Maria Helena Ferreira conta-nos na sua entrevista como foi crescer na aldeia. Os trabalhos de casa, na agricultura e com os animais. Fala-nos ainda da tradição do linho na aldeia, desde a sementeira ao tear.

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00:00[apresentação][família][mãe] Maria Helena Gomes Ferreira – nasceu a 22 de Fevereiro mas desconhece o ano -tem 76 anos – nasceu em Rompecilha e também lá foi criada – o pai era de Rompecilha e a mãe era lá de cima – conheceu mais familiares do lado da mãe que do lado do pai -eram cinco irmãos mas morreu um – é uma rapariga no meio de quatro homens, eram três imãos mais o pai – com quatro anos estava no meio de homens- a mãe morreu e o pai tomou conta deles, não arranjou outra companheira – a mãe morreu no parto com quarenta e pouco anos, tinha uma filha com 2 anos, Maria com 4 e outro com- os mais velhos tiveram mais ? – cresceu no meio deles com a ajuda do pai que a ajudou a criar os seus próprios filhos- Maria tem três filhos que não conhecem o pai – a mais nova estava na barriga de Maria quando o marido pensou ir para o Brasil e até hoje lá está- com 21 anos ficou com uma filha de Janeiro a Maio na barriga enquanto o marido desapareceu – tinha 21 anos e desde aí tem sido luta- o pai faleceu entretanto, antes de falecer o casa incendiara –

02:40 [casa][incêndio] a casa era toda em madeira e queimou-se tudo – tinham uma cozinha lá ao lado e um curral de gado- havia divisões e passava-se de umas para as outras – lembra-se do fogo, tinha-se deitado tarde – foi em Junho – tinha 20 anos na altura – acordou, tomou conta do pai- havia uma escadas por dentro da casa para a casa de cima – o pai viu o fogo da janela e pensou que ao descer apagava – era tudo em madeira e ardeu tudo num instante – houve uma trovoada muito grande nessa noite- não sabe se o fogo originou de um tição que tenha ficado aceso com a ajuda do vento- sabe dizer que quando deu conta que o pai estava na cozinha – tinha uma trança grande no cabelo que ainda guarda- desceu para ajudar o pai – não se queimou ninguém só o gado, coelhos e galinhas, o resto do gado safou-se, uma porca com nove leitões – safaram-se porque se puseram num canto – a cabra voltou ao curral – Maria também voltou e queimou as sobrancelhas e o cabelo – quando chegou lá a cima estava lá o pai e foram tratar dos bichos -estava lá um senhor que lhe disse que tinha ficado sem nada – de resto não se apercebeu de mais nada só mais tarde- enquanto esteve bem ainda levou o pai para fora, desceu para fora, o fogo já chegava aos eucaliptos – o pai ia a descer apenas de camisa como era normal as pessoas dormirem na altura – viu o pai quase despido – lá fora estavam os miúdos com o gado – viu o pai assim e foi buscar uma manta para o agasalhar – fazia muito vento nessa manhã – quando chega à cama e arrasta a manta, a filha tinha na altura três anos, arrasta a manta e a filha porque se não também lá ficava – embrulhou-a na manta – lá fora estava muita gente- ficaram sem nada – na altura ainda atinou – deu conta que havia a casa dos sogros- mais tarde não sabe como foi mais à frente para o pé de uma figueira- lá soube que vinha para ver a casa e deu conta do sucedido – os sogros ouviam-na gritar ao pé da figueira mas Maria não se lembra de nada

07:09 [vida] assim se passou a vida – o pai ficou no Brasil, os filhos criaram-se, já tem bisnetos grandes – o responsável da educação de Maria foi o pai – tinha tias mas na altura que a casa se queimou já eram velhinhas – da tia ainda se lembra da mãe é que não se lembra nada pois tinha 4 anos quando faleceu – lembra-se de estar a comer na sala e do quarto ser em frente e a mãe chamou pelo pai – é a única lembrança que tem -tinha apenas 4 anos – agora as pessoas já vêm televisão mas na altura não – havia conjuntos que à noite abalavam para vários sítios, para a paródia – havia a feira mas às vezes levava porrada com fartura porque não obedecia, mas ele malhava – diz que a vida tem sido muito complicada

08:35 [pai]o pai trabalhava nas terras – trabalhou nas terras toda a vida – andou fora muitos anos, na África do Sul e no Brasil- é por isso que os irmãos mais velhos têm uma grande diferença uns dos outros – ganhou lá algum dinheiro fora para construir a casa até que a casa se queimou – diz que a vida continua a ser complicada – diz que agora já tem neto e bisnetos grandes – mas que a vida tem sido muito pesadona – era muito gaiata e andavam mulheres a olhar pela vida do pai que vinham lavar a roupa – na altura usava-se camisas de linho que para lavar nas mãos de uma gaiata é ruim – na altura havia percevejos e pulgas nas camas – juntava-se com uma rapariga que morava perto dela para catar piolhos – juntavam-se no monte – diz que com essa bicharada que era uma confusão – diz que ainda há piolhos –

10:15 [casa] [rezar]sempre viveu naquela casa – antigamente havia currais e a casa era por cima, a cozinha era ao lado onde havia forno para cozer o pão e onde se fiava – era onde se fazia o serão – o pai quando vinha ainda rezava o terço mas os filhos já estavam cheios de sono – rezavam o terço à vez para ver quem adormecia primeiro, ninguém queria rezar – havia casas onde se rezava e onde não se rezava o terço – nunca aprendeu a dar as graças – diz que devia saber, que tem um cunhado que sabe – nunca percebeu nada disso – o sogro era um artista, ouvia-se lá em cima – às vezes se uma pessoa chegasse um pouco mais tarde, e se pensasse em rezar mais cedo de se espalhar e botar as águas porque iam para longe botar as águas de noite -ele aproveitava e ouvia-se longe – o cunhdo manuel também se ouvia muita vez, mesmo o terço ouvia-se cá fora – nunca soube rezar as graças só o terço – aprendiam tudo sem saber ler – para aprender isso era difícil para Maria – para aprender trabalhos manuais tudo bem -roubar bocados ao pai de riscado para fazer camisas, para fazer cuequitas para ela e para fazer brincadeiras, bonecas de pano – havia uma rapariga, a Fernanda que ia fazer bonecas com ela – levava muita tareia porque era mais nova que Maria e fugia para o pé dela e o pai não queria –

12:58 [Rompecilha][campos de linho][comida]toda a gente semeava linho, os pobres todos semeavam – o pai semeava linho – mondavam e arrancavam, fiar já eram as mulheres que faziam, havia uma velhota que a ensinou muito – dava a fiar às pessoas- ninguém ensinou Maria a fiar, via as pessoas – não tinha em casa ninguém que a ensinasse – ia para o monte com as raparigas, via e aprendia -quando começou a primeira meia pensava que era apenas mexer com as agulhas e que aquilo crescia facilmente -a começar a primeira meia os irmãos de Maria fizeram-na chorar – diziam-lhe que não saia do mesmo sítio – depois foi ter com alguém que lhe explicou porque não conseguia fazer a meia crescer – os irmãos eram danados para fazer pouco dela – participava muita gente na produção de linho – diz que era muito bonito – lá em baixo ao pé da casa cor de rosa juntavam-se pessoas para se ajudar umas às outras – Maria diz que era danada para ir para Cimo de Vila por causa das batatas com o bacalhau – com bacalhau e torremos, o bacalhau era o melhor para Maria, fazia-se para os pequenos alomoços quando o sol nascia – o pequeno almoço na altura era um pratinho de batata com torremos e bacalhau com café -havia leite das cabras e das vacas – quando as vacas tinham bezerros fazia-se pratos grandes com carruchos e cortava-se à fatia – na altura não havia leite a vender – as noites passavam-se a fiar e a fazer meias – de dia ia-se para o monte e levavasse uma roca carregada – tinha fiado por todas as massarocas e enchiam o cesto

16:55[linho][tamancos] diz que era muito trabalho ao domingo e ao Sábado – guardavam o trabalho do linho para o domingo para o fim da missa – ia-se para a missa em São Martinho descalço com os tamancos na mão – só lá é que os calçava – havia uns tamancos de verniz com botão – ir à missa era uma saída agradável que faziam, toda a gente se juntava e iam em manada- há um caminho para ir para cima e lá iam descalços –

18:05[roupa][irmãos] a roupa era feita pelas costureiras – os irmãos e o pai eram 4 homens e a roupa rompia-se muito – botava-se remendos nas calças naquela altura – o pai comprava bocados a que se chamava de riscados- tinha lojas onde ia uma vez por ano, uma em Aldeia e outra em Rariz – uma vez havia um grande baile em Soles e começou a linhar – chorou muito por causa de uns tamancos, queria os tamancos e o pai não os queria dar – já estava a conta feita para pagar um mês ou dois e comprar uns metros de cotim e muitos metros de riscado, mais uma coisa para uma blusa de chita para Maria e para um avental – depois disseram-lhe que havia bailes em Soles- quando vê os tamancos dizem-lhe que lhe tinham que comprar os tamancos mas a conta já estava feita e somada- disseram ao pai que lhe emprestavam dinheiro para comprar os tamancos à filha- para caminhar os tamancos gastavam-se muito – tanto chatearam que ele disse que ia por lá – Maria já namorava na altura com treze, catorze anos – disse que ia beber um copo a soles – quando chega lá já se ouvia os tocadores em cima – estavam lá os rapazes todos da aldeia e o marido de Maria – ele tinha um irmão da idade dele – o pai lá a deixou- disseram ao pai para estar descansado que a traziam a casa- já sabia o que se passava – deu lhe depois um responso -não a deixava ir para grandes bailaricos mas Maria fugia pelas escadas e pela janela – um dia houve uma cascada -Maria tinha estado todo o dia na cama constipada e disseram para ir à cascada – os irmãos disseram-lhe que de noite lhe punham a escada e que Maria ia com eles -os irmãos também fugiram muitas vezes por um palheiro que têm lá em baixo para ir para os bailes -chegavam já de madrugada – diz que eram muito amigos de andar a dançar nos bailes e Maria como mulher era pior com eles, na Rompecilha não havia quem fizesse tantas asneiras como ela – levava porrada do pai

22:58[bailes] havia um bailes em Soles nessa altura em que se cortam as giestas para trazer para os currais – o pai disse lhe para ir com as ovelhas e depois ia um carro buscar-las – era um sábado à tarde, andou com uma velhota que andou de volta da casa quando a mãe morreu – disse lhe para ir para o gaivão e depois ir para o baile que ia lá ter com as ovelhas – demorou muito tempo e a velhota estava danada com ela – o pai soube mais tarde mas nao foi pela velhota – a tia Aurora era muito amiga também e ajudou muito a lavar – vinham a sua casa só para comer – trabalhavam e só levavam comida- comiam só, não levavam nada na altura – vinham todas contentes só com um cafezinho – nas casas delas havia poucas possibilidades- trabalhava-se muito na altura – ficava-se de pé até às tantas da noite com pouca iluminação – nem eram velas – mais tarde já veio luzes – as pessoas estavam juntas, conversavam, rezavam – depois ficou sozinha – faziam roupa, levavam as máquinas lá para casa – havia alfaiates e estavam lá todo o dia a fazer calças, camisas, a consertar – na altura não sabia fazer nada disso

25:20[linho] a fiar o linho aprendeu com essas senhoras- via-as a elas fiar – também teciam, havia um tear, da mãe da professora – tinha um tear e um curral para as ovelhas – a casa era no mesmo sítio, era só subir e ir para o tear – a mulher urdia a teia e deixava-a lá em andamento – podia vir hoje ou amanhã – quando tinha nove anos não chegava ao tear para ter peso para o tear ir para baixo e para cima – tinha a mania, a mulher ia-se embora e o pai ia-se deitar e ela fugia para o tear com a lanterna- estava tudo fechado e ia para o tear, com 9,10,11,12 anos -a mulher ralhava com ela quando dava conta das asneiras – naquele tempo tecia-se tiras num instante- quando fazia asneiras continuava a tecer com o vicio que tinha – a mulher chegava lá no outro dia e via que tinha feito asneiras – quando o fio se parte há um flha no fio – ela chegava lá e perguntava ao pai se a tinha deixado lá durante a noite e o pai dizia que não que a filha tinha ido para a cama na mesma altura que ele – ela tinha estado de noite porque de manhã não tinha tido tempo – estavam lá as asneiras- diz que a ti Joaquina era um regalo viver com ela -nunca aprendeu a urdir – a tecer quase toda a malta sabia um pouco –

28:05 [peças de roupa]fazia de tudo – usava linho fino para fazer travesseiros – roubava linho ao pai – quando era para corar metia o linho na barrela – aproveitava para fazer teia – botava a corar – fazia asneiras ao pai com fartura – por vezes levava porrada mas o pai também a perdoava – o irmão também lhe batia muito – conserva poucas peças porque se queimou quase tudo no incêndio – ainda tem lençóis de quando a casa se queimou – só lá esteve três anos ou quatro – depois foi-se embora para Lisboa com os filhos – ainda tem algumas coisas que não arderam – fazia bainhas abertas nos travesseiros, em toalhas, gostava muito de inventar – quando o pai estava bem disposto comprava-lhe linha porque não havia dinheiro

29:50 [São Macário][urdir] [peças de linho] [capela]iam para o São Macário já crescidos e o pai dava 25 tostões a cada um – andavam no são Macário o dia todo, iam a pé, levavam a merenda de casa- tem muitas coisas bonitas em linho – ainda tem coisas que teceu – a teia que estava no tear levou-a par Lisboa – estava combinado tecê-la em Lisboa – os arreiros eram todos dela – não sabia urdir mas os arreios eram dela, tinha o pente e os lisos, tinha tudo- nunca mais soube do arreios que naquela altura ficaram caros – já custava bom dinheiro – na aldeia nunca aprendeu – poucas pessoas sabiam urdir a teia – há só uma na aldeia – faz-lhe confusão urdir – mas tem peças de linho jeitosas – ainda este ano deu uma peça a cada um das noras – cada um tem a sua toalha de crochet em linho – ficou só com uma para ela – este ano quando ela cá veio deu uma colcha para a nora e às filhas – ficou sem colchas – deu tudo dentro de um saco – era para dar a colcha à neta mas as filhas fizeram como quiseram – é uma prenda para cada uma em crochet- tem naprons muito bonitos feitos por ela – tem lençóis de linho inteiros e outros em bocados – há dias tirou um para fazer uma toalha para tapar a louça – tirou outra para fazer uns paninhos para a capela – estavam lá uns novos muito jeitosos – a capela em comparação com o tempo que foi mordoma tem peças muitos boas – na altura havia toalhas velhas – quando veio de Lisboa a primeira vez trouxe uns naprons velhos para o cimo da capela, para Senhora da Guia e a Senhora de Lurdes e Santo António – falou para a ti Piedade que a capela tinha uns panos muito velhinhos – trouxe um jogo de pano para o cimo – ainda lá andam e estão bonzinhos – ti Piedade ficou muito contente pois olhava muito por eles – ia lá levar panos por vezes – a capela tem lá toalhas boas e muito bonitas – antes tinha poucas, era preciso lavá-las e enxugá-las – a capela tem agora roupa bonita – fez uns panos lá para baixo e levou-os à São para cortar pela medida- achou-os mais bonitos que os que lá estão agora- viu-os há dias – levou-os à sogra que fez uns bainhas, diz que está giro -disse que arranjava uns cortinados lá em casa – o padre gostava de cortinados-

35:30 [fiar] [linho] eram três mulheres a fiar numa noite- fiavam num serão – para se fazer um cesto de massarocas gostava de ver o sarinho a dubar – tem saudades dos tempos antigos – é dificl porque não há tear e essa é a parte mais dificl – é os bordascprecso haver sitio para o pôr – depois de lá estar a teia urdida tudo bem – as pessoas que não tecessem ajudavam quem tecesse – é preciso saber amarrar os fios -Maria sabe todo o processo do linho -acedar, massar, tascar, sabe todo o processo – a única coisa que nunca soube foi tratar da teia, urdir a teia – há coisas difícil – cozer as meadas é difícil, fazer meadas é difícil – o mais difícil é isso, e há poucas pessoas e as pessoas que há coitadas- o linho é importante – comprava-se algodão para dois ramos ou três e depois fiava-se – o mais delgado para um canto e o mais grosso para o outro, no principio ou no fim, nem tudo se pode fiar –   os bordascos agora não interessavam nada mas os tomentos e o linho do jeito que o semearam é pena deixar estragar

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