Entrevista a Afonso Dias em Gumiei, Ribafeita a 8 de Julho de 2015
Entrevista de Manuela Barile
Registo Audiovisual de Nely Ferreira
Edição Audiovisual de Luís Costa
Transcrição de Susana Rocha

Afonso Dias relata como foi o seu nascimento, a importância do batizado e as crenças associadas a ele.

[hide for=”!logged”] 00:10 [Apresentação] Afonso Batista Costa Dias. (Nasci) em Gumiei. 1947. A 6 de maio, a 11 de maio, perdão.

 

00:21 [Enquadramento em Ribafeita] Sim (os meus pais vivem cá). Não (tenho irmãos), sou filho único.

 

00:34 [Nascimento] Sim, os meus pais falaram-me disso. Eu nasci numa casa que fica aqui em cima no largo, uma casa que era daquelas tradicionais da Beira, tinha uma grande varanda em madeira à frente, e que agora há uns anos foi vendida, foi junta a uma outra casa, onde se construíram agora um lar e centro de dia para os idosos. Naquele tempo as pessoas não iam para as maternidades, não é. Eram as parteiras da terra que acompanhavam. O parto parece que foi um bocado duro. O meu pai já tinha uma certa idade quando eu nasci, a minha mãe não, tem, tinha uma diferença muito grande de idades. E porque o meu pai pensava que, como o meu pai tinha uma certa idade pensavam que já não ia ter filhos. E ainda houve até aí umas guerrazitas na altura com familiares, porque diziam que eu que não tinha que ter nascido e há uma história que não vale a pena estar a contar, porque é uma história triste de algum, de um familiar, que depois a partir daí nunca mais houve ligações entre os meus pais e eles, nada.

 

01:48 [Batismo] E pronto, e depois tive um problema logo aos sete dias e tive que ser, fui batizado com urgência. Tanto é que o meu padrinho, que era para ser o meu padrinho de batismo, era um senhor que era natural de Bordonhos, São Pedro do Sul, não havia telemóveis, os telefones eram muito poucos à época, e então não foi ele o padrinho, foi um tio meu, irmão da minha mãe. E então fui batizado sem qualquer tipo de superstição, mas a verdade é que parece que depois que me deitaram a água na cabeça eu recuperei um bocado do problema que tinha. E tanto foi assim que esse senhor que era para ser o meu padrinho de batismo começou a chamar o meu pai sempre de compadre. E quando chegou a altura de eu fazer o crisma foi ele o meu padrinho de crisma. E não foi aqui na minha igreja, onde eu fui batizado, ‘minha’ entre aspas, também fui crismado em Bordonhos, porque ele estava lá e era mais fácil, ele disse que fosse lá, então ficou sempre e éramos sempre, o meu padrinho. Pronto, de maneira que foi louvável. O problema não foi logo, portanto, de parto, mas foi logo passado aqueles dias, que eu aos 7 dias fui batizado, pensavam que eu que…ia dar uma volta para o outro lado.

 

03:28 [Crenças ligadas ao parto e ao batismo] Que eu saiba não (não havia nenhuma reza para o parto). Que eu saiba não. Não, não (veio nenhum padre), fui à igreja, fui batizado pela igreja. Foi, foi, (pela) igreja. Não, havia (havia uma crença)…diziam que tinham que ser batizados antes do mês. Porque enquanto não fossem batizados podiam vir uma série de doenças. E então era muito raro que fossem batizados depois de fazer os 30 dias. E diziam que alguns, pronto, aquelas cólicas naturais, quem é mãe sabe muito bem, ou quem é pai, o que é que às vezes acontece, aquelas cólicas que as crianças têm, aquilo tudo, e eles levavam um bocadinho a conta que essas, esse tipo de, enfim, de os bebés passarem a noite inteira a chorar, o dia às vezes complicado, porque, até porque naquela época a medicina estava ainda muito atrasada, não é, não havia pediatras, eram médicos de clínica geral que faziam tudo e mais alguma coisa, eram pediatras, eram obstetras, eram, era, enfim…e então diziam que para eles se tornarem mais calmos e não sei quê, não terem tanto esses problemas, tinham que ser batizados. Por isso é que havia a tal regra de eles serem batizados antes dos 30 dias.

 

05:19 [Batismos na aldeia] Atualmente, ou no passado? Não, não (não conheço ninguém aqui na aldeia que não tenha sido batizado). Mesmo eu posso-lhe contar uma história engraçada, que havia uma senhora que não era de cá, era mãe solteira, era de uma freguesia ali da zona de Sátão, e depois veio aqui para uma casa, porque em, aqui na, principalmente em Gumiei, não tanto no resto da paróquia, mas em Gumiei, havia, houve sempre umas famílias com umas casas bastantes abastadas, quase, não era, mas quase tipo brasonadas, em que a base deles era agricultura, mas tinham muitas e muitas, muitos terrenos, depois recrutavam pessoas que vinham de longe para estarem ali, e essa senhora veio para uma dessas casas. Já trazia o filho com ela, pequenino, penso que tinha um ano, ou um ano e pouco, e estava por batizar, porque o pároco onde ela morava não o queria batizar, não quis batizá-lo porque ela era mãe solteira. E chegou aqui a falar com o padre da época, ele disse que sim, que a batizava, porque a criança não tinha culpa nenhuma daquela situação, e pronto. A filha da casa onde ela estava prontificou-se logo a ser madrinha. Mas não tinham um padrinho e foram falar com o padre, e o padre ‘Não há problema, que eu arranjo o padrinho’. Isto é real. Isto é autêntico, não é… E então, pronto, eles lá foram, chegaram à igreja para fazer o batizado, não viam nenhum homem para ser o padrinho, e perguntaram ao padre, ‘Mas disse que arranjava o padrinho’, ‘O padrinho está la dentro’, e então fizeram o batizado, quem foi o padrinho? O que estava lá dentro era uma imagem de São José e ficou nos registos que o padrinho daquela criança foi o São José e a Vicentina Machado. Portanto, isto é autêntico, porque está nos registos antigos desta paróquia. E demonstra que realmente as pessoas não queriam que ficasse ninguém por batizar. Mas havia sempre aquela dúvida, porque eram filhos de solteiros, mas havia cá mais casos de filhos de solteiros e eles foram sempre batizados. Ao contrário de hoje, que já há alguns que não são batizados, isso hoje já há cá.

 

08:00 [Junção do batismo com outros sacramentos] Há inclusivamente um miúdo que vai, fez a primeira comunhão o ano passado, há outro que faz a primeira comunhão no próximo ano e foram batizados, um foi batizado no Dia de Reis, e o próximo vai ser batizado no dia da comunhão. Aliás, as minha filhas são também catequistas e trazem uma miúda que não é batizada. Estão à espera depois que chegue a altura da primeira comunhão, para ela ser batizada. Sim, sim, sim, sim, sim (é possível juntar o batismo com a comunhão) e ainda outro, ainda se pode juntar outro sacramento, que são os tais chamados sacramentos da inquisição cristã. E faz-se em muito lado, aliás, mas isso é normal em todo o lado, e juntam também até o crisma. Fazem os três sacramentos no mesmo dia. Começam por um, começam pelo batismo, fazem a comunhão, e depois o crisma também.

 

09:19 [Escolha do nome] Eu não sei, não tenho a certeza, mas penso que foi depois de…já sabia que ia ser Afonso. O ‘Costa’ vinha do lado da minha mãe e o ‘Dias’ do lado do meu pai, mas também havia uma tradição, que o nome do padrinho devia constar no nome do afilhado, no caso de ser do sexo masculino, e se fosse do sexo feminino devia constar o nome da madrinha. Por isso, como eu tive aquele problema de saúde, que tive que ser batizado de urgência, às sete da tarde, e com a troca do padrinho, o meu padrinho chamava-se João Batista, e então ficou o ‘Batista’ do padrinho. Por isso o meu nome até tem uma característica, ‘ABCD’, Afonso Batista Costa Dias.[/hide]