Entrevista a João de Almeida em Rio de Loba, a 29 de Outubro de 2015
Entrevista e Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Edição Audiovisual de Nely Ferreira
João de Almeida relata-nos episódios da sua infância, as brincadeiras e os trabalhos. Aprendeu a arte de alfaiate e explica como são feitas algumas peças.
01:01 [Infância] Oh, da minha infância, a minha infância, aprendi a tocar, a infância, não é, aprendi a tocar bandolim. Depois, andávamos por as festas. Noitadas, a tocar, o pessoal vinha-nos rogar, eu e um irmão que eu tinha, que tocava violino, vinham-nos rogar para várias povoações, até pra São João de Lourosa nos vinham buscar a Travassós de Baixo. É, e andávamos assim por as noitadas. Pois é. Bem, teria, quê, talvez alguns 14, 15 anos (quando aprendi bandolim). É. É assim, é.
02:12 [Escola] O exame de quarta classe, naquele tempo era só a quarta classe. Travassós de Cima, a escola era só em Travassós de Cima, pra Travassós de Baixo e Travassós de Cima. Rio de Loba tinha aí uma escola, uma escolazinha só prá povoação. (A minha escola tinha alunos de Travassós de Cima) e Travassós de Baixo, exatamente, exatamente. Sim, era (éramos muitos), era uma sala grande cheia. Era uma senhora professora, que viviam na cidade, não é, eram duas irmãs. Uma estava numa independência cá em baixo, um bocadinho mais abaixo, para as meninas, e a nós era subir um andarzinho mais para cima, para os, só para rapazes. A Dona, Dona Aurora, e a de baixo era irmã Dona Celeste. É verdade.
03:45 [Brincadeiras de recreio] Lembro, jogávamos o peão, jogávamos a mealhada, que era aquele pauzito aguçado nas pontas e atirávamos. E…e a bola, não é, uma bola feita de pano, de farrapos, naquele tempo. Pois é.
04:20 [Primeiro trabalho que teve] Na, na, assim no…O meu primeiro trabalho, bem, depois da escola andei alguns anos a levar o comer ao meu pai, que era carpinteiro, andava por longe, cheguei a ir a Ranhados, trabalhava lá na escola de Ranhados, de carpinteiro, e eu cheguei-lhe a ir lá levar o comer, a Ranhados. Lá ia todos os dias levar o cestinho do comer, até uma certa idade, depois lá fui para alfaiate.
05:00 [Alfaiate] Lá, comecei assim a aprender a arte e depois, passado uns anos, comecei a trabalhar por minha conta. Depois até havia quem me rogasse, tinham máquinas em casa, pra eu ir trabalhar a este e àquele, naquela casa, naquela… E depois pensei, fiz um pedido para o Lar de São Caetano, para trabalhar no Lar de São Caetano, onde trabalhei trinta anos, como alfaiate. É verdade. De lá me reformei. Depois da reformazinha, entretenho-me por aí no quintal a trabalhar.
06:00 [Aprendizagem do ofício] O ofício? Talvez aí dos 15 anos, talvez, talvez 15 anos. 15, 16 anos. Sim, senhor. A ser alfaiate? Era lá na oficina, na oficina é que puseram-me um dedal no dedo, ataram-me ali uma fitinha pra eu, pra eu me habituar a vergar o dedo, a segurar o dedal. E assim comecei a aprender. Depois, por minha conta fui, eu trabalhava em Travassós, em casa dos meus pais, mas tinha muita clientela. Travassós de Cima, até em Santiago, na Esculca, é, tinha, tinha assim muita, até aqui em Rio de Loba, já nesse tempo.
07:36 [Peças que mais lhe encomendavam] O que pediam? No geral, para a rapaziada era calças, calças para, nos dias de, quando era por as festas e… E fatos então, naquela época do minério, como chamavam, o minério, isso era ali um, não é, não faltava ali que fazer, tudo tinha muito dinheiro. Fazia então fatos, fato completo, fatos completos. Pois é.
08:16 [Fazer um fato] Bem, explicar, estendia a peça, já tinha as medidas, media e, fazia as medidas, e depois cortava, não é, por a medida que estava. Pois é. O casaco, primeiro o casaco e…completo, o casaco completo. E depois então as calças. Daquelas partes um bocadinho mais miúdas que ficavam, tirava-se o colete. Oh, era o casaco (que dava mais trabalho a fazer). O casaco dá muito mais trabalho, a calça era rápido. E o colete também dá um bocadinho de trabalho, fazer aqueles quatro bolsos. Isso conforme, demorava…o casaco, às vezes, dois dias, andava com aquilo nas mãos dois dias. O fato completo levava-me aí quatro dias. Sozinho, não é, fazia tudo sozinho. Não havia máquinas como agora há, elétricas, não havia nada, era tudo de pedal.
10:17 [Máquinas de costura] Tinha, tinha. Tinha a máquina em minha casa. A máquina de coser tinha uma mesa, uma mesinha, posta sobre a mesa, tinha a máquina, uma coisinha que não era assim muito grande, sobre a mesa, tinha uma correiazinha, o pedal… E pedalava ali, aquilo fazia andar uma roda grande, e a roda grande é que fazia trabalhar o calcador, aquela coisa toda para coser, a agulha, aquilo tudo. Pois é.
11:16 [Talento para o ofício] Se ainda é (preciso ter talento)…bem, eu, graças a Deus, tenho talento para tudo. Até pra plantar aqui no quintal umas couves, é, ainda ando, devagar, ando, com uma sacholinha, plantar umas cebolas, é, trabalho. É, e sinto-me mais ou menos bem, não é, mas, é claro, um bocadinho, o ouvido já está assim um bocadinho a faltar, e menos forças, não é, mas vamos andando. Alfaiate? É um bocadinho difícil, é um bocadinho difícil. Depois tirava-se a prova de coiso e tal, via e tal, e é um bocadinho difícil. Não é assim uma coisa muito fácil, não. Pois é.
12:39 [Como lhe faziam as encomendas] Era, era (iam a minha casa fazer as encomendas). Outros mandavam recado, ‘Ó, preciso disto feito’, eu lá ia, tinha uma bicicletazita, lá ia até casa deles, até Santiago, a Travassós de Cima, à Esculca. É, exatamente, tirava a medida ao cliente, não é, tirava as medidas e levava as medidas escritas para casa.
13:23 [Ferramentas de trabalho] A tesoura. Tesoura para cortar, uma tesoura grande, tesoura para cortar, era… O giz para riscar sobre a peça, uma régua, uma fita métrica, e assim… Pois é.
13:53 [Calças de ganga] (Utilizava) várias qualidades (de tecido), mas naquele tempo usava-se muito a ganga, para calças, para a rapaziada…uma calça de ganga! Era, usavam muito isso. Como é que se fazia? Era, tirava-se a medida, riscava-se sobre a mesa por ali acima e…depois de cortada, cosia-se. Punha-se uma parte na outra. A parte da frente na parte de trás… E depois das duas pernas cosidas, ligava-se uma à outra, ligava-se uma perna à outra, e assim ficava a calça feita. Sim, sim, com os bolsos, era dois bolsos, o bolso de trás e o bolsinho de cinta, que todos queriam um bolsinho pequenino aqui, de cinta, para meter as moeditas. Pois é.
15:16 [Comprar o tecido] (O tecido de ganga) comprava-o na cidade. No geral, era na cidade. Havia, nesse tempo, havia muito desses ciganos, no tempo do minério, ciganos que andavam por as aldeias a vender as peças, peças em, aquelas peças de fazenda ao ombro, fazenditas baratas ao ombro e tal e coisa e vendiam aqui e acolá… Havia assim muita, muita, nesse tempo havia muito dinheiro, no tempo do minério, e depois muita gente comprava, não é. Compravam a peça, a peçazinha, não era, no geral era uma peça de 3 metros. Sem a peça de 3 metros não fazia o fato, não é.
16:35 [Diferentes tipos de tecido] Várias, várias qualidades de fazenda. Várias qualidades de fazenda. Cotins, não é, além da ganga havia cotim, chamavam o cotim, uma calça de cotim, é. Pois é. Qual era o melhor? Essas peças que vendiam os ciganos iam tudo assim ao barato, não é. Era, mas no geral o cotim era mais barato do que a fazenda, era mais barato. Cotim e a ganga, mais baratos que a fazenda. Pois é. (Para trabalhar) era a mesma coisa. Era a mesma coisa, o trabalho era o mesmo. Tanto a talhar, como… Havia, fazenda sempre era um bocadinho mais mole, mais domável, não é, sempre se fazia melhor, mais fácil. A ganga era, por vezes aparecia uma ganga muito grossa, muito rija, muito dura, custava mais um bocadito, não é, tudo se fazia. Pois é.
18:20 [Trabalho que esforça a vista] Fui pra Viseu. Arranjei então lá a trabalhar no Lar de São Caetano, trabalhei lá trinta anos, e de lá…e de lá me reformei. Reformei-me por invalidez, por causa da vista, porque fui operado às cataratas. E depois reformei-me, fui para a reforma. Pois (o alfaiate usa muito a vista para trabalhar)… O diretor de lá era padre, o diretor do lar era padre, e depois tinha aquelas roupas pretas, tudo em preto, cheguei ao ponto de já não poder trabalhar naquelas roupas pretas. É, um dia aparece-me lá uma das freiras com uma peça de coiso, ‘Não, não, tenha paciência, mas não trabalho mais em, em preto não trabalho mais’, ‘Então como é que há de ser, então eu vou agora…’, ‘Tenha paciência, mas não, em preto não posso trabalhar’. E daí então, pensaram em, ‘Então tem que ir ao médico’, fui ao médico e, claro, deu-me logo baixa. Cheguei ao último ponto, não é, os trinta anos de trabalho, aquilo, e andei três anos com baixa e depois chamaram-me para a operação, em que fui, fui operado em Coimbra. É. Sim, linha perta, era. Aquelas peças grandes que eles usavam, antigamente, aquelas batinas grandes. Com uma carreira de botões por ali abaixo, botõezinhos pequeninos, era. Uma coisa que dava muito trabalho, não é, mas tudo se fazia. Eram, sim, pretos (os botões).
20:56 [Trabalho no Lar de São Caetano] Que fazia mais? Roupa para os velhotes, havia lá muito homem, muito velho, havia muito homem, alguns ainda uma certa idadezita que ainda trabalhavam lá numa, tinham a quinta grande, trabalhavam na quinta. E depois ali, por ali andei aqueles trinta anos. Cheguei lá a uma certa ocasião, uma das, a gente tratava-as por Irmãzinhas, ‘O senhor, o senhor já é considerado filho da casa’, porque ela custava-lhe, faziam lá muitas festas e sabiam que eu que sabia tocar, mandavam levar o instrumento, tirava-me da, do trabalho, ‘Tal dia vêm cá uns senhores, vêm cá os meninos da escola’, coiso, e, coisa, e eu lá ia tocar, coiso, e depois naquela, com aquela coisa toda, ‘O senhor daqui a pouco está já considerado filho da casa. É assim. Sim, (o ambiente de trabalho era bom), era, era, era. Há de ir.
22:32 [Comprar as ferramentas de trabalho] Na cidade. Compravam aquilo tudo. Onde compravam? Em várias lojas, não é. Lá na oficina onde eu trabalhava, no lugarzinho onde trabalhava, passei de tudo, por isso mesmo, sei lá donde, mas compravam na cidade. Sim, sim, havia (retrosarias).
23:15 [Continuação da costura de peças para outros clientes] Não, não, depois, ainda aparecia um ou outro, mas, ‘Olhe desculpe…’, mas, ainda atendi bastantes, mas quando cheguei a uma altura, ‘Não, não, não. Não tenho vagar, então, tenho que, passo o dia no, assim, assim a trabalhar fora, não, cá não posso fazer mais nada’. E lá se foram arranjando por outros lados. Mas chegava bem as oito horas de trabalho no lar. Costumava ir pegar cedo, para sair mais cedo também. A primeira, a primeira, aí cinco anos depois de casado. Sim, ia (e vinha todos os dias para Viseu). De bicicleta. Tinha uma bicicletazita e depois, um dia mais tarde, pensei, ia a pé. Saí daqui às 7 e meia, de manhã, chegava lá, mais ou menos, 8 horas, e começava a trabalhar. (O almoço) era lá, era lá, era lá. Uma ocasião, uma temporada, que andei de dieta, e depois pensei em vir comer a casa, pra comer assim um bocadinho mais de dieta, não é, mas depois voltei a comer lá.
25:23 [Ensino do ofício no Lar de São Caetano] Era só eu. Era só eu, e depois entrou um rapazito daqui de cima de Silvares, pra lá, um, internado, um rapazito, sabia qualquer coisita de alfaiate e lá o puseram para me ajudar, lá fazia qualquer coisita pra ajudar. Ah, ensinei. Pu-lo a fazer calças. Quando, às vezes, ficava em casa ou coisa assim, ele lá se entretinha. Ensinei-o a cortar a calça e a fazer, quando eu lá chegava já tinha a calça meia feita, já, já… Foi verdade. Depois passado uma temporada começou a adoecer também, coitadito. Depois morreu novo. Pois é assim…passei trinta anos ali assim.
26:54 [Outros trabalhos que se faziam no Lar de São Caetano] Oh, havia. Havia, tinha muitas empregadas, não é, tinham, naquele tempo, lavavam a roupa, uma certa roupa era lavada no hospital, porque aquilo pertencia à Misericórdia, não é, era, levavam-na para a lavandaria do hospital, e a roupa mais miúda tinha lá um tanque grande, punham aquelas mulherzitas que ainda podiam fazer alguma coisinha a lavar a roupa. Lavavam, estendia por ali fora uns cordões. Lavavam lá muita roupa.
27:46 [Utentes do Lar de São Caetano] A gente? Os internados? Daqui de perto eram, ai, havia um, um de Travassós de Cima, um de Rio de Loba, do resto é tudo longe, Silvares, de, até de perto de Lamego e dessas terras longe. O lar? O lar era grande. Um prédio muito grande, muito maior do que este daqui. Um prédio assim à moda antiga, mas sobre o comprido, muito grande, tinha um corredor como daqui lá diante ao caminho, um corredor lá dentro como daqui lá diante ao caminho. Estava lá mais, vinha muita gente, muito, também muitos acamados, acamados, mas uma grande parte ainda podiam trabalhar, faziam qualquer coisinha, não é.
29:03 [Salário] Não, quando comecei a trabalhar lá, o senhor que estava, que estava, que era o padre, o doutor, doutor Serrão, doutor que é padre, doutor, mas era padre, era professor no seminário, perguntou-me ‘João, como há de ser, o ordenado?’, ‘Ah não sei, diga o Sr. Dr. como é que, como é que, o que é que eu mereço, o que é que me…’, ‘Oh, 20 escudos, esta bem? Por dia.’, ‘Está bem, Sr. Dr.’. Naquele tempo estava bem, 20 escudos e o almoço. Almoçava bem, não é. E pronto, e assim andei. Um dia mais tarde eu queria aumento, é claro, depois só mais tarde é que me meteram então na Caixa, coiso, e passei a receber mensal. Passei a receber mensal. Comecei com 3, nesse tempo, 3 contos por mês. Mas já era mais qualquer coisinha do que os 20 escudos, não era, não é, por dia, já eram 100 escudos. E, e…depois foi, foi aumentando mais um bocadinho, tal, tal, e depois fui para a reforma.
30:52 Bem, era um dinheirinho que estava certinho, não é, chegava o sábado, toma, estava assim mais certinho. Cá na aldeia, às vezes alguns ainda, tardava assim um bocadito mais a pagar e tal e coiso.
31:24 [Alturas em que tinha mais serviço] Mais serviço? Havia quando era as festas, quando era por o, ali próximo ao Domingo de Ramos, aquilo era…para os miúdos, para irem com o ramo e coisa, aquilo era para ali um, uma data de serviço. Havia, quando havia as festas, não é, havia sempre mais serviço. Mas no geral não faltava ali serviço, sempre. Tive noites de trabalhar toda a noite. É verdade.
32:12 [Época do minério] A trabalha no (minério)? Havia, havia por aí terrenos que foi tudo mexido, foi tudo… Tiraram aí muito dinheiro. É. E alugaram mesmo aí para cima de, ali para Travassós de Cima havia ali um lugar que aquilo empregava, não sei, andava para ali muita gente empregada, não é. Não, não, tudo de cá (quem lá trabalhava). Tudo de cá, mas havia, havia também por aí um ou outro que, não chegava o pessoal de cá, iam buscá-los a Sernada, lá diante, e por essas terras fora. Era, muito serviço.
33:29 [Mudanças no ofício de alfaiate] Mudando? Foi mudando, era sempre, mais ou menos, quase a mesma coisa, não é, mas mudou muito porque vieram as fábricas. Vieram as fábricas e baixou muito a… Já fora do meu tempo, já depois de eu deixar de gaiato, ou coisa assim, é que isso começou a vir mais da, feito pelas fábricas, não é. Olhe esta minha filha foi empregada numa fábrica onde aquilo por dia saíam ali sei lá quantos centos de camisas. É. Fábricas, que aquilo que, máquinas, que desenvolviam rápido aquilo.
34:37 [Não havia muita gente a seguir a profissão de alfaiate] Muita gente a querer a profissão de alfaiate? Não era demais, mas não puxavam assim muito pra, para aquela área, não. No meu tempo havia um senhor que era meu colega e trabalhava em Travassós de Baixo. Trabalhava também lá na, ao pé de mim, na alfaiataria aonde eu aprendi, e…e, por ali assim, e na Esculca havia outro, outro senhor alfaiate. Em Travassós de Cima havia outro. E mais nada por aqui assi… Havia poucos.
35:40 [Ensino do ofício em Travassós de Baixo] Ensinei a um de Sernada, daqui de cima, que pertence a Santos Evos, ensinei-o em minha casa, em Travassós de Baixo. Um rapazinho que a família é muito nossa amiga, amigos lá dos meus pais e tal, e dormia lá em minha casa e coiso, só ia passar o fim de semana a casa, à terra dele. E ensinei-o. Já trabalhava lá em casa dele. Quer dizer, quando saiu de minha casa, já achou que, que ele já trabalhava em casa dele, que lá fazia umas, qualquer coisa em casa dele. Depois mais tarde deixou de ser alfaiate, empregou-se em Viseu numa loja de ferragens, de, chamavam o Sena, a loja do Sena, ferragens e tal. Deixou de ser alfaiate. E é assim a vida.
36:55 [Primeiras coisas que se aprendiam no ofício de alfaiate] (As primeiras coisas) que ensinava? Conforme, as primeiras coisas era enxuliar. Era tudo feito à mão, agora é tudo feito com máquinas. Enxulliar as bainhas, as bordas de coiso, para não desfiar. E era tudo enxuliado à mão. Por ali fora, bumba, bumba, bumba, enxuliado à mão. Era a primeira coisa que aprendia. Depois fazer umas casitas. Fazer, começavam de aprender num panito, um panito qualquer, para aprender, não é, a coiso, a fazer uma casa, um panito qualquer, para aprender a casear e assim. Passei muitos dias, passei muitos dias a casear em roupas pretas, porque antigamente os padres usavam aquelas batinas grandes e com, caseadas, caseadas, e eu passei muitos dias a casear naquela, trabalhar naquela, naquele coiso preto e isso talvez me tivesse prejudicado a vista, não é. Tive que ser operado.
38:34 [Casear] Como é que se caseia? Abria-se a casinha, enxuliava-se para não desfiar, para se poder casear à vontade, enxuliava-se em toda a volta e depois caseava-se. Era o ponto entrançado, ponto entrançado na agulha. Sim (depois já se podiam aprender coisas mais complicadas), bem, o casear, o casear de certas peças não era para todos, era preciso ter uma certa prática. Agora, o casear, por exemplo, umas calças, a carcela das calças, isso já qualquer um, aprendia-se, depois de aprender, um, passado um dia ou outro de fazer o panito e tal, depois já caseava, não é, a carcela das calças, não é. A carcela, que era uma peçazinha e depois era aplicada nas calças, uma peçazinha que estava, era caseada separada das calças. Não era cosida nas calças e depois estar a casear, não, era feita cá fora a carcela, e depois é que era colocada na, depois já caseada, preparadinha na…cosida nas calças.
40:35 Sim, era uma espécie de ponto cruzado, enfiava a agulha, passava a linha por a agulha, lá ficava ali uma espécie de um, uma espécie de um nozinho, um nozinho ali assim, dava-se um puxãozinho e ficava aquilo ali assim. É uma coisa que…fácil para quem sabia. Bem, o caseado era tudo o mesmo, era tudo, tudo, era botar a agulha e passar a linha para fazer o, aquilo, aquele montinho apertado na peça da roupa, não é, não havia outra forma de… Agora é tudo feito, mesmo o caseado, é tudo, até botões pregados à máquina, é tudo.
42:02 [Coser à mão e coser à máquina] Coser, por exemplo, a coser à mão era só aquela forma, aquela coiso…à máquina era, é diferente, é diferente do cosido à mão, não é. Não é, metido na máquina e a máquina a trabalhar e cosia. Bem, aquilo que tinha que ser à mão tinha que ser à mão mesmo, aquilo que era para a máquina era para a máquina. A máquina era mais, gostava mais de coser à máquina, que a peça que, o serviço que era para ser feito à máquina, não é, aquilo era mais rápido. É, pois é (o ofício foi-se tornando mais raro).
43:33 [Casou em Rio de Loba] (A minha esposa) era, era, era de Rio de Loba (a minha esposa). Conheci-a aqui em Rio de Loba, no tempo da Ação Católica, que era, chamávamos nós a juventude, a juventude, havia os rapazes da juventude, havia as raparigas, e dali a comecei de a conhecer.
44:15 [Toca bandolim em grupos da região] Sim, senhora (participo nas festas da freguesia). Aqui na freguesia nem por isso, aqui, bem, aqui na freguesia, agora depois que, de casar, quando havia festa tocava aí nas festas, mas agora…toquei no Rancho Folclórico de Mundão durante trinta anos, talvez passasse de trinta anos que andei com aquele rancho. Tinha muita saída, muita saída, fomos ao Algarve, fomos a França, fomos, no rancho. Agora depois que deixei de ir lá ao rancho, já há uns anitos, fundámos então aqui, preparámos aqui então o grupo de cantares, o Pedra Moura. O meu neto que vive aí em baixo numa casa grande que está aqui em baixo é o que pensou em fundar, arranjar uma rapaziada, ‘vamos, vamos fazer’ e temos ido por muito longe, não é. Já fomos a Arouca, já fomos a, eu sei lá, por essas terras fora. Para aqui para, já foram, eu por acaso não fui, tinha lá ido com o Rancho do Mundão, à Madeira, mas o grupo foi lá, eu não, tinha lá ido com o rancho, com o rancho do Mundão, não, nessa coisa não fui com eles. E por aí fora, há muita festa. Ainda era essa, na minha festa eu nem devia tocar, mas, na minha festa a missa foi tocada, bandolim, violino, órgão, violas. E todas as festas que há por aí a gente acompanha, não é.
46:23 [Grupo de Cantares Pedra da Moura] Em que ano (foi fundado)? Ainda não há muitos anos, mas talvez haja, não, ainda não deve haver dez anos. Olhe aqui neste lugar é que começaram, começámos a ensaiar. Isto era uma adega, depois deixou de ser adega, deixei de cultivar vinho, e coiso, preparou-se tudo, preparou-se tudo e aqui é que vinha a rapaziada ensaiar. Começámos de ensaiar aqui. É verdade. Fazemos todos os anos o Festival das Janeiras, é feito na Igreja, este ano já está marcado, este ano, no próximo ano, está marcado já para o dia 3 de janeiro, mas este ano, segundo já ouvi, parece que vai ser feito, não é de noite, parece que vai ser feito de dia, de tarde. Temos feito de, à noite, depois das 9 horas da noite, a começar às 9 horas, das 8 às 9 era o jantar e começávamos então… Vinham muitos grupos de fora, vieram cá os de Arouca, vieram cá de Castro Daire e de, vêm de vários, de vários, mesmo de lugares longe, Manhouce, eu sei lá. Eram menos do que agora (quando formámos o grupo), eram talvez aí uns, uns oito ou nove, agora são uns catorze ou quinze, mais ou menos. Várias coisas, várias músicas, músicas, coisinhas antigas, não é, coisinhas antigas. Eu toco bandolim, houve uma ocasião qua ainda toquei violino, mas não gostava daquilo, tinha aqui na, coiso, parece que me dava o sono, deixei de tocar, dediquei-me ao bandolim, toco só bandolim.[/hide]