Um grupo de mulheres da Rompecilha reúne-se numa tarde solarenga e fala de diversos temas ligados à mulher. Os nascimentos, a infância em que tinham de começar cedo a ajudar as suas mães na lide da casa e nos trabalhos na agricultura e criação de gado. Falam ainda das rezas, da religião e das ladainhas.

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00:12 [apresentação] [nascimentos] [famílias] Maria Celeste Almeida Paiva – nasceu a 27 de Abril de 1943 – nasceu na Rompecilha – os pais também eram da Rompecilha – Idalina Rodrigues – tem 77/78 anos -nasceu a 8 de Fevereiro a data é que não me está na cabeça- os pais eram de Rompecilha -o pai era dos Loureiros e a mãe era dos Dias – Maria José Soares da Costa Figueiredo – nasceu a 28 de Setembro de 1943 – amanhã faz anos – nasceu em Solos na povoação lá de cima- a mãe era de Solos o pai era de Rompecilha – veio para Rompecilha desapartar – e ali ficou – foi para casa de uns tios e depois ficou lá- Maria Cidalina Gomes da Silva Costa – nasceu a 8 de Abril de 1956 – é de Solos mas foi para Rompecilha trabalhar para casa de Arlindo Dias – esteve lá uns anos – namorou o marido, casou com ele e ficou em Rompecilha – fez ali vida com os filhos – os pais eram de Lomba e de Mamouros – os avós vieram para Solos e os pais namoraram na Lomba e foram para lá viver – tem família em Mamouros, Rio de Mel, na Lomba, Macieira, e em vários locais – a avó do lado da mãe era de Santo Estêvão – a minha avó do lado da minha mãe- Maria Odete Martins Dias Coelho nasceu a 22 de Fevereiro de 1949 – nasceu em Lisboa na Maternidade Alfredo da Costa e foi registada em São Sebastião da Pedreira – os pais eram de Rompecilha os dois, a família uma era Dias e a outra Coelho – os pais foram para Lisboa porque a mãe já tinha tido dois filhos que morreram e os médicos disseram que se tivesse mais algum tinha que o ter em Lisboa ou Coimbra – a mãe tinha família em Lisboa e foi lá para a ter – se não tivesse acontecido assim secalhar tinha-lhe acontecido o mesmo que aos irmãos -foi filha única – a maternidade na altura devia ser nova tenho 64 anos- os pais tinham medo que lhe acontecesse o mesmo que aos irmãos – tinha em Lisboa um tio que até foi seu padrinho – ficaram lá em Lisboa mais uns tempos e batizaram-na e registaram-na lá – nesse tempo achavam que se as crianças estivessem muito tempo sem ser batizadas que não era bom – é natural de Lisboa, só conhece Lisboa por ter visitado a filha e foi criada na Rompecilha  – pensam que foi criada em Lisboa- quando se casou teve o padre da freguesia ir a Lisboa tratar dos papeis todos lá em Lisboa na freguesia onde fui batizada- o padre comprometeu-se a tratar tudo – Maria Hermínia de Almeida- 76 anos – não sabe a datanasceu na Rompecilha e os pais também – a mãe era dos Dias e o pai…não sei… era dos Almeida, era sozinho- o avô era de Solos e a mãe era de Rompecilha – Jorge Dias Figueiredo – nasceu na Rompecilha – tenho os meus filhos em lisboa – os 3 filhos estão em Lisboa – tem 68 anos – nasceu a 28 de Abril -eu é 27 de abril

07:22 [infância] trabalhavam no campo- a vida era na agricultura e era muito custosa – agora a agricultura é um pouco mais fácil porque há tratores e já se faz agricultura com tratores – nos outros tempos o pai tinha só uma vaca e outro senhor tinha outra e juntavam-se e trabalhavam nas terras -era muito mais custoso  demorava muito mais tempo – tinha  que se cavar muito – era um bocadinho bastante mais do que agora agora é muito mais fácil – começou a trabalhar quando saiu da escola – antes da escola fazia-se qualquer coisa – no tempo dela só se fazia a 4ª classe – com 6, 7 anos já andava com o gado – até tinha medo -até tinha medo, gritava gritava – mandavam-na sozinha para onde calhasse, para aqueles lados ou para aqui para cima,  ir com as ovelhas – foi muitas vezes a pé para Sul por vezes descalça – sabe deus como era a comida – na resina de pinheiro em pinheiro colhia de lata na mão de pinheiro em pinheiro –  a minha vida não foi fácil – diz que o pai era resineiro e que ainda apanhou muita resina para o pai

09:15 [animais] [transporte] havia muitas juntas de vacas – se houvesse um labrador que não pudesse ter a junta tinha sempre uma vaca para aparelhar com a vaca do outro vizinho -não sei quantas mas havia muitas – o meu marido fala em 25 juntas de vacas – o marido fala muito nisso – diz que também já contou – cada casa tinha uma junta-25 juntas era 50 vacas – todos tinham porque era o único meio de trabalhar as terras – era tudo bem aproveitado  – usava-se se fosse preciso trazer ervas, lenha ou estrume – o leite das vacas era  para criar os bezerros – as crianças não bebiam o leite das vacas porque mal dava para os animais – na maré quando pariam tirava-se o leite para fazer carrouchos que é um género de requeijão – era para as pessoas em geral, punha-se num prato partia-se às fatias e comia-se com pão, era bem bom- com um fio de azeito gostavam daquilo – tinham de gostar – fazia-se de vaca e de cabra também -as cabras davam menos leite –  punha-se debaixo de uma cabra e mamava como um cabrito – tinha fome e a mãe não tinha leite – havia senhoras que tinham crianças da mesma idade e a mãe levava-a lá para mamar no peito –  quando as senhoras não podiam andavam no trabalho e a fazer qualquer coisa punha-se debaixo de uma cabra – a cabra tinha uma filha de duas pernas- e cabra fazia de conta que era a filha- ficou muito tempo a pensar que gostava de mamar na cabra – tirava-se o leite – uma vez estava a beber um tijela de leite e chamam -lhe porca – as cabras dão alimento para as pessoas -antes de ter cabras teve uma tia que tinha e muitas vezes a filha dela arranjava um bocadinho de leite para misturar com o café – era bem melhor – quem tinha cabras alimentava-se do leite quando as cabras não tinham criação cabritos ou assim – misturavam no leite – comia só leite da cabra – não é uma região de queijos – agora é porque quem tem cabras faz um queijo seco – havia muita gente que depois comia ao fim de vender a criação comiam-no  – iam comprar o gado às feiras, a Castro Daire e a Sul -para comprar era mais em Castro Daire, comprar criação para vender era Castro Daire, lá havia bezerros novos que apareceiam nas serras que as pessoas compravam traziam para casa e criavam -para vender depois era na feira de Sul era a feira mais próxima- levavasse para lá os vitelos iam a sul  e vendiam-se -levava a vaca presa e o vitelo – iam a pé para Castro Daire porque não havia carros nem estradas- agora já se semeia e já tem hortaliça e assim  -mas antes  para se comprar um leitão ia-se a Castro Daire, não havia por aqui, ia-se a Castro Daire a pé – pelas serras lá de cima, era por lá que era o caminho -atravessavasse Pepim – ia-se a pepim, iam à serra e desciamos pelo nosso lado – esta rapariga que está aqui que é minha prima aconteceu-lhe o mesmo, nós vinhamos com os leitões lá no alto da serra, eu ela e o meu pai mas depois fechou, começou a trovejar e o tempo ruim e os leitões fugiam e tinham que os levar às costas – era uma vida muito dolorosa – os teus era maiores vinham à rasquinha com eles quanto maiores os animais fossem pior -custava muito

14:54 [rezas] [santos]o santo António era o protetor dos animais – é nesse dia que se lembram e que dão a esmola antes de ir para a confraria – dão a esmola para o Santo António proteger os animais – havia uma festa no Ervilhal que davam muitas carnes – era dedicada aos animais – uma festa que fosse propriamente para os animais, que eu me lembre … – o Santo António celebra-se a 13 de Julho – faz se sempre uma festa – em Janeiro é o São Sebastião – eu não sei mas já ouvi dizer que há outro Santo que também é devoto dos animais mas nós aqui é só santo António, mas há outro que é devoto dos animais – rezas havia quem fizesse aos animais – vinha cá fazer rezas para os animais- Santo Amaro é para os ossos, é o santo protetor mais para os ossos –  lembram-se de rezar a Santo Amaro quando estavam mal de um braço ou de uma perna – quando uma ovelha não dava de mamar aos filhos vinham talhar a dada, sei que elas diziam que era a dada- uma vez uma senhora andava com as ovelhas e pôs três pedrinhas por baixo da barriga da ovelha e dizia muitas coisas que eu agora não sei, sei que diziam que era talhar a dada- e no baço, que elas estavam embaçadas e a gente às vezes malhava-as e elas deixavam de comer – olha a Lucília sabe – era estás embaçada eu te desembaço com estas três pedrinhas de aço, isso eu sabia porque ouvi: estás embaçada eu te desembaço com estas três pedrinhas de aço, e metiam-nas por baixo da barriga,  davam aquelas voltas e diziam mais coisas – isto eu fixei mas o resto não sei, sei que diziam mais coisas – para quando o animais não tinham leite para a criação – chamavam essa senhora que dizia essas rezas – mas era verdade- o bebé da cabra mamava e ela deixava – há em Rompecilhaquem talhe,  quem saiba algo de rezas também-a quem saiba talhar-  A Lúcia sabe -essa sabe e acredito nas coisas que ela faz, quando se torce um braço ela reza o verto – ela sabe bastantes coisas – ela é da nossa idade mas aprendeu com a mãe -acho que era a mãe que sabia e ela aprendeu foi com a mãe

19:00 [parteiras]havia uma senhora dava um jeitinho antigamente – havia uma ou duas, lembro-me delas exatamente – não sabe bem porque teve os filhos em Lisboa – era uma senhora simpática bondosa, carinhosa e com muita habilidade para esse tempo – chamava-se Joaquina – tinha muita habilidade para esse tempo  -não saiam de casa,  tinham as crianças em casa e ela é que ia e ajudava, dava jeito a tudo -eu meus filhos nasceram todos em lisboa quando houvesse problemas chamavam-na a ela – assim que comreçassem a ter dores ia-se lá chamar logoesperavam por ela para ela fazer o que tinha a fazer – Em Rompecilha era ela que ajudava- a minha tia Custódia também ajudava-  por vezes o marido também ajudava a segurar -os meus filhos já nas eram em lisboa- tive cinco filhos, três estão vivos e duas meninas já vieram mortas e foi ela que assistiu – com o filho teve complicações, teve forças para o ter mas depois acabaram e quis ir para o hospital – a parteira acompanhou a até ao hospital de São Pedro – ainda foi num carro de vacas -também estremecia e vinha mais depressa- foi lá um taxi porque ainda não vinha aqui estrada-   apanhou um táxi que já não era o primeiro a fazer esse serviço – o taxista disse lhe que ia ter o filho pelo caminho -algumas tiveram pelo caminho- foi de táxi até São Pedro- o carro estava ali em baixo, a gente dizia Rapozeiras -na maré a estrada  só chegava ali -foi primeiro no carro de vacas e depois estava lá um táxi para a levar que costumava resolver os partos -disse ai não me diga isso e não me resolveu, para algumas resolveu mas para mim não,  correu tudo bem graças a deus – com a ajuda de uma injeção, metade ou uma inteira, tive-o logo – não havia rezas – a parteira amparava os bebés, fazia o que tinha a fazer – iam à capela buscar a estola do padre que ficava no quarto enquanto não fosse batizado -na minha casa havia uma e ainda lá a tenho – era para proteger o bebé – até ser batizado – diziam ser bom quando nasciam pendurar as calças do pai no quarto quando o bebé nascia até ao batismo – era uma ideia -ter lá as calças penduradas do pai da criança – ainda tem uma estola na sua casa, já está velhinha mas está atada num saquinho -as crianças vestiam trapinhos, roupinha feitas, não é como agora, roupinha que a gente fazia- usava-se pano cru –  as costureiras faziam o enxoval das crianças – usava-se fraldas de linho – paninhos de linho  só para debaixo do rabinho, enrola-los – paninhos de linho mais cuteados que acabavam-  bocados de cobertores, de saias velhas  -nao era fraldas compradas como agora -estou a dizer a verdade, pus aos meus, os outros decerto também faziam – era igual –  quando estavam sujos tirava-se aquele e lavavam-se -bocados de saias velhas, fazia-se de roupas velhas – primeiro não se comprava fraldas – no bastismo a madrinha comprava o enxoval – era um vestidinho branco – os batizados eram na igreja de São Martinho – ia se a pé – lembra-se de ir lá com o Arlindo a pé-ia-se a pé para os batizados e para os funerais -levava-se a criança nos braços não havia carro nem estradas – era tudo ao colo- só os senhores maiores tinham cavalos -os funerais pegava-se no caixão – o seu pai dizia que não queria que lhe comprassem um caixão com borlas porque ninguém ia para o chão à borla – convidavam as pessoas mais ricas para pegar na borla e os mais pobres pegavam no peso – o pai pedia para não lhe comprarem um caixão com borlas quando morresse – os que lá iam só estrovavam quem levasse com o peso, aguentar com o peso -ela acha que era tudo igual – o senhor diz que se morrer em Lisboa que quer ir para São Martinho das Moitas -era longe – se morrer em lisboa quero vir cá para cima –  morreu uma senhora que era muito forte e o pai disse que estava aflito dos braços – as pessoas fugiam porque ninguém queria pegar nos caixões – não era caminhos de estradas – o caminho era difícil e a subir  -vinha com os braços nuns molhos porque aquilo era um peso, parecia uma pedra  – eram caminhos de carros de vacas por aqui a fora  – o caminho era sempre a subir – não era bem a subir porque ele dava umas voltinhas – é mais para o lado do Gafanhão e lá é que se subia assim –

28:18 [buraco dos mouros]andou lá na resina – às vezes diziam lhe para fugir porque vinha lá um mouro que a levava para um buraco e a lixava, havia lá umas escadinhas para o buraco – as pessoas diziam umas para as outras, vê lá se o mouro te prende, e não havia lá nenhum – era um sitio de que as pessoas tinham medo de se aproximarem – havia lá um buraco onde os mouros faziam a salgadeira para aguentar a carne -ao pé da costa, do outro lado de cá – aquilo está desfarçado de um lado – os antigos diziam que punham lá grades e ouro ao sol  – eles tinham lá muito ouro e secalhar ainda por lá haverá algum – agora ninguém lá vai – ninguem se atreve a lá ir, por enquanto ninguem se aventurou – é perigoso – quando se espreitava por lá diziam que saiam de lá os mouros e que ainda agarravam as pessoas -apareceu lá uma peça de ouro e pensavam que fosse do tempo deles -nunca ninguém lá caiu – fica no alto e ninguém lá caiu só iam la espreitar mas nunca lá ninguem caiu – se meterem um cão lá em cima ele vem ter lá abaixo à quinta, àquilo do Arlindo – os cães andavam sempre na caça e para ele saber se andavam lá coelhos mandava-os – tinha entrada e saída –  na moita em cima do arlindo – nesse tempo, agora está tudo tapado cheio de terra – os cães que lá fossem já não passavam – mas ainda se vê

31:18 [vida em casa] [comida] cozinhava-se em panelas de ferro, quem cozinhava eram as mães – estou a falar por mim e por alguma experiência que tenho, normalmente o que se cozinhava era o que as terras davam – a batata, o feijão, a hortaliça e um bocadinho de carneque criavam, dos porcos que se matassem -nao se ia ao talho – lá havia o arroz ou a massa com o feijão com um bocadinho de veado? – não havia meios para andar a comprar carne nem frigorífico onde o pôr – o bacalhau era mais na altura do natal e mesmo assim era pouquinho para a fartura que há- criava-se frangos mas era mais pelos ovos -a sopa era de feijão, de batata , arroz ou de hortaliça – era um caldo de antigamente, que tinha mais água que entulhos – água e unto –  a irmã e a mãe diziam  para fazer um mata bicho- punham uma panela de ferro ao lume, cortavam um pouquinho de unto e botava-se pão dentro da tijela- às vezes caia lá arroz e batata e cebola – quando levava cebola já não era água de unto era caldo de cebola – quem tinha ovo já ficava melhor senão era só com pão -o caldo de cebola levava batata miudinha – comia-se de manhã e dava para todas as refeições mas comia-se mais de manhã -essa sopa substituía o café-  não havia café não havia dinheiro para comprar o café – fabricavam a cebola e a batata e faziam essa sopa para de manhã – ao  meio dia tantas vezes cozia-se muitas vezes batata e cebola miudinha por cima – isso fazia uma refeição -em minha casa fazia-se muitas vezes assim, servia de refeição – couve com feijão e batata -era sempre esse género de coisas do campo porque não havia meios para comprar outras coisas, tinha que ser assim-como naquele tempo a vida não era fácil – comeu muitos torresmos porque a vida não foi fácil – naquele tempo não havia caixas não havia nada que pagasse nada, tinha que ser o próprio a pagar tudo- com dois irmãos e depois eu ficava um pouco atarefada- comeu muita vez, fazia numa panelinha, punha o feijão a batata e hortaliça, se tivesse carne mais abundante -ia-se àquele comer, tirava-se para o prato, era o conduto, depois ficava o outro que era a sopa – a mesma panela dava para as duas refeições – dava para comer e ainda dava para a sopa, o que ficava ainda dava para a sopa, muitas vezes – só teve uma filha porque os outros morreram, em certas casas havia seis e sete filhos – devia ser bem pior – diz que depende da maneira como se vive -os pais viveram sempre muito mal, com a vida muito custosa- tem muita experiência disso – teve os filhos em casa e em Lisboa não havia descontos em nada, a vida ficou muito rigorosa – não tenho muita idade,  tenho 64 anos mas tem muita experiência em coisas que agora não a gente admira-se muito  -comia-se à mesa – era tudo no mesmo prato , num prato só- punha-se uma travessa e comia-se tudo na travessa- o caldo era numa tijela, eram pratos redondos e comia-se dali – o marido teve 8 irmãos e fala muitas vezes que comiam na cozinha à noite numa panela de ferro onde cozinhavam para os porcos – viravam o testo ao contráio e punham o prato em cima da panela -eram todos de roda, os pais uma tia e os filhos tudo de roda a comer naquela mesa – em cima do testo – o testo, a tampa era virada e todos de roda a comer – comiam no prato, ficava mais quente – não tinham mesa comiam todos de roda

38:22 [criados] nunca teve criados  -comia sempre ao pé deles -antigamente não sei como era mas desde que fui para lá foi sempre –  o pai também esteve a servir e comia juntamente com eles – se os tios gostassem e eu não gostasse já não comia, fazia outro comer para mim – era a mesma comida igual para todos -noutras casas era diferente, lá em cima comigo foi sempre tudo por igual -naquele tempo comia-se muito torresmos dos porcos- cozia-se as batatas e punha-se os torresmos – alguns eram pouquinhos mas ali naquela casa era sempre com muita abundância,  foi sempre uma casa muito farta – o que era para eles também era para mim – quando eram fracos eram para todos quando eram bons eram também –  e para os outros criados era a mesma coisa- foi tudo sempre igual

39:30 [doçaria]não havia doces só pelo natal – fazia-se aletria naquela maré- com açúcar e canela e vai ao forno para tostar- havia uma loja na Rompecilha, sempre houve -a loja era dos tios da Silvina – naquela maré ninguém bebia café não havia máquina – vendiam café para fazer nas cafeteiras -numa cafeteira de barro, punha-se ao lume – quem bebia muito café chamava-se lambedeira – vendia café a massa e o arroz –

40:55 [religião] [Padres] [catequese] as raparigas eram ensinadas logo em crianças – iam à catequese, à Examina – quando não sabiam as coisas o padre chamava tanjão, o padre mandava para casa aprender para depois voltar lá -era a raposa, outros diziam o tanjão- a gente ia embora e chegava a casa para aprender e tinha que lá voltar – era pela quaresma que a gente ia à examina  e o padre examinava uma a uma – perguntava pelo espírito santo e o mandamento da lei de deus – tinham que saber tudo, de cor e salteado -por vezes não sabiam e tinham que vir para casa para aprender e voltar lá – ficavam todas tristes e diziam que tinham ido com a raposa- os mais velhotes diziam que era com o tanjão mas no meu tempo já era a raposa – iamos com a raposa, vinhamos embora e vinhamos aprender – iam até São Martinho à catequese – na altura era um padre de Reriz chamado Manuel – Maria da Anunciação Martins -a minha idade, você é só olhar para a minha cara e sabe logo- nasceu a 27 de Agosto -tem 82 anos – nasceu em 31 em Rompecilha – os pais eram de lá – era da família dos Amarais – a mãe era Maria e o pai era Vitorino Martins – a catequese foi uma maravilha pelo menos a minha, nunca lá fui ninguém a mandava lá – tinha que ir com as ovelhas -havia a examina iam aos padres e tinham que dizer tudo o que aprendiam todos os anos- os homens e as mulheres – aprenderam a missa toda em latim- lembram se pouco -nao sabia ler e aprendeu tudo a latim, quem sabia ler melhor aprendeu – cantaram a missa toda, chegou a ir a Covas do Rio e ao Gafanhão e aqui cantar a missa em latim -a missa era dita em latim- tudo em latim – aqui só lá ia o padre dizer a missa a quem fizesse o terço, a oração- em outubro e maio, Outubro de manhã e em Maio era de tarde -o meu sogro é que fazia, ele fazia e respondiam –  chegava, tocava o sino e as pessoas iam – naquele tempo fazia a via sacra – andava de volta da capela – o mistério -fazia -se mais oração que agora – nada que se comparasse com agora – era todos os dias durante o mês de Maio e Outubro – em outubro era de manhã cedo

47:50 [ladainhas] foi à Ameixosa a Nodar a Sequeiros e ao Gafanhão – cada casa tinha que ir uma pessoa – os meus pais como era a mais nova mandavam muitas vezes alguém à ladainha-a ladainha é rezar – diziam pai nosso e ave Maria, o tal santo que agora não me lembro, a avé maria e o pai nosso   – cantavam os versos de Fátima – tornava-se a rezar até acabar- levava-se sempre a cruz -uma vez o padre fez uma vez de São Martinho para o gafanhão para vir chuva- foi na quinta feira da espiga em Maio – é tipo procissão pedia a um santo para lhe mandar chuva e rezava e cantava – rezava a ladainha – era dizer o nome dos santos todos e ao fim dizer rezar por nós -diziam em latim – iam e voltavam a pé – tudo no mesmo dia – em Nodar iam por trás da capela onde é o cemitério – dava lá umas voltas e depois iam-se embora – era tudo a pé -para as ladainhas não havia perna manca para caminhar – não havia estradas, só atalhos – lembra-se da tia de uma senhora de ir à ladainha – estava escuro e ela disse uma moda- apanharam a moda  – as ladainhas eram em Maio – naquela altura não faltava quem fosse, o pai tinha três filhas e ia cada uma a cada ladainha para namorar – o pai não a deixava ir e tinha que ir com a tia de uma senhora, ela chegava a Sequeiros ou Sete Fontes onde diziam que havia uma água muito boa  e sentava-se a comer ovos cozidos e dava um mas ficava toda enraivada porque não podia ficar com eles – havia várias ladainhas, de Nodar e da Ameixiosa

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