00:16 [Gourim][trabalho]diz que trabalhou a vida inteira – no Verão andava com o gado na serra – havia lá 6 moradores – ia até ao alto do Fujaco 2-tinham muito gado – o pai tinha 18 vacas -levava-as de manhã para o monte e à noite para o curral – trabalhavam nas terras – trabalhava com os primos e a tia que já morreu há muitos anos -trabalhavam muito
01:05 [família][casa] [carvão]A família era composta pelo pai e a mãe, pelos primos, que foram todos criados com ela – foram criados na mesma casa – tinham um forno – diz que alguns primos já morreram -eram quatro raparigas – eram todos unidos – trabalhavam nas terras no verão – comiam das serras – matavam dois ou três porcos -era uma casa farta -tinha poucos quartos, uma cozinha – para passar para a cozinha tinha que passar pelo curral – o pai e a mãe dormiam num quarto e ela e as irmãs dormiam noutro – depois o pai fez uma casa ao lado – antigamente passava-se mal e não havia o que há agora -só viviam das terras e dos animais – não havia reformas nem nada -faziam o carvão e iam levá-lo a São Pedro, eram 4 horas de caminho – iam descalços – iam fazer o carvão à sexta feira e Sábado iam levá-lo à serra e daí para São Pedro -era a 10 tostões o quilo – Em gourim havia muito estanho nas minas – havia lá uma lavadoria? muito grande –
03:27 [carvão] [São Pedro do Sul]o carvão vendia-se em São Pedro a uns senhores que compravam para acender fogareiros – usavam carvão para as ferraduras dos cavalos -iam lá levá-lo a Carvalhais- quando vinham para cima traziam farinha e sal -iam a pé pela serra abaixo até São Pedro do Sul – via-se quem vai pela estrada para São Pedro o valgão? – iam até lá e a mãe levava pão no avental – chegavam lá e bebiam um pouco de água e iam até São Pedro assim -de lá comiam algo e vinham carregados de farinha para cima
04:27 [farinha] [carvão] a farinha traziam para comer e para pôr nos porcos – não se podia comer desse pão porque amargava na boca – diz que nesse tempo a vida era muito má -não havia nada como agora – não sabiam o que era um iorgurte – diz que os velhinhos passavam muito mal – levavam em sacos – os sacos eram dos género saco de batatas -eram sacos de 50 quilos – ainda não existiam sacos de plástico -era sacos de sarapilheira próprios para carvão -diz que passaram mal mas havia saúde e não havia incêndios como agora –
05:40 [incêndios] [gado] para prevenir não botavam lume como agora – diz que agora é uma pouca vergonha -depois do 25 de Abril diz que tem sido um inferno -tinham muito gado, mais de 500 cabeças de gado -andavam até à meia noite a ter os cabritinhos de curral em curral – o pai tinha 6 currais grandes de gado
06:18 [semeio]semeavam feijão – tinham muito esterco de gado – e os terrenos eram todos lavrados com o arado e a charrua -tinham canastros de milho muito grandes – tinham muitos porcos
06:43 [minas]muita gente trabalhava na mina – do fujaco e da coelheira havia mais de 50 pessoas lá a trabalhar – à noite vinham para casa da tia que era muito grande fazer bailes até de manhã – iam a pé para o minério, era perto – pessoas de fora de Gorim viviam lá perto das minas – havia lá um senhor chamado Santos lá no alto ao pé das minas (as minas eram muito grandes) – havia lá muito estanho e uma lavadoria? – andavam lá à volta e diz que era muito lindo – lembra-se do pai lá ter uma caixa de estanho – o estanho naquele tempo já dava dinheiro – não sabe se era a 5 ou 10 escudos – viviam apenas das terras – havia muito centeio
08:25 [Gorim] [água] [moinhos] [farmácia] [mercearia] [médico] Gorim devia ser habitado por ? – Gorim é melhor que ? porque é mais plano – o carro em Gorim ia às terras todas e em ? não vai às terras todas – em Palhais não vai lá o carro – há muita água em Gorim – há dois moinhos para moer, um de verão e outro de inverno -de inverno é em Cabritos e no verão era na ribeira – iam para lá lavar roupas, não havia máquinas, era tudo à mão -mostra como se lavava a roupa que é como se lava num tanque – não havia sabão – compravam por vezes sabão – não havia mercearias como agora ou farmácias – a farmácia só havia em Oliveira – não iam ao médico pois não havia – quando adoeciam eram curados em casa – não tinham nada – agora é otimo comparado com o que era –
09:45 [pai] diz que era muito amiga do pai – quando iam a São Pedro iam a pé descalços – não tinham calçado – o calçado eram os pés deslcalços – no Inverno e no verão – antigamente chovia muito e fazia muita geada e eles andavam de qualquer maneira por cima da neve.
10:22[doença] quando ficavam doentes era a mãe que curava -apanhou uma vez uma grande tosse mais a irmã mais velha, a Maria – são apenas 3 irmãs – trabalhavam muito ?? – andava na Drava? Mais a irmã, a bolsa era cheia de centeio e as seifas eram todas cortadas – vinham 50 pessoas cortar centeio e era tudo cortado à ceitoira – não havia gadanhas como há agora era tudo à ceitoira – ela mais a irmã passavam ? porque as terras eram ? – caminhavam para cima e as terras fugiam para baixo – diz que apanhou uma constipação mais a irmã- tinham muito mel em cantos? de barro – a mãe curou -a mais a irmã com mel, com alecrim que punha a ferver com bastante mel e vinho tinto – foi curada assim – não havia médicos, não havia nada –
12:18 [união] diz que as pessoas eram unidas, que as pessoas trabalhavam e ajudavam-se umas às outras -agora diz que as pessoas fazem tudo por dinheiro – diz que a malta ainda diz que a vida está difícil mas a vida está boa –
12:38[mãe] a mãe trabalhava nas terras como ela trabalhava- a mãe era da Póvoa das Leiras, foi casar a Gorim – a tia Custódia era de Covas do Rio, uma senhora que casou com o Tio Zé da casa nova -ainda tem irmãs em Covas do Rio, não sabe se já morreram ou não -a senhora que andava a vender roupa, a Dona Aida era sobrinha da tia Custódia, que casou em Gorim e era de Covas do Rio – a filha dela morreu de asma e casara no Fujaco, a Arminda, que era muito boa rapariga – a Clarinda casou na Arouca e a São está em Carvalhais, esteve com ela há pouco tempo –
13:50 [gado] [monte]ia com o gado para o monte e era uma beleza andar com o gado no monte por aquelas serras – apanhavam frio mas era bonito -eram muitas pessoas – à noite o pai levava os cabritos até à meia noite – eram muitos currais de gado -nasciam no monte e traziam os cabritinhos – era muito lindo – diz que foi criada na serra e que ainda hoje gosta daquilo -tem saudades – lá não há tojos como na aldeia -o monte tem apenas carqueja, queiró e mato- era uma beleza – não há matas lá como na aldeia –
14:57 [mãe][tosquia] [linho] a mãe também fazia trabalhos domésticos – quando tiravam o pêlo ao gado vinha um senhor de Arouca comprar sacos de pêlo – não se lembra quanto pagava na altura – no verão tosquiavam os animas e punham o pêlo em sacos – a mãe à noite e a tia semeavam muito linho – lembra-se como o linho era feito – é feito primeiro com linhaça – semeava-se o linho – era ripado, ia para a poça – primeiro tirava-se a semente – estava um mês e tal na poça em molhos – era posto ao sol para enxugar -depois era a dubadoira e o ripanso – era muito bonito – ainda hoje sabe como se semeia – a mãe e a tia semeavam sempre – na Pena chegavam a ter teias mais a tia Aurora – a mãe chegou a ter uma teia de 7 no tear – Dorinda não sabe tecer mas na terra da mãe havia uma tecedeira e na Pena também -agora tudo acabou e a tia Aurora da Pena também já morreu
17:00 [roupa] [São Macário] a mãe fazia roupa em casa à mão – fazia vestidos, saias para quando quando queriam ir a um festa como ao São Macário – a mãe e o pai levavam o carvão – eram 2 horas de caminho, iam por carreiros pois não havia estradas – iam lá sempre estrear uma saia e uns sapatos de camursa – iam descalças de Gourim até ao São Macário de baixo para poupar os sapatos – a mãe fazia esses vestidos muitos lindos, de chita -ela e as duas irmãs iam sempre ao São Macário, era a festa delas -o pai dizia para ir com o gado de manhã, iam às seis da manhã, e depois voltavam ao curral e iam para a festa –
18:22 [bailes]faziam -se muitos bailes em na Grave- dançava-se na casa de baixo na Grave- iam lá às seifas e diziam:ó Matilde sacode a saia, de repente se levanta o braço, dá-me um beijinhos que eu dou-te um abraço – ria-se muito – os bailes eram de noite ao dia – era às 50 pessoas – os homens a cortar as faixas e as mulheres a cortar? – era lindo, muito bonito – fazia-se bailes com concertinas e gaitas – toda a gente a dançar de noite até de manhã – queriam eram reinar, iam para a coelheira dançar quando eram as festas – ela mais o pai e irmã mais velha
19:40 [roupa de trabalho] [roupa de festa] a roupa de trabalho não era igual à das festas – tinham roupa para as festas e roupa para trabalho – era diferente – na altura nem se usava calças, era saias bem feitas, muito lindas – era tudo de fazenda e saias de ? – saias com fitinhas como ? – saias ao godés – tudo feito à máquina – quando iam a carvalhais levar o carvão tinham lá uma costureira que fazia blusas e saias muito lindas – lembra-se de no São Macário ter uma blusa que não era de nylon, era roupa bonita – punha laços e renda na blusa- era linda a roupa, de cores – Dorinda também andou no estanho e quando lá ia com a prima do Fujaco que já morreu juntava-se a rapaziada do Fujaco e fazia-se bailes em Gorim da noite ao dia – a prima tinha lá uma casa com um salão muito grande onde se dançava – vinha a mocidade da coelheira e juntava-se lá muita gente- não havia comida – diz que Gorim tem mais largeza de monte que a área de Sul toda –
21:55 [terreno]o terreno em Gorim é muito bom para milho e para tudo – o clima era melhor que em Sul – em Sul há muita neblina e chegava-se ao alto e já se via – em Gorim não, são ares puros, uma beleza
22:34 [Páscoa]na Páscoa ia lá o padre de São Martinho – na altura das confissões iam a pé até São Martinho para ir às confissões – ainda é muito longe ir de Gorim para São Martinho das Moitas – o padre também ia lá tirar folar a Gorim, o padre de São Martinho – diz que ainda no outro dia falou nele –
23:10[pão][forno][moinho][rio] cozia-se o pão, botava-se 14 broas para a tia e os filhos da tia, ela o pai a mãe e as irmãs – eram 14 broas – amassavam o pão – para aquecer o pão era difícil mas depois durava 15 dias -o forno era grande, levava 14 broas – a farinha era dela, iam para o moinho moer – no inverno iam para o moinho ao pé de casa – tinham uma ponte para atravessar o rio – iam e tinham medo de cair e o rio tinha uma grande largura – no inverno o rio estava cheio -atravessavam o rio com os sacos de farinha e tinham medo -não tinha gradeamento ou segurança a ponte – de inverno era no moniho em cima e de verão era o moinho de cabritos -para lá eram duas horas para ir no verão ao moinho de cabritos -iam pelo carreiro abaixo
25:00 [moinhos] [fornos]eram moinhos de mó – não sabe se ainda lá estão as mós, eram tocados a água -era comunitário, pertencia aos moradores de Gorim -era à vez – havia fornos para cada pessoas cozer o seu pão – cada um tinha o seu – a tia custodia de covas do rio tinha o dela
26:00[instrumentos][pão][tempo da fome][forno][estrume] guardavam o fermento de um dia para o outro – guardavam o fermento numa tijela e não se estragava – não se comprava o fermento – no tempo da fome, antigamente havia fome, comia-se o pão – a mãe naquele tempo moía o centeio e fazia o pão de centeio mas nao havia ninguém que o come-se – amassava-se o pão – o pão tinha que ser bem amassado senão não fintava, fazia-se uma cruz – massava-se num tabuleiro muito grande que era mesmo o tabuleiro do pão para amassar a farinha -já acabou tudo – o fogo nessa altura já estava acesso – a lenha não era como hoje, era carqueja , mato , ia-se buscar os molhos às costas para aquecer o forno – para o gado era o mesmo, passava-se o estrume às costas – há lá muita Torga- o carvão para o lume – punha-se a lenha para dentro do forno para aquecer, depois o frono ficava branquinho e varria-se e punha-se lá as broas – fazia-se a cruz para fintar, se não levar fermento não finta – diz que tem muitas saudades desse trabalho – tinham lá terras, o pai muitas vezes não queria prender as vacas – traziam as coisas à cabeça e às costas – trabalhou lá muito e os primos também -era tudo só de uma família, os primos e os pais -tudo acabou – eram 6 moradores que lá viviam – nas eiras para malhar o centeio era tudo em lousa- tinha que se barrar a eira com bosta de vaca para o centeio nao se meter nos buracos – eram no verão, e depois vendia-se as faixas – plantavam tudo ao ar livre e tudo pegava –
30:28 [São Macário][água] para o São Macário começava-se a semear as terras em Março – o pai de Dorinda tinha um arado e uma charrua – charrua que a sua sobrinha das termas ainda tem – semeava-se a partir de Março de modo que no São Macário já se tirava a bandeira ao milho -a água era da ribeira da laje que ficava muito longe -iam regar as poças e o rêgo era muito comprido – era feito todos os anos e era muito grande – não costava muito porque já estavam habituados
31:35 [rezar] toda a gente rezava- rezavam mais que agora – antigamente havia mais devoção que agora – a sua mãe primeiro rezava e depois passava o terço – depois dizia-se bênção meu pai e bênção minha mãe – não é como agora – os pais não concentiam desrespeito – se Dorinda se recusasse a falar algo que o pai pedisse levava logo com o cinto -diz que havia respeito – não se esquece de uma vez o pai, que por vezes fazia coisas que não devia fazer,quando andava com as ovelhas mais o primo, o primo mandou uma pedra sem querer e matou uma ovelha – então andou fugida mais o primo por causa do pai – não apareceram durante dias com medo do pai -depois lá se esqueceu – os animais eram para vender – as pessoas vivam mal –
33:50[pai] [rezar][confissão] [castanhas]o pai era crente – o pai da mãe era irmão de um padre- a mãe era da Povoa das Leira e ainda lá tem família – rezava antes das refeições -iam confessar-se a São Martinho – depois da meia noite já não comiam nada – iam em jejum e depois da confissão é que comiam – iam pelo São Macário para São Martinho das Moitas – diz que era tão mau e tão bom que iam para a Pena às castanhas – desciam pelos pedregulhos – havia muita gente na Pena – ia mais a irmã e outras rapariguinhas às castanhas – ao mesmo tempo era uma paródia – queriam andar, iam às castanhas e andavam a roubar castanhas pois não era pecado -tinha cerca de 10, 11 anos – cada uma levava um saco de castanhas e iam todas contentes
35:35 [trabalho] [matança dos porcos] começavam a trabalhar em pequenas – os pais levavam as crianças para as terras e ensinavam-nas – a ir ao carvão, a levar carvão, a ir ao molho – diz que tudo era fartura – a mãe matava aos dois e três porcos – era o pai que os matava – via matar os porcos – ainda hoje sabe como se mata e como se arranja os porcos -o pai matava os porcos, quando a mãe fazia os torresmos adorava – iam com o gado e sentiam o cheiro bom dos torresmos – fazia numa panela que levava cinco canecos de água – fazia enchidos – a mãe fazia chouriças e depois punha a secar ao fumo -metia carquejas nos lados para secar mais depressa – a mãe quando fazia pelo Natal um tacho de aletria parecia que lhes nascia uma alma nova – não era como agora -fazia-se de ano a ano
37:15 [Natal] [pequeno almoço] [pão] [mãe] [manteiga] o Natal na altura era pobre – não se fazia nada -era a carne de porco que houvesse – a mãe fazia arroz e comia-se isso -antigamente passava-se fome – lembra-se do pai e a mãe tirarem o leite às vacas e porem metade de água e metade de leite numa panela de ferro ao lume, era o pequeno almoço – punham na lareira e era o mata bicho de manhã – também havia pão e era a comida – a mãe fazia manteiga – tirava o leite às vacas e amassava o leite num cantro de barro com uma rolha que o pai fizera -À noite bebiam o leite amassado e sabia bem – tiravam a manteiga própria para vender – a manteiga depois do leite estar amassado ? – a mãe tirava isso e fazia a a manteiga para vender em São Pedro e fazer um dinheirito
39:09[Natal] não havia prendas -não havia nada para ninguém, nem sabiam que era Natal – nem havia uma prenda – a mãe fazia um tacho de aletria de ferro – quando fazia isso era um mar de rosas – os pais eram muito seus amigos – quando o pai ia a São Pedro trazia sempre trigo para cada uma das filhas – Dorinda ia ao bolso do pai para ver se havia algum trigo para comer -não havia rebuçados nem chocolates – nem sabia o que era um iogurte –
40:44[batatas] [notas] [Vale Escuro] [lobos] não semeavam batatas porque não tinham dinheiro para as comprar – agora semeia-se aos sacos de batatas e têm muita batata – o esterco do gado era todo cavado com a enxada para os terrenos – tinham muito terreno e tinham milho mas não tinham terreno para comprar as coisas -lembra-se da nota de um conto de reis naquele tempo e de 500 escudos – diz que o dinheiro era muito bonito na altura -diz que agora é uma fartura, que há de tudo e ainda se diz que há miséria, mas não há miséria nenhuma- diz que as pessaos por vezes dão bofetadas em Deus- há de tudo – ia muitas vezes a São Pedro – para baixo iam carregadas com carvão e para cima com farinha e sal -chegavam lá e faziam sopas de vinho com trigo e iam até Gorim – São quatro horas de caminho por aqueles carreiros descalços – uma vez apareceram uns lobos no cimo de Loureiro que foram atrás delas até ao Vale Escuro -a mãe depois foi iluminá-las com um candeeieo a petróleo -diz que era difícil – dizia à irmã que não se iam embora, que iam para o Loureiro, que os lobos andavam atrás delas -andavam a segui-las há tempos e tiveram muita sorte – no vale escuro tem rochas de um lado e do outro como a Pena ou Covas do Rio, até o cascalho fazia barulho, a pedra miudinha e as areias – uma vez foi com o pai e o primo para São Pedro arrancar um dente – encontraram sete lobos, parecia um bando de gado, nunca se esqueceu disso, nas pedras altas -ouviam os lobos quando estavam na cama, em Gorim –
44:15[gado] [lobos] uma vez andava com o gado ? e não conseguem falar, nem piava -os lobos são grandes – o pai e o primo António agarravam-nos no pinhal, quando a loba paria as crias ? são muito grandes – a loba de dia andava à procura de gado para levar para os filhos, matava uma cabra ou um chibo para levar para os filhos – uma ou duas vezes os pai agarrou nos lobos pequenos e pô-los no canastro que já não tinha milho pois já tinha sido malhado -o pai agarrava nos lobos e levava-os para vender em São Pedro no Sr. Borges – matavam um lobo com veneno na serra, quando o lobo atacava o gado iam aos filhos melhores nunca aos mais fracos- o pai botava-lhe o veneno dos lobos e quando aparecia morto tirava-lhe a pele – depois tinha um carrinho e andava por Sul a pedir com eles – era assim que se governavam antigamente
46:22[lendas] [morto que matou o vivo] [estrada]slembra-se de uma lenda em Covas do Rio e na Pena, a descer a rocha que são só pedras de um lado e do outro – levavam um caixão e o morto matou o vivo – desceu a escadaria com a prima Custodia que era muito amiga de uma senhora que era de Covas do Rio, e iam lá muitas vezes para o pé dela – uma vez esteve lá a comer pão de centeio com presunto e havia lá umas escadas, mas esse caminho era só um carreiro, não eram como agora, não havia estradas, nem para Covas do Rio nem para a Pena – só havia carreirinho antigamente – ouviu contar lendas quando era muito miúda
47:50[avós]não chegou a conhecer o avô, chamava-se ti Zé e era uma belíssima pessoa- a avó chamava-se Mariana e era da Coelheira, da Joana, ainda tem família na Coelheira – em Gorim tinham carroleiras de moer o milho e fazia de conta que era o arroz que a mãe fazia pelo Natal – botava um bocado de carne lá para dentro com feijão, sabia muito bem essas carolas pelo Natal com a carne de porco toda criada com o milho – não havia farinhas como agora dão aos porcos – faziam carolas e tinham carroleiras de moer – em Gorim tinham duas – ia para casa da tia moer, levava uma tijela de milho e punham isso na carroleira – explica como era a carroleira – era em pedra e servia para moer – diz que era bonito
49:39 [trovoadas] [Religião] [festas] [pai]diz que não tinham medo nenhum da trovoada – andava pelas serras e começava a trovejar e a chuvar mas ela amparava aquilo tudo – as pessoas acreditavam mais em deus – diz que agora vai à missa mas já não há religião como antigamente -antigamente havia outra religião – não se tratava o pai por tu – agora os pais tratam os mais velhos por tu mas na altura havia muito respeito -a mãe sempre respeitou o pai e tratava-o por você – com a mãe também não tratavam por tu – uma vez foram a Nagrave às festas e o pai já ia um pouco tocado porque lá se comia muito bem e era tudo como uma família -gostava muito de acompanhar o pai às festas e ele levava-as para todos o lado – mandou a filha à fonte buscar jarro de água – Dorinada disse que não e levou com o cinto, nunca se esqueceu – a mãe é que o impediu se não levava uma tareia ainda maior – ia com o pai para Viseu à feira Franca de comboio em São Pedro que acabarm- iam e vinham de comboio –
52:05 [Sul ] [marido] [casamento] [filhos] [Lisboa][casa] foi para Sul porque foi à feira de Sul vender uma vaca com o pai – a vaca chamava-se Cabana – depois começou a namorar um rapaz e queria sair de Gorim para melhor, não para pior – teve também namorados no Fujaco mas do Fujaco não gostava -Fujaco é pior que Gorim – disse que para lá não ia – depois calhou assim – o marido já morreu há vinte e tal anos – casou com 18 anos , a mãe e o pai foram dar ? a São Pedro -já tirou depois de casada – casou com 18 e o marido 22 anos – casou na igreja de Sul – tem dois filhos – o mais novo está em Santarém – mostra fotografia da nora e dos netinhos e do filho mais novo – tem o mais velho a trabalhar nas termas – teve trinta e tal anos em Lisboa a trabalhar – trabalhava como cozinheira – quando lá foi com o filho ao batizado da neta esteve com o patrão e até o abraçou e beijou – ganhavam pouco mas trabalhavam muito – ao fim do mês recompesava-a – No Poço do Bispo havia casamentos e batizados no mesmo dia – trabalhava com uma colega e por vezes sozinha na cozinha -diz que deu conta do recado mas trabalhava muito e sentia-se feliz – depois voltou para Sul ainda o marido não tinha morrido – o marido não queria ir para Sul mas depois comprou a casa que era muito pequena e mandaram fazer uma outra parte – vai ficar para os filhos – tem uma quinta grande e várias terras -ainda trabalha na agricultura, faz tudo – cultiva batata, feijão, milho para as galinhas, tem um moinho a eletricidade – teve gripe que deu cabo dela mas vai de passar – ainda tem animais – tem duas cabras em quintela e tem muitas galinhas – já matou 8 frangos e ainda tem 14 galinhas -tem muito milho para as galinhas, cerca de 60 alqueires de milho -tem uma terra muito grande cheia de ferrã -cultiva de tudo, feijão, milho,batatas, cebolas – vêm ajudá-la a semear batatas, ela é que faz tudo o resto, malha o milho que seca na eira – diz que se fosse a comprar tudo que era um despesa- diz que acha que não há crise nenhuma, que ainda não viu crise – têm comida e casa – tem a arca cheia – por isso não há fome – o que é preciso é saúde e gosto pela vida -vai ao café para se distrair – vai lá a cima à Quintela às cabras – tem a terra cheia de feijão – a mãe deu-lhe o que tinha – os tios andavam no Brasil e mandavam-lhe sacos de açúcar – a mãe deu-lhe lençóis que nem chegavam aos pés da cama -deu-lhe uma manta de ovelha e de tiras – fez o enxoval em Lisboa depois de casada, tem tudo cheio, tudo repleto, a mala estava atestadda não podia levar mais . tem uma arca com a roupa de cama da nora cheia – a arca era da carne – lavou-a muito bem lavada e pôs a arca a secar – meteu lá a roupa dentro – diz que não deita fora as arcas da comida – lava-se bem com um pano húmido, põe-se a secar durante um mês e está repleta.[/hide]