Na entrevista, o padre Francisco Domingos traça a história da passagem da antiga para a nova igreja paroquial de São Miguel do Mato, sublinhando que a decisão de construir um novo templo nasceu de uma necessidade objetiva: a igreja velha ficava num local inóspito, com acessos difíceis e afastada do centro da povoação. O processo ganhou forma no início da década de 1950: em 1952 anunciou‑se a campanha e formaram‑se as comissões de Honra e Administrativa; a primeira pedra foi lançada em 1954; e a dedicação e bênção, presididas por D. José da Cruz Moreira Pinho, ocorreram em 1956. O padre destaca figuras e apoios decisivos — o Cónego António Domingos Nunes, o Pe. António Lamé de Oliveira Silva (que liderou a dinâmica local), Mons. Júlio Camilo Barros, o benemérito José Teixeira (do Brasil, doador do terreno) — bem como o envolvimento alargado da comunidade, incluindo emigrantes e setores económicos da região.

O sacerdote explica ainda a diferença entre o simbolismo da “primeira pedra” (início da obra) e o rito da dedicação do altar (com as moedas e a referência a Cristo, pedra angular). Recorda que a igreja nova foi construída na transição para o Concílio Vaticano II, o que levou, pouco depois, à mudança litúrgica do altar para “virado para o povo” e ao uso da língua vernácula. Nos anos subsequentes à inauguração, construiu‑se o cemitério novo para responder às exigências práticas — com posteriores trasladações do antigo — mas o abandono que se seguiu gerou vandalismo e perda patrimonial.

Chegado em 2011, o padre Francisco assumiu como prioridade reconciliar a comunidade com a sua história, “exorcizando” a oposição entre os dois templos: a igreja velha como fundamento e a nova como esplendor. Assim, articulou a recuperação de ambos, com marcos celebrativos complementares: em 2016, nos 60 anos da igreja nova, restaurou‑se a igreja velha; aos 65 anos, iniciaram‑se obras na cripta/parte inferior da igreja nova; e o calendário paroquial passou a integrar festas e aniversários em ambos os lugares (maio para a dedicação da nova, junho para a restauração da velha, São Miguel em setembro na antiga, e, mais recentemente, o arranque de novas intervenções na nova). Paralelamente, estreitou a cooperação com a Junta de Freguesia e o Município de Vouzela: abriram‑se acessos alternativos à ciclovia, melhorou‑se a eletrificação e promoveu‑se a visitação do conjunto (igreja velha, cemitério antigo e igreja nova).

Por fim, o padre deixa um apelo à responsabilidade partilhada: a salvaguarda deste património é cultural e social, não apenas religiosa. Agradece o apoio institucional e comunitário (incluindo a distinção da igreja nova como “jubilar” em 2016), homenageia os precursores e convoca novas energias e financiamentos — inclusive europeus — para enfrentar problemas estruturais atuais, como infiltrações e degradação do telhado. O objetivo é claro: honrar a memória dos que edificaram, superar antigas querelas e assegurar, com obras concretas, que a “igreja‑mãe” e a “igreja‑filha” permaneçam vivas e dignas no coração de São Miguel do Mato.