Entrevista a Maria Amélia Gomes em Rio de Loba a 21 de Outubro de 2015
Entrevista e Transcrição de Susana Rocha
Registo audiovisual e Edição Audiovisual de Nely Ferreira
Maria Amélia relata na sua entrevista como foi a sua infância passada em Gumirães e da sua vida familiar, o casamento e os filhos. Fala ainda da sua experiência como trabalhadora da Federação dos Vinicultores do Dão.
01:03 [Registo do nascimento] A minha mãe era o que, diz que foi o meu pai que lá foi, também não sabia ler, na altura, coitadinho, lá foi, ͚Então quando é que nasceu?͛ A 24͛ diz que ainda nem tinha se dado o 24, mas também os do Registo Civil, ͚Então estamos ainda a…͛, não é, estavam a menos, escusava de ter posto, pronto, fiquei a 24. Mas eu na minha coisa é a 13, que a minha mãe disse-me que era a 13, a 13, é 13, no dia 13. Pronto, diz que é um dia mau, não é, mas é o dia da Nossa Senhora.
01:32 [Gumirães] Nasci em casa, em Gumirães. Não foi em casa com a parteirita que havia antigamente? Não íamos para o, as pessoas não iam para o hospital, não é, foi em casa com uma mulherzita. Furou-me as orelhas com uma agulha, ficou até tudo furado assim…mas foi em casa que nasci. (Gumirães) era daqui (da freguesias de Rio de Loba), era, antigamente era, agora não é, mas quando eu nasci, há setenta e cinco anos, ainda fui aqui eu batizada. Agora é que já não, há uns cinquenta anos mais ou menos ou coisa é que foi, pertencemos à cidade, ou mais fomos sempre daqui, de Rio de Loba.
02:15 [Furar as orelhas] Foi, furou-me as orelhas com uma agulha com linha preta, olhe, depois aquilo antigamente infetava, não é, coitadinha, a minha mãe de manhã chegava-lhe a saliva, coitadinha, pois, era o que lhe diziam, quê que havia…oh, depois fiquei assim até com um buraco maior, as minhas netas metem-se muito comigo, que agora já é à maquina, não é, antigamente foi assim, foi que me assistiu ao parto e depois furou-me as orelhas. Eram uns atrasos de vida, não era? (Quando) me furaram as orelhas devia ter alguns quê, era mesitos, alguns quê, cinco ou seis meses, que elas furavam-nas pequeninas, para estar a orelhinha tenrinha, não é, porque se fizesse depois era pior. Lá vai o meu olho a fechar, oh…
03:12 [Tia Carlota] Era Carlota, era a Tia Carlota, nós só a chamávamos Tia Carlota, a Tia Carlota, o resto do nome não sei, sabemos que era a Tia Carlota. Fazia, lá em Gumirães era ela a parteira, chamavam até que era a parteira de Gumirães, coitadinha, lá ia, assim com as mãozitas muito gretadas, muito, sabe assim, de andar nas terras e tudo, mas aquilo não se apanhava infeção nenhuma nem nada, não é, aquilo lá ia, ia tudo.
03:44 (Furou as orelhas) a muitas, lá a muitas da minha idade, assim todas de que ela assistia ao parto, era ela que furava as orelhas. Coitadinha, mas umas vezes calhava bem, outras vezes calhava mal. A mim tive mal, que infetou a orelha.
04:02 [Irmãos] Éramos seis, morreram dois, ficámos quatro, e agora já morreram dois, só estamos dois. Foi com a Tia Carlota, a minha mãe teve seis filhos, foram todos feitos pela tia Carlota. Mas os meus irmãos que morreram já morreram grandinhos. Uma parece que morreu com o sarampo, era naquele tempo, não é, e outro parece que foi com uma enterite, que era o…não é, agora, mas também ainda se chama enterite agora, mas antigamente, a minha mãe é que me dizia isso, que eu já os não conheci, eu fui a mais nova de todos. Faço dia, fazia o meu irmão, esse meu irmão já morreu há vinte e um anos, e eu fazia oito anos de diferença dele, ele era mais velho do que eu oito anos, eu era mais nova, foi que nasci, pronto, nasci a última. Nem devia ter nascido, não era, oh, mas pronto, a minha mãe já tinha 39 anos ou lá o que era e, não é, depois ainda vim eu. Eu dizia que era o Entrecristo Peneireiro. É assim a vida, olhe, eram uns tempos muito…muito maus, não é? É, muito maus.
05:21 [Infância] Foi lá passado tudo (em Gumirães). A minha mãe, a minha falecida mãe, diz que eu que, pronto, comecei a caminhar muito tarde. E comecei a falar também muito tarde, a minha falecida mãe até julgava que eu que era muda, mas não, eu compreendia tudo, só não falava, não dizia as palavras. E depois também nasci, as minhas netas eu quando lhe conto isto elas riem-se, eu tinha as pernas assim arqueadas quando comecei, comecei a caminhar tinha 3 anos. A minha mãe coitadinha julgava que eu que já não caminhava. Sentava-se num banco, sentava, eu lá ficava.
05:55 [Curou as pernas no lagar do vinho] E depois, antigamente não havia, não é, não iam aos médicos, nem nada, sabiam lá. Andava na altura de pisar o vinho, meteram-me lá, mas as pernas endireitaram. A minha mãe disse que eu caminhava assim, coitadinha, dizia-me ela, e depois havia lá um senhor que era assim, chamavam-no o senhor Filipe, que era rico, tinha muito vinho, muito tudo, não era, estas quintas todas, e depois havia lá assim um homenzito que disse assim, andava dentro do vinho, ͚Ó Maria͛, a minha mãe era Maria Rita, mas só a chamavam Maria, ͚Ó Maria, e se fosses buscar a tua Amélia e a púnhamos aqui no vinho, que está agora a ferver, a começar de ferver, podia ser que lhe fizesse bem͛, a minha mãe disse assim ͚Ah e se ma mata͛, ͚Não mato, vai lá busca-la, vai lá busca-la͛. Lá me meteram no vinho, tumba, tumba, por três vezes a eito, três dias seguidos, olhe não é que a minha mãe disse que eu comecei depois a caminhar com as pernas direitas? E ainda as tenho direitas hoje, não tenho? Assim um bocadito velhas, mas estão direitas. Mas diz que eu que chorava muito, depois não podia ver aquele homem, ͚Homem mau, mau͛, eu já tinha três anos e tal, veja lá, não é, já… Depois comecei a falar aos três e endireitaram-me as pernas. Ai os meus netos, eu conto isto às minha netitas, elas riem-se ͚Ó avó, quando te meteram no vinho, foi por isso que tu foste trabalhar para o vinho͛, ͚Pois foi͛.
07:20 [Escola e percurso até ir trabalhar na adega] Pois, é assim, fui lá criada (em Gumirães), depois aos 7 anos fui para a escola, andei na escola, pronto, fiz a 4ª classe só, não é, agora dizem que é o 4º ano, no meu tempo era a quarta classe, depois saí, tinha quase 12 anos, fui trabalhar para a cidade, não é, para Viseu, porque nós ali não tínhamos, fui pra uma, para a costureira, depois andei na costureira, andei muito tempo na costureira, depois ainda fui trabalhar pra, andei nas casas ainda coiso… Depois, olhe, aquilo andava mal, não é, estava tudo muito mau, eu tenho que contar aminha vida toda, não é? Não, pois, mas assim por alto, não é?
08:04 [Família] Depois, pronto, quando comecei aos 17 anos comecei a namorar. Depois namorei um rapaz muito tempo, pronto, zangámo-nos os dois. Depois namorei outro, que era o, que é o pai da minha filha, tinha 25 anos quando nasceu a minha filha e ele foi-se embora, deixou-me ficar. Depois tive que arranjar, porque depois, naquele tempo ou se andava na costura, naquele tempo não davam abono aos filhos nem nada, não é, depois tive que arranjar um emprego, foi na adega então de vinho, depois já tive emprego, já tive abono, a minha filha tinha já 9 anos, criei-a até aos 9 anos sem nada, sem assim… Depois fui para a adega, andei lá a trabalhar então vinte e tal anos na adega. Foi por isso, e depois conheci lá o meu marido na adega. Casei-me, não é, a família dele não queria muito, porque eu era mãe solteira, naquele tempo a mãe solteira era muito criticada, muito falada, muito, muito, diziam isto, diziam aquilo, diziam tudo, era muito falada, muito falada, não é. Depois casei-me com, pronto, casei com o meu marido já tinha 37 anos, pronto, donde nasceu também um filho. Tenho o meu filho, que tem as minhas duas netas, a minha filha está para a Alemanha, o meu filho está cá, mas, tem duas meninas e a minha filha tem um menino, fez ontem 39 anos o netinho, o primeiro neto, não é. Depois, como eu era mãe solteira, os familiares do meu marido não queriam que ele casasse comigo, não é, andámos, andámos, andámos, pronto, e depois ele, lá resolvemos, lá casámos.
09:53 Estivemos casados agora 38 anos, agora ele adoeceu, deu-lhe aquilo, eu também, olhe, também estive 2 anos com uma depressão, depois ele agora teve foi alzheimer, está há um ano e tal já assim, agora eu estava a ver, estava aqui assim a ver se ele tinha aqui vaga para vir para aqui, não é, que estávamos aqui, eu nem que fosse a casa dormir, ele dormia aqui porque eu, não temos possibilidades de eu o ter em casa, não é, que aquela coisa da alzheimer não dá. Agora calhou assim, pronto, estamos aqui, estamos separados.
10:34 [Federação dos Vinicultores do Dão] Não, eu tinha já 20 e, eu tinha já 30 anos quando fui trabalhar para a adega. A adega ainda empregava ainda, na altura ainda empregávamos e depois havia um senhor que era lá muito conhecido do chefe lá da adega, não é, eram muito amigos, e depois houve uma, arranjaram para essa tal moça, mas ela não sabia ler, nem tinha exame da 4ª, nem tinha exame nenhum, não sabia ler, pronto, e depois esse senhor disse-me assim ͚Ó Dona Amélia, olhe, há isto assim assim, era para a Custódia, mas olhe, você sabe ler, quer ir?͛, ͚Ai se me arranjasse, olhe, se me arranjasse assim emprego sempre tinha o abono para a minha filha͛, não era, era só o abono, que a gente, não é, na altura, pois, pois quando foi naquela altura não posso contar tudo, que tive a minha filha, até fome passei, não me envergonho de o dizer, fome passei, mas depois comecei a trabalhar na coisa, era, vinha sempre o, aquele ordenadito ao fim do mês, porque na costura ainda hoje lá anda dinheiro espalhado, não pagavam , a gente trabalhava…e como na adega era ao fim do mês tudo certinho, não é, vinha depois o abono, vinha o dinheirito e eu já me governei melhor. Depois então conheci o meu marido, pronto, foi então quando coiso, mas eu já tinha 37 anos quando me casei com ele. Ainda andei três anos e tal na adega e casei-me com 37 anos. Era Federação dos Vinicultores do Dão.[/hide]