José Almeida nasceu em Macieira em 1930. Na sua entrevista relata como foram difíceis aqueles tempos da sua infância. Sempre foi um homem trabalhador e preocupado com a família, não queria que os filhos passassem por aquilo que passou. Fez crescer um restaurante na aldeia que ainda hoje continua a dar vida àquele lugar na serra de São Macário.
00:19 [pais] José de Almeida e Maria do Carmo Gomes de Henriques – eram os dois de Macieira assim como o próprio.
00:30 [recordações] Lembra-se da fome do frio e da porrada- não quer falar das recordações porque são tristes, diz que quer falar noutro assunto se não chora. Lembra-se de andar com tamancos e descalço e de andar sempre com feridas nos pés. Custava muito e doía muito. Andava no monte a guardar as vacas e as ovelhas – As vacas, ovelhas e as cabras andavam todas misturadas –
01:41 [Alimentação ] A alimentação era toda da terra – de vez em quando comprava-se um trigo dos grandes para festas – comiam um caldo de cebola, comiam aguardente com um bocado de pão até às 22h e depois uma buchinha – por vezes quem tivesse oliveiras comia azeitonas com pão –
02:27 [ Macieira] havia muita gente em Macieira, havia fome mas havia alegria – toda a gente se juntava em grupos grandes a cantar e dançar descalços –
02:53 [São Macário] havia um sitio que se chamava ? do vale onde as moças faziam uma daquelas panelas de ferro com três pernas com café lá dentro, então era toda a noite a beber o café da panela – havia um arraial onde toda o pessoal dançava e cantava –
03:40 [altura em que teve fora] [tropa] quando fez o serviço militar nunca tinha visto um comboio ou ido a São Pedro, tinha muita vergonha quando lá foi às pensões, descalço – Foi para a tropa em Viseu, para a praça do quartel velho mas achou uma porcaria – Lá as casas de banho eram num carvalhos – Mais tarde inauguraram o quartel novo – Já havia mais higiene e já aprendiam a ser mais homens – os oficiais eram vagabundos e assassinos, batiam muito a quem fazia a tropa –
04:57[tropa] Assentou praça em 51 ou 52. Não foi à guerra colonial, teve essa sorte. Teve 18 meses na tropa – ? no ano em que se foram embora pegou na manta que tinha a farda lá dentro para entregar e mandou-a fora – quando na estação esperava o comboio decidiu antes ir a pé de Viseu para Macieira – Na altura ainda havia comboio para São Pedro –
06:30 [volfrâmio] Na altura do Volfrâmio os mineiros interrompiam a passagem do comboio – metiam o carvão na linha para o comboio não andar –
07:15 [regresso à aldeia] depois da tropa regressou à aldeia onde esteve pouco tempo. Esteve em Lisboa a trabalhar num armazém de vinho sem saber ler nem escrever – quando precisou preencher a folha da fabrica não soube escrever nem o nome do pai nem da mãe –
07:55 [em Lisboa] tinha 23 anos quando foi trabalhar para a fabrica – o patrão não lhe queria da trabalho até que um homem da sua terra lhe deu trabalho – primeiro foi trabalhador depois passou a tenueiro ? depois passou a vigilante no armazém – diz que a vida lhe trouxe de tudo – trabalhava no poço do bispo – A central de Lisboa era praticamente no Braço da Prata – Havia lá os armazéns todos, a fabrica com o material e guerra – ali havia tudo de boa qualidade – fala que tem saudade de um outro guarda nocturno que trabalhava na fabrica – fazia trocas com esse companheiro pois estavam sempre juntos de noite com mais dois cães – O armazém de vinho era ao pe de onde vivia, o patrão era mau como as cobras mas dava-se bem com José – Teve lá um ano apenas antes de vir para a terra mas não quer contar o que aconteceu –
10:47 [regresso à aldeia] [trabalho ]começou a trabalhar como pedreiro – fez a estrada desde Macieira a São Macário – diz que há muitas pedras de valor enterradas que ele trabalhou – trabalhava para a floresta – depois fez o posto de vigia de São Macário – depois foi para a Penoita ? fazer as casas dos cantoneiros ? até aos anexos e depois foi para França – Diz que passou muito mal em Portugal – Dormiam sobre palhas de centeio e cozinhavam em panelas de ferro ? –
12:02 [França] Foi com mais cinco pessoas para França que tinham lá família e José não tinha – Estava cheio de medo e propôs aos colegas de trabalho que os primeiros que arranjassem trabalho ajudariam os que não tivessem trabalho – José foi o primeiro a arranjar trabalho na zona de Paris – Trabalhou como pedreiro e ganhava bem, naquele tempo 5 ou 6 francos à hora – ganhava 300 ou 400 mil reis por dia – achava-se num paraíso – ao fim de meio ano veio a Portugal, nem passaporte tinha – o Engenheiro Quintela era o manda chuva da aldeia tentou que ele ficasse a trabalhar para ele – José acabou por arranjar um passaporte no Porto e não ficou em Portugal – Foi e voltou muitas vezes para França
15:40 [divida][França] tinha uma divida em Portugal deixada pelos pais de 60 contos, pagou -a e foi se embora – Em França ganhava bem e o patrão gostava dela – Apesar de se lembrar da fome que passara em Portugal era essa a sua terra de forma que voltou para a sua terra.
16:15 [Regresso] Ficou cerca de 2 anos em França e foi para lá muito antes do 25 de Abril – quando voltou para Portugal foi novamente pedreiro, a sua vida foi sempre trabalhar na pedra – Ainda trabalha na pedra e diz que há-de morrer a trabalhar na pedra –
17:32 [trabalhar na pedra] sempre trabalhou por gosto – diz que gosta de fazer para deixar para os outros verem – Enquanto que o papel é mais frágil a pedra dura muitos séculos – também fazia casas – trabalhava com o Pinto a picar pedra e a fazer da pedra o que queria – trabalhava em granito – quando veio o desenvolvimento começaram a preferir o xisto – o tijolo tem um uso interior porque não fica à vista – tinham que assentar as paredes e depois revesti-las por fora – tudo era feito em pedra.
19:45 [moinho]chegou a fazer moinhos – os moinho que está lá em baixo era antes pinheiros grossos forrados por dentro – na altura não havia manilhas nem ideias de fazer um cubo – era um pinheiro cerrado ao meio, tiravam a parte de dentro e juntavam as partes do pinheiro novamente e faziam disso um cubo ? – também fazia mós de pedra, as partes da mó eram o povo, o rodízio que era onde a agua batia, tinha também uma parte chamada de rela e outra parte chamada guião – o pedreiro fazia de pedreiro, o carpinteiro de carpinteiro – o moinho tinha um dono que dizia ao carpinteiro para fazer o rodízio do moinho – o rodízio era constituído pelos copos, o moinho tem muitas peças, no meio tinha o guião, por baixo a rela, em cima tem a bucha que é um bocado de madeira metida na pedra (..) mais tarde vem a electricidade – vêm os padeiros que começam a trazer o pão a casa e o moinho perde uso – foi o desenvolvimento para alguns e a miséria para outros – os moinhos velhos deviam ter muito valor porque foram os antepassados que fizeram para matar a fome – antes dos moinhos haviam as canelas para trituram o trigo – isto antes de lhe juntaram agua – (…) – agente moía o milho, centeio, cevada, e do milho tirava-se o arroz, o pão o caldo de farinha, muitas coisas – agora já não há nada disso
25:49 [as pessoas viviam com o q produziam] semeavam o linho, vestiam se com linho, vestiam-se com as peles dos animais, lã da ovelha, usava-se pau para fazer tamancos
26:23 [dinheiro] [carro]viveram praticamente sempre sem dinheiro, acha que o dinheiro é um vicio tal como andar de carro, chegavam ao porto e a Lisboa sem ser de carro. Hoje têm carro mas não saiem a lado nenhum estão sempre parados – A filha tem vários carros não compreende porque as pessoas têm tantos carro – José não sai da aldeia
27:20 [salva almas] o salva almas começou mal não foi com o dinheiro de França da Alemanha ou de parte nenhuma, foi com o dinheiro da cabeça – diz que só trabalhou com a cabeça e o corpo – começou a comprar blocos (…) – fez uma barraca de blocos uns por cima dos outros para não roubarem, fez um poço para tirar de lá água – obtinham água através de um caldeiro, usavam uma corda e obtinha-se agua para se cozinhar – comprou uma bomba para bombar a agua da qual tem uma grande estimação – não havia maquinas de café, comprava-se nescafé para misturar com a água – bebia uns copos de vinho (…) já ia muita gente ao Salva almas porque o São Macário atraia muita gente
30:00 [São Macário] [salva almas] Para José o São Macário foi um grande padroeiro – Começou a ganhar dinheiro para uma saca de cimento para um bocado de ferro que trazia às costas – passou muitas pedras às costas – diz que não quer parar que ainda quer fazer mais – o presidente da câmara (…) eles não mandam eles querem é o dinheiro que as pessoas têm – se eles mandassem… – a mulher tratava das refeições – o negócio começou porque faziam a comida e depois ofereciam – a mulher fazia comida muito bem feita e apetitosa e as pessoas começaram a vir e o restaurante ganhou fama e cada vez mais fama – já esta aberto há 30 e tal anos – o restaurante subiu muito – inicialmente só tinha 100 metros quadrados e agora têm um grande estabelecimento – José foi criado em Macieria, diz que o pai que era rico – comprou esse terreno que não tinha lá nada por 2 contos de reis- começou a construir o restaurante e pediu autorização ao presidente porque o terreno era pequeno e não dava o que José queria – autorizaram, desautorizaram, levaram no para tribunal, José passou um mau bocado mas Deus ajudou-o e foi amigo dele e do São Macário
33:56 [pedra]começou por brincadeira, arranjou quando trabalhava no Outeiro um bocado de pinheiro que foi a primeira coisa que fez (….) tudo o que fez foi pensado por José, diz que não é capaz de fazer uma coisa igual –
35:07 [santuário ] está a fazer o santuário e a embelezá-lo à sua maneira – Não foi buscar nenhuma peça a uma igreja ou a qualquer outro lado foi tudo feito por ele – não copia nada – tem uma peça lá em baixo que começou a trabalhar (…?)
36:32 [casamento] casou em Macieira com uma mulher da sua aldeia – quando foi para França deixou a mulher e o filho na aldeia – tinha um casarão muito grande em Macieria com muitos animais – era uma casa muito grande que só tinha duas janelas – viveu lá até ir para Lisboa – quando voltou começou a pensar no restaurante – quando chegou na primeira noite dormiram em cima de umas palhas – tinham medo na altura hoje em dia já não – depois acabaram por arranjar um quarto e uma cama com colchão, já não dormiam em palhas –
40:50 [filhos] o mais velho nasceu em São Pedro e a filha em Viseu – foram criados com muito esforço do pai – deu-se ao luxo para que eles não fossem criados como José foi –
41:35 [diferenças] as estações sempre foram iguais o povo é que mudou, o povo é que começou a ir cada um para seu lado e ter raiva um dos outros – Muitos tanto quiseram viver bem que vivem hoje na desgraça e na miséria – Antes as pessoas viviam quase todas da mesma forma, eram muito amigos uns dos outros e ajudavam-se muito – descascavam um bocado de milho pelo luxo de ajudar – cantavam dançavam e comiam figos aguardente e pão – quando iam para o lagar juntavam-se os suficientes para pisar o vinho – comiam couves com feijões e era a comida mais requintada, noutras casas talvez não houvesse – hoje à carne e muita coisa bem feita mas para comer é preciso empurrar – é o modernismo do mundo – os supermercados não sabe se é bom se é mau porque quando não houver terra o que é que o continente lá tem – quando não houver mar o que é que o continente lá tem – quando não houver vento que será do pão e dos cereais – quando não houver chuva o que é que se vai beber – os homens destroem as coisas mas não deviam destruir ?- fazer um moinho para fazer farinha custou muito aos homens – no tempo actual a quantidade de homens que destruiu isto tudo – quando tudo for arrasado como é que os homens vão fazer para ter outro moinho para ter pão para comer – não o sabem fazer – ????- a natureza arrebenta tudo – aquela mulher já não dá mais fruto
46:34 [mostra o moinho ?]
51:04 [mostra o santuário] [/hide]