A infância de Otília Fonte, passada na aldeia de Paraduça, freguesia de Calde e concelho de Viseu, perpetuou-se em memórias de alegria. Apesar da exigência dos trabalhos do campo, o ceifar do trigo e do centeio e as cascadelas do milho eram feitos a cantar, com os refrescos de aguardente e mel a serem partilhados.

Os seus pais eram lavradores e a mãe tinha um dom para fabricar o linho e transformar a lã. Depois de tosquiadas as ovelhas, conta Otília Fonte, o material era lavado e depois “crepiado” à mão, antes de ir para a roca, de onde seguia para a dobadoira para se fazer a meada que se usava no tear. Pronta a teia, ia a “bater” no pisão.

“A minha mãe trabalhava muito bem nisso”, recorda, acrescentando que lhe seguiu as pisadas e aprendeu a fazer camisolas de lã para os seus irmãos e para o pai.

Este era, aliás, um ciclo de tarefas que ficava restrito às mulheres, que fiavam, maçavam e dobavam a matéria-prima. Como à saída do tear estava “muito dura”, a teia “tinha de ir para o pisão para ser curtida”.

Otília Fonte recorda-se de achar o processo “engraçado”, com os maços a baterem no tecido, de forma alternada, e a água quente que se retirava da caldeira para molhar o burel, que saía “louro”. “Só depois é que muita gente começou a tingir de preto”, acrescenta, explicando que o tecido servia, após estar pronto, para confecionar fatos e saias de burel. Também as tradicionais capuchas – por excelência, o agasalho das mulheres em dias de chuva ou frio ou usadas mesmo para resguardarem os bebés – eram talhadas a partir do burel que saía do pisão e faziam parte das memórias das famílias.

Em Paraduça, o equipamento era muito procurado e aqui chegavam pessoas de locais bem distantes a requisitarem o serviço.

Conta Otília Fonte que, com o passar do tempo e o aparecimento de outros tecidos, o burel caiu em desuso e o pisão começou a render menos, ficando ao abandono.