Em Paraduça, aldeia pertence à freguesia de Calde e integrada no concelho de Viseu, todas as famílias tinham um rebanho que, por ser uma região montanhosa, misturava ovelhas e cabras. Foi neste contexto que, ainda novo, Henrique Novo, ao levar os animais a pastar para o campo, se habituou a ver, de perto, o pisão a trabalhar.

Ao lado do moinho, onde acorria gente de longe para moer o milho, encontrava-se uma outra estrutura: o pisão. A sua força motriz era a água do rio Vouga, que, face às trovoadas de maio e de junho, conseguia ter um forte caudal, mesmo no verão.

Henrique Novo conta-nos que havia “um tanque em pedra, com um metro e pouco por metro e pouco, e uma cambota que transmitia o movimento aos maços de carvalho que, alternadamente, iam caindo sobre a teia.

O burel, de natureza “brava” e áspera, ficava várias horas a “bater” e ia sendo caldeado com água quente, até ficar macio e flexível. Depois de pronto, era usado para a confeção de diverso vestuário, como calças, casacos e a capucha.

O habitante recorda que os clientes vinham até de Moimenta da Beira, a pé, com o rolo de teia à cabeça, cuja largura atingia os 2,5 metros, sendo o comprimento bastante maior. Como o pisão era muito frequentado, chegavam a estar aos oitos dias à espera da sua vez, utilizando uma pequena casa ao lado, com lareira, para se abrigarem e cozinharem.

A esta mais-valia económica juntava-se a aguardente de medronho, destilada com o calor da lenha, que ajudava “a governar as famílias”. A colheita começava, manhã cedo, a partir de meados de setembro e prolongava-se até ao fim de novembro. Em Bigas, este era um recurso muito procurado e havia, inclusive, uma loja de comércio que trocava mercadoria por almudes de aguardente.

Ao contrário de outras épocas, nota, hoje as ovelhas tosquiam-se, mas a lã já não é aproveitada. “Naquele tempo, o dinheiro tinha muito valor e dez quilos de lã a 10 centavos o quilo era muito dinheiro”, recorda.

Também o pisão deixou de trabalhar, na década de 50 do século passado, uma vez que os herdeiros não deram seguimento à atividade e o edifício caiu em ruína. O equipamento, acrescenta, foi comprado pelo padre João Santos que, após 28 anos ao serviço da comunidade, o levou da aldeia.