Os baldios no Norte de Portugal, especialmente em Trás-os-Montes, têm raízes profundas que remontam a tradições comunitárias antigas, influenciadas por culturas germânicas e sustentadas por uma economia rural de subsistência. Historicamente, as aldeias eram organizadas num espaçamento aproximado de sete quilômetros para evitar conflitos e garantir o uso diário do monte comunal, conhecido como baldio, onde se recolhiam os matos necessários para o adubo das hortas familiares.

O papel dos matos na agricultura local era fundamental. Um estudo datado de 1930 revelou que cada família precisava de cerca de oito hectares de matos para fertilizar apenas 0,6 hectares de horta, garantindo assim alimento e reservas essenciais para a sobrevivência. Contudo, no século XX, duas transformações significativas ocorreram: a introdução do processo Haber-Bosch, que permitiu a produção de fertilizantes químicos, e a mecanização agrícola, que reduziram a dependência dos matos. Durante o Estado Novo, o Estado apropriou-se dos baldios, impondo florestação com pinheiros e restringindo os usos tradicionais, o que gerou resistências locais, como no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

O modo de pastoreio também sofreu mudanças. Antes, os animais subiam e desciam frequentemente do monte, e os crias permaneciam na aldeia, mantendo o equilíbrio entre o bem-estar animal e o ecossistema. Atualmente, a permanência prolongada dos animais nos montes tem causado impactos negativos sobre ambos. Após o 25 de Abril e com a entrada na União Europeia, houve uma reativação das comissões de compartes dos baldios, que passaram a apoiar a sobrevivência local por meio da Política Agrícola Comum (PAC). No entanto, os critérios de elegibilidade da PAC penalizam as zonas de montanha e exigem uma reivindicação informada por parte das comunidades.

Nos tempos recentes, os baldios ganharam uma nova função com a instalação de parques eólicos, que geram rendas importantes para as comunidades locais. Contudo, há uma preocupação com a falta de transparência nesses processos e a necessidade de garantir a participação comunitária não apenas como recebedora de rendas, mas como co-investidora com uma fatia significativa, entre 10 a 20%. O próximo desafio está ligado à entrada dos mercados de carbono, com contratos longos de até 80 anos, que podem deixar condições desfavoráveis para as futuras gerações. Por isso, torna-se essencial a assessoria jurídica e a incorporação de cláusulas de revisão nesses contratos.

Por fim, a gestão da paisagem enfrenta riscos com a adoção de soluções rápidas e monofuncionais, como o plantio extensivo de amendoais, olivais ou eucaliptos em áreas mais férteis, o que pode comprometer a diversidade e a resiliência ambiental. Defende-se uma gestão diversificada que inclua turismo de natureza, apicultura e práticas que aumentem a resiliência ao fogo. A governança dos baldios revela um contraste entre exemplos residuais de comunitarismo — como arrendamentos comunitários, dias de trabalho comum e experiências em Rio de Onor — e a captura por parte das Juntas de Freguesia. A proposta é revitalizar as comissões de baldios com processos participativos intergeracionais e garantir um investimento local transparente e eficaz.