Entrevista a Rita da Silva em Rio de Loba, a 29 de Outubro de 2015
Entrevista e Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Edição Audiovisual de Nely Ferreira
Rita da Silva relata a sua vivência na infância, os trabalhos nas terras, a criação de animais e as tarefas de casa. Fala-nos ainda da sua experiência no estrangeiro e as diferenças da vida na aldeia.
00:29 [Enquadramento em Rio de Loba] Foi (lá que passei a minha infância). Foi, de solteira. De casada é que eu saí, para o Brasil, para a Alemanha, e foi só. O resto aqui em Portugal. Lembro-me do campo. Eu trabalhava no campo. Depois mais tarde fui para um colégio, de livre vontade. Os meus pais não queriam, mas eu fui. Estive lá seis, cinco anos. Depois achei aquilo…achei que não dava para aquilo e então regressei a casa. Regressei a casa e tratei de outra vida. Namorei, casei-me, pronto. Estive com o meu marido sessenta e tal anos. No fim dos sessenta anos, ele também ficou doente, e Nosso Senhor levou-mo. Eu regressei aqui.
01:38 [Colégio da Imaculada Conceição] Imaculada Conceição. Tinha uns 18 anos. Ainda lá estive uns quatro ou cinco anos. Também trabalhei lá bem. Porque eu era para o campo. Subia acima das árvores, apanhar comida para a criação, aquelas folhas, na Primavera. Fazia de tudo um pouco e eu era para o campo. E gostava daquilo. Mas depois vi que aquilo que não era para mim, digo ‘Não, Nosso Senhor não me quer aqui’. Tinha o meu pai que estava paralítico, como, com as pernas, e eu pensei assim ‘Não, se o meu pai precisa de mim, eu vou regressar a casa’ e regressei a casa e ele ficou contente. E fiquei com ele até à morte dele, que nós éramos nove irmãos, nove filhos, eu era a mais velha, e então fiquei com ele até ele fechar os olhos. Foi fechar os olhos. Namorei. Casei-me. Até o Nosso Senhor me levar o meu marido também. E foi assim a minha vida.
03:06 [Estudos] (Os meus irmãos) tudo tem escola. Os mais novos ainda têm estudos, agora eu já, a mais velha já não. Não, porque eu era a mais velha, sabe que os mais velhos são sempre mais castigados. Eu ainda tirei um curso de costura, mas não foi cá, já foi no Brasil. E aquele que tinha foi no Brasil, mas depois casámo-nos, prontos, ficámos por cá. Ainda fomos ao Brasil treze anos, depois regressámos de vez. Foi assim a nossa vida. E gostei do Brasil. Ainda hoje tenho saudades do Brasil.
03:55 [Trabalho nas terras] Ah, isso sempre trabalhei. Eu desde garota sempre trabalhei, nas terras. Só em terras, que os meus pais tinham terras. Eu era a mais velha, tinha que olhar pelos meus irmãos, fazer o comer para os meus pais, para os meus irmãos, e olhar por a vida de casa. Foi (desde pequenita). É uma vida dura, mas tinha gosto. Ainda hoje tenho gosto das terras que tenho, que trabalhei até vir para aqui. Agora não, agora já são do lar. São aqui entre Travassós e Rio de Loba.
04:48 Sachava. Apanhava comida para os bois. É tratar da criação. E dos meus irmãos, que eram pequeninos, eram nove. Era uma bandada boa. E se Nosso Senhor a mim não me deu nenhum. E seja feita a vontade de Deus.
05:22 [Resultado do trabalho nas terras para consumo de casa] Era batata, feijão, milho, era de tudo. Fazia-se de tudo, o que era pra alimento, pra tudo, pra criação, fazia de tudo. O que é, quando não podia ia para a baixa. Com a baixa pequena, a mais pequena que tem, era o que eu fazia. E ali me governava, mais o meu marido. (Quando era mais miúda trabalhava) com a minha mãe, com os meus irmãos e o meu pai. E às vezes tínhamos assim um criado, também fazia o serviço. Éramos, tínhamos coisas para nós, para casa, todo o ano. E o meu pai, que Deus tem, às vezes ainda dava alguma coisa aos pobres. Ele tinha muita pena dos pobres. Ele era um senhor que, se chegasse um pobre a casa a pedir comida, ele deixava a malga da sopa e dava para o pobre.
06:39 [Criação] Ah pois, era bois, com licença, porcos, coelhos, galinhas. Era um pouquinho de tudo. Mas era bois daqueles grandes. Levei muita marrada. Mas tudo o que Deus dava era pouco para nós. O sacrifício valia tudo. Não, nunca tive medo (dos bois). Nunca tive medo. O que é, o meu pai, que Deus tem, dizia ‘Pega num pau mais grosso e dá-lhe no meio dos cornos, para te não marrarem’, eu fazia isso, mas eles marravam e às vezes estava já no chão. Mas graças a Deus nunca me aleijaram. Os animais é como a gente, que eles também conhecem muito da gente. Era uma vida puxadita, mas para a minha idade…mas eu aceitava tudo. Eu tudo aceitava, o que fosse trabalho esforçado, sacrifício que eu pudesse fazer, eu fazia. Ajudava os meus pais. Agora, pronto, agora é que a gente já não pode mais nada, já acabou-se.
08:04 [Saudades do tempo em que trabalhava nas terras] Mas tenho muitas saudades desse tempo. É assim uma vida, do lavrador, é muito triste. É triste e é saudável. A vida é triste, mas é saudável, porque a gente trabalha para nós, e sabe que o que tem que é nosso, que é comprado por nós, que é tudo bom e bom, mas acaba-se a saúde, acaba-se tudo. É as terras. Ainda hoje tenho saudades do meu quintal, que tenho ali além. Mas não pode ser mais nada, pronto.
09:03 [Casa e casa dos pais] A parte de cima era três quartos, duas salas, duas casas de banho e a cozinha. E o rés do chão é duas salas, três quartos de banho, a cozinha, os dois quartos. E tinha então em volta da casa toda o muro, cimentado. Minha, minha. A dos meus pais, deram os bens aos filhos, a casa dos meus pais venderam-na, calhou à minha irmã freira, vendeu a parte dela ao meu sobrinho de Barbeita. E ficou tudo desfeito assim. Ah, isso era muito grande (a casa dos meus pais). Eram cinco quartos, também para nove filhos, e o meu pai e a minha mãe. Duas salas. A cozinha era cozinha e sala pegado. Altos e abaixo, em baixo era lojas para a criação. Em cima era então as, moradia. Ainda estou a ver quando ela foi feita. Coitadinho, também fez o que pôde pelos filhos. E sofreu bem a parte dele. Esteve cinco anos numa cadeira de rodas. O meu pai.
10:54 [Cozinhava para toda a família] Cozinhava para a família toda. E o meu pai só dizia assim ‘Rita, põe a mesa. Botas o comer na mesa, depois de estar de comer chama os teus irmãos todos’, mas tinha uma que não gostava da sopa, isso é que nunca me esquece. E o meu pai, que Deus tem, disse assim, ‘Rita, puseste a sopa para a Conceição?’, ‘Pus’, mas ela já a tinha tirado, já a tinha escondido, ‘Ó Conceição, que é da sopa?’, ‘Ai não gosto de sopa’, o meu pai dizia assim ‘Vai buscar sopa para a Conceição’. E eu tirava, sem o meu pai saber, tirava-lhe a sopa fora. Nunca gostou da sopa, coitadinha, mas… Eu fazia tudo por eles e fazia o que o meu pai me mandava, mas mais o meu pai, o que mandasse eu fazia, mas aquela nunca, ainda hoje mesmo não come a sopa. Está com…quase 80 anos. E eu disse-lhe assim agora, ‘E agora as tuas filhas comem a sopa?’, ‘Não, não as obrigo, também não me obrigavas…’, está errado. A vida antiga era muito bonita. Era tudo muito obediente, muito bem dado, muito bem-educado. Era muito, uma vida muito bonita. Sendo bem governada. Agora, está tudo mudado.
12:32 [Sopa] Era batatas, feijão, feijão verde, nabos, era como agora, pode-se dizer. Outra vez caldo verde, mas era raro caldo verde, que o meu pai às vezes até dizia ‘Caldo verde não alimenta, não toca carroça’. E nós era sopa de feijão, massa, ou arroz, era assim. Ai, era uma panela grande de ferro. Para todos. Eu para mim nem queria prato, nem queria tijela, minha mãe já dizia ‘Para a Rita não precisa prato na mesa’, eu era uma terrina vidrada, era, aquilo era, parecia um…tipo um alguidar, para a minha sopa tinha que ser naquele alguidar. Que eu gostava de comer a sopa só de uma vez só, não queria segundar, mas queria bastante. Eu gostava dessa vida assim. Ainda hoje mesmo aqui eu como a sopa só de uma vez, não quero duas, segundar, que não estou habituada, acho que a mim a primeira que sabe melhor. Eu acho bem assim. E se todos os pais fizessem assim, a educação era outra. E as crianças comiam melhor. Mas…o tempo está mudado.
14:11 Era lareira. Nessa altura era uma lareira grande, quase isto aqui, com bancos de volta, aquelas panelas grandes, e ali se fazia a sopa. Depois dali tinha…era cozinha, depois tinha a sala de lado, então tinha a mesa, uma mesa grande, ali ia a sopa para a mesa, ali comiam todos juntos. Ai esse tempo faz muitas saudades. Mas está como Deus quer.
14:58 [Diferentes refeições durante o dia] É mais a sopa, embora fizesse um arroz com feijão, ou assim, mas a sopa era o principal. A sopa era o principal, sopa, arroz com feijão, batatas era…não era assim grande coisa batatas, era mais comida de alimento, era arroz com feijão, ou massa com feijão, ou assim. Era o que o meu pai, que Deus tem, dizia, ‘Tem que se comer é comida de alimento, que vocês estão-se a criar e precisam de comer é comida de alimento’, assim fazíamos.
15:30 Era meio-dia, de manhã um prato de sopa cada um, depois ao meio-dia era o almoço, como agora, e à tarde tinha a merenda, que era às quatro, cinco horas. Depois, à noite, a janta, que era sopa. A mesma coisa que hoje, pode-se dizer. E o pão e o vinho.
16:06 [Levava o comer a onde andavam a trabalhar] Ai quando era longe íamos levar o comer. Eu fazia e ia levar comer aos irmãos e a pessoas que andassem lá. E quantas vezes caía então com a comida e deixava cair a comida. Era assim que a gente foi criada. Era em tachos e um cesto à cabeça, se calhava dar uma topada numa pedra calhava, ia o cesto, ia eu. E assim se passou o tempo. E o meu pai só dizia assim, que Deus tem, ‘Tu andas a olhar para os lados’, ‘Ó pai, não ia a olhar para os lados, eu ia a olhar em frente’, ‘Eu sei’, quando era para ralhar, mas não ralhava, coitadinho. Que Nosso Senhor eterno o lá descanse, que deixa muitas saudades. Por a educação que ele deu. Que hoje não há dessa educação.
17:17 Não, (nunca fui) trabalhar para fora, só depois que o meu pai, que Deus tem, morreu, ainda estava solteira, que ainda fui uns dias dar fora a uma tia que está aqui também internada. De resto nunca andei ao dia fora.
17:35 [Jóias de família] Éramos primos. Éramos primos, os pais eram irmãos. Muito bons pais, mesmo o meu sogro era muito bom. Ou por ser sobrinha, ou não sei, mas muito bom sogro. Ainda agora, quando dei um tombo, a semana passada, fiquei com a cara negra, eu tenho uma libra, que o meu sogro um dia foi, depois de que eu vim do Brasil, foi lá a minha casa, chamámo-lo para almoçar, ele chegou lá com um cordão e com a libra, disse ‘Ó Rita, escolhes aqui duas coisas, está aqui o cordão e está aqui a libra, ou escolhes o cordão, ou escolhes a libra’, diz ele ‘Cordão tu já tens um’, tinha um fio. Então, dei agora para a minha irmã para levar para casa, à volta da libra era bordada e partiu, e então mandei por a minha irmã, que era para ela, para se não perder, então ela levou, mandou-a soldar. E então levei a libra, ele deu-me a libra e eu aceitei-a, depois ele deu, devia ao meu marido, que deu umas correntes de ouro a cada filho quando se casaram e não deu ao meu marido, então o meu sogro dizia ‘Eu hei de te dar umas correntes’, mas castigou-o um ano ou dois sem lhas dar’, depois ofereceu-me a mim a libra. Eu guardei-a até agora, mas como partiu, é um bordado, eu disse à minha Lurdes, ‘Leva-la, manda-la soldar, posso-as perder’, porque eu andava com ela assim meia solta e depois perde-se e assim, e ofereci-lha para ela, levou-a.
19:29 [Libra] É uma medalha de ouro, de alguns quatrocentos ou quinhentos euros. É uma medalha, tem muito valor. Era da minha sogra, que Deus tem, então o meu sogro ofereceu-ma. Porque eu tinha umas argolas, que eu trouxe do Brasil, e a minha sogra disse-me assim ‘Gosto tanto dessas argolas, se me arranjasses umas iguais’, eu gostava delas, foi o meu marido que mas ofereceu. Disse assim ‘Ó Armando, a tua mãe disse que queria umas argolas assim. Que dizes, ofereço-lhas?’, ‘Isso é contigo. Eu dei-tas para ti, agora se quiseres oferece-lhas’, então ofereci-as à minha sogra. E a minha sogra deu-me umas velhas que tinha, eu disse para ela ‘Fique com elas, venda-as’ e ela vendeu-as, coitadinha. E quando ela faleceu, as minhas cunhadas disseram assim ‘As argolas que a nossa sogra tem são tuas’, ‘São minhas, mas fui eu que lhas dei. Por isso vocês agora façam o que entenderem’. Elas dividiram-nas e ficaram com elas, com o dinheiro. Fiz obrigação que devia fazer, se eu as tinha oferecido foram para ela, elas fizeram o que entenderam. Mas não ficaram com elas.
20:55 Era, que era, a libra que a minha sogra tinha, o meu sogro me deu, era dos meus bisavós, da parte do meu marido. E calhou à minha sogra e a minha sogra então guardou-a e ao fim deram-ma para mim. E ficou na família. E agora na família fica, fica na minha irmã, que era sobrinha. Fica na minha irmã. Estes brincos também são para a minha irmã. Estes anéis também são para ela, porque ela é que trata tudo para mim. A gente tem de reconhecer a quem bem faz por nós. Aquela minha irmã faz tudo por mim. Porque o meu cunhado dizia ‘Eu tenho muitas saudades do Armando, que ele era muito amigo dos meus filhos’. Isso não se esquece. E o meu marido, tudo o que podia fazer por ele, porque estivemos na Alemanha juntos, também tinha tudo o que queria do meu marido, conhecia algumas coisas e fazia por ele. E assim levámos a vida, sempre amigos. Agora é que eles olham por mim, porque não tenho ninguém. Aquela minha irmã é como minha mãe.
22:31 [Emigrou com o marido para o Brasil] Fomos os dois, com carta de chamada. Porque eu tinha lá o meu padrinho e a minha madrinha, mandaram-nos ir e lá fomos os dois. Fomos lá trabalhar, depois comprámos um armazém, lá ficámos treze anos. (Um armazém de) comestíveis. Comestíveis. Ainda estivemos lá onze anos nesse armazém. Com a ajuda do meu padrinho. Ele é que nos ajudou a comprar, emprestou-nos o dinheiro, depois fomos pagando, conforme fazíamos assim pagávamos. A gente com a ajuda dos outros vai longe. Mas é preciso que tenham vontade. Mas era o irmão da minha mãe, eram os únicos irmãos.
23:37 [Diferenças entre a vida em Rio de Loba e a vida no Brasil] (A vida lé e aqui) é a mesma coisa. A mesma coisa, o que é lá…a malandragem lá, o que estragava era a malandragem. Mas eu não tenho que dizer nada dos de lá, brasileiro, tanto pretos como brancos não tenho que dizer nada. Eu gostava muito dos pretos. O meu marido ia às vezes lá para o morro, para ao pé dos pretos, eles gostavam muito dele, empurravam para ele, lá ia. Estava em casa e eles diziam ‘Ó Dona Rita, o seu marido está aqui, mas já não desce mais’, eu ‘Olha comam-no, ou fiquem aí com ele’, mas era para mexer comigo, ‘Não se incomode, que ele está guardado’. Para ver como nós gostávamos deles e eles gostavam da gente. Mas tenho uma irmã que não gosta do preto, digo ‘Ó Lurdes, não digas, o preto é como nós’. Nós somos irmãos, o sangue é igual. Eu gostava muito dos pretos. Eles faziam muito por a gente também. E a gente tem que ajudar, que toda a gente precisa. É uma coisa que eu tenho saudades, dos pretos. Porque tive lá um rapazito que tinha pai, ainda nos escreveu para aqui para Portugal para nós. Queria vir ter com a gente, eu ‘Não, para aqui para Portugal não vens’, tinha a mãe com ele, eu não ia tirá-lo da mãe. É porque eu ainda tenho saudades do Brasil. E tinha lá família, tinha lá uma tia, tinha lá primos, mas isso já eram, estavam longe de minha casa. Mas ainda lá ia de vez em quando levar alguma coisa, que eles eram pobrezinhos, outras vezes eles vinham a minha casa. Tínhamos que ajudar uns aos outros. E é por isso que eu tenho saudades de lá. Mais do que a Alemanha.
25:51 [Empregado que teve no Brasil] Tínhamos um empregado. Mas esse empregado era, eu dizia ‘Tu amanhã vens cedo, que tens que entregar o leite’, ‘Eu venho cedo’. Passou um dia, não veio, no dia seguinte não veio, quando um dia, seguinte, digo-lhe ‘Olha vais embora, porque não preciso cá de ti. Para entregar o leite é de manhã, porque as crianças vão para a escola, precisam do leite’. Mandei-o embora, o pai foi lá reclamar, não tem direito, não tem porque ele faltou. Uma, duas, três vezes, acabou-se. Avisei-o. Nunca mais quis empregado. Eles iam lá buscar o leite e depois, pronto. Mas até gostava deles, mas… Gostava de ajudar, qua tanto ao preto como ao branco somos humanos.
26:51 [Emigrou com o marido para a Alemanha] Eu vim com o passaporte já para ir para a Alemanha, do Brasil. Já vinha com o passaporte e fui com o passaporte, como emigrante, e fui para lá para uma firma de relógios. Lá ficámos quatro anos. No fim dos quatro anos, o meu marido começou outra vez a adoecer. E o patrão disse assim ‘Dona Rita, como é que é, renova o contrato?’, digo ‘Não, senhor doutor. Não, porque o meu marido está doente, tem que ir embora, que a doença dele não tem…’, prontos, não levantava fundos dele assim, perdeu os fundos, a reforma dele não veio nenhuma. O mínimo era cinco anos que havia de estar, esteve só quatro, pronto. E viemos satisfeitos. Ainda fizemos algum trabalho aqui para nós.
27:55 [Trabalho com o marido nos peirões de pedra quando regressou a Rio de Loba] Foi, aqui já fazia peirões de pedra, trabalhava-os mais o meu marido, comprava-se o cimento, areia, fazíamos alguma coisa para a gente se governar. Para guardar algum que tinha. Era assim que a gente levou a vida. Até Nosso Senhor chamar. Com sacrifício, mas foi.
28:28 [Waldkirch] Waldkirch. Era perto da Suíça. Mas é nomes em alemão, era Waldkirch, mas vocês não devem conhecer. Foi para o lugar para onde eu fui pelo contrato. E lá ficámos os quatro anos numa fábrica de relógios, e o meu marido foi para as obras, mas depois também foi para a fábrica de relógios novamente, para ao pé de mim. E lá viemos embora, porque a saúde dele já não permitia mais. Ainda vou-lhe contar uma que aconteceu lá, um dia diz-me ele assim ‘Olha vamos a…’, a um país, era tudo dentro da Alemanha, mas era muito longe, pegámos carreira para lá, e depois para regressar a casa? Não encontrámos a carreira. Metemo-nos a pé, de noite. Muito rezei pelo caminho. Quando chega uma alminha de carro, parou e disse assim ‘Para onde é que vocês vão?’, ‘Vou para Waldkirch’, ‘Então entrem para o carro’, que Nosso Senhor acompanhe-os. Ele trouxe-nos, deixou-nos ao pé de casa. Graças a Deus, não houve nada, na maior calma entregou-nos a nossa casa e graças a Deus. Ainda tivemos esse favor, que os homenzinhos, sem nos conhecer de algum lado, viu que éramos estrangeiros e trouxe-nos a nossa casa. Isso é que eu nunca esqueço, que ainda há sempre almas boas fora.
30:26 [Aprender a língua alemã] Ainda andei na escola. Ainda fiz o exame de…ai agora não me lembra o nome…escreveu, era, como é que se chamava? Datilografia. Era aprender a fazer as letras. Aprendi, ainda tirei o exame e passei no exame. Ainda me deram o favor de passar. Mas agora não me lembra o que era. Mas eu sei que aprendia muito bem, gostava muito da língua alemã. Mas…pra quê? Entendia-me bem com as empregadas alemãs. Elas também queriam aprender o português e a gente aprendia umas com as outras. Ai agora já não, falo assim, mas só, já assim, já, já não consigo, só coiso, andar assim à volta, não…
31:44 [Trabalho na fábrica de relógios] Era só alemães. Trabalhava na…onde passava o relógio na corrente, só pôr as coisas na corrente, passava, só a vigiar, de resto não. Agora o meu marido era pintar. Também lá trabalhou. E foi assim a nossa vida. E é, e hoje agora aqui estamos. E tudo se acaba.
32:18 [Regresso e construção da casa em Rio de Loba] Eu já tinha uns cinquenta e tais anos. Já tinha cinquenta e tais anos, já. Eu vim do Brasil com quarenta e tal, foi para a Alemanha esteve cinco, é, tinha à beira dos sessenta anos. Já vinha velha. Já tinha a idade para regressar. Mas a gente já cá chegou, ainda fez uma casa, ainda fizemos a nossa casinha. Graças a Deus. Que era o nosso sonho, era uma casa. Ainda hoje lá está. E vejo-a daqui, do lar. É assim, a minha vida passou-se assim. E agora o resto a Deus pertence.
33:23 (A minha casa fica) entre Travassós e Rio de Loba. Conhece o Penedo da Loba? Entre o Penedo da Loba e uma quinta que tem em cima, mas o meu terreno pertence ainda ao Penedo da Loba. Tanto no caminho de baixo, como no caminho que vai, principal. É mesmo de frente.
33:54 [Mudanças em Rio de Loba] Não, estava na mesma. Achei tudo na mesma. Porque a gente foi criada ali, desde garota. Estava tudo na mesma. Havia assim mais gente mais nova, mas é tudo igual.
34:17 [Centro Social Paroquial de Rio de Loba] Não, o Centro Social já foi mais tarde. O Centro Social deve ter alguns treze, catorze anos. É, deve ter isso. Eles ainda foram lá ver, a ver se o meu terreno dava. Mas era pequeno para o lar. E então disse para o meu marido ‘Olha então isto aqui faz-se para o lar, o que temos aqui de casas e de terreno é tudo para o lar’. Fizemos, fez o testamento, eles queriam logo de papel passado e eu ‘Não, à minha morte é que vai para o lar’, porque eu não queria ficar descalça. Mas agora já disse para a minha irmã, mas agora vou passar isto para o lar já, porque agora o meu rendimento é pouco, tenho o aluguel, mas o aluguel é pouco, agora eu tenho que passar isto para o lar, de papel passado, pronto, eles é que são usufrutos de lá. O senhor padre Henriques queria que eu fizesse isso na altura, ele um dia ainda me chamou e disse, eu ‘Ó senhor padre Henriques, só à minha morte, que então quero ver as minhas coisas…’, diz ele ‘Tem razão, quer ver as suas coisas como as tinha’, mas agora já estou disposta a dá-lo, passar. Até já disse à minha irmã, ‘Um dia vens cá ter comigo e falamos com o padre Aquiles e passa-se logo para o lar, com papel passado. Quero ficar com a consciência tranquila. E para os meus irmãos não pensarem que é para a minha irmã, aí ficam a saber que é para o lar. Pronto. Era a ideia do meu marido e é a minha, pronto. Porque eu dizia para o meu marido, o meu marido dizia ‘O que nós temos, não temos filhos, dá-se para os pobres, e eu ‘Então para dar para os pobres dá-se para o lar, que o lar é para os pobres. Eu acho que muita gente devia fazer isso, não tem filhos, deve, devia fazer para os lares, porque o lar é muito preciso para os pobres. É muito preciso. Nós tivemos sempre esta ideia e com esta ideia morremos, o meu marido foi, Nosso Senhor levou-o, foi com essa ideia, eu estou na mesma.
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