A associação Amici di Pontecarrega, fundada em 2011 após uma inundação do torrente Bisagno, reúne moradores e interessados na preservação histórica e ambiental do vale do Bisagno, em Génova. O vale é marcado por um património rico, incluindo o aqueduto histórico do século XVII, que conecta diversos bairros e povoações e confere identidade à região. Pontecarrega, um antigo povoado nas margens do torrente Bisagno, tem uma história de ligação forte com o rio e com as suas frequentes inundações, as quais moldaram tanto a vida local quanto a paisagem urbana.

O Bisagno é um dos rios que atravessam Génova, caracterizado por cheias frequentes e intensas, como as históricas de 1953, 1970 e 2011, quando o rio e seus afluentes transbordaram, causando grandes danos. As inundações trazem água, lama, árvores e detritos, que invadem casas e ruas, chegando a atingir até um metro e meio de altura em alguns pontos. O processo de urbanização do vale, especialmente a partir do século XIX, contribuiu para a redução do espaço de expansão do rio, com a construção de diques e o estreitamento das margens, agravando os efeitos das cheias.

Historicamente, o vale do Bisagno foi uma região com múltiplos centros e comunidades, que mantiveram identidades próprias antes da incorporação no município de Génova, processo que ocorreu principalmente no início do século XX. A área apresenta uma rede complexa de pequenas povoações e bairros, ligados por antigas rotas que serviam para o transporte e comércio, especialmente antes da chegada da ferrovia. Muitas dessas rotas eram vitais para o transporte de mercadorias como sal, madeira e produtos agrícolas, aproveitando a força da água para mover moinhos e indústrias locais.

O desenvolvimento urbano do século XX, marcado pelo crescimento industrial e pela construção de infraestruturas como pontes e estradas, teve um impacto significativo na dinâmica natural do vale. A antiga ponte Carrega, que originalmente tinha 18 arcadas e permitia a expansão do rio, foi reduzido para seis, restringindo o fluxo das águas. As áreas antes usadas para hortas e zonas de expansão natural do rio passaram a ser ocupadas por construções e fábricas, aumentando o risco de inundações severas.

Para enfrentar esses desafios, está em construção um sistema de desvio das águas do Bisagno, um canal que tem o objetivo de reduzir o volume de água que passa pelo centro urbano durante eventos de chuva intensa. Este projeto, que já acumula atrasos, visa garantir que o rio opere dentro de limites seguros para evitar danos significativos, mas também enfrenta críticas relacionadas à gestão do território e à continuidade de modelos urbanísticos que não respeitam as características naturais do vale.

O trabalho dos Amici di Pontecarrega destaca a importância de uma abordagem cultural e participativa na gestão do vale do Bisagno, valorizando a memória histórica, o património local e a necessidade de uma relação mais harmoniosa entre a cidade e seu rio. Eles defendem que a aprendizagem das enchentes passadas seja incorporada nas decisões futuras e que a voz da comunidade seja ouvida para evitar novos erros urbanísticos, preservando não apenas a segurança, mas também a identidade e a história do vale.

Entrevista realizada a Antonio Bassi, Fabrizio Spiniello e Monica Morello da associação Amici di Pontecarrega, no contexto da residência artística de Luís Costa, para a realização da obra “O terceiro rio: Uma viagem imaginária entre águas distantes”.