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00:00- [ Apresentação, Pai e Mãe, local de nascimento] João de Almeida – Nasceu em Grijó freguesia de Gafanhão – 16 de Abril de 1926 – acha que tem 86 anos – O seu pai e mãe viveram em Grijó e depois de 8 anos após ter nascido vieram para Covas do Monte pois o seu avô (materno) morreu e como tinham lá umas “quelhitas” (terrinhas) – A sua mãe era de Covas do Monte, da casa da “Cabeira”

01:47 [Grijó] Não se lembra de nada de Grijó – Ia lá vezes de “longe a longe”- Tinha lá a sua avó e avô.

01:59 [Infância em Covas do Monte] Trabalhava nas terras e ia para o minério, para o volfrâmio que deu muito – Aqui (Covas do Monte) íamos ali para Regoufe – Íamos e vínhamos a pé [minério] Começou a ir para o minério com 12 anos – começou a ganhar uns tostões e diz que “não havia a riba de mim” (ninguém me ultrapassava) – O seu pai tinha pouco – “ Depois o mineriozito e tal, lá se foi passando a vida”

03.00 [Infância] [minério] “trazia-se numa saquita e botava-se numa saquita”- era chamada a mina do Aio – era ali atrás do Alto.

03:22-[ O que o pai tinha] O seu pai tinha pouco – fazia apenas uns campitos.

03:35- [Casamento] Casou-se com 22 anos – Primeiro foi à tropa em Lisboa – Sapadores, Caminhos de ferro – Quando regressou casou, levou meio ano a casar – A mulher já morreu – Era “irmã do gordo que está ali”, o Manuel Martins – conheciam-se desde pequenitos – Não fez casamento nenhum, combinou com ela e com o padre Manel Ferreira “que nos casava ali” e foi lá com ela no dia de Natal – Ela foi para casa dela e eu fui para a minha – depois juntaram-se e arranjaram fortuna – Ela tinha uma tia que morava nesta casa e “segurou-lhe” o que tinha – Arranjaram muito.

05:00 -[filhos] Tem só uma filha e ela agora abalou e deixou-o ficar. “mas ela há-de ter sido enganada”- pois tem mais de 50.000 contos na Caixa (Caixa Geral de Depósitos) – Tem muitas terras boas, “arranjou fortuna”. Considera-se o “primeiro campeão” da aldeia, o que tem mais terras – A filha foi para Lisboa com ele (o marido) e casou-se contra a sua vontade, pois o João Almeida não gosta do marido da sua filha. A filha teve muitos pretendentes mas casou com “uma miséria”, um que não tinha nada.

06:00 – [Cabras] Tinha cabras e gado, chegou a ter 200 cabras. vieram cá os da INGA contar-mas e mediam as “testadas” e disseram me que tinha muitas e que já tinha que chegasse – As cabras andavam à vigia, eu ia três dias e pagava ao “manco” oito contos de cada dia que ele ia com elas (as suas cabras) – Ao fim do ano era uma renda do caraças mas eu ia para o minério e ganhava.

07:15- [como fez fortuna] Ia trabalhar a Regoufe ou ia trabalhar a Solveiras-Andava na arte de fazer casas- Ia a Solveiras ou ia a Deilão ou a Covas do Rio- “eles gostavam de mim”- “Andei nos Pintos de Alvarenga” no Fernando dos Pintos que era meu amigo e depois foi para África- Um dia encontrou-se com ele ir ao Alto para falarem no Pulo da Carvalhinha-   E disse-lhe “quero que você torne para a Mina, ou lhe dou sociedade ou lhe subo o ordenado mais que aos outros- porque ele era trabalhador e conhecia o que era aquilo, não havia mais ninguém acima dele- Andavam uns 10 homens a trabalhar mas ele tirava mais volfrâmio que eles todos- Os Pintos de Alvarenga eram todos sócios e mandaram-no para África- Conhecia também outras pessoas que andavam a negociar minério como o Tiago (Pinto Correia), o (Agostinho Gaspar) Gralheiro, o Pontes da Pena, o António da Ponte. Conhecia todos os que andavam pela zona a comprar minério. Vendia o minério ao que lhe desse mais por ele.

10:13 [como fazia para trazer o minério da mina]. Na mina do Gaio havia um guarda que era o “Luciana” (que foi depois para o Brasil) a receber um pouco de minério de cada um, pagava um tanto a cada um. “Arranjei muito”-

11:00 Andou quase sempre na justiça com a ajuda do Jaime Gralheiro (o filho do Agostinho Gaspar Gralheiro que é advogado). A primeira vez o João Almeida trouxe o Gralheiro a Covas do Monte e combinou pagar “um conto de reis” que lhe deu para que lhe explicasse tudo sobre o minério, do que havia em cada fraga (rocha), no “Cudelúvio” e por aí fora. Depois teve um problema com um campo em que o João Almeida tinha comprado um campo a uma tia e dona do campo “segurou” o campo para um seu cunhado e o João Almeida meteu a expropriação na justiça com a ajuda do Gralheiro, pois o cunhado não o deixava passar. Teve naquele tempo que pagar 10 contos para conseguir a expropriação.

12:44 [irmãos] O sogro do manco é seu irmão, António Grijó – o Pascoal – e tinha uma irmã que já morreu e tem outra no Outeiro que é muito sua amiga, a Joaquina que está casada com o Joaquim do Ferreiro – A filha da Joaquina, a Benilde, é sua afilhada que disse que cuidava de mim (a pagamento) – As terras dão pouco, mas ele tem um dinheirito guardado.

13:35 [O gado] Pagava à vigia para ir com o gado enquanto ele ia para o minério.

14:00 [ Os Lobos ] “A questão dos lobos (a sua morte) faziam-se batidas organizadas pela Câmara, o Poças de Oliveira – O presidente da câmara fez uma batida… ainda mataram uns, uma batida no cimo da Azeide e a câmara trouxe um caldeiro da tropa e fez uma caldeirada para todo o pessoal que participou nessa batida.

14:55 [Como faziam batidas] Antigamente podia-se matar os lobos. Tinham foguetões, foguetes. Podiam matar que ninguém perguntava anda a ninguém.

15:47 – [matar os lobos] [alcunha “o mata lobos”] Um dia os de Covas do Monte, os do fundo, acusaram-no que tinha matado os lobos e a guarda mandou-o ir a Sul e participaram a acusação para Viseu – Mas no final foi louvado por matar os lobos. Os de Regoufe (o Portela) convidaram-no a ele e ao Manel da Cruz (o pai do presidente da Junta) e foram a Regoufe e quase até à Póvoa das Leiras a uma batida e o João Almeida ficou mais para trás e matou um dos (lobos) velhos e três dos novos e foi aí que lhe puseram a alcunha de mata lobos. Eram amigos os de Regoufe, tudo o que ele pedisse “estavam à ordem”.

19:10 [lobos] Aqui em Covas do Monte quando matavam um lobo punham-nos pendurados na “porta da Pinta” (uma das famílias de Covas do Monte), numa ramada (de videira) que lá tinha e ficavam lá uns dois ou três dias para que toda a aldeia visse e em Regoufe era a mesma coisa. Esses lobos que mataram foram para Regoufe e o grande pesava 42 Kg e trouxeram-no para a aldeia e os “pequenos” (as crianças) estavam em cima de um carro (de vacas)

19:47[ Actualmente] Agora os lobos não o incomodam – só tem 23 cabras e uma está doente (“perigou”) por causa de algo que comeu, talvez milho que lhe fez mal – vem lá a Salomé à noite e o Manel da Pinta de manhã, para dar uma injecção à cabra, mas ela agora “esturricou-se”, está arrumada.

20:37 [vender as cabras] Antes vendiam as cabras ao Quintino (do Crasto, freguesia de Cabril) comprava sempre, também ali para Aveiro havia os “Tosses” que também compravam – depois mais tarde começaram a dar subsídio ao gado e quando tinha 200 recebia bastante.

21:46 [trabalho na construção] fazia casas para ganhar o dia e fazia casas e toda a parte de pedreiro – era o chefe – trabalhava na pedra – fazia tudo na casa à moda antiga – Fiz uma casa ao Ti Gregório de Regoufe e ele “punha-me numa estrela” (elogiava-o). Foi o João Almeida que fez a sua casa, mais o Delmiro do Fujaco (que já morreu). Uma vez um que chamavam o “Rebolas” ali de Solveiras e fui lá fazer-lhe um casa toda em pedra. Também construía canastros – o material, as pedras são todas dali. O canastro por exemplo foi com pedra de Regoufe e com alguma de Covas do Monte.

24:41[ As pedras] traziam as pedras em carros de vacas porque não havia tratores. Também transportava as pedras às costas com o tio Delmiro que trabalhava com ele e contava que as pedras eram tão pesadas que era preciso três do Fujaco para “botar a riba” as pedras.

25:42 [A sua casa] A casa tem dois quartos e uma sala, tem cozinha ao cabo da eira – não tem casa de banho em casa. – tem água sua de uma nascente que está encanada até às casa – Mais tarde encanou as sobras para um bocado que tem debaixo do cemitério – tem currais e tem muitas casas – as cabras ficavam nos currais e nas eiras.

27:22 [Aparecimento da electricidade] [A estrada] A casa foi construída antes de surgir a electricidade em covas de monte. Considera-se o autor da estrada para Covas do Monte que naquele tempo foi feita a braços, a “fogo furado”, Andou lá três meses de graça – Houve quem desse dinheiro para a construção da estrada. Quem deu o dinheiro foi o “da Pinta” e o “da Cruz” e o João Almeida deu o trabalho. E um habitante que havia em Covas do Monte disse para ele: “Ó moço tu dás mais (trabalho) do que os outros”. A estrada foi alcatroada mais tarde porque no principio era de terra.
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