José Ferreira recorda o Carnaval de outros tempos na aldeia de Almargem como uma celebração intensa e, de certa forma, “bruta”, centrada nos caretos mascarados que se vestiam em segredo, longe de olhares, para manter o anonimato. Usavam máscaras improvisadas, roupas velhas e levavam mocas de pau, correndo atrás dos garotos, atirando farinha e cinza, e até agitando água nas fontes para dispersar a multidão. Havia também brincadeiras mais agressivas, como subir às varandas para forçar as pessoas a descer à rua. Ao cair da noite, queimava-se o “Entrudo”: um boneco de palha no topo de um pau cercado por um rolo de palha que ardia até cima; em tempos antigos, dizia-se que até metiam um gato num púcaro no alto para saltar quando o fogo chegasse — práticas hoje vistas como extremas. Depois, a comunidade juntava-se para comer e beber até tarde, com muita participação de homens já com “quarenta e tal anos”.
O desfile tradicional consistia em grupos mascarados a darem voltas pela povoação, num tempo em que havia muitos miúdos e o medo dos caretos fazia parte do jogo. Guardavam-se as mocas e as máscaras de um ano para o outro, e as máscaras com “orelhas de burro” eram especialmente impressionantes, apesar do desconforto. O orador compara estas memórias com o presente, em que os desfiles são mais organizados e “modernos”, percorrendo várias aldeias e oferecendo comida a quem participa, mas sem a mesma intensidade nem o receio que antes marcavam a festa. Comenta também que, se aparecessem por ali os caretos de Bragança com chocalhos, causariam grande espanto, porque essa indumentária não é tradição local.
Relata ainda idas a outras aldeias para “jogar o Carnaval”, como Rio de Mel, para onde foram de carrinha, mascararam-se à entrada e deram uma volta; uma brincadeira mal recebida levou-os a ir embora, ao contrário de Vilar do Monte, onde foram bem acolhidos, beberam e conviveram numa adega depois de revelarem a identidade. O segredo de se vestir fora da vista era crucial: sair mascarado de casa denunciava logo quem era. Também houve épocas de escassez de participantes, em que ele e a esposa, com mais algumas mulheres, mantiveram a tradição quase sozinhos, surpreendendo a população com a volta ao povo já perto da noite.
Hoje, lamenta as mudanças e a perda de certos saberes. Acha o Carnaval “menos bonito” de noite e reconhece limitações físicas que o impedem de participar como antes, embora a vontade permaneça. Observa tentativas recentes de retomar cantos e versos antigos na capela, mas o conhecimento morreu com quem os sabia de cor, obrigando a ir buscar referências a Várzea de Calde. Para ele, porém, o essencial mantém-se: O Carnaval tem de ser com máscara — feia ou não, mas máscara — e roupa velha; sem isso, não é o verdadeiro Entrudo. Ainda assim, acredita que a “malta nova” poderá reanimar a tradição, mesmo que leve tempo a recuperar o modo antigo de a viver.