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00:15[Apresentação] Maria Alice Correia – nascida em 1922 – já vai fazer 91 anos – 11 de Outubro de 1922 – Nasceu em Ester Castro Daire.

01:01[pais][irmãos] a mãe era Maria Correia e o pai Joaquim Duarte – Eram naturais de Ester também – eram irmãos Maria Alice, Ricardina, Márcia e Licíno que era o pai do Marco- Teve um irmão no Brasil que a mãe teve em solteira que já morreu há muito tempo, chamava-se Gebriano – foi o primeiro que a mãe teve, era até menor de idade –

01:57 [infância em Ester] trabalhava nos campos, era camponesa- chachava milho e regava – cavava com a leiva e com o arado – os pais labravam com o arado puxado a vacas – cavava com as irmãs, trabalhavam na agricultura desde pequenas, desde que saíram da primária – diz que foram logo para a enxada para o campo

02:33 [escola][marido][trabalho] andou na escola fez a quarta classe – queria fazer mais escola mas faltava lhe o dinheiro – refere ter querido ser professora – ainda concorreu para ser regente – havia aquelas escolas nas aldeias mais mais remotas mas como já namorava o marido ele disse-lhe que se queria casar com ele não ia para ficar em casa –  ele trabalhava na madeira -desisti e fiquei assim –  gostou da escola – trabalhou muito no pinhal com o marido – ia para lá ajudá-lo e carregou muito pinheiro ao lombo – tive uma vida mas o trabalho não faz mal e que até faz bem, que trabalhou muito e está cá hoje com 90 anos. Tendo nascido em 22 faz já 91 anos.

03:40 [Nodar][casamento] teve em Ester até casar e depois foi para Nodar – depois andei por aqui –  O casamento foi em Lamego na Sé – Foi passar a lua de mel ao Porto, na Régua -graças a deus- sabe a festa do São macário? –  ele ia a acompanhar uma vizinha de tia Alice e passou por ela, tratou-a por menina porque era o termo que se usava na altura e perguntou-lhe se tinha ido ao São Macário, tia Alice disse que não porque tinha que regar toda a noite e não pode ir – tia Alice perguntou-lhe se ia ser seu vizinho porque namorava com uma vizinha de tia Alice – começou logo assim a entrar com tia Alice – tia Alice disse-lhe que não namorava mas que não queria fazer essa desfeita à vizinha – ele insistiu e disse que não viria nos próximos dois domingos mas que iria no terceiro para falar com ela – dizem que o casamento e a mortalha torceu-se talha – tia Alice diz que nunca pensou que isso acontecesse – a casa dos Paivas  era uma casa pobre? Mas a de tia Alice era mais pobre e então não acreditava que o marido a quisesse – o marido morreu com 58 anos com doença no pâncreas – gosta muito das pessoas de Nodar, são quase todas uma família –  as irmãs até levavam a mal dizendo que tia Alice gostava mais de Nodar que da sua terra mas tia Alice dizia que era da gente de Nodar que gostava mais – de verão Nodar é bom – ainda lá tem a sua casa posta onde a Marieta mora- foram lá almoçar o ano passado – a mãe chorou quando tia Alice foi para Nodar mas depois conformou-se – diz que não era muito convencida e que não acreditava que o marido a quisesse e que gostasse dela – os Paivas tinham uma casa boa mas deviam muito dinheiro por causa da doença do sogro de tia Alice – teve uma doença prolongada – quando tia Alice casou o sogro já tinha morrido – o sogro morreu com uma cirrose, o alcool faz mal – quando foi para Nodar quem estava lá em casa era a sogra de tia Alice, a tia Rosa, a martinha e a Augusta com 5 anos, o Jaime, o Adérito e o Celso, que já estava em Lisboa – esteve lá dois anos até arranjar a casa dela, era um palheiro ao pé da casa dela – ? era o mais velho e não quis deixar a mãe desportegida – arranjaram a casa de baixo e foram para lá – queriam ficar à parte porque depois começaram a vir os filho e tia Alice queria fazer casa – viviam muito bem e eram muito amigos, ainda hoje, sempre a trataram muito bem – os vizinhos eram albano, Laurinda, tio Artur e tia Ana, o Ló, que morreu debaixo de um trator, o Augusto, o rasga, o sapateiro – dava-se bem com eles, eram muito amigos – não havia ninguém em Nodar que dissesse mal de Tia Alice ou o contrário – davam-se todos muito bem, era uma família – em Nodar tinha os terrenos do sogro e também ajudava os outros que eram menores – trabalhavam todos em conjunto –  tia Alice tinha uma vaca e eles tinham duas – os campos em Nodar eram em Vale Cibero ? , prado, Calhos que venderam mais tarde, a tapada ? – o modo de vida de tia Alice era a agricultura e o marido trabalhava no pinhal – o marido comprava as árvores e chegaram a ter um trator, vinham os camiões carregar e o marido acompanhava os camiões para a fábrica e trazia o dinheiro – passou uma vida mais ao menos, pena o marido ter faltado tão cedo –  os Costas sempre se deram muito bem com os Paivas, tinham a casa de frente uma para a outra- ainda hoje se dão bem – Tia Alice conversava muito com o pai de Luís naquela parede, ele dizia que tia Alice era a única pessoa com quem podia conversar porque o resto era tudo atrasado – tia Alice só tinha o quarto ano mas convivera muito com professores e padres em solteira – as professoras iam para lá em solteiras e conversavam com o padre- eram três irmãs, e qualquer uma podia ir dormir com as professoras solteiras – uma vez quis ir ver a professora Ester com quem dormiu muitos anos mas estava com pressa para ir ver um rapaz que tinha morrido –

14:17[Ester]A casa era perto da igreja um pouco mais abaixo – quando foi para Nodar teve muitas saudades da igreja, ia e Parada mais a Marieta à missa – iam a pé – de Nodar a Parada é perto – iam todos os domingos à missa ou quando havia um funeral – a Marieta era a companheira de tia Alice – o ano passado esteve a almoçar na casa dela

15:00 [casa de Nodar] não havia criadas em Nodar – os pais de Luís tinham uma criada, a Alzira do Raso e os manitos – tia Alice dizia que a terra dela era pequena mas era uma aldeia muito boa – dava se bem com toda a gente – os caseiros que moravam ao pé da sua casa tinham umas filhas

16:05 [marido][amigas] o marido ia a pesca e depois quem cozinhava era tia Alice- fritava o peixe – uma vez o marido apanhou um pargo grande e mandou-lhe fazer um ensopado – guardava sempre peixe para o padre quando lá fosse que diziam valer a pena ir a Nodar a casa de tia Alice para comer peixe – o padre Zé Pedro, padre Zé Bota iam sempre a casa de tia Alice – para comer folar também – sempre gostou de conviver com gente mais evoluída – havia lá gente muito atrasada – havia a Emília e António de Rariz que eram caseiros – no Verão ia muita gente a Lisboa – a tia custódia da ponte e a belita eram muito amigas de Tia Alice – teve muita muita pena dela porque morreu muito nova de doença, já andava com a garrafa atrás dela – Às vezes tirava a garrafa e a máscara – a tia custódia não era a mãe do mota era avó da belita, a mãe dela morreu nova e Belita já trazia a doença da mãe, falta de oxigénio – o Mota arranjou outra, a Rosa que está mal das pernas – é assim a vida, isto vai passando de geração em geração

19:92 [filhos] o Licínio nasceu em Ester e o Pedro em Nodar. O Licínio nasceu em Ester para as irmãs e a mãe tratarem da tia Alice – foi para lá cuidarem dela, era perto e no verão atravessava-se o rio a pé  – O Licínio foi o primeiro, teve ainda outro mas morreu porque não foi para a maternidade, teve-o em casa –  o bebé era muito forte quando nasceu, pesava 4 quilos e 800 gramas, até diziam que trazia dois, na altura não havia ecografias e trazia uma barriga muito grande – tia Alice quase que morreu, a tia Alzira mãe da Marieta é que assistia aos partos – amparava-os e lavava-os – Em Ester foi Isaltina que a assistiu – o lícinio nasceu em 60 e o Pedro em 61 – passados 10 meses ficou grávida  – estava em nodar e quando foi a Ester viu a mãe e começou a chorar porque o menino ainda tinha 10 meses e já estava grávida outra vez –  a mãe de tia Alice disse que quem andava à chuva molhava-se e que mais um filho criava-se- veio então para Ester desapartar – ela andava a judar o marido na madeira e tinha lá as duas irmãs e os pais que pediram para trazer o menino para lá e fez lá o quarto ano – o pai já queria que ele trabalhasse e então foi para o seminário mas não quis ser padre, o Pedro também não – tia Alice queria ter um filho padre – foi para o seminário em Fores de Algores? – já estava no terceiro ano mas desistiu porque queria casar – depois da primária foi para Fores de Algores – foi lá buscá-lo e o reitor estava à porta e tia Alice começou a chorar –  o reitor disse a tia Alice para não chorar porque o rapaz não tinha vocação e não se podia obrigar –

22:50 [igreja em Nodar][festa] tia Alice morava perto da capela e os padres comiam na casa dela quando tirava o folar – almoçavam lá sempre e quando a missa era à tarde até lá jantavam e às vezes até dormiam porque no outro dia iam para a Ameixiosa – ainda tinha o marido e eles dormiam lá – a procisão vinha  ponte – era uma festa bonita – era no dia 8 de Dezembro da senhora da Conceição porque ela era a padroeira – Nodar já não presta é uma grande diferença já não há lá quase ninguém – está lá era o Laurindo, Albano o tio Artur o Ló – só lá está a Martinha – quando lá vai Martinha pede lhe para ir para lá – há tempo Augusta trouxe-a e ela viu a relva e disse que a relva não presta porque a cabra é gelada e a vaca é gelada –

24:50 [Martinha][Augusta] A martinha era muito amiga de tia Alice, andava sempre atrás dela e já tinha 16 anos – depois era o Jaime e a Augusta – Augusta andava sempre atrás de tia Alice – esteve lá dois anos até compôr a casa que puseram moderna – Martinha era uma grande trabalhadeira mas depois deu-lhe um AVC e apanhou-lhe a parte direita – ela ainda varre com a esquerda e faz a comida dela – há tempos foi lá vê-la e ela estava a partir as batas com a esquerda com a machada –  lá vai vivendo, já tem 72 anos – Augusta está bem – teve sorte porque o marido é boa pessoa também – continuam amigas e a ver-se – foi ao aniversário do Raul que já fez 72 anos, ela é mais nova 10 anos mas eles estão bons –

26:45 [Licínio] O Licínio foi para o Brasil e tia Alice chorou muito – se ele não fosse arrebentava-se – os pais tiveram muita pena – não lhe aconteceu nada de mal porque no Brasil matam por tudo e por nada – ele gostava muito de ir aos bailes -depois foi para a Suíça que foi onde arranjou a mulher que é de Chaves e lá se casaram e deu para bem graças a Deus- o Licínio tinha o tio no Brasil e teve muita pena de ele se ir embora porque tinha lá uma padaria e Licínio era muito trabalhador e simpático – quando lá iam perguntavam por Licínio mas foi se embora porque lá era muito perigoso – ele gostava muito de bailes e dos jantares – é assim é a vida- depois foi para a Suíça e arranjou lá mulher de Chaves – deu para bem graças a deus só é pena não terem dinheiro

28:37 [Pedro] O Pedro não emigrou e começou a trabalhar na madeira – andava com o pai e lá ficou com o rabo do pai – o outro queria comercio – o Pedro não é de ficar fechado em casa – já esteve um restaurante na rua Miguel bombarda – haja saúde – está um pouco em cada lado, na casa de um e do outro – lá não há mercearia nem talho nem cafés – tinha que ir a Parada e ainda esteve para lá uns tempos com a Marieta fazer as compras- sofre muito dos joelhos, esteve para ser operada mas não quis

30:13 [mostra o terrenos ] mostra as ervilhas –

30:20 [festa de Nodar ] A festa era a procissão e a missa cantada – é no dia 8 de Dezembro e a tia falou com o Padre e pediu lhe para fazer a festa que a tia pagava – o padre ia lá de qualquer maneira porque é obrigado ir lá no dia da padroeira – pediu ao filho para ir falar com o padre porque são só 20 euros para a missa cantada no dia da festa como antigamente – as mulherzinhas lá cantam, a Fernada e a Donzília do Mário – tia também ajuda – antigamente havia procissão iam a pé – antigamente pedia-se para ir às várias aldeias fazer a festa – antigamente não havia baile era só missa e procissão – havia os tocadores em Sequeiros de violino – O Lourenço e o da Quintã tocavam –

32:30 [casamento] Casei-me tinha 34 anos, virgem graças a Deus- agora nem acreditam  – antigamente havia mais respeito – agora desculpem lá mas perdem a virgindade muito novas – o marido tinha 25 era mais novo do que eu 9 anos e já já lá está – a mãe dizia lhe que como o marido era mais novo que podia arranjar um amante mas não arranjou – hoje se fosse vivo um gosto nos filhos – a experiência é a mãe da sabedoria – experiencia e a historia da vida- diz que as pessoas passam por tudo – coisas de teologias já não é comigo, fiz o quarto ano e chegou, graças a deus, quantas da minha idade são analfabetas na aldeia -não sabem…eram analfabetas e eu graças a deus fiz o 4º ano, ia para regente mas já namorava com o meu marido e ele não era de acordo.

34:19 [escola][professora] [irmãos] (o marido) era de outra aldeia, chamava-se reriz – (o marido) não quiz -ele dizia, não, quando namorava com ele disse-lhe que vou fazer o exame a Viseu, para regente, e ele disse que se fazia conta de casar com ele não vais, eu ando an madeira e quem fica em casa? e desisti – mas eu gostava de ser professora – a  minha professora esteve doente, eu ainda era solteira e nova – pediu à minha mãe, não se pode fazer assim mas naquela altura fazia-se, para ir dar aulas porque ele estava doente – ela morava por cima e a escola ficava em baixo na mesma escola – para eu dar alulas para não me atrasarem os garotos, e eu  toda contente sentada à cadeira à mesa- era a mista a escola, rapazes e raparigas- eles assim, tu aqui bates-nos mas lá fora…era mista – eu já tinha mania sentada na cadeira da mesa da professora- a professora era boa e gostava dela – era a comadre da mãe e madrinha do meu irmão –

36:06 [Pai] [Professora] o meu pai fazia-lhe muitos trabalhos porque tinha umas terras e uma vaca tourina para dar leite para os quatro filhos- era divorciada, o marido deixou-a – o meu pai trabalhava lá nas terras dela, tinha uma vaca- ela tinha quatro filhos quando o o marido divorciou-se dela, e deixou os quatro, o último estava na barriga, quando se divorciou- ele era juiz na Régua, com o divorcio ela pôs o quarto ano e ele pô-se a estudar-  Ele era juiz na régua,  morreu de paragem cardíaca – deixou quatro filho, trazia quatro filhos a estudar – um já da segunda mulher e três da outra mulher – a minha professora tinha umas terrinhas e uma casa boa que o marido tinha deixado (…)- ela vendeu tudo mas pôs os filhos todos bem  -um é advogado o Dr Celso, o Alexandre era..andava no barco,  comandante no barco do bacalhau – o Zezinho foi professor e a Tilinha era a mais velha, da minha idade chama-se Donitília,essa casou com um homem que andava em África e tinha dinheiro por isso não chegou a ser nada – é assim a vida-

37:52 [Alexandre] [ Bacalhau] Ia para a terra nova, para a América, andava lá aos oito meses – Trazia já o bacalhau estripado…tinha um emprego…trazia  e as caras de bacalhau… já me lembro de tanta coisa… já morreu coitado – porquê que o diabo sabe muito ? porque é velho ! – queres um conselho pergunta ao velho, não é – a gente já tem a prática,já tem a escola da vida -também ensinoi muito, sim senhor- a escola da vida também ensinou muito – os 90 é que é um carambas – os 90!

38:50 [Ricardina] [Irmãos] e a minha irmã Ricardina, conhecia-a bem?  morreu em Agosto com 92 anos -teve uma morte santa- estava ali no café – eu estava no balcão a ler o jornal e vejo o senhor Campos a correr- quando olho ela já estava estendida no chão -Ó Ricardinha, Ó Ricardina, mexia os lábios mas não pronunciava as palavras – veio o INEM levou-a e durou três dias, nunca mais falou – tive muita pena dela mas teve uma morte santa – não sentiu a morte, agora só estou eu dos irmãos – só tivemos um irmão que era o pai do Marco, e então era a Márcia, a Ricardina e eu, eramos três raparigas, sou a mais nova, isto é por ordem, o senhor levou os irmãos pela ordem – morreu a Márcia que que era a mais velha depois Ricardina e agora falto eu – agora irmão era o mais novo, cinco anos, chegou a conhecê-lo? O Licínio – morreu no Brasil e nunca mais veio para cá-  dizia que queria morrer em Portugal mas se não morrer em Portugal  que queria vir para cá – não o trouxeram – ele ganhou bem para isso deixou-lhe o restaurante e deixou-os bem – a Beatriz, conhece a mulher? está lá mas esteve no Brasil, no verão ela esteve cá – É assim, ai Jesus!


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