Entrevista a Joaquim Pereira e Maria do Céu Pereira em Gumiei, Ribafeita a 9 de Abril de 2015
Entrevista e Edição audiovisual de Luís Costa e Manuela Barile
Registo Audiovisual de Manuela Barile
Transcrição da Entrevista de Susana Rocha
Joaquim Pereira e Maria do Céu relatam em pormenor as tarefas relacionadas com a agricultura, desde a preparação dos terrenos para o cultivo até às colheitas e com a criação de gado.
00:06 [Apresentação] [JP] Joaquim Gonçalves Pereira. [MP] Maria do Céu Alves de Almeida Pereira. Eu sou natural de Gumiei. [JP] E eu nasci nas Monteiras, Castro Daire. (Vivemos nesta casa) definitivamente, desde 92. [MP] Eu não (sou reformada). [JP] Eu sou reformado. [MP] Eu desconto e só trabalho 50% na agricultura, do tempo.
01:00 [Terrenos] [JP] Temos alguns aí a 500 metros daqui. Inclusivamente ali à entrada do, quem vem de lá para cá, daquela estrada principal. Areoso, um bocadinho mais areoso. Algum, parte, há terrenos que são mais…não é tanta areia, mas há outros que têm mais areia. É dificuldades de água, de resto trata-se bem, os terrenos são bons, o que é temos bastantes dificuldades na rega, porque há pouca água nesta zona.
01:53 [Vegetais e frutas] [MP] Geralmente, um pouco de tudo. A alface, a ervilha, a fava, cebola. Tudo em pequenas quantidades, mas um pouco de tudo. [JP] Tudo o que uma casa gasta diariamente. [MP] A fruta possível, desde o quivi, laranja, de tudo um pouco.
02:21 [Ervas] [MP] Ervas daninhas? [JP] Alguns terrenos a gente semeia pastagem pros animais e aqueles que não são semeados depois aparece sempre, como é normal, aparecem dessas, como chamam, ervas bravas, que aparecem, mas que são aproveitadas a maior parte para os animais comerem. Muitas delas nós nem as, não é semeado, não é mexida a terra, fica próprio só para pastagens. [JP] Não (são utilizadas na cozinha). [MP] Sim, por exemplo, temos o louro, que é uma árvore que dá a folha. [JP] Mas isso é uma árvore. [MP] Mas é uma árvore. Temos a cidreira, para chás, temos a salva, temos o alecrim, temos, pronto, as ervas, há variedades que se aproveitam na cozinha.A cidreira normalmente é um chá. Apanha-se quando está seca e conserva-se para o resto do ano. Também se pode fazer o chá em verde. Todas as outras são para por na comida, dá sabor à comida, paladar à comida.
04:07 [Pastos para os animais] [JP] Temos a aveia, temos o trevo, temos o azevém, temos agora os pastos do Verão que chamamos milharadas. Há vários tipos de ervas, mas normalmente é aveia e ervas normais, o azevém e umas outras ervas…Temos algumas em alguns terrenos que são semeadas, e noutros crescem, a gente colhe, depois no Verão ficam e depois vem o Inverno rebentam novamente. A gente traz diretamente dos terrenos, de Inverno, trazemos diretamente do terreno consoante os animais precisam. Não dá para secar devido ao clima, que não dá. De Verão a gente corta e depois manda enfardar, para arrumar, para arrumar para os animais [MP] A aveia, por exemplo [JP] para gastar no Inverno, para os animais comerem no Inverno. Alguma vem, a enfardadeira vai lá enfardar, e outra a gente traz no trator, chega aqui descarrega, fica aí uns tempos e vai tirando de lá para os animais. Conforme, a gente raciona, o que é preciso mais no cedo não enfardamos, o que é para ficar ao longo do Inverno, a gente enfarda, que se conserva melhor e guarda-se melhor e não dá tanto trabalho.
05:44 [Preparação dos terrenos para cultivar] [JP] Isso é um bocado complicado, os campos dá muito trabalho, muita volta. Primeiro, posso começar, que é estrumado o campo. É estrumado, normalmente, agora já há poucos animais, já pouco estrume se gasta nos terrenos, mas quem os tem espalha o estrume, que é o esterco dos animais, no terreno. A seguir lavra o terreno e fresa. E depois começa a semear, é o caso do que eu andava ali a fazer, já foi estrumado, já foi fresado e agora ando a semear. Isso é com milho, com a batata e com tudo é assim mais ou menos. Nós, se for um terreno que nunca foi cultivado, tenha muitas raízes, muitos troncos de árvores, terá que ser uma máquina a desbravar, como a gente chama, a mexer no terreno todo para o preparar, e só depois é que começa a entrar a fase do trator com a charrua e frese.
07:59[Fertilizantes] [JP] Fertilizantes, pois, o esterco dos animais já é um fertilizante e depois,normalmente, metemos uns adubos, esses que se compra nas lojas. [MP] Não muito. [JP] Mas nós gastamos poucochinho adubo, como temos ainda estrume dos animais, gastamos poucochinho adubo, mas há certas coisas que precisam sempre de um bocadito. Antigamente quase que não se gastava adubo quase nenhum, porque havia muito esterco dos animais. Agora, como há pouco esterco dos animais, usa-se mais o adubo. [MP] Antigamente usava-se a cinza das lareiras para a sementeira das batatas, com um bocadinho de adubo chamado foscamónio. Era isso que era posto à voltinha, era cinza e o estrume. [JP] É, normalmente a gente usa o adubo foscamónio para as batatas, para o milho e nitrolosal para começar a crescer as plantas. [MP] Nós aqui somos os que ainda estrumamos melhor toda a cultura que temos, do estrume. [JP] Ainda temos os animais, temos animais e muitas vezes as pessoas limpam os pinhais e dizem-me se eu quero lá ir buscar o estrume dos pinhais. [MP] Faz moreias. [JP] Até que lá diante à entrada do povo, da estrada para cá, há ali 3 ou 4 tratores de estrume diretamente do pinhal lá nos terrenos. [MP] Ele traz o estrume do pinhal, seco, junta com o que leva aqui dos animais e faz por camadas. [JP] Depois aquilo vai curtindo, vai apodrecendo tudo para, a partir desta altura, começarmos a espalhar no terreno. [MP] Somos dos que melhor, dos que mais estrume pomos nos terrenos. Vem dos pinhais, a gente vai buscar diretamente aos pinhais. Algum, a gente vai ao pinhal, escolhe um estrume mais miúdo para por na cama dos animais. Aquele estrume que já tem meio metro, que já é grande, então vai diretamente para por em montes na terra.
09:58 [Composição do estrume] [JP] Não, aqui não temos carqueja. É tojo, é giesta, é feto e caruma do pinheiro, carqueja esta zona aqui raramente se vê uma carqueja. Lá para cima, por exemplo, lá para Vigas, lá para cima já começa a haver. Nós aqui não há nenhuma. Tenho ali uma no jardim, mas aqui não há. [MP] Uma carqueja como jardim, tenho ali, está florida agora, tenho ali.
10:25 [Fertilizar] [JP] São fertilizados, normalmente para a sementeira, sementeira de batata, milho, essas coisas, é agora nesta altura nas sementeiras. O que é parte de pastagens é a partir de Novembro, Dezembro, que é quando começam a vir as chuvas.
11:04 [Cultivar] [JP] Nós a partir da Primavera começamos a cultivar, porque de Inverno as coisas não dão por causa do gelo. A gente quando é no Outono ainda semeamos algumas coisas, pomos umas alfaces, pomos umas cenouras e tal para irem crescendo enquanto não vem muito frio. Depois há ali uma pausa, Novembro, Dezembro, que é apenas, é quase só, é podar as árvores, podar as árvores de fruto, a vinha, macieiras e essas coisas, e semear não se semeia nada de especial. [MP] Sementeira, a sementeira da batata, do milho. [JP] É agora, a partir de agora, a partir da Primavera então começamos a plantar a hortaliça que é necessária, semeara batata [MP] O milho é daqui a mais a, daqui a mês e meio. [JP] Daqui em diante semeia-se de tudo. [MP] O milho ainda cultivamos por volta de Novembro dá 100 alqueires de milho. Com rega de dispersão, irrigatória. [JP] Ainda semeamos um bocado por enquanto. [MP] Temos o canastro ainda com milho, com algum milho, além de já termos tirado o que precisámos, mas está ainda com meio de espigas.
12:16 [Milho para milharada e para os animais] [MP] Para dar aos animais. [JP] Pomos algum para milharada e depois utilizamos para moer para os animais todos, tanto para o vitelo, como para as galinhas, como para os porcos, como para tudo. [MP] Eu ponho meio meio, eu gasto o meu milho sozinha em casa, os 90, 100 alqueires de milho é consumido nos animais. Tenho aqui um moinho, moer o milho. E não vendo milho nenhum. Pronto, eu consumo. Tenho para todo o ano, vou gastando. Para os frangos que crio dou-lhe o milho partido, para o porco dou-lhe farinha e o meu marido para o vitelo, quando é mais que um, é também junto com a, farinha, farinha moída e gasto, consumo o meu milho. Até aos dias de hoje, mais à frente quando não puder, nem o posso semear, nem o posso gastar.
13:18[Sementeira do milho, da batata][JP] A gente já sabe caso de um mês, mais ou menos, a partir de Março, Abril, o milho agora a partir de Abril, desta altura, muita gente é capaz em algumas terrazitas já ter semeado milho, mas nós aqui é só a partir do fim de Abril é que eu semeio aquele lameiro grande que tenho lá diante e outros bocados. A partir do fim de Abril é que se semeia. [MP] À entrada da aldeia, quem vem…[JP] A batata é agora, conforme, porque se fosse numa terra, eu andei ontem aqui a semear, mas se fosse num terreno que tenho lápara diante, que é mais fresco, há muita água, só ia semear no fim do mês. [MP] É lameiro, um terreno chamado lameiro, tem mais água. [JP] Mas são terrenos de muitas águas, muito húmidos. Agora aqui, como a água é pouca, o terreno aqui é mais quente, convém ser nesta altura, que depois a água no Verão falta.
14:55 [Resultados das colheitas e animais para consumo da família] [JP] Normalmente é tudo para família. É que temos 2 filhas casadas e elas poucas coisas compram. A gente trabalha mais é para nós e para as filhas. [MP] Atualmente, divido com elas tudo o que tenho, enquanto eu tenho cebolas, é para mim e para elas. [JP] Enquanto houver é com fartura, é para todos. [MP] Batatas é para mim e par elas. [JP] E temos normalmente para todo o ano para os 3 casais. [MP] Os animais que consigo criar divido com elas, às vezes cabritos, para ela para mim, essas coisas, o que tiver, os frangos, porco, o que eu tenho é para consumo próprio.
15:43 [Diferentes tipos de terreno] [JP] Normalmente os terrenos que tenho são nossos. Tenho 2 bocaditos que são de uma irmã minha que está para a Alemanha e então tenho lá pastagem só para não deixar aquilo a parecer mal, só para estar melhor. [MP] Os terrenos são nossos. [JP] Já existe bons terrenos de cultivo que era antigamente e agora já não são cultivados. Estão cheios de mato. [MP] Havia uns terrenos chamados lameiros. Era lameiro era terreno bom de água, regadio, e fáceis de trabalhar. E havia os outros terrenos, sequeiro. [JP] Havia terrenos que chamávamos nós os alqueves. [MP] Alqueves ou sequeiros. [JP] Esse alqueve que era onde se semeava o centeio e essas coisas que não precisavam de água. [MP] Era designado os terrenos bons para lameiros, os melhores terrenos. O sequeiro é o que o meu marido disse, os alqueves. Para os cereais, o centeio, a cevada, que era o primeiro cereal que aparecia, era a cevada, depois o centeio, depois lá vinha o milho, que era o último grão que se colhe aqui nesta zona. [JP] Não, aqui esta zona, da nossa geração nunca cá foi semeado.
17:21 [Poça do linho] [JP] Diz que sim, antigamente que semeavam, até havia ali adiante um ribeiro [MP] Chamada a poça do linho [JP] que até tinha lá antigamente uma poça que chamavam a poça do linho, mas já não é do nosso conhecimento. [MP] (Lembro-me disso) muito vagamente, muito vagamente, e era num sítio que ficava num caminho romano que ia para a Lufinha. Eu lembro-me de ver a flor azul clarinha, mas não sei dar as voltas que o linho leva, não sei. [JP] Já estava em queda aqui sim. [MP] Em extinção total, quase total, só me lembro de pequena ver [JP] Eu nunca me lembro [MP] Mas eu lembro de ver esse terreno com aquela flor azul clarinha e eu ser curiosa e explicarem-me que era o linho, mas não me lembro mais.Havia vários, vários alfaiates. [JP] Antigamente havia. [JP] Havia pelo menos 3, que eu me lembre.
18:27 [Trabalho agrícola comunitário] [MP] Comunitário, havia. [JP] Havia, não era assim muito, porque naquele tempo também os casais tinham muitos filhos e era toda a mão-de-obra era de casa quase, mas quando havia aquele aperto maior, aqueles trabalhos mais, mais quantidade de trabalho, sempre os casais ajudavam-se uns aos outros. [MP] As ceifas, a ceifa do centeio, eram muito ajudados uns pelos outros. [JP] Arrancar batata, depois juntávamos 2, 3 casais, que era arrancada tudo à enxada e assim. [MP] A ceifa do centeio era muito em comunidade uns com os outros, o cortar os lameiros de erva para a semente, que eram os homens que faziam à gadanha, uma foice. [JP] Pois não havia aquelas máquinas como há agora, tudo…[MP] Era o meu pai, era [JP] Era muita gente com isso. [MP] era muito povo a fazer esse trabalho, juntavam-se 7, 8 homens num dia, uma manhã e iam fazer esse trabalho uns para os outros. Era a erva que eles tiravam, depois secavam, chamavam o feno ou erva de semente [JP] E alguma erva aproveitava-se a semente [MP] para o ano seguinte [JP] para semear a seguir no fim do Verão. [MP] Nós nem temos agora nenhuma semente para vos mostrar [JP] Há para aí um bocadito, mas não é…[MP] que era uma semente própria.
19:46 [Semente para o ano seguinte] [MP] Semeavam para o ano seguinte nesses tais terrenos chamados lameiros. Tirava-se o milho e era semeada a erva para o Inverno. [JP] (As sementes) eram colhidas em casa, eram colhidas na zona para ser semeado. Ainda a gente ainda costuma guardar, ainda, semente de erva. Normalmente agora só a semente da erva e há ali o milho. E guardamos sementes dos nabos para semear a seguir, guardamos semente de cebola para fazer o alfobre, como a gente diz e assim, isso guardam bastantes. [MP] O feijão, o feijão semeia, colhemos do nosso para o ano seguinte termos para semear. [JP] As favas também assim quando temos qualidades boas. [MP] Colhê-las depois de bem [JP] É deixá-las bem a criar bem até a planta começar a secar, a ficar seca, porque enquanto a planta não estiver seca o fruto, a semente não está criada. [MP] A seguir é colhida, é limpa e é conservada em sítios secos. Eu guardo ali nas arcas, uma arca de madeira, ponho em pequenas quantidades, não, como lhe digo, em grande quantidade também é na arca de madeira, mas essas pequenas sementes eu conservo ali assim. [JP] Não aconselho muito (a guardar de um ano para o outro), há certas sementes, os nabos e cenouras e essas coisas, dizem mesmo que não, de um ano para o outro que já não nascem em condições. Lá vão nascendo algumas, mas já não é, não é grande semente garantida. [MP] Mas nasce. Se for bem colhida, a semente vai dar novamente. [JP] Ao segundo ano é sempre mais difícil. [JP] Se se tratar de semente de batata, ao terceiro ano já não produz.
21:55 [Mudança dos tipos de sementes ao longo dos anos] [JP] Vêm outras qualidades, que dão mais rendimento. Dão mais rendimento do que essas nossas tradicionais, são coisas que não rendem como o comprado. Esse que já vem próprio, vem da Espanha, vem da França, vem de vários países. A batata a maior parte da batata vem quase tudo da Holanda. E vem também da França, mas da Holanda é que vem muita quantidade de batata. Produz cá bem e então…Tem que se mudar, convém mudar porque está sempre a haver alterações de sementes, qualidades.
21:39 [MP] Há feijão catarino. [JP] Havia o feijão-frade, que chamavam chícharos antigamente. [MP] O catarino, feijão branco, feijão cor de cana, chamava-se feijão cor de cana. Eu agora normalmente semeio só uma qualidade de feijão. [JP] Esse feijão a gente guarda a semente de uns anos para os outros também, esse guardamos sempre, como é boas qualidades já está, dá 20, 30 centímetros a vagem. A fava também tenho qualidade boa, vou guardando. Quando vir que ela começa a degenerar, como a gente chama, então compra-se semente nova. Quando vir que a gente semeia uma coisa que não dá naquele ano, epá esta semente já está fraca, no ano seguinte temos que mudar, temos que arranjar outra espécie.
23:40 [Agricultura em Monteiras, Castro Daire][JP] Não sei assim muito coiso, porque eu ainda agora fui lá no Domingo (às Monteiras), fui lá a Páscoa do ano passado também, mas só visitei a minha madrinha e vim-me embora, não estou a par. Sei que lá que dá boa batata, aquela zona, muito boa batata, centeio também. [MP] Castanha. [JP] Castanha. Milhos também deve dar em condições, mas lá usam mais é pastagens para os animais. Chamam aquilo as lanteiras dos animais.
24:25 [Trabalho agrícola com animais][JP] Não, já não. Os animais já são senhores cá na zona, aqui e em todo o lado, já não fazem nada. Antigamente é que faziam, mas agora já não. Raramente se vê aqui nas zonas animais a trabalhar, que era a puxar os carros, a puxar ascharruas para lavrar a, para fazer essas coisas. Embora tenha os apetrechos todos disso, mas…e vos posso mostrar, a charrua, posso mostrara as cangas, os jugos tenho aí. Não, não, nunca cheguei a…Aliás, eu até, eu cheguei a utilizar, que até tenho um carro ali de uma vaca, mas depois comprei o trator e ele está ali de exposição. [MP] Não, mas nunca chegámos a usar a…[JP] Assim diretamente para trabalho não. [MP] Tempo dos meus sogros sim. No tempo dos meus sogros, os meus sogros tinham juntas de vacas e trabalhavam todos os terrenos, a lavrar, fazer tudo. Agora, a partir daí, já não. Depois mais tarde o meu sogro comprou um trator pequeno e foi-se desfazendo, acabou também por ter um trator, quase dos primeiros que veio aqui para a aldeia.
25:44 [Trabalho dos pais nas terras à renda] [JP] Os meus pais vieram quando eu era pequeno. Vieram para cá trabalhar terras à renda. Vieram para caseiros aí de casais, pois tinham muitos terrenos. Depois venderam lá em cima em Castro Daire e então começámos a comprar aqui.
26:03 [Primeiro trator da aldeia] [JP] Oi, o primeiro trator foi do falecido Chico, que devia ter sido, tinha, devia ter 10, 12 anos, 50, há alguns 50, há alguns 55 anos o primeiro trator. Sim, o primeiro trator deve ter sido há 55 anos, mais ou menos. [MP] E esse trator era alugado. As pessoas precisavam e eles foram emigrantes na Alemanha, 2 irmãos, [JP] 55, 60 anos [MP] uma novidade que eles trouxeram para a nossa terra foi um trator. As crianças da escola…[JP] Olhe, por acaso este reboque até era deles, comprei-os lá à família deles [MP] Nós, crianças, saíamos da escola…[JP] Este reboque, foi dos primeiros a ser feitos cá na aldeia. [MP] Saímos da escola e fomos ver o trator lavrar, nunca tínhamos visto um trator. [JP] Pois então, toda agente tinha uma junta de vacas como nós chamávamos, duas vacas para puxarem…[MP] Ao lado da casa da Marta, há um terreno largo, lá nas traseiras da casa da Marta, foi aí que o trator foi experimentado. Veio o senhor que o vendeu ensinar a trabalhar com ele. [JP] Se andavas tu na escola, sabes mais ou menos, 50 anos, 55. [MP] Eu sou mais nova que o meu marido, um pouco. Foi uma novidade. Foi uma novidade, ver uma máquina a lavrar terra. E depois firam vindo uns pequenos tratores, como o meu sogro teve e outros. [JP] Agora quase toda a gente tem trator. Aqui e em todo o lado, em todas as aldeias. [MP] Em todas as aldeias. E foi, a vida mudou, alterou nesse sentido.
28:03 [Rituais de proteção dos campos, dos animais] [JP] Não. [MP] Uma bênção com, uma tradição fazer…[JP] Não, nós aqui acho que não. Aqui não. Não, aqui não tenho conhecimento que isso fosse feito cá na zona. [MP] No nosso tempo não me lembro. [JP] Poderia ser antigamente, mas nós aqui não. Nós antigamente, aqui em especial, e nas outras aldeias é capaz de ter sido assim, as casas, normalmente, tinham rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão moravam os animais e no primeiro andar moravam as pessoas. Era assim. Por exemplo aqui, eu morava lá em cima e os animais estavam aqui por baixo. [MP] Nas lojas. [JP]Chamavam-nos currais, ou lojas, ou o que era. Agora as coisas foram mudando, as pessoas começaram a fazer de lado, estábulos para os animais e assim. [MP]As casas eram quentes. [JP] E depois tinha o estrume por baixo, aquecia, tinha os animais, tinha o estrume e com aquele calor do estrume e assim, as casas, e eram em madeira, estavam mais quentes do que agora nesse aspeto. [MP] Isso ainda é da nossa…ainda me lembro disso ser assim. [JP] Não, aqui normalmente não se punha nada. Poderia haver alguma coisa, mas não havia aquela coisa, aquela crença em certas coisas assim, não havia.
30:01 [Domingo de Ramos][JP] Há de Domingo de Ramos, dizem com o ramo, que se deve guardar por causa das trovoadas. [MP] Protege. [JP] É, ramo benzido, normalmente, que se deve guardar por causa da trovoada. Nós aqui, por exemplo, temos aqui uma capela, daqui não se vê, mas ali em cima vê-se, chamam a Santa Bárbara. Dizem que é protetora das trovoadas. E a gente até muitas vezes tem aquela tradição, quando tem uma trovoada forte, a gente diz ͚Santa Bárbara nos ajude͛. Agora já coiso, mas antigamente dizia-se muito isso, ͚Santa Bárbara nos proteja͛, falava-se muito nisso, ͚Santa Bárbara nos proteja͛. [MP] Nós não tínhamos grandes males e por isso não púnhamos aquilo.
30:54 [Animais] [JP] O que temos é o que tivemos sempre, agora em menos quantidade. Chegámos a ter aí na vacaria três, quatro vacas a dar leite. Agora tenho normalmente um,dois vitelos. Agora só tenho um, mas costumo ter um, dois vitelos. Temos os porcos para consumo de casa, temos as cabras para dar os cabritos, temos as galinhas e os coelhos. É o que normal assim se tem na, o pessoal, os agricultores, em média mais ou menos isso têm. Algum tem um cavalo, ou coisa, mas normalmente é isso. [MP] Isto neste caso a agricultura. O meu marido é de outra profissão, mas ele é que faz tudo. Sim, é verdade. [JP] É, faz a agricultura de casa e eu é que ando no terreno. Sim, quando eu cá não estava, nitidamente ela é que fazia a maior parte da…[MP] O meu marido chegou a estar ao serviço e eu com três vacas de leite, pegava no trator com a caixa, não com o atrelado, com a ceifeira, ceifava, tratava os animais, tirava o leite com a ordenha, ia levá-lo ao posto. [JP] Ainda temos aí a ordenha, acabou, coiso, está para ali, já nem trabalha com certeza. [MP] Acabou-se o posto, pronto, tirava o leite de manhã, às 7, 8 da manhã tinha que estar no posto com o leite, tinha um transporte, não levava na mão, levava num carrinho as vasilhas do leite, chegava lá, punha, vinha embora. À noite fazia a mesma rotina, tratava os animais. E tinha as filhas a estudar. E o meu marido estava ao serviço e eu fazia isso durante toda a semana. Ele vinha quinta, sexta-feira, deixava pastagem até segunda ou terça, mas o resto da semana tinha que ser eu. Pegava no trator…
32:49 [Produtores de leite] [MP] O posto era junto ao fontanário, à fonte de Gumiei. É uma casinha que ainda lá está, ainda lá está, e era lá que eu levava o leite. A cisterna recolhia, levava e ao fim do mês tínhamos…Era frísia. Era frísia, mas tivemos boas vacas produtoras. [JP] Cheguei a ter uma vaca aí que até aos três meses parida dava uma média de 41, 41 litro e meio de leite por dia. [MP] As vacas leiteiras, o rendimento dela é até aos próximos 3, 4 meses a melhor fase de elas produzirem bem. E então tivemos, eu cheguei, mesmo para as minhas filhas estudarem, poderem ter o que eu não pude ter, foi também à base disso e do ordenado do pai, porque não tínhamos outra subsistência e conseguíamos dar essa luta, por isso agora…Ah sim, (mudou) muito muito. [JP]Sim, sim, mudou. Dizem que baixou muito de preço, as farinhas estão mais caras e o leite baixou muito de preço. Dizem, mas nós como deixámos de ter, agora não sabemos, não estamos a par dessas coisas. [MP] Tínhamos uma cota leiteira, que tínhamos que a ter na, eu nunca atingi a ocupar a minha, que era grande. Toda agente tinha que ter uma cota e comprei-a, para a ter para poder produzir. E depois lá foi tudo, as pessoas de idade foram acabando e nós também parámos, éramos dos mais novos. [JP] Depois já não havia leite suficiente para aguentar o posto, acabou. [MP] Por todo o lado, tudo fechado. [JP] Como aconteceu em muitos lados. [MP]Eu vou fechá-lo.
34:56 [Cabritos][JP] Temos as cabras, normalmente, e as cabras ficam cheias, parem. Ainda agora, matámos 2 a semana passada e tenho ali outro para matar qualquer dia. [MP] É só para consumo nosso. Levamos a uma vizinha que tem, não tenho macho, e deixa que elas fiquem cheias, pago-lhe, e pronto, e depois o resto da reprodução é minha, o resto do trabalho é meu. (Pastam) nos nossos terrenos. [JP] Sim, ou uma, as duas andam aqui em baixo. Sim, normalmente temos sempre, mas depois quando é mais no Verão na hora, no tempo de calor, a gente põe-lhe é mais palha. E milharadas verdes, sempre que vamos ao mato traz-se um molho de ramos de carvalho e essas coisas assim. Está calor, muita mosca e assim, já saem menos, já, e têm pouco que comer nessa altura.
36:00[Gado Comunitário][MP] Gado comunitário na nossa aldeia nunca se usou muito. Muito antigamente ainda havia, houve, mas não é que eu conheça, que levasse as ovelhas deste e do outro, mas aqui não se usava muito. Porque não há muitos baldios e essas comunidades quando fazem isso é nos baldios, nos terrenos. E aqui não, cada um tem a sua área, mete lá as suas ovelhas, as suas cabras, aquilo que tem. É tudo em pequenas quantidades.
36:35 [Matança do gado] [MP] Um senhor, que não somos nós. [JP] Nós o porco matamos, eu mato. [MP] Mas os cabritos não. [JP] E antigamente também matava os vitelos, mas agora vão ao matadouro. O vitelo vai ao matadouro, o porco mato-o eu, pode-se matar em casa, e os cabritos é coisa que não gosto muito, peço a uma pessoa amiga, cabritos e borregos não gosto de matar, peço a uma pessoa amiga, digo ͚epá vai-me lá matar o borrego ou matar o cabrito͛. [MP] Eu o, normalmente o vitelo, está tudo legalizado, tem as suas vacinas, tem tudo em dia, na altura própria o meu marido pede, faz as coisas que são precisas, tem o cartão, vai ao veterinário, vai a, mete tudo, pede ao que transporta ao matadouro e o matadouro traz em carros frigoríficos. [JP] Embora se possa matar em casa, mas eu não, é outra coisa, é diferente ir ao matadouro. [MP] Vai ao matadouro e vai longe, não é aqui na zona, fica muito caro. [JP] Vai para Aveiro ou para Marco de Canavezes, é para os dois lados que costumamos mandar. A gente combina com o negociante, um negociante que tenha camionete de transporte de gado vivo e ela leva-os, ͚Olha tenho um vitelo assim assim para levar ao matadouro, e ele então…[MP] E o própro matadouro depois é que nos traz a casa.
38:14 [Inseminação artificial para nascimento de vitelos] [JP] Agora atualmente já é com inseminação, mas no nosso tempo, antes de nós termos assim o gado, era com, havia machos, havia bois de cobrição, que chamava-mos nós bois de cobrição. Havia aqui em Bodiosa, por exemplo, um e a gente levava lá as vacas. Havia aqui ao pé da casa da Marta, nessa altura também já havia um posto, mas era de inseminação. Aquilo é, eles trazem o, trazem o coiso lá, é numas coisas, congelados, aquilo vem a tantos graus negativos, aquilo é a uns certos graus negativos que vem essa coisa da inseminação. Eles têm uma coisa própria, assim uma agulha grande, metem até chegar ao útero do animal. [MP] É, o animal tem que estar com cio, tem que a gente chamar, chama a pessoa própria, diz ͚Olha queria inseminar͛, agora já não fazemos isso, mas até há 4 anos atrás sim, ͚Tenho uma vaca para inseminar, eles vinham, dávamos conta que ela estava com cio, vinham, traziam as suas preparações, eles traziam udo bem conservado, usavam as suas luvas e era inseminado. [JP] Aquilo é a não sei quantos graus negativos que tem que vir esse sémen. Normalmente, é um sujeito que já tem esse curso, há o veterinário e há o sujeito que faz inseminações. [MP] E 3 meses depois, se nós precisássemos, eles vinham fazer como que uma ecografia, ver se o animal sim ou não ficou com, ficou as coisas bem feitas. Se ficou bem ou não, 3 meses depois nos podíamos ter a certeza que o animal ia ter a cria. Pronto, e depois era esperar pelo resto dos 9 meses, pelo resto do tempo, são 9 meses, 9 meses, uma vaca.
40:12 [JP] Já tivemos uma vez uma aí, pariu três vitelos, foi um espetáculo. Um de cada vez. Às vezes há, há gémeos, mas nasce um e depois nasce outro. [MP] Trigémeos. Eu tenho fotografias delas. [JP] E nós tivemos três gémeos, ainda temos para ali para cima fotografiasdeles. [MP] Se precisarem eu mostro. [JP] Podemos procurar e um dia qualquer se quiser cá vir, por acaso veio cá umas pessoas, ainda disseram para vir cá a televisão, disse não, não quero cá a televisão nenhuma, não é, vou agora estar a dizer à televisão para cá vir. [MP] Não, mas isso, passou-se o seguinte, era uma vaca que já tinha por volta de nove a onze anos e ela já não dava o cio normal, e a veterinário pensou fazer ela por ela, fazer o tratamento e depois fez inseminação e em vez de um vitelo, como fazem, nasceram três. [JP] Todos em condições, vendi dois e criei um. Às vezes, é normal às vezes acontecer, normal não é, mas às vezes acontece a parirem três, mas raramente escapam os três vitelos. [MP] Eu tenho fotografias, se lhes interessar posso mostrar. Se não também não…mas eu tenho, tenho aí em cima.
41:29 [Partos das vacas] [JP] Normalmente, é sempre aconselhável uma pessoa, pois há certas alturas que a gente não está, eu tive uma vez uma aí que cheguei, durante uma semana quase sempre à noite, vinha aqui 2, 3 vezes de noite. Porque ela era grande e tinha o ubre muito grande e eu estava sempre com medo, elas depois de fazerem os 9 meses, tanto podem demorar 2, 3, 4 dias a parir, como podem demorar 15 dias ou 3 semanas a parir. E a gente tem certas alturas tem de começar a ter atenção, porque se é um vitelo, que é um animal que é forte demais, tem que ser puxado. [MP] Ajudado o parto. [JP] Tem que ser ajudado. [MP] Várias vezes. [JP] Olhe, nós quando foi essa de 3, eram 6 e etal da manhã. Eu vim, estava com, já com as patas de fora. Chamei a minha mulher e chamei a minha filha para ajudar. Tenho uma corda, já estou mais ou menos habituado a isso, meti uma corda nas patas e puxávamos, chamávamos a nossa filha para nos ajudar.
42:27[MP] Eles vêm normalmente com o focinhozito para a frente e a seguir as primeiras patas da frente e aí é que nós podemos trabalhar. [JP] Esse foi engraçado, essa…[MP] Esse nascimento foi engraçado num sentido, nasceu o primeiro, ͚Olha mas está aqui outro͛. [JP] Nasceu, depois disse ͚Ó Lena já podes ir outra vez para a cama͛, que era de manhã cedo, ͚podes ir para a cama que nós já fazemos͛, passados 10 0u 15 minutos, tenho aqui ͚Ó Lena anda cá outra vez, que está aqui outro vitelo para puxar. Passado um bocado, foi-se embora, passado um bocado, ͚Ó Lena anda cá outra vez͛[MP] Não, acontece que foi, como foi inseminação, elas nasciam neste lado e para as mães serem produtoras de leite, os filhos não podiam mamar nelas, não podiam chupar. Então tinha que lhe tirar o leite e fazer por medida e por um balde e o balde tinha umas tetinas e eles mamavam à volta da tetina. E então a gente, elas nasciam ali e nós tínhamos que os limpar, deixar que a mãe estivesse um bocadito junto deles e depois mudávamo-los para aquele lado, que era para depois eu poder produzir, tirar o leite à vontade. E durante os primeiros dias, o leite colostro das mães era dado para os filhos. [JP] E por acaso também tive outra que pariu 2 noutra altura. Por acaso tive sempre sorte com os animais. Sempre sorte, e o outro foi no dia do batizado de um sobrinho meu, que mora aqui em baixo. [MP] Nunca nos morreu um animal que a gente tivesse [JP] Nós também tínhamos sempre bastante cuidado, mas felizmente… [MP] por falta de cuidado, por falta de cuidado não, isso felizmente. Mas não digo que isso não possa acontecer. [JP] É, estamos sempre sujeitos. [MP] A qualquer um, mas pronto, não somos muito especialistas nisto, eu não nasci muito nisto, mas habituei-me.
44:20 [Matança de galinhas e coelhos][JP] Isso é ela. Os coelhos não me faz diferença, que eu estive nos Açores, lá havia muitos coelhos, eu caçava lé e tudo, não havia problemas, agora as galinhas também não gosto muito. [MP] Mas os coelhos de casa não é a mesma coisa que seja uma morte natural em casa, não é a mesma coisa. Aprendi, olhe com os meus pais. [JP] Aprende-se com os outros. [MP] Com a minha mãe, principalmente, o meu pai não, mas com a minha mãe, a fazer isso. Sim, no geral é, no geral é, este trabalho de criação miúda, somos nós que fazemos. Sim, os animais, as galinhas já têm um matadouro, os frangos, um matadouro onde os posso por, já está. Aquele funil, exatamente, aquele funil. Era um sítio própria para, é esse funil. E os coelhos também não é lá estar a bater-lhe, também faço assim. Eu acho que sofrem menos e que eu que me sinto melhor, melhor, eu não é muito melhor, tem que se fazer. Tem que se fazer, não é, porque o fim é aquele. Se é para nossa subsistência tem que ser assim. [JP] As minhas filhas já dizem que não querem comer deste borrego. [MP] Este animal, este que anda aqui [JP] Eu digo que não faz mal, que fica mais para nós, se não quiserem. [MP] Este que anda aqui, um dia que eu faça, nunca lhes digo que é ele, digo-lhes ͚Ah é outro cabrito͛, elas podem notar a diferença, mas não lhes digo, não lhes digo. [JP] Elas quando cá vêm andam sempre ali com ele e assim. É a lei da vida. [MP]É a lei da subsistência.[/hide]