Nas várias freguesias do Município de Santa Maria da Feira (preponderantemente em Santa Maria de Lamas, Lourosa, Paços de Brandão e Moselos, mas igualmente em Fiães, Nogueira da Regedoura, Rio Meão, São João de Ver, Argoncilhe, Oleiros, etc.) existe uma magnífica quanto improvável história industrial: a indústria da cortiça. Um território rural transformou-se em pouco mais de meio século no epicentro mundial de produção de rolhas e outros derivados da cortiça, criando um ecossistema de centenas de empresas que perdura hoje em dia com uma pujança crescente.

Podemos encarar esta história sob o prisma meramente empresarial, mas o que ressalta é também a história de gerações de homens e mulheres, na maioria simples, os quais, com uma resiliência ímpar, souberam transportar a herança passada de uma indústria que nasceu artesanal rumo a novos modos de produzir, inovar e comercializar. Santa Maria da Feira é, pois, um caso raro em vários domínios: na ligação profunda e quotidiana entre memória e futuro, entre empreendedorismo e operariado e entre recursos naturais e indústria.

Partindo do facto consumado, podemos legitimamente fazer um esforço retrospectivo e perguntar: como é que foi possível esta concentração de empresas transformadoras de cortiça num espaço geográfico tão específico? Que dinâmicas contribuíram para a irreversibilidade desse processo?

Desde logo, a cortiça é desde há mais de um século um produto silvícola que coloca Portugal em primeiro lugar em termos mundiais. Os sobreiros (Quercus Suber) de onde se extrai a cortiça estão disseminados por todo o território português, com especial relevo na faixa interior do país, de Trás os Montes ao Algarve, sendo as regiões a sul do rio Tejo (parte do Ribatejo, todo o Alentejo e Algarve) aquelas que se mais se destacam em termos do número de espécimes arbóreos.

Por outro lado, Portugal representa mais de metade de toda a transformação de cortiça existente no mundo, o que atesta, sem qualquer dúvida, da capacidade de aproveitamento industrial de um recurso natural. No entanto, esse caráter nacional da transformação e comércio da cortiça assumiu-se em paralelo com alguma presença estrangeira, a qual no final do Século XIX era comum em vários sectores, como o caso paradigmático do comércio do vinho do Porto, dominado por empresários ingleses. Por exemplo, existem evidências de que a indústria da cortiça chegou a Portugal (ao sul do país) por intermédio de operários catalães que ensinaram tanto o processo de transformação como introduziram maquinaria específica do sector, como a garlopa, inventada por Francisco Vidal y Monner por volta de 1850 em San Feliu de Guixols. Por outro lado, eram comuns até aos anos 60 as firmas de propriedade de estrangeiros que se dedicavam à transformação e ao comércio internacional da cortiça, sendo alguns exemplos: Henry Bucknall & Sons Ltd., Andersen et Husum, Mundet & Companhia Lda., Robinson Bros. Lda., Corchera S.A., H. Zum Hingste, etc. etc.

A indústria da cortiça tem em finais do Século XIX uma expressão reduzida no norte de Portugal, estando associada quase exclusivamente à comercialização do vinho do Porto, existindo pequenas unidades na zona ribeirinha do Porto e de Gaia, na mesma zona onde se situavam (e situam) as caves de produção do referido vinho, facto que evidencia a teoria dos fatores de localização industrial de Max Weber. Segundo alguns autores, as cheias do rio Douro inundavam frequentemente estas pequenas unidades de produção rolheira, sendo que o facto de muitos dos operários serem originários do concelho de Santa Maria da Feira, levou a indústria a afastar-se algumas dezenas de quilómetros para sul, para as várias localidades do concelho de Santa Maria da Feira. Aqui, lavradores abastados criaram as suas pequenas unidades de transformação, em complemento à produção agrícola, sendo que, inicialmente, a mão-de-obra era comum entre ambas as atividades.

Este processo de concentração da atividade de transformação corticeira foi-se aprofundando ao longo dos anos, sendo motivado, por um lado pela presença no concelho de uma unidade que teve um crescimento exponencial entre as décadas de 60 e 80, a Amorim & Irmãos Lda., e, por outro, pela disseminação de unidades, a partir da experiência positiva das primeiras fábricas. Ou seja, a relação entre agricultura e fabricação rolheira num contexto de baixos salários e de operariado dedicado e pouco conflituoso, revelou-se uma autêntica receita para o sucesso industrial de um território específico (hoje das cerca de 1000 unidades de transformação da cortiça existentes em Portugal, cerca de 600 situam-se no concelho de Santa Maria da Feira).

Ao longo do trabalho de campo de “A Memória Sonora da Cortiça” sentimos na pele, e com uma alguma emoção, a densa presença da indústria da cortiça nas várias localidades do concelho de Santa Maria da Feira. Por todo o lado se vêm fábricas, grandes e pequenas, modernas e artesanais, acabadas de abrir ou abandonadas.

Nos cafés fala-se das fábricas que existiam, do peso do Grupo Amorim e de quem foi trabalhar para que empresa e das inovações que a cortiça local vai dando ao mundo (até já está nos foguetões da NASA, em cosméticos, em bolas de futebol!). As crianças das escolas conhecem todos os termos específicos, do sector (escolhedeira, rabaneadora, broca, apara, caldeira, etc.). Muito do artesanato local (presépios, fogaças) é feito de cortiça. Chegam autocarros cheios de turistas ao Museu de Santa Maria de Lamas, designado popularmente por Museu de Cortiça e fundado por um benemérito da importante família Amorim (Comendador Henrique Alves de Amorim). Quem passa junto ao campo de futebol do Grupo Desportivo União de Lamas não pode deixar de reparar no enorme agradecimento ao mesmo Comendador Amorim, escrito em enormes letras pintadas. E tantos outros exemplos que fazem o quotidiano de um território feito literalmente de cortiça.

Peça sonora composta por Luís Costa, na sequência de um projeto educativo sonoro realizado, entre setembro de 2014 e maio de 2015, com escolas primárias do concelho de Santa Maria da Feira, junto com as várias empresas transformadoras de cortiça existentes no concelho.

Nas várias freguesias do Município de Santa Maria da Feira (preponderantemente em Santa Maria de Lamas, Lourosa, Paços de Brandão and Moselos, but also in Fiães, Nogueira da Regedoura, Rio Meão, São João de Ver, Argoncilhe, Oleiros, etc.) existe uma magnífica quanto improvável história industrial: a indústria da cortiça. Um território rural transformou-se em pouco mais de meio século no epicentro mundial de produção de rolhas e outros derivados da cortiça, criando um ecossistema de centenas de empresas que perdura hoje em dia com uma pujança crescente. Podemos encarar esta história sob o prisma meramente empresarial, mas o que ressalta étambém a história de gerações de homens e mulheres, na maioria simples, os quais, com uma resiliência ímpar, souberam transportar a herança passada de uma indústria que nasceu artesanal rumo a novos modos de produzir, inovar e comercializar. Santa Maria da Feira é, pois, um caso raro em vários domínios: na ligação profunda e quotidiana entre memória e futuro, entre empreendedorismo e operariado e entre recursos naturais e indústria.

Memória Sonora da Cortiça é um projeto artístico de Luís Gomes da Costa, coordenador da Binaural Nodar, que partiu de um trabalho de campo multidisciplinar desenvolvido entre Setembro e Dezembro de 2014 que incluiu análise de documentos históricos (imprensa local, boletins da Junta Nacional da Cortiça, artigos científicos, publicações da APCOR, etc.), registos sonoros em fábricas da cortiça mapeados juntamente com mais de meia centenas alunos comunidade escolar do concelho de Santa Maria da Feira e entrevistas a atores relevantes do setor, como atuais e antigos operários, empreendedores, dirigentes associativos, gestores museológicos. A obra final criou um ambiente imersivo e contemporâneo, em contextos paralelos de composição sonora estéreo e de instalação sonora e visual multicanal.