rasinha de farinha, 5 quilos, ou num alqueire, 10 quilos, para comermos durante aquela semana. E às vezes ao fim da semana o pão já não era só para nós, porque nós aqui tínhamos a mania de andar a pedir pão de casa em casa, emprestado. Eu chegava a sua casa ‘olha empresta-me aí um pão até à semana, não tenho possibilidades agora, emprestava, às vezes ‘olhe só posso emprestar metade’ e trazia e comíamos aquele pão com os irmãos. Chegávamos ao fim já não havia pão, íamos por o pão no forno a cozer, dava 2 ou 3 bolazitas, já olha ‘este é para entregar’, às vezes umas broas para entregar, este é como se não estivesse cá com este. O peso mais ou menos era de vista, chegávamos ali ‘obrigadinha, pra próxima…Está bem’, tornávamos a entregar o pão. Era dificuldades, era muita dificuldade, mesmo complicado na altura, aquilo era difícil. Era assim, era. Muita fome.
35:40 Pois, a gente só ganhava o que se trabalhasse, se não trabalhasse, não entrava. Por exemplo, se fosse a fazer 1 hora ou 2, não as ganhávamos, porque o trabalho só a partir de meio dia é que se começava a pagar meio dia e só pagavam consoante o trabalho que a gente fizesse. Se, por exemplo na pedreira, nós também, esses senhores que nos davam trabalho, que era também, a gente trabalhava tarefeiro, também era tarefeiro, depois pra outra firma, pra outros que lá iam buscar a pedra, também não nos iam pagar sem a gente lhe dar o rendimento. Só pagavam se a gente fizesse o trabalho, se não fizesse não pagavam. Por exemplo, também já, quando chovia a gente já vinha mais embora, porque eles não pagavam à gente se nós estivéssemos parados. Por exemplo agora há umas firmas, pagam, depois descontam nas férias, ou assim, na altura não havia férias, não havia férias para ninguém. E pronto, era assim, nós recebíamos se trabalhássemos. Por exemplo, fazíamos 1 dia, para receber aquele dia, era a x por dia, era a x que pagava. Fizemos meio dia, era só meio dia. Um quarto de dia era raro pagarem, aquilo era assim.
36:48 [Trabalhos como complemento de rendimentos] Às vezes havia, às vezes havia aí alguém que precisasse de uma pessoa para 1 hora ou 2 e depois pagava qualquer coisita, às vezes, por exemplo, quando às vezes não se trabalhava, quando tinha problemas, às vezes para podar umas videiras, ou assim, havia sempre quem rogasse, está a perceber. E faziam. Às vezes havia esses trabalhitos assim coisa e desenrascavam-se assim muito, mas muitos não tinham, não tinham essa chance. Mas era, a parte de trabalho, pedreiras, naquele tempo era só quase pedreiras que havia, não havia mais nenhum trabalho. Era difícil, às vezes ‘ó pá vem-me ajudar ali a minha casa fazer isto’, depois comia, outras vezes não levavam dinheiro porque passava-se fome de matar, outras vezes ainda dava-se-lhe 5 escudos, ou o que fosse, o que fosse na altura, 5 escudos era muito dinheiro naquele tempo, era muito dinheiro.
37:50 [Dia a dia do trabalho na pedreira] O ambiente, aquilo, por exemplo, a gente aparecia de manhã para trabalhar, não era, pronto, o pessoal todo já sabia, já tinha o seu trabalho destinado para onde havia de ir. Eu, por exemplo, era desmontador, ou partidor de pedra, havia outros que eram a cortar, que andavam no corte grosso, já estavam ali sentadinhos à espera para começar, outros estavam já a quadrara as pedras, outros estavam já a tentar começar a principiar as tiradas. E o pinche primeiro vinha por a ferramenta toda em ação, pronto, antes de eu estar a falar nisto, por toda a ferramenta nos devidos, preparadinha ali para quem quisesse lá ir tirar ou então ‘ó pá chega-me cá 6 pichotes’ ou ‘chega-me cá 1 ponteiro ou 2’, ou ‘traz-me cá outro, este já pifou’, ‘chega cá outra coisa, chega-me cá aquele pico’, ‘chega-me cá um martelão’, era sempre assim, uns iam, outros levar assim coisa, se estivesse à beira deles, eles chegavam e assim começava a rota durante o dia, um trabalhava aqui, outro trabalhava aqui, aquilo já não se podia trabalhar muito juntos a desbastar a pedra porque aquelas farpas que saiam podiam bater na cabeça, rachar, ou rescaldo pra um olho, ou assim, aí deslocados aí 2 ou 3 metros, conforme às vezes acontecia, às vezes virávamos a pedra, por exemplo estava aqui outra, mas torcíamos a pedra para ali para o lado, ou para lá, que era para não estarmos a prejudicar o outro colega. E era um largo onde trabalhava tudo. Depois do corte grosso mais longe, cada vez, quando fosse preciso ‘ó pá vem cá, traz aí 2 alavancas, venham 2 ou 3 ou 4, vamos virar isto’. Toneladas para virar, depois vinha o pinche, que era para, ia espichando com os ferros, iam calçando com uns regos mais coisa, consoante fosse para engolir a pedra, ia entrando, antes que ele não chegasse abaixo, tornava a vir atrás, outra mais forte, caía.
39:41 Começava-se a riscar, ver mais ou menos como é que se havia de traçar a pedra, para aproveitar a pedra toda. É como o alfaiate, no próprio pano fazer os alinhamentos, que era para depois cortar as peças que há de dar. E, por exemplo, na pedra víamos logo, olha vai dar x propianhos, por exemplo uma, chamavam aquilo uma posta grande, era uma coisa lançada abaixo, cortávamos aquilo em grosso, depois dali era tornada a cortar, que era para tirar dali a pedra toda, saía dali a pedra com aquela medida. O resto que sobrasse não prestava para aparelhar era para, uma pedra para o outro lado virava-se para alvenaria, pedra mais grossa, e quando desse, era com o martelão partida e botava-se para o lado para rachão, para as fundações. Era assim, cortávamos tudo, naquele tempo.
40:26 Houve uma altura que a pedra, chegou-se aí a uma altura que a pedra começou a empilhar, a empilhar, não tinha saída. Depois era preciso pedirem favor para a conseguirem tirar. E já era mais complicado, mas ao tempo da falha aquilo era, nem vencíamos, ao desbastar pedra, sempre a andar, sempre a andar, sempre a andar.
40:49 [Construção] Era para a construção. Por exemplo, muita ia lá para Viseu, muita ia para outros lados, para Vouzela, para a zona toda daqui do país. A maior parte também ficou aí, essas pedras aí veio tudo daqui, para fazer prédios. Aqui a construir, a maior parte era tudo para prédios, para casas, vá essas coisas. Chegámos a trabalhar às vezes para fazer os tanques, au até próprios muros ou assim. Vedações de terrenos…Agora já usam mais desta pedra, que é uma pedra azul, que aquilo é mais lixada de trabalhar a pico. É tudo em corte, é só o próprio corte e assente, não é preciso estar a aparelhá-la. Não era como antigamente, porque esta pedra é uma pedra que é uma pedra mais, mais mole. Um granito mais mole, agora o outro é mais rijo. Era assim que se fazia.
41:53 [Calçada à portuguesa] A pedra que ia para as calçadas, na altura, era calçada à portuguesa, que era uma pedra tosca. Não é dessa que se vê aí fora nas ruas, essa é uma pedra afiada, essa é uma calçada afiada. Depois há o paralelo, que é o cubo, sabe o que é, e há o cubinho, que é uma pedra destas de calçada afiada dá 4 cubinhos, partida. Até há quem faça 8, se quiser. E, por exemplo, a afiada vai ficar assim consoante está esta, aparelhado tipo, pronto, uma esquadria. A calçada à portuguesa é a tal que se aproveitava para fazer certas ruas. Antigamente, a maior parte das ruas era tudo calçada à portuguesa. Depois veio a calçada afiada. Mas a acalçada afiada já não é tirada nestas pedreiras. É um granito próprio, que é o azul, ou amarelo, ou conforme, mas é outro granito, não é este. Porque este não alisa tão bem como o outro. Fica muito áspero, muito tosco. Já se viu também pedra desta também tirarem granito, tirarem cubos disso, mas agora é difícil, agora não há, não é comercializado, não tem comércio nenhum isso. Só para, às vezes, para desenrascar um particular. Mas na altura muitos usavam. Ainda tirei alguns aqui numa pedreira aí em cima, mas era, não é bem o granito deste, é quase tipo granito tofo, tofo, ou o que é. Não é desse, que é muito grosso. Mas agora pedra era mais era propianho, alvenaria, rachão e calçada à portuguesa, era a única pedra…
43:26 [Brita] E então brita, que era britada com uns marricnhositos. Na altura até para lá iam, havia aí uns senhores que faziam isso, outras, umas mulheres que andavam aí também britavam, também andavam por conta do patrão. E britavam, ganhavam os dia também. Até às vezes faziam, era raro ser tarefeiros, porque não dava, aquilo era complicado. E faziam aquela brita pequena. Há outra mais miudita, outra mais…era assim.
43:57 [Trabalho nas calçadas, com fios] Nas calçadas mesmo cheguei a trabalhar com pedra dessa tal portuguesa e depois trabalhei sempre com esta afiada. Chamam cubo. As calçadas era fazer a caixa, comecei a fazer serventia e depois de estar tudo feitinho, às vezes agora já é mais à base de fios, para fazer arco sobreposto, ou redondo, tem que levar aqueles fios já próprios. E quando é à fiada leva os dois laterais, que é para fazer à fiada, que é para medir a valeta. Depois mete-se, por exemplo, se for uma rua mais ou menos aí de 4 metros, mete-se um fio ao meio, a 2 metros, a todo o comprimento. Vai-se fazendo os pontos, se for uma rua comprida, vai-se tirando por ponto, não é, aí de 10 em 10 metros, ou 20 em 20 metros, e mete-se uma pedra, faz-se as partes laterais e mete-se a fiada, a pedra em espinha. Em vez de ser assim, pronto, a espinha é mais ou menos isto que está aqui.
44:54 [Calçada em espinha] A pedra é isto, quadrada, e depois a pedra vai assim de quina ficar em espinha, que é para depois a gente começar de um lado, a enfeixar a pedra toda, e depois daqui do lado lateral, sobre a valeta, a fiada da valeta leva uns cantos, são as esquadrias. A própria esquadria faz, é meia pedra, da espinha, que é para fazer depois a esquadria, que é para assentar junto com a pedra que vem da espinha. Morre sempre em cantos, não é, até ao cimo, a acabar, morre sempre em cantos, esquadrias.
45:29 [Trabalho na calçada mais duro do que na pedreira] Bom, o trabalho da pedra era um bocadinho assim duro, mas não é tão duro como a calçada, porque a calçada é preciso andar sempre abaixado. A gente quando anda ali a calcetar, quando há, por exemplo, caixa pronta para trabalhar, a gente anda ali, só se levanta para comer, ou para urinar, ou assim, maia nada. E às vezes para esticar os fios andávamos ali horas e horas, sempre ali naquela posição. A gente chegava a um ponto as costas…e joelhos, numa miséria. E pronto, e quando é no Verão, em certos lados, encostados a certas paredes, aquilo era um calor que pode-se lá assar carne de cabrito, e no Inverno é complicado, porque é chuva, depois molha tudo, molha-se o terreno, depois a gente anda ali naquela lama, às vezes quando é mais em saibro, na areia não é tanto. E depois a gente pega na pedra, escorrega, que apanha aqueles lisos de sabão, que é uma coisa lisa, às vezes até vão as unhas embora, até os dedos, e, pronto, mais complicado era, pra mim, mais, gostei da calçada, mas é mais maçador, porque andar naquela posição, depois apanha-se, andar a apanhar pedra fria, molhada, depois com gelo agarrada não quer sair, era complicado.
46:38 Agora na pedra era mais, era duro a tombar as pedras, muito peso bruto, às vezes, para as tombarmos era preciso puxar. O pico não era que matasse, às vezes o martelão quando era para às vezes martelar, como era mais em grosso, era parte a parte. A calçada para a saúde era mais prejudicial. O pico era mais saudável. Andar àquele ar, ao ar livre, não era, está bem que se apanhava um bocadinho de pó, mas a gente andava sempre, corria sempre um ar. Agora na calçada era mais coiso de, de temperatura, por exemplo andar ali no frio, no gelo, humidades, e para os joelhos não há coisa pior, e então para a coluna, veneno.
47:38 [Salário maior na calçada] O salário (maior) é em calçada, foi sempre melhor, pra mim, foi melhor, eu cheguei a trabalhar na calçada com x, já não estou bem certo, fui aumentando, aumentando, até chegar aos 900 euros. 850, 900, 900 euros. Foi até há pouco tempo, até mais ou menos ate 2007. Fui reformado em 2007, trabalhei mais ou menos o ano antes, que uns meses andei de baixa, vá, andei de baixa uma temporadazita e depois, pronto, já não trabalhei mais nas calçadas.
48:22 Não mudou nada. Era o dia-a-dia, andava para ali agarrado à calçada e pronto, até…e findou assim. E até lhe digo uma coisa, se eu tivesse saúde para andar na calçada, ainda lá andava, não deixava ficar a calçada. À uma ganhava, estava com um ordenado mais ou menos, era bom. Mas pronto, não pude, tive que abandonar. Agora não posso mesmo, não posso mesmo fazer força. Por exemplo, um peso muito forte, já entro logo em problemas, nem pensar. Assim olha, vou fazendo alguma coisita aí, às vezes, ajudar a passar um bocado de lenha, ou assim, a traçar com o motosserra. E nas terras, é a minha vida agora, e sentar-me aqui um bocado até chegar a hora do almoço.
49:16 [Calçada à portuguesa] Não vejo nada, isto acaba tudo. Pelo menos aqui na zona de Bodiosa acaba. Acaba porque não há ninguém a dedicar-se a isso, a malta nova não quer. Não se vê, não se vê ninguém a trabalhar nisso. E também nem sabem, não é, nem queiram começar, porque ninguém nos vai rogar para irem ‘Ó pá vem-me ajudar a fazer isto, tenho aí umas pedras’, não vão, não sabem. Ou sendo que vão em serventes, ajudar, e depois comecem a apanhar e comecem por ali, mas é difícil, porque na altura havia as pedreiras, a malta nova acompanhava os pais, ou acompanhava outras pessoas, ‘Olha ó pá já saíste da escola, vai para a pedreira’, não tinham outra profissão. Agora não sei, agora sei que isto acaba, não tem hipóteses. Em morrendo estes que trabalhavam nesta arte, é o que eu estou a dizer, malta nova não quer canga, não gosta disso, não vai, não vai nisso. Não há ninguém que se dedique a aprender, meter-se a aprender a trabalhar na pedra. Andam aí às vezes em serventes e já nas calçadas também a ajudar e já vão fazendo alguma coisa. E, pronto, e nas obras assim trolhas, também serventes e depois chegam a um ponto também já trabalham com a colher, ou assim. Mas na pedra não. A pedra tem a tendência de acabar mesmo, de morrer. Nós aqui a zona de Bodiosa é. Travanca conheço perfeitamente. Agora lá para baixo, não sei se ainda dedicam, rapaziada nova não, mas é que eu sei que aqui na zona não há ninguém. Há cá pedreiros, muitos pedreiros ainda ativos, não nas pedreiras, só a trabalhar às vezes pedra para assentar, uma vez e outra, às vezes até cortam umas pedritas para aparelhar. Mas não há, malta nova não. Rapaziada não quer, não quer, não querem a arte, é muito puxado para eles. Antes querem as máquinas e telemóveis, não querem mais nada.
51:16 [Travanca: terra da pedra] Era e é. Era e é, em qualquer lado ‘És da terra da pedra’, é a terra da pedra mesmo. Era porque era tudo aqui, aqui estas pedreiras era tudo cheio. Antigamente era, não se via uma mosca, era só pedra, não se via uma pedreira sem haver pessoal, era 4 ou 5 aqui, 6 ou 7 lá, 2 ou 3 aqui, era sempre assim.
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