A conversa entre Afonso Henrique Pinto da Cunha e Joaquim Alves da Cunha Moreira, moradores da aldeia de Canelas, no município de Arouca, revela um interessante contraste entre duas realidades da escola rural: o passado, especialmente nos anos 60, e o presente do século XXI. Joaquim recorda como, antigamente, as crianças vinham a pé para a escola, percorrendo até cinco ou seis quilómetros, sem transporte disponível, o que tornava o trajeto muito penoso. As refeições eram feitas em casa, com um intervalo entre os períodos da manhã e da tarde, e apenas mais tarde surgiu uma sopa servida ao meio-dia. Os horários eram longos, começando às nove da manhã até cerca das cinco da tarde, com poucas variações.

Na infância de Joaquim, os brinquedos eram escassos e improvisados. Sem as facilidades atuais, as crianças criavam arcos para correr, faziam bolas com trapos e construíam motas de pau para se divertirem. Jogar à macaca era uma das poucas opções para as meninas. Essa simplicidade contrasta com as opções atuais, mostrando como o tempo mudou não só a escola, mas o próprio modo de brincar das crianças da aldeia.

O ensino naquela época era muito diferente do presente. Havia uma única professora para todas as turmas da primeira à quarta classe e as matérias não eram segmentadas nem tão específicas como hoje. O ensino era considerado mais deficiente e a disciplina muito rigorosa, com castigos físicos severos, como ficar ajoelhado em sacos de milho ou levar reguadas nas mãos. As crianças tinham de fazer os trabalhos de casa, sob pena de castigo, e eram obrigadas a ajudar nas tarefas agrícolas da família, como cortar erva, semear batatas e regar o milho, mesmo muito jovens. A escola e o estudo ficavam sempre em segundo plano diante das necessidades da subsistência.

Joaquim lembra ainda as condições materiais da escola no seu tempo: as mesas eram para duas crianças, com tinteiros embutidos e a escrita era feita com canetas de tinta que precisavam ser molhadas constantemente. Não havia mochilas, mas sim sacolas de pano, feitas pelas mães, para levar o material escolar, que era escasso e difícil de conseguir, como lápis, canetas e cadernos. Havia ainda dificuldades no aquecimento das salas, que eram frias, e uma pequena lareira ajudava a aliviar o frio durante o inverno, diferença grande para os tempos atuais, quando o ambiente escolar oferece melhores condições de conforto.

Na conversa, Joaquim questiona Afonso sobre as mudanças que percebe na escola atual, e o filho reconhece a enorme diferença, destacando as melhores condições, o aquecimento e os novos manuais, atualizados com o novo acordo ortográfico e mais conectados à realidade atual. Afonso acha que a alimentação na escola está adequada e que o ambiente com os professores é saudável. Quando Joaquim pergunta o que ele gostaria que fosse diferente, Afonso responde que está tudo bem assim, encerrando a troca com uma visão otimista do presente, em claro contraste com as dificuldades e privações da geração anterior.