Nascida em 1946, em Paraduça, Maria Celeste Verónico criou-se nos moinhos, à beira do rio Vouga. Já na época, o pai, que era moleiro, tinha a balança decimal, onde pesava os cereais.
O instrumento era de tal forma importante para a atividade que a octogenária recorda que, quando vinham as grandes cheias, o pai, para salvar a balança, colocava-a no telhado dos moinhos.
Conta Maria Celeste que aqui chegava gente de muitos lados e burros carregados com taleigas cheias de milho e tapadas com mantas de trapos feitas no tear. Havia também quem moesse rabeiras (casulos de espiga) para os animais ou mesmo para cozer pão e a grainha da uva.
Embora o pai só soubesse escrever o seu nome, para anotar o peso das taleigas, pegava num carvão e fazia um risco por cada quilo. Em cada dez, um ficava para o moleiro.
Assim, o cereal era essencial para a alimentação da família, sendo usado para fazer pão, caldo de farinha e bola na telha de cume.
Era uma época de pobreza, “meninas descalças, cheias de fome”, de muito sacrifício e lágrima no olho. A sua mãe, recorda, vendia sardinha, mas também confecionava e comercializava broa de milho.
Maria Celeste Verónico herdou esse gosto pelo trabalho, que a acompanha ainda hoje.