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00:00[Apresentação] Luísa de Jesus de Campos – nasceu em 1931, tem 81 anos que fez a 28 de Março – diz que nunca festejou o aniversário na vida dela. Telefonaram-lhe que não era da sua família. Ainda trabalha e teve uma trombose à 22 anos. O seu marido esteve numa cadeira de rodas durante 18 anos e a mãe teve cega durante 10 anos. Tomava conta deles até morrerem. Toma medicamentos mas ainda trabalha.

01:00 [onde viveu] sempre viveu em Candal nunca de lá saiu.

01:04 [casamento] foi à igreja mais o seu homem. Na véspera do casamento remendou-lhe um casaco nos cotovelos para ele levar – foram à igreja e depois foram a casa da mãe de Luísa que lhe deu café – foi para o minério com uma sardinha e um bocado de pão juntamente com uma colega que era da aldeia e que morreu há já 40 anos. O marido foi serrar para um homem que se chamava António Salgueiro e que lhe deu o almoço e o jantar. À noite não tinham cama para dormir. A casa era veha, Luísa disse ao marido que fosse ter com o irmão que já morreu e foram dormir num palheiro. Foi lá a sogra trazer lhes mantas velhas, só lhes deixou uma manta de pêlo das cabras. Uma manta de cabras era uma manta que se fiava. Sempre viveu na miséria, até hoje.

02:39 [filhos]teve 2 filhos, um tem 63 anos e o mais novo 45 anos.teve os filhos naquela casa velha, o mais novo mora em França. Não havia maternidades nem hospitais para ter as crianças, tinha-se as crianças em casa, havia uma mulher parteira que se chamava Palmira.

03:50[antigamente] Não havia trigo, bebia um café negro, o leite ia-se levar a cabreiros. Com o dinheiro do leite comprava-se a farinha para cozer o pão. Não havia nada era uma miséria. Tem uma fotografia do mais novo a caminhar com um vestido. Na fotografia está um homem que andava a pedir com um saco e que ficou na fotografia. É o afilhado do filho e hoje é rico e empreiteiro de obras no Porto em Lisboa e em França. Mas antes andava a pedir com um saco.

04:36 [actualmente] vive sozinha.

04:48 [de quem guarda recordações] não guarda boas recordações de ninguém – há lá pouca gente, são amigos uns dos outros e está tudo bem mas ninguém toma conta de ninguém nem ninguém faz nada uns aos outros –

05:14 [escola] ia pouco à escola e o professor batia nos alunos – os filhos andaram todos na escola e fizeram o exame da 4ª classe que iam fazer a Manhouce – Luísa não estudou – havia muitas raparigas e rapazes, não era como agora- diz que há pessoas que andaram a tirar cursos e não sabem o nome delas e que mesmo assim Luísa ainda sabe o seu nome e ainda consegue ler qualquer coisa – recebe o correio dos dois padres –

06:20 [trabalho] começou a trabalhar com 7 anos, no minério – trabalhou nas minas até ter os filhos – na véspera de ter o filho ainda trabalhou no minério com o saco às costas (…) com uma candeia na mão –

06:45 [Minas]eram homens e mulheres e os guardas iam atrás dos mineiros – roubavam o minério e escondiam-no de dia debaixo das pedras – de noite iam buscá-lo com um lampião – usavam uma saia de roda e umas cintas não é como agora que se usa calças – por vezes as mulheres estavam grávidas e punham o minério à cintura mas os guardas não as podiam apalpar – outras vezes iam lá de noite – andou nas minhas de chás – em rio frades onde ganhou para um cordão – andou no padrão, no vale seco ao pé do covelo, andaram na cabada de Braz – ao pé desta estrada tirava-se minério às pabeias ? – lavam o minério, andavam lá muitos mineiros – faziam muitos bailes, era uma alegria – quando era tristeza ia tudo morto com fome, havia homens que lhe roubavam as merendas – todo o dia havia pessoas mortas com fome, eram pobres – os ladroes eram o Mnel e o Latas que já morreram há muitos anos. Iam para as ceifas, para a poda, para cabreiros, cantava, dançava, fazia bailes, iam lá os mineiros.

09:00 [no seu tempo] no seu tempo não havia trigo, mesmo que estivesse uma pessoa a morrer não tinha uma bolacha para comer –

09:15 [marido] O marido era da aldeia – era carpinteiro e serrava com uma serra de serrar madeira – ainda tem essas serras – andou no Brasil seis anos a trabalhar como carpinteiro – do Brasil foi para França – em França tinha a casa por fazer e quando foi botar a primeira pedra começou a deitar sangue da boca e foi para o sanatório e esteve lá dois anos – diz que passou muitos trabalhos, não havia estradas, era com carros de vacas – passou as pedras daquela casa num carro de vacas –

10:04 [roupas] havia lá uma mulher que costurava, chamavam-na de alfaiate, fazia -lhe a roupa para os filhos e para toda a gente – havia outra costureira que morreu em Oliveira chamavam-na de Prazeres e era uma costureira muito boa- na Povoa havia tecedeiras e mandavam tecer mantas de tiras – para o filho mais velho ainda mandou fazer uma manta de tiras – não havia fraldas, usava-se pano – lavava-se no ribeiro e voltava-se a botar –

10:45 [compras]iam a São Pedro e a Santa Cruz e trazia-se tudo dentro de sacos ao lombo – na aldeia não havia nada, não havia um quilo de arroz – iam a são Pedro a caminhar – pegavam nos sacos ao lombo – levavam 100 escudos, 50 escudos – demoravam um dia a caminhar- não ia pela estrada, iam pela arada.

11:40 [trabalho] trabalhou na floresta – bateu os altos onde estão as antenas na floresta -iam com uma candeia e vinham de noite, não havia horário, quando nascesse o sol já deviam estar no trabalho e quando o sol de pusesse saiam do trabalho – quando iam para longe levavam um lampião com uma candeia de gás, não havia eletricidade – trabalhavam com a enxada a cavar no monte e a semear os pinheiros – andavam ao pé da coelheira na freguinha e foi lá um chamado ? fazer vinho com burro – ficavam feliz a comprar um quartilho de vinho – levavam vinho para nelas, tachos e cozinhavam lá – couves, batatas sem tempero – andava com uma cunhada nas chãs, chamava-se Felismina e havia lá uns cães grandes e tinham muito medo dos cães – cozinhavam lá numa panela – se botassem as coisas aos cães eles matavam-nas- estavam mortinhas com fome – amassavam o leite, já cá veio muita gente para a ver amassar o leite – amassavasse o leite e coziasse o arroz de pão- botava-se as malgas de leite com pão e tudo comia – era uma tirada a passar a comida em canastras

13:53 [trabalho]trabalhou sempre na agricultura, trabalhou sempre na sua vida – esteve ? dois meses ainda era o seu homem e a sua mãe vivos –

14:20 [filhos] foi três vezes a França- ainda há pouco tempo lá esteve uma neta sua a visitá-la – tem vários netos e bisnetos

15:10 [catolicismo] vai sempre à missa – quando à missa comunga e manda esmola para Fátima – faz tudo o que for preciso, reza o terço todos os dias, já foi a Fátima a caminhar

15:30 [festas] há uma no 10 de Agosto que é a festa dos emigrantes e no 8 de Setembro é a festa da padroeira da aldeia, a Sra da Natividade – este ano essa festa vai ser muito bonita, dão muito dinheiro das antenas para a festa da Povoa da Colheira e de Candal –

16:10 [lenda] quando havia os mouros, quando se atravessa a ponte, uma mulher da Póvoa deu lá com uma mina de Ouro numa pedra – Picou com (…) tudo ouro, ela só durou 8 dias com aquela riqueza toda – havia outra mulher(…) onde se entra na primeira casa também apareceu lá uma pedra que está em Viseu- estava lá uma pedra enterrada que desenterraram e levaram para Viseu, diz que deu muito dinheiro -há lá uma mina de ouro e uma mulher passou lá com o jantar(…) – disse que a tenda era linda (…) botou a tesouras ao regaço (..) se vocês vissem o que tenho – conta a lenda

19:00[saudades] sente saudades das desfolhadas, dos sarandeiros, de cantar e dançar- diz que era uma alegria, não era como agora-

19:45 [recordações] iam buscar molhos de lenha lá em cima na frágua, atrás onde estão as antenas – na aldeia não havia lenha porque estava tudo coberto de gado e carneiros, cada casa tinha 20 ou 30 – iam descalças e vinham com os mohlos ao lombo pela encosta a baixo, mas tinham saúde
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