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00:00[apresentação] [pais] [pão] Maria Hermínia de Almeida – nasceu na Rompecilha – faz dia 5 de Fevereiro 76 anos – os pais eram de Rompecilha, trabalhavam no campo no duro – o pai para se safar criava bezerros para vender e fazer dinheiro para comprar pão – comprava alqueires de milho para terem – houve um ano que a agricultura não deu e não tinham pão – o pai foi comprar a um homem que estava na Moreira e foi lá comprar milho e misturava-o com a ponta dos casuis, massava aquilo muito bem massado e moía num moinho de pedra, fazia a farinha cozia e comia-se o pão – antigamente a vida era muito difícil – ia dali a Sul com o pai com tamancos ao frio e ao sol  – a mocidade não foi fácil

2:22 [tamancos]tamancas não era sapatos, eram feitas com pregos – era feito de pau, não eram confortáveis e faziam muito barulho – havia tamanqueiros em Castro Daire, ia-se às feiras e comprava-se – a sua mãe ralhava-lhe muito porque rompiam os tamancos e então para ir à missa a São Martinho iam descalços

03:14 [feiras]as feiras eram em São Pedro e Castro Daire, ia-se a pé para ambos os lados – trazia ainda suínos, não era fácil, e um molho de couves na cabeça – diz que era uma estupidez porque tinha as terras e podia semear em vez de comprar – quando precisava ia a São Pedro e Castro Daire, não ia muitas vezes porque o dinhiero era pouco –

03:55[dinheiro] [resina] [gado]o dinheiro ganhava-se no correiro e nos pinheiros quando se ia para a resina com uma lata, andou lá muito tempo a colher resina nos púcaros, um género de uma malga – com uma espátula tirava-se a resina para umas latas – ganhava-se assim dinheiro, chagavam a pagar 13 escudos por dia de sol-a-sol -a resina, quem tivesse pinheiros que desse 100 bicas ou 200 também davam qualquer coisa ao propriietário para ele explorar aquilo durante todo o ano -ganhava-se uns tostões para levar para casa – no gado quando de vendia uma ovelha ou uma cabra ou um cabrito ou cordeiros tambe´m se ganhava –

05:08 [pai] o pai andou na guerra de 1914 e ainda chegou a receber algum tempo 50 escudos como reforma mês sim mês não – depois cortaram essa reforma – enquanto recebeu era uma beleza – receciam no correio e pelo gado – Maria trabalhava aos dias nos vizinhos que precisavam e ganhava 25 tostões – não era fácil mas assim se passou

05:58 [Lisboa] [família] foi para Lisboa com 23 anos depois de casar – foi muito difícil porque não sabia ler – foi para um armazém e tinha que se saber os pesos todos em gramas – foi dificil fixar tudo na cabeça – custou-lhe muito e chorou muito – foi com o marido – o pai depois faleceu e então não esteve lá muito tempo – esteve lá 14 anos – o pai deu-lhe uma trombose e veio ajudá-lo – o marido não queria ficar em Lisboa porque dizia que não queria lá morrer ou lá ficar até à reforma – veio para a aldeia porque queria agricultura e gostava muito de parodia e de andar para um lado e para o outro – vieram sem reforma nenhuma – depois é que se reformou mas com pouco pois tinha poucos anos de desconto – o marido tinha 27 mas se se reformasse pela idade pouco recebia – ficou sozinha, não tem ninguém – vive com os vizinhos – tem uma irmã que está em Lisboa

07:45 [pai] [guerra] quando o pai foi para a guerra Maria ainda não era nascida – quando o pai regressou não podia fazer nada porque esteve lá 5 anos – o pai estava na casa do Arlindo a servir – quando veio a mãe dele que era pobre tornou a ir para lá –  foi trabalhar para a casa de Arlindo mas quando pegou na enxada começou a suar e parecia que ia desmaiar e mandaram-no embora para a casa da mãe – ainda um tempo fraco o pai que contava que em cinco anos só teve umas botas – a camida quando a tirou estava desfeita – em cinco anos não teve cama, arranacaram mato e deitavam-se no chão – vinha cheio de bichos – a mãe dele quando veio fez lhe uma barrela nas roupas de linhos porque trazia muito piolho – depois namorou a mãe de maria e casou-se – teve dois anos sem ter ninguem  – depois nasceu Maria e seis anos depois a irmã – nasceram em casa as duas

9:55 [parto] – [médico] [doenças] [pai] a mãe teve muito tempo para a ter – dizia que esteve 7 dias em trabalho de parto – andava sempre doente, sarampo, bechigas teve tudo – com 20 anos já namorava o marido e já era mulher há muito tempo – foi para o mato com o pai em Junho, queria ir à festa nos Pesos e não disse nada ao pai – estava tudo molhado apanhar fenos – não sabe se foi disso mas o período parou e não voltou a ter e teve febre- havia uma senhora que dava cristeis, Maria chamava-a com dores na barriga e com febre – durante três meses não fez nada e não voltou a ter períodos – teve tanta febre e os pais nem chamaram um médico – podia ter morrido – faziam lhe sopa seca mas não comia – tinha uma trança de cabelo que lhe caiu todo – conforme nascia nascia de forma esquisita – tornou-lhe a cair o cabelo e só ao fim de três meses é que voltou a ser mestruada – a primeira vez deitou muito sangue com muitas dores na barriga – nunca foi a medico e sempre teve problemas de barriga – o médico   nunca viu – curou-se com o braço de deus – para a levarem ao médico tinha que ir no carro de vacas até ao Ervilhal porque não havia estrada – nunca a levaram ao médico – nunca tomou ervas a única coisa que uma vez tomou foi umas estitas de nabiças que cozeram – comeu e soube-lhe muito bem – depois comeu mais um bocadinho mas pouco – quando a mestruação veio passou a vir sempre – nunca descobriram o que foi porque não foi ao médico – não sabe se foi por se ter molhado no orvalho ou se foi pela febre – pensou que morria, foi um milagre – uma vez estava deitada na cama e a mãe chegou lá e disse-lhe que se levantasse  e Maria disse que ia morrer, ainda se lembra – mas tudo passou – uma vez em Lisboa foi ao médico por causa da barriga – o período era incerto e achou que era por isso que devia ser tratada porque não teve filhos – o medico disse lhe para fazer exames e perguntou se tinha tido algum doença em nova – disse que não tinha morrido porque deus não tinha querido mas ficou a sofrer para toda a vida da barriga –  havia muitas crianças que morriam com 2,3 anos e não tinham assistência nenhuma – era complicado – o pai uma vez em França queria fugir com uma francesa – a guerra era lá e ela não tinha ninguém e pediu ao pai de Maria que a levasse com ele mas ele não a trouxe para passar fome –

16:13 [mãe] a mãe estava sempre em casa – a mãe dela morreu quando tinha 10 anos – a mãe com 10 anos pouco fazia naquela altura – no campo não trabalhava ficava sempre por casa e o pai dela não a chamava – quando ia não fazia nada ficava só em casa -dizia que era doente-

17:16 [educação] [mãe] a educação foi mais o pai que lhe deu -o pai foi sempre mais responsável – gostava mais do pai porque a mãe era mais áspera – dizia às vezes coisa a Maria que lhe custava muito – foi com ogado e ela foi lá ter, as raparigas eram quase da mesma idade, havia uma rapariga que tinha sido mestruada aos 12 anos – disse para as outras que andava com a rabeca – chegou aos ouvidos da mãe e chegou ao pé dela que estava a guardar as cabras , agarrou-a por um braço e deu-lhe com a pedoa e pô-la toda negra – quando foi com o gado mandou-lhe uma canastra para apanhar comida para os porcos  que quando o pai chegasse lhe bateria – ela foi a chorar – tinha o rabo todo pisado, a mãe era mais áspera – acreditava em Deus mas era um pouco dura – o pai não – o pai disse que as que tinha dado nela eram as que lhe faltavam – são coisa que ficam na cabeça -aprendeu com a mãe a cozinhar – aprendeu a tecer linho – a mãe não tecia, Maria aprendeu com as primas – não sabe urdir – sabe tudo até urdir –

20:48 [linho] quem semeava linho nos terrenos era o pai mas Maria – no ano em que ficou doente foram os vizinhos que riparam – era com o pai que Maria andava – havia muita gente que semeava em Rompecilha – as pessoas iam para as massadas – gostavam de ir – para a sogra ela também fazia sempre massadas – assavam o linho e viam se passava algum rapaz para ir com ele à meda mas fugiam porque não queriam – de dia massavam o linho – toda a gente fabricava linho porque era o que havia – semeava-se linho em Maio no terreno – o campo chamava-se teçada de baixo?  – não era sempre nesse sítio -semeavam onde o linho desse melhor –  o terreno regava-se e mondava-o – depois arrancava-se ripava-se e punha-se ao sol para secar a gadanha  e aos fim de uns dias apanhava-se trazia-se nuns molhos e terminava-se a massada – a massada era em Setembro ? para comerem a sopa seca que só se comia pelo natal mais a letria – sopa seca é sopa de trigo que leva açúcar e vai ao fogão – é melhor com lenha – era o que havia na altura – a sogra tinha camisas de linho – ainda chegou a lavar-lhe a roupa e fazer -lhe a barrela num cortiço – eram só camisas de linho do marido, do outro filho, dela e do sogro – ela usava camisas e saias – essas camisas nessa altura quando andava com o período, nesse tempo não havia cuecas, as primeiras cuecas que Maria teve já tinha 16 anos, passava uns alfinetes porque o período era muito e ficava-lhe uma taipa – quando lavava no rio eram as cuecas que usava para tapar, naquele tempo – agora usa-se toalhas – linho era só para roupa – se se comesse na cozinha punha-se lá uma toalha de linho, para comer o cunhado disse lhe que tem um problema nos intestinos e compra na farmácia a semente do linho  e bebe com linho e faz muito bem aos intestinos – também dizem que é bom para as feridas – havia uma senhora que tina sempre as pernas secas e não usava ouytra coisa que não fosse linho, punha nas pernas com uns alfinetes de dama – diziam que o linho era bom para isso – o linho dá uma flor roxa e fica muito bonito quando abre – depois fecha e seca, a flor cai e a semente fica lá dentro – depois malha-se e guarda-se a semente para o outro ano – a qualidade do linho mantem-se, há mais producao e menos terras porque na altura era só com o estrume e agora pões se estrume e fica mais forte e dá cabeças mais grossas  -quem não tinha dinheiro para semear davam um terreno – por exemplo se Maria não tivesse e quisesse semear um pouco havia sempre quem desse um pouco para semear – davam aos pobres, agora não dão nada – quem não tinha vacas como o pai que criava bezerros e vendia, trocavam coisas com outras pessoas  – naquela altura fazia -se fiado – todas as famílias tinham linho para terem roupa e lençóis – casou-se com 23 anos e só tinha dois lenõis de pano cru que fez à mão – a mãe não lhe deu nada – comprou e cozeu à mão – foi assim que os levou para Lisboa – tirava o de baixo e metia o que cima enquanto o outro enxugava- assim que teve o primeiro dinheiro comprou lençóis e quando juntou mais um bocadinho foi comprar uma cama e segunda mão, na feira da ladra, para ela e o marido que dormiam na cama da dona da casa – depois comprou os pratos – diz que a vida foi muito difícil
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