Entrevista a Dulce de Jesus Rodrigues Pereira em Póvoa de Calde, Calde a 4 de Novembro de 2015.
Entrevista e Edição Audiovisual de Luís Costa
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Dulce Pereira relata-nos a sua ligação com a religião desde a infância até aos dias de hoje e a importância que teve e continua a ter na sua vida. Explica em pormenor diferentes atividades religiosas, como festas, a catequese, as orações e confissões.
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00:11 [Apresentação] Dulce. Dulce de Jesus das Dores Mões Rodrigues Pereira. Nasci a 18 de agosto de (19)54. Nasci em Moçambique. Depois, o meu pai era funcionário dos correios, aposentou-se, e eu ainda era criança, tinha nove anos, já vim aqui fazer os dez e vim embora, que ele não queria lá ficar em Moçambique. Queria vir para a terra dele. E viemos para cá. (Calde era a terra) dos dois, do pai e da mãe. Sim.
01:03[Diferenças entre a vida em Moçambique e em Calde] Custou-me muito a habituar. Muito. Muito. Os princípios, no princípio não… Era totalmente diferente. Primeiro, não havia luz. Pra mim era uma confusão, o meu pai comprou logo quando chegámos ali a Lisboa uns Petromax, que eram uns candeeiros que davam uma luz muito forte e tal, mas uma pessoa tinha que ter um na cozinha, outro na sala, que era para dar para os quartos. Oh, era muito difícil. Depois também quando chegámos ainda não tínhamos a casa, a casa pra onde…que era nossa, que tinha calhado dos nossos avós e que o meu pai decidiu que ficaria pra nós, ficaria ali, não faria outra, reconstruída, prontos. Ainda estivemos a viver na casa dos meus avós, mas depois eu fui, fiz logo nesse ano, vim cá, foi só um mês, e fiz o quarto ano e o exame de admissão que se fazia naquela altura para ir para o que agora chama-se o ciclo, pronto, para o primeiro ano, que era o primeiro ano.
02:13 E depois fomos viver para Viseu. Prontos, mas nas férias o meu pai vinha sempre, nos fins de semana, não todos, mas nalguns vínhamos para aqui.
02:30[Ligação dos pais a Calde] Ah, sim (os meus pais estavam muito ligados a Calde). Sim, embora a minha mãe, o meu pai nunca disse nada, mas a minha mãe, quer dizer, ela queria vir, embora, pronto, mas pelo clima e pela vida lá ela gostaria de ficar lá, embora sentisse saudades, não é, e queria vir para a terra dela, porque era a terra dela e tinha cá os irmãos. A minha mãe sempre foi muito ligada com a família. E queria vir, embora dissesse ͚Ai..͛, isto lembro-me de ela dizer, ͚Ai lá o tempo de lá, agora é frio, agora é assim e tal͛, pronto, mas eu também senti uma diferença, este frio… A neve quando veio, quando a vi a primeira vez, ai que horror, mas pronto…tive que me ir adaptando.
03:36 [Catequese] Mas lá, lá, eu fiz a catequese lá, embora eu não fosse, como é que hei dedizer, todos os sábados à catequese, como aqui as pessoas vão, ou iam, a minha mãe conta, também não iam todos os dias à catequese, iam de vez em quando a uma senhora que as ensinava à noite lá em casa. E a minha avó também ensinava, mas ela ia àquela senhora, que ainda sei o nome que ela dizia, portanto, aquela senhora é que lhes fazia a preparação, mas não era com nenhum catecismo.
04:14 [Experiência como catequista] Ela ensinava, nós agora o que é que nós, o que é que nós falamos? Nós damos catequese aos meninos, mas não lhe estamos só a ensinar o Pai Nosso, a Avé Maria, as orações todas, não, estamos a fazer-lhe uma preparação de conhecimento, de conhecimento de Jesus. Antigamente, não era essa preparação, era o ensinar a doutrina, por isso é que se dizia a doutrina, não se dizia a catequese, dizia-se ͚Vamos aprender, vamos à doutrina͛, a minha mãe dizia assim, iam à doutrina, pronto. No meu tempo lá, quem dava era no colégio, nós andávamos, eu andava no colégio e as freiras é que davam a… a catequese, mas não era aquele dizer assim ͚Vamos todos os sábados à catequese͛. Havia uma preparação, elas faziam-nos uma preparação para fazer a primeira comunhão, por exemplo.
05:10 [Preparação para a comunhão] E eu quando fiz a primeira comunhão fiz logo o crisma nesse mesmo dia. Ao passo que agora há uma preparação, não é, há uns anos todos seguidos para a primeira comunhão, depois a segunda…não, nós lá não, fizemos, ou porque veio lá o senhor bispo, também já não me lembro, não é, sei que nesse dia que fiz a primeira comunhão crismei-me logo. Prontos. Foi-me logo oferecido nesse dia o terço. Agora vamos dizer, lá a religião não era vivida nada como aqui.
05:56 [Natal] Era muito importante… Era muito importante o Natal. O Natal lá era uma importância, uma importância, mas já nessa altura, era mais uma importância a nível material. A árvore de Natal, eu nunca me lembro de lá fazer o presépio. Era a árvore de Natal, isso é que era o mais importante, era a árvore de Natal, as prendas, era uma coisa enorme de prendas que nós tínhamos, que eu tinha, eu e os outros todos. Não aquela vivência do que nós agora fazemos, a árvore de Natal e fazemos e não pode faltar o presépio, pelo menos em minha casa, não sei se em todas as casas há, mas na minha casa, portanto, faz-se o presépio. E a gente ensina muito aos meninos, eu sempre ensinei aos meus filhos, portanto, o valor do presépio, as figuras, o que significava tudo, o pôr o Menino Jesus só precisamente no dia que ele nasce no presépio, essas coisas todas, não é, e lá isso não, não era importante.
07:12[Relação dos pais com a religião] O meu pai era uma pessoa que, como é que eu hei de, custa-me muito de dizer isto, mas não era muito religioso. Ligava muito pouco, não ia à missa, não… A fé, não tinha uma fé, uma fé muito, uma fé muito viva. A minha mãe era diferente, não é, ia à missa com a minha madrinha, sempre à tarde, sempre, nem sempre, mas quase sempre e, prontos, e sempre me ensinou ir à missa e, embora o meu pai nunca fosse uma pessoa que dissesse assim ͚Não quero que vocês vão à igreja͛, ou coisa do género, nada, nada, isso ele nem se pronunciava sobre isso, mas o acompanhar isso não, o ir também não, não é, e depois, e prontos, e mesmo aqui também não era aquela pessoa que fosse à missa, prontos, era diferente. A minha mãe era diferente.
08:24 [Nossa Senhora] A minha mãe sempre foi uma pessoa mais dedicada e sempre houve a Nossa Senhora e…a Nossa Senhora. Isso sempre. Foi, era aquela, eu desde pequenina me lembro sempre de ter uma grande vocação à Nossa Senhora. Uma vez o meu pai, o meu pai tinha uma diferença muito grande da minha mãe, de vinte anos, portanto, eu era pequenina e ele já era uma pessoa de idade, tanto que eu tinha nove anos e ele já estava na altura da aposentação, não é, já se tinha aposentado. E por isso, eu lembro-me que ele adoeceu, estava internado na Casa de Saúde ali de S. Mateus, cá em baixo ainda, e eu ainda era pequenina, andava aí na…andava no segundo ano, que é agora o sexto ano. E, prontos, a minha mãe muito preocupada porque ele estava doente e assim, eu ainda era pequena, e eu já nessa altura, embora, prontos, não houvesse uma vivência tão forte como agora eu vivo, eu me lembro de prometer à Nossa Senhora, já nessa altura, quinhentos escudos, que não tinha dinheiro nenhum, não é, mas prontos, mas tinha, mas lembro-me de ter feito essa promessa, porque já confiava, já tinha uma grande devoção à Nossa Senhora.
10:00 [Catequista na Paróquia de São José] E depois fui catequista, logo de pequenina, era pequenita relativamente, fui catequista lá na paróquia de São José, em Viseu, que eu vivo, vivi, tenho lá a casa, não sei se vocês conhecem, ali na Rua Capitão Salomão, atrás da Avenida da Bélgica, mas nessa altura eu vivia na Avenida da Bélgica e a igreja era cá em baixo no São José, a Senhora da Conceição, naquela altura ainda nem havia a grande, era só a pequenina. E era lá que dávamos catequese e eu ainda andava na escola e fui catequista e assim.
10:50[Relação da Família com os Costumes Religiosos de Calde] Nós vínhamos, vínhamos pra cá, não é, e nas férias, passávamos sempre as férias todas cá e tivemos sempre e quando era as festas e tudo vínhamos cá, não é, e sempre, prontos, o padroeiro era, foi desde sempre ouvi falar a minha mãe no padroeiro, no Mártir São Sebastião. E naquela altura, embora não houvesse, não havia, não me lembro de a minha mãe falar, que havia, por exemplo, o mês mariano, o mês de Maria, que é no mês de maio, nessa altura, na altura em que a minha mãe foi criada, antigamente, não é, não havia.
11:32 [Oração da Manhã em Calde] Havia todos os dias era a oração, que era até o avô dela. Fazia todos os dias a oração de manhã. A minha mãe não falava no terço. A minha mãe não falava no terço. Mas a minha mãe não fala que rezavam o terço, rezavam, iam à oração, era isso que a minha mãe dizia. Logo de manhã cedo levantavam-se para a oração. Portanto, tocavam o sino e iam logo, aí às 6 e meia, ou coisa do género, para a oração. Eram crianças e a minha avó obrigava-os, a minha mãe e os meus tios, a levantarem-se, chamava-os, ͚Olha o tio Regalo que já está, já tocou o sino para a oração. Levantem-se lá, preguiçosos͛ e isto e assim tal…
12:39[Oração da Manhã no Primeiro Dia da Quaresma] E, por exemplo, quando era no Carnaval… O Carnaval prolongava-se, o último dia, terça-feira de Carnaval, até mais tarde. Andavam na borga, a jogar o Carnaval até mais tarde, mas ao outro dia, quer dizer, começava a Quaresma e o Tio Regalo começava, ia fazer a tal oração. E eles, que se tinham deitado, ah e uma coisa, que a partir da meia noite tudo tinha que acabar, ali já não havia mais brincadeiras, acabava o Carnaval, mas deitavam-se tarde e de manhã custava-lhes imenso levantar para vir à oração, mas que eram obrigados e às vezes vinham, levantavam-se mais tarde, um pouco mais tarde, e a oração já estava, eles vinham, pegavam num caneco da água, as mulheres, não é, e vinham à fonte, traziam o caneco e punham-se à escuta. Se a oração já estava quase no fim, eles já nem entravam e voltavam para casa, prontos. Se a oração ainda estava quase no princípio, então entravam. Isso é que era, havia sempre essa oração, que era esse senhor, esse senhor que a fazia.
14:05 [Encenações na Quaresma] E outra coisa, a Quaresma era muito vivida. Muito. A minha mãe conta coisas que faziam já na igreja, já aqui na igreja paroquial, os padres, portanto, havia, era o quê, era a representação daquilo que Jesus sofreu, depois aquele aparecimento da Nossa Senhora no fim, quando ele já estava morto, e o pegar nele. E depois os padres criavam uma grande ênfase sobre aquilo, porque punham o género de um cenário. E abria o cenário, abriam as cortinas, chamavam, a minha mãe dizia que era as cortinas, abriam-se para o lado, e aparecia o Senhor assim morto, ou quase morto, e a Nossa Senhora. E depois os padres a falarem sobre aquilo, sobre aqueles acontecimentos, mas de uma maneira muito entusiasmada.
15:15 Figuras. Figuras. E então as pessoas, a minha mãe diz que não havia ninguém que naquela altura não chorasse.
15:26 [Sermões Durante a Quaresma] E depois havia sempre, durante o tempo da Quaresma, durante uns determinados dias, uns sermões, que eram feitos pelos padres que o padre de cá, que era o tal padre que vivia no Almargem, agora…o padre João já não é no tempo da minha mãe, filha.
15:53 [Belmira Cardoso Rouxinol] Sim, isso não. Era o padre beiça, o que vivia no Almargem chamavam-no padre beiça.
15:57 Prontos, mas ele tinha outro nome. Eles não o chamavam padre beiças, chamavam o padre…
16:02 [Belmira Cardoso Rouxinol] Padre Álvaro.
16:04 Não, o padre Álvaro já foi depois. Não, não, era um padre…ai, agora não me…prontos. Passou-me agora o nome dele, porque eu sei o nome dele. Portanto, ele rogava os outros, ele próprio fazia e rogava aos outros padres também para vir cá fazer esses sermões às pessoas. E as pessoas vinham de todo o lado. Ali, não pela estrada, mas aqui assim pelo meio dos pinhais, por uns atalhos que havia, aqui ao sermão, não podiam… Eram muito importantes e ninguém faltava. Raramente, só se fossem as pessoas que estivessem acamadas, doentes, ou coisa do género, porque o resto tudo vinha, crianças e tudo. A minha mãe nessa altura era ainda criança, mais ou menos, rapariguita, e não faltava. Às vezes até, nessa altura, a minha mãe dizia que algumas pessoas, para não gastarem os tamancos porque, prontos, não era, era a miséria, até vinham, tiravam-nos a meio do caminho e vinham descalços, não é. Depois só aqui já perto é que calçavam os tamancos então para ir para a igreja. E vinham todos, depois deixou, como aqui era a igreja paroquial aos domingos não havia missa em Calde. E as pessoas vinham aqui e não faltavam. Não faltavam, quer se fossem novos ou velhos, aqui à igreja paroquial. Aos domingos, pois, aqui todo o mundo ia. Mais, assim do antigo…
18:12 [Formação Como Catequista] Sou, sou, sou. Desde, depois fui, nessa altura era ainda rapariguita, fui catequista, depois deixei de ser e tal… Depois, já depois de casada, fui convidada pelo padre Zé, lá, já era o padre Zé e, prontos, como senti que não tinha uma formação muito profunda, e fui tirar o curso geral de catequese. Três anos, em que tínhamos trabalhos a apresentar, tudo, era um curso mesmo intensivo. E com tudo, com…tínhamos no fim esse trabalho que tínhamos que apresentar, tínhamos… Foi no Seminário Maior, no Seminário Maior. E depois… Esses cursos eram dados por padres especialistas, porque nós tínhamos teologia, tínhamos várias disciplinas relacionadas com a Igreja. Depois, muito mais tarde, houve lá um curso de ciências religiosas, que nos dava direito até a nós, se quiséssemos optar, depois ser professoras de religião e moral no 2º ciclo. E eu fui tirá-lo também, até foram também três anos, prontos…
19:48[Santos da Freguesia] [Maria de Fátima dos Prazeres Chaves] Sabe tudo, era ela a indicada para isso.
19:58 Aqui o São Miguel, o São Miguel aqui é, aqui é o Santo António, não é?
20:04 [Belmira Cardoso Rouxinol] É.
20:06 Aqui é o Santo António. Então, o Santo António toda a gente sabe que foi um grande santo. Pregador, tem vários sermões, é conhecido pelos sermões que ele fazia. Lindos. Até aos peixinhos e tudo. Depois o São Miguel, o santo que nos defende, é um santo, é um arcanjo, o arcanjo São Miguel. São três, São Miguel, São Rafael e São Gabriel, mas o São Miguel que nos defende de…do maligno. Por exemplo, é uma oração que eu rezo todos os dias de manhã, é ao São Miguel, porque, para me defender de tudo o que seja mal. Todos os espíritos malignos, espíritos malignos.
21:01[Oração a São Miguel] Como é… Só me… Ai agora tenho que…senão dá-me um vaipe…São Miguel Arcanjo, Defendei-me neste combate, Sede o meu auxílio, Contra as maldades e ciladas do demónio…A gente quando está nisto é assim. Quando estou sozinha aquilo sai direitinho. Agora não sou capaz, agora não sou capaz, São Miguel arcanjo, sede o meu auxílio contra as maldades e ciladas do demónio…
21:46 [Maria Adelaide de Oliveira Rouxinol] São Miguel arcanjo à terra desceu A Virgem Maria por ele concedeu. Diz assim, pronto…
21:53 Não, não, não. Esta, essa não sei… Eu sei uma que é grande. A minha é grande. Daqui a pouco pode-me já sair toda, mas agora só me sai assim.
22:10 [Mártir São Sebastião] São Sebastião foi um, portanto, foi soldado e depois foi degolado. Tiraram-lhe…e ele, no entanto, resistiu sempre a tudo e deixou-se morrer pela sua fé. Pela fé que tinha a Jesus.
22:45[Santa Bárbara] Em Paraduça (há uma capela dedicada a Santa Bárbara). Porra, é em Paraduça, não é? A Santa Bárbara.
22:48 [Belmira Cardoso Rouxinol] É, é. Vai ser a festa dia 4 do mês que vem.
22:53[Pregação nas Festas em Honra dos Santos] Eram festas feitas com três padres, pelo menos, nunca era nenhuma festa em que não houvesse três padres. E era pregador, vinha o pregador e, que era chamado o pregador, pronto, isso havia, antigamente tiravam, os padres tiravam uma, vamos lá dizer assim, um curso, para aqueles que tinham mais jeito para pregar, tinham depois este…este aperfeiçoamento, que era um curso que eles tiravam e eram chamados os pregadores. E esses pregadores depois eram convidados para vir a estas festaspregar. Essa pregação era valorizada, sobre um santo, sobre aquele dia importante que se estava a festejar, se fosse a festa da Nossa Senhora, era sobre a Nossa Senhora, se fosse outra festa era sobre essa festa.
24:02[Procissões] E saía a procissão e a procissão era uma procissão enorme, em que as pessoas cantavam, em que vinha a banda, nunca faltava a banda na procissão. E as colchas, as pessoas por onde a procissão passava punham o que de melhor tinham nas suas janelas. Se tivessem colchas punham colchas, se tivessem, se as não tivessem, mas tivessem as toalhas da Páscoa, brancas, punham essas toalhas. O que tivessem de melhor, elas ornamentavam a sua casa com isso.
24:42[Enfeitar a Igreja][Belmira Cardoso Rouxinol] E a igreja também, toda preparada com isso, a igreja também.
24:46 E a igreja também, claro, a igreja pra esse dia era preparada da melhor maneira. E não eram, nessa altura não havia flores compradas, a minha mãe diz que iam a Coura, que era, nesse tempo aí havia uma árvore que chamam japoneiras. Iam lá buscar as, que nessa altura do Mártir São Sebastião essas árvores estavam floridas, davam a flor, e as pessoas iam lá buscar às cestadas, às canastras das flores, para enfeitar a igreja. A igreja, prontos, e era, e era… É assim uma rosa, uma rosa grande. E, por exemplo, eram feitos, para pôr os arcos, punham os arcos na igreja, esses arcos eram todos enfeitados em papel. Esse papel todo recortadinho, que recortavam as mordomas e enfeitavam. A fazer essas coisas à noite e tudo e era. Eu ainda vivi alguma parte desse tempo, quando vinha cá ainda se fazia isso tudo, mesmo com o padre João, ainda era isso tudo feito. Essa pregação, tudo…
26:40 [Manutenção dos Costumes Religiosos] As pessoas aqui eram… Ora, vamos lá ver, eu para mim acho uma coisa, aqui, agora, antigamente não, as pessoas viviam a religião, e tudo o que faziam faziam-no com fé, portanto, mesmo à noite, às vezes vinham cansados do trabalho, a minha mãe diz que vinham cansados, o que queriam era deitar-se, dormir, e nunca podiam ir para a cama sem dar graças, mas era graças em que falavam em todos os santos, eram nomeados todos os santos, por isto, por aquilo, por aqueloutro, para defender isto, para defender aquilo, para ajudar isto, para ajudar àquilo, era, sabiam essa (ladainha), eu podia-a saber toda. A gente na altura, que a minha mãe contava tudo, era uma pessoa que me contava, eu sou filha única, me contava tudo isso. E na altura nós não damos valor, quer dizer, achamos que nunca mais acaba, mas as coisas têm um fim. E depois não as escrevemos, porque se fosse agora eu escreveria muita coisa. Muita coisa. Muita coisa antiga que agora tenho pena porque às vezes quero contar, mas já não sei contar aquilo tudo perfeitinho, tal e qual como a minha mãe me contava.
28:07 [Oração à lareira] E a minha mãe dizia que às vezes estavam já todos assim à volta da lareira, era assim uns bancos, eu ainda me lembro dessa lareira, da minha avó, era os bancos encostados à parede e depois ali a lareira, que aquilo era uma coisa assim funda. E depois elas estavam sentadas e estavam cansados e começavam a cair assim para trás, com certeza, e então, e o meu avô queria que estivessem assim com a mão, tudo levantadinho, e eles já estavam meios a dormir, a mão ia para baixo, ia para onde calhava. E depois o meu avô, que quando já estavam na última oração, que às vezes, que lhes dava assim na mão, ͚Ao menos reza agora o último Pai Nosso, levanta as mãos͛ e eles lá, com todo, prontos, coitados, sabe Deus como, lá levantavam a mão e lá estavam a rezar o Pai Nosso, às vezes pequenitos ainda.
29:12 [Exame da Comunhão] E era tudo ali… E ele próprio, e ele próprio era uma pessoa dura e envergonhava-as, dizia-lhes coisas ͚Não tens vergonha, o teu pai não te ensina o Pai Nosso em casa͛, tal, ͚Olha, agora vai, levas a raposa para casa, ficas lá mais um ano pra ele te ensinar͛. Era assim. E só no ano seguinte é que faziam depois a tal comunhão, que tinham para fazer, que, não é, depende da comunhão que era.
29:41 [Maria Adelaide de Oliveira Rouxinol] ͚Não, vai aprender e torna a vir͛, diz ele assim.
29:45 [Belmira Cardoso Rouxinol] Ai, a minha mãe isso tinha um medo ao padre Beiça desgraçado, é que ela disse que não, mas essa, ela disse ͚Eu não tinha problemas nenhuns…͛
29:52 [Confissão] Mas era tão rigoroso no tempo da minha mãe, que, por exemplo, namoravam, e vinham à confissão, não é, e o padre perguntava ͚Namoras?͛, e ele tinha que dizer a verdade, não é, antigamente não mentiam, agora podem mentir quando se confessam, mas antigamente não, e diziam a verdade ͚Namoro͛, isto passou-se com pessoa da minha família, ͚Namoro͛, ͚Os teus pais são sabedores?͛, e por acaso não eram ainda sabedores e ela disse ͚Não͛, ͚Então, vais para casa dizer e depois voltas͛. Não lhe deu… Não a absolveu. Ora, as pessoas todas que estavam por ali ficaram, ficou tudo a saber, ͚Aquela não levou a absolvição, o que é que ela teria feito?͛, a pessoa ficou envergonhadíssima, era uma rapariga ainda. Simplesmente por causa disso. Porque ela disse que os pais ainda não sabiam que ela namorava com aquele rapaz.
31:10 É dos padres. Não… Isso não é nada dos padres, foi instituída por Jesus Cristo e quem quer vivê-la tem que a viver seriamente. Isto agora é que é uma bandalheira. Está uma bandalheira e tudo…
31:26 [Maria de Fátima dos Prazeres Chaves] Está tudo abandalhado.
31:27 Está tudo abandalhado, mas depois um dia mais tarde não sei, se é aquilo que eu leio…
31:35 [Maria de Fátima dos Prazeres Chaves] Sofre-se, pois…
31:36 Se é aquilo que eu leio há muito que sofrer.
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