Alfredo Correia fala da sua infância na aldeia. Nessa altura havia muito trabalho nas minas onde o seu pai ganhava para sustentar a família. Conta-nos como era a escola naquela época, os bailes na aldeia e outros episódios da sua juventude.

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00:00[apresentação] Alfredo Gaspar Pinto Correia – 79 anos – nasceu e Sete Fontes

0:20 [memórias mais antigas ] era um brincalhão, brincava com os outros miúdos e quando ? dava-lhe duas lambadas, e eles vinham a casa acusar-me e a mão assapava-o ? e dava lhe porrada, mas ele não ficava satisfeito e voltava a atrás a voltava a carregar neles, mas eram todos amigos –

0:43 [irmãos] é filho único por isso diz que é maluco –

0:48 [pais] o pai veio de mina e a mãe de 7 fontes – o pai era Tiago pinto correia e a mãe Emília Gaspar – em 7 fontes havia pouco para se sobreviver e então os pais deslocaram se de 7 fontes para Moimenta de cabril para trabalhar no minério do pilha – depois de algum tempo passaram para regoufe – estiveram vários anos em regoufe a trabalhar no minério do pilha – além do pilha o pai fez sociedade com uns individuos de canelas onde exploraram o minério à sociedade – mais tarde a pressão era tanta que o pai foi-se embora e começou a comercializar minério, comprar e vender, e assim continuo até deixar – isto foi em 39-45 – o minério era volfrâmio e estanho mas mais volfrâmio na altura – em regoufe quem explorava aquilo eram os ingleses, quem estava à frente daquilo era o gralheiro, como gerente, da empresa inglesa – o administrador era o ?, o tal inglês, e depois veio a guerra e ele teve que ir embora e deixou a procuração com poderes ? ao ? – e depois mais tarde fez o seu negocio e vendeu aquilo à companhia por ? de libras ?, em Regoufe – é uma vaga ideia que tem visto não ter a certeza – depois o pai foi para 7 Fontes e comprou uma propriedade em Ester pois só tinham uma quintazita e a casa – Ele tinha arranjado algum dinheiro no minério por isso comprou isso em Ester. Por ter comprado essas propriedades teve que as registar em seu nome, como o estado ficou a saber disso aplicou-lhe o imposto de lucros de guerra, onde ele fez muita falta porque trabalhou muito e então teve que pagar 80 e tal contos de imposto de guerra – O pai dizia que lhe tinha custado muito a trabalhar e a ganhar e que agora tinha que ir a São Pedro pagar o dinheiro, o que muito lhe custara – Depois os pais ficaram a viver nas propriedades de Ester e ele ficou em 7 fontes onde casou – O pai desistiu do negócio do minério e ele continuou com um antigo sócio do pai chamado Jaime Lisboa – O pai entregou a pasta a Jaime e pediu-lhe para tomar conta do filho tal como o seu pai tomara conta de Jaime que quando foi trabalhar com o seu tinha apenas 2 contos – Jaime entregara esse dinheiro a seu pai que não aceitou dando-lhe sociedade de imediato e dizendo-lhe apenas que trabalhasse – Como Jaime era honesto e trabalhador o seu pai não aceitou o dinheiro e deu-lhe ainda 200 contos pedindo-lhe que retribuísse o favor tomando conta do seu filho – Jaime, que era primo de seu pai não queria aceitar o dinheiro mas ele disse-lhe que não fazia diferença e então foi a sócio de Alfredo Correia durante 22 anos até Jaime falecer de doença –

04:50 [sociedade] [minas]compravam e vendiam o minério – Alfredo começou neste trabalho aos 18 anos e foram sócios durante 22 anos até Jaime falecer em 72 com 54 anos, ainda muito novo – foram a especialistas em Lisboa Porto e Coimbra mas ele não teve hipótese – O seu pai comprava os minérios na serra de sequeiros ao senhor ? Cardoso Rocha, o sobrinho dos Cardoso Pintos que foram os primeiros concessionários ? aqui da zona e talvez até do país – Eles tinhas minas por todo o lado, só Regoufe é que não era deles nem Rei de Frades, o resto era tudo deles, Moimenta, Sequeiros, a mina de ? de ouro também. Enfim, tinham muitas concessões – ??? foi deles mas creio que foi para os alemães – Depois a companhia portuguesa de minas começou a comprar tudo – O engenheiro Roxo era o administrador. Era boa pessoa mas foi levado à sorte –

6:23 [Mina de Sequeiros] A mina de Sequeiros foi sempre trabalhado um bocadinho “à sorte” , “à fugida”, não legalmente, sempre a trabalhar clandestinamente, primeiro com o Correia de Sul, chamava-se a mina do Correia, mais tarde esse Correia parece que vendeu a mina, talvez aos Cardoso Pinto – Havia um seu sobrinho que era o senhor Adriano Cardoso Rocha que na altura da guerra trabalhou na mina de Sequeiros, até ??? , ele vivia em Parada e veio a Sequeiros trabalhar a mina pois tinha lá uns empregados mas depois dedicou-se ao ouro em Trás os Montes – O Alfredo ainda lhe comprou estanho de uma mina que ele estava a explorar, o senhor Cardoso Rocha, na Ponte do Fumo, em Moimenta da Beira

8:09 [trabalho] Quando a mina de Sequeiros trabalhava Alfredo ainda era novo, quem comprava o minério era o seu pai e o Jaime que era sócios, ele ainda tinha 11, 12 anos mas recorda-se – Mais tarde é que Alfredo começou a trabalhar e comprou as minas de Viseu ? que pôs em seu nome, comprou-as à sociedade mineira do Paiva – Comprou -a porque forneciam todo o minério à sociedade mineira do Paiva, compravam depois minério em vários lugares nomeadamente às minas do Alvarenga ou os minérios de Regoufe que vinham clandestinos – depois começaram a ir para Cabeceira de Bastos, Minas da Borralha e depois Bragança, onde iam uma vez por mês, era sempre a lotar – Foram vivendo embora não se ganhasse muito mas bastava fazer um escudo em quilo que representava muito – O quartel general era em Viseu mas só iam ao fim de semana a 7 fontes, Alfredo e Jaime – Deixavam o carro na lavaria porque não havia passagem mas como forneciam minério à sociedade do Paiva tinham acesso àquilo e punham lá o carro e tomavam conta daquilo – A lavaria já acabou, era do lado de lá e ainda hoje se chama assim – É onde haviam umas barracas, em Parada, descia-se a ponte e havia lá um caminho, nós até pagámos do nosso bolso para se abrir lá um caminho até Nodar –

10:19 [Lavaria] Os Cardoso -Pinto é que eram os donos da Mina de Sequeiros e tinham todo o material para tratar o minério, levavam da serra de Sequeiros para baixo através de um ? aéreo todo o Tavenã ? para ser tratado na Lavaria, porque em Sequeiros não havia água e lá em baixo havia muita água do rio Paiva e iam os computores ? e puxavam a água lá para cima para tratar o minério

19:56 [tempos de escola] A escola foi sempre difícil pois não tínhamos professora, era com regentes que ficavam um dois meses e iam-se embora, havia então falta de ensino – Mais tarde houve uma professora, a Dona Maria, muito boazinha, que com as dificuldades todas chegou até a passar fome. Tinha três ou quatro filhos: a Florinda, o Aurélio, o Zeca e a Maria. O vencimento dela não dava e o marido tinha-lhe falecido – O que lhes valeu aos filhos foi o fato de o Aurélio ter ido para a Pedreira, para Nodar. Foi para lá como criado. Tinha comida e trabalho. A Florinda era uma rapariga toda jeitosa e novita casou com o Manuel Mineiro filho de um gerente da Mina de Sequeiros empregado de Cardoso Rocha, O Zeca estudou até ao terceiro ano, era um rapaz esperto e bom rapaz e depois foi para Viseu onde arranjou emprego. A Maria também foi para Viseu e casou em Santiago – Continuou na instrução primária, a Dona Maria ensinava bem mas não tinha tempo para nada – A pobreza era tanta que havia uns terrenos que ninguém queria onde a senhora e cultivar o feijão as vajães e a hortaliça – São aqueles terrenos que ficavam ao pé de onde é hoje a escola, ao pé da capela. A senhora andava naquela miséria – À entrada da escola, na casa que pertencia aos Quintãs, a escola antiga, havia umas escaditas e uma cozinha onde havia uma coelheira com uns coelhos. Uma grande miséria – Quando acabou a escola essa senhora foi para Moimenta pois a necessidade era tanta que ela acabou por ir para o minério – Quando andava lá no ribeiro à procura do minério cai-lhe uma sapada ? , um bocado de terra em cima e a senhora morreu ali – As pessoas viviam com muita dificuldade – mais tarde vieram os regentes – Uma vez veio uma muito ordinária (…) que lhe deu muita porrada por ele se ter metido com outro rapaz – Era muito reguila e a irmã da regente gostava muito dele e então a regente acho que lhe devia bater e descarregar tudo nele –

14:43 [colegas de escola] Era o Fernando de Nodar, o Fernando Costa, o Floriano, o Manuel de Nodar e os Celso Paiva, também umas rapariguitas de Nodar- de 7 Fontes era ele e a Alcinda, O José Duarte Branco, o José dos Santos o Estinho, tudo gente que depois desapareceu porque não eram daqui – Lembra-se que cantavam, dançavam, tudo gente vizinha – Eram famílias que apareciam e se fixavam -Por exemplo havia o José e o Manuel cuja mãe era de Meã e chamavam-lhe a tia Maria Rolha que deitava as cartas e então as pessoas vinham de fora para a consultar

16:31 [3ªclasse] Fez a terceira classe em Sul pois a regente de 7 Fontes tinha -lhe batido e então ele foi para Sul – Entretanto em 7 Fontes quem o ensinava era o Zeca filho da professora que o preparou bem pois em Sul ele sentia que sabia as coisas – Então fez a 3ª classe em Sul e foi o melhor, não só em Sul como em 7 Fontes, isto porque o rapaz sabia ensinar – Ao fim da 3ª classe foi fazer o exame a Viseu como adulto, com 17 anos. Ainda se matriculou na escola comercial mas depois reprovou por faltas. O seu ponto fraco sempre foram as garota e aos 17 anos começou a faltar e reprovou por faltas – Pelo Natal voltou a 7 Fontes e disse ao pai, que era muito poupado, que tinha reprovado por faltas. Disse-lhe que ia tirar a carta e o pai achou muito bem pois ia emancipar-se. Aos 18 anos já tinha estudado o suficiente e o que era importante agora era o trabalho e então começou a sociedade com o Jaime, altura em que o pai lhe cedeu a sociedade –

18:30 [Aprendizagem ao longo da vida] Fez a vida em Viseu onde tinha os seu amigos – Nunca leu muito era mais de ouvido e do que via – Fez a quarta classe com distinção mas ele era ?? – na altura do exame espalhou-se um bocado porque disse lá umas piadas em relação à professora que por isso não lhe deu distinção –

19:34[Primeiros anos a seguir à 4ªclasse] Tinham um carro que era do seu pai e do Jaime, quem trabalhava com esse carro era o António Costa de Parada porque era um carro de praxe ? – O pai disse a Jaime que como não usavam o carro queria fazer contas com Jaime para dar o carro a Alfredo para trabalhar – Antes de Alfredo começar o chauffeur de seu pai e do Jaime era o Albano da Várzea – Depois com Jaime começou a trabalhar pois o pai desistira e então começaram a ir a Alvarenga e a outros sítios, andavam sempre fora –

20:37 [ diferenças do antigamente] Acha que hoje não está muito bom mas sente-se no céu perante o que havia – Antes andavam a cavalo ou a pé. Os caminhos de vacas tinham metro e meio se tanto . Depois havia carreiros para cortar os caminhos, havia carreiros por todo o lado que fazia a ligação de umas aldeias com as outras e então toda a gente se conhecia – As pessoas de todas as aldeias reuniam- se na feira de Parada que é uma feira muito grande a dia 12 de cada mês e era assim que se sabia as novidades, com as pessoas a conversarem umas com as outras. Era muita gente – (…) eram de Canelas, da Nespereira e vinham à feira de parada pois tinham os seu conhecimentos de regoufe e juntavam-se ali –

21:48 [casamento]O casamento foi à mais de 57 anos – Tem uma filha que vai fazer 58 anos – Teve dificuldades para casar pois a mulher era professora e na altura precisava-se ter um rendimento igual ou superior ao dela – Ele tinha dinheiro em pouco, dinheiro que não valia nada pois precisava ter dinheiro em reis – O pai comprou uma propriedade em Ester e pô-la em seu nome que foi o que valeu para poder casar com ele se não não poderia – Ela na altura ganhava 600 ou 700 escudos, coisa mínima – O sócio Jaime pô-lo como empregado dele e fez-lhe um ??? fictício para ter um ordenado igual ao da mulher para poder casar com ela, O Salazar não deixava casar de qualquer maneira – Em cabril havia lá um casal em situação semelhante que não pode casar e um deles até morreu de desgosto (…)- Fez 20 anos em Agosto e casou em Setembro – A mulher era de Macieira e era professora primária e assim continuou, ía de 7 Fontes a São Martinho dar aulas e regressava, por vezes de São Martinho ía dormir a casa dos pais a Macieira por era mais perto que ir para 7 fontes e o Alfredo andava por fora – Também deu aulas em Sequeiros muitos anos e depois concorreu para Covas do Rio para permutar com o genro que estava em França – Quando o genro veio arranjou uma escola perto de Viseu e ela tinha estado o tempo todo em Covas do Rio a guardar-lhe lugar na escola, fez um sacrifício muito grande porque ia e vinha todos os dia a pé e às vezes ia a cavalo, porque ia depois permutar com o genro mas ele depois arranjou trabalho noutro lado e já não foi preciso – Ela depois concorreu para ?? e esteve muitos anos lá e de lá é que se reformou muito mais tarde, foi uma vida aqui a andar às voltas, ela trabalhou muito, era uma mulher de luta, valente e depois teve os filhos que andavam atrás dela

16:13 [filhos] teve 3, duas raparigas e um rapaz nascidos em 7 fontes nesta casa – A mulher praticamente deu à luz sozinha com pequena ajuda de umas mulher daí que vieram ajudar, sem saberem nada – (…)

27:16[poço do sapo] [tio Serafim]foi lá uma vez. Era reguila e então diziam-lhe que andava com o diabo e então foi lá ao tio Serafim para lhe tirar o diabo, que era muito amigo dos pais e que lhes disse que o Alfredo tinha era saúde e que com ele não se metia o Diabo, que se ele não comia era porque não tinha apetite – O tio Serafim fazia lá as suas rezas e tirava o diabo do corpo, tinha lá o livro de são Cipriano mas Alfredo diz que era tudo aldrabice – O tio tinha andando no Brasil e tinha sido enfermeiro e então dava umas coisas às pessoas para tomarem – Mandava às pessoas comer bacalhau porque na altura havia falta e fazia muito bem às pessoas (…) Nem todos acreditavam nele mas as pessoas vinham de fora e iam lá – Poço do Sapo ou Matosa é a mesma coisa, a mesma terra, fica ao pé de Cabril ao fundo , pertence a são Martinho das moitas

29:23 [reforma] reformou-se com 64 anos fez os seu descontos e conseguiu-se reformar porque tem um defeito na coluna e foi por isso que ficou livre da tropa, porque mostrou as radiografias – foi às termas fazer um tratamento e o médico olhou para ele e disse lhe que quando era bebé o tinham deixado cair por isso é que tinha problemas na coluna e então o médico disse que se podia reformar – Antes disso trabalhava por conta própria e os descontos eram feitos na caixa geral de aposentações mas afinal não lhe descontavam nada descontavam pelos caseiros – disseram lhe que o melhor era descontar 100 e tal contos a uma dada altura por ter regalias – depois durante vinte e tal anos sempre descontou e tudo contado deu 25 anos de desconto e conseguiu a reforma –

31:23 [paixão por conduzir ] sempre gostou de conduzir carros grandes, começou com os fords de 85 cavalos depois 100 cavalos depois o ? (..)- depois comprou um carro só para ele e o sócio também e tiveram outra sociedade mas ele é que conduzia sempre pois gostava de conduzir porque o sócio já conduzia com dificuldade – Tem dois carros, um deles comprou à vinte e tal anos e ou à dezoito

32:27 [relação com a família] eram todos os amigos, os familiares que moravam perto. Havia divergências entre si mas fora da família ninguém podia falar mal dela, eram muito unidos, quer dum lado quer do outro, quer deste quer dos Gralheiros – O irmão mais velho do pai era o Manel, a seguir o pai, depois não sabe se era a tia Maria ou o tio Augusto , depois a tia Benilde e depois a tia Alzira – A Benilde vinha a pé e vendia trigo que cozia em Meã e vinha muitas vezes a casa do tio Américo, por vezes até ficava lá

33:48[Bailes] Em 7 fontes havia poucos bailes porque não havia bailes, em Sequeiros é que havia mais porque havia mais casas – Em sequeiros era todos os domingos – Os tios eram tocadores, o tio Américo é que mercava as contra danças – Os pais não deixavam participar nos bailes porque era reguila – Nunca foi muito de bailes nem depois de casar

35:52 [de que tem saudades ] de ter 18 anos, de ter 25 anos não porque já era caso mas aos 18 todas as mulheres eram bonitas mas diz que não chegava para elas todas – de que sente mais saudade é da juventude -diz que há muitas coisas que podia fazer mas já não tem vontade, já falta a vontade de fazer as coisas – Ainda fuma um maço por dia, 20 cigarros mas já fumou 3 maços quando fazia viagens de noite. Aí era um atrás do outro, noites sem dormir (…) fuma mais de manhã que à noite (…)
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