Na sua entrevista Joaquim Pereira fala-nos da sua vida. Ainda novo foi para Lisboa para trabalhar nas fábricas de Marvila. Teve de ir para a guerra e conta-nos como foram esses tempos difíceis.

[hide for=”!logged”] 00:10 [Apresentação] Joaquim Tavares Dias Pereira nasci em 22 de Fevereiro de 1946 – nasci no sítio onde estou – Em Sul e nesta casa, nesta não, noutra – Esta casa foi feita por cima dos alicerces da casa antiga que cá estava que era do meu falecido pai –

00:42 [Família] [Alcunha] A minha mãe era natural de Sul também, aqui da terra, o meu pai era de Oliveira- O bisavô veio de São Tomé para Oliveira -Ali casou, teve os filhos que estão espalhados, nas termas trabalham lá muitos primos diretos, filhos de irmãos do meu pai – Então o meu bisavô veio de São Tomé – vou falar nas origens da alcunha da família, Borralheiro – Essa alcunha veio de São Tomé, precisamente porque no tempo em que pertencia a Portugal faziam muitas atrocidades aos nativos e queimaram lá as palhotas – o meu bisavô foi um dos poucos que se salvaram e foi avisar as autoridades que perguntaram como se lá estava, uma Borralheira- Daí a alcunha Borralheiro, do meu bisavô – Depois o meu avô era o Francisco Borralheiro- O meu pai José borralheiro e eu toda a gente me conhece aqui, Joaquim Borralheiro- As alcunhas agora podem-se adaptar ao nome – Veio do avô, o tio Francisco Borralheiro – Ele veio solteiro de lá para cá – casou em Oliveira e depois teve o meu pai muito cedo em Sul que foi para casa do Senhor Figueiredo, trabalhou lá sempre – Na altura era o sr Manuel Figueiredo que era ali da dona Vitória, o sogro da Dona Vitória – umas das casas ricas aqui de Sul -Eram as tais sanguessugas que haviam para os caseiros- quem trabalhava a terra levava só 25 % e eles levavam 75% sem mexer na terra sem mexer em nada – A semente era fornecida pelo caseiro e trabalhavam a terra, fazia tudo – nem tinha direito ao vinho que era para os patrões e as sementes que colhiam era 75% para o dono do terreno e 25 % para as pessoas que trabalhavam – 10 sacas eram duas e meia para o meu pai e era 7 e meio para o patrão, para o dono da terra

03:49 [ Mãe] [Irmãos] Do lado da minha mãe, eu não conheci o meu avô – o marido da minha avó que é Rosário – A minha mãe tinha um irmão – A minha avó teve dois filhos, eu não conheci o meu avô – Antigamente os portugueses que iam para o Brasil esqueciam-se que tinham família em Portugal – Nunca mais diziam se estavam vivos se estavam mortos, ficavam para lá e então ela teve dois filhos desse homem – Era o meu tio que já morreu há muitos anos – A minha mãe mais recente morreu há três anos – A minha mãe teve seis filhos – A minha mãe era Maria da Glória Tavares – Teve seis filhos, já morreram dois, éramos quatro homens e duas mulheres- já morreram dois irmãos, uma mais velho que eu e outro mais novo – Eu estava no meio- O Honónio morreu tinha 52 anos e o António morreu no ano passado ..não foi este ano, com 65 anos – Os outros são vivos ainda – A minha irmã ali em cima a Alice, mãe daquela miúda que anda às vezes aqui à porta – E tenho uma que é a Balbina que mora em Alverca no Ribatejo, e tenho um irmão que a alcunha dele e o nome porque ficou conhecido é o cigano porque juntou-se com uma cigana- esse vivia na Figueira da Foz – Por acaso há muito tempo que a gente não contatava e ele hoje telefonou-me – tive a falar com ele

05:53 [Infância]A vida dos meus pais foi muito difícil, muito mesmo, aliás a conversa que tive anteriormente, ele trabalhava e o outro é que vinha buscar o produto – mais tarde quando morreu a minha avó e um irmão dela que não tinha filhos, o meu tio Albino, os terrenos que tínhamos da parte dele foram para os filhos da minha avó, para os sobrinhos, juntou-se tudo e foi metade para o meu tio, metade para a minha mãe e já começaram a ter terrenos deles, os terrenos deles tínhamos um grande, ainda existe, ainda não foi partido nem se sabe para quem fica aquilo, em partilhas, em Santa Ovaia -O que é que acontecia em Santa Ovaia, nós miúdos, pequenitos seis sete anos íamos de manhã cedo para lá para preparar para à noite lavrarem, por causa dos insectos nos animais, a mosca nos animais é chato e então trabalhavam de noite, por exemplo à luz de lampiões de petróleo, das sete horas da tarde até à meia noite, passava-se pelas brasas lá pai mãe e filhos, os da idade de escola vinham a pé para a escola – passávamos o rio por cima da levada, das pedras, e à noite iamos para lá à mesma – o ciclo continuava até fazer a sementeira – dormiasse no palheiro onde calhava, por cima da palha, colchões não havia só cobertores à noite para tapar – a sementeira era feita já no tempo quente e não havia muito frio- era razão para passar pela levada porque o rio levava pouca água -se fosse no inverno não havia hipótese- então a história dos meus pais é essa e a nossa também

08:11 [Pai] [Sacor] O meu pai depois vai para Lisboa trabalhar para a Sacor que actualmente é a Petrogal mas vai trabalhar para as instalações da Sacor por conta do emprenteiro – ele não era empregado da sacor – como a sacor ia arranjar nos anos 50 – ia começar a refinar o petróleo e precisava de funcionários- o pai foi recrutado para ficar na sacor – trabalhou lá ate à idade da reforma, reformou-se cedo tinha 52 anos, porque trabalhar na Sacor agora há filtros para os gases mas naquele tempo era mau – havia gases por tyodo o lado e quem morava ali perto sabe – a gente morava ali perto e sabia quando havia fugas de qualquer gás era um cheiro que não se aguentava – A Sacor situava-se onde é agora a expo 98 – Eles mantiveram a torre, aquela torre que queimava os gazes está lá – ele deixaram não mandaram a baixo – foi trabalhar para ali e esteve lá até aos 52 e depois reformou-se com ideia de regressar às origens e veio – ainda aqui tínhamos a casa- entretanto ele começou a pensar em fazer uma casa nova – aquela onde vive a minha irmã – a partir daí pensou em fixar-se aprendeu a trabalhar as terras – fazia vinho – agora as videiras morreram todas, não me interessei por isso nem os meus irmãos já não existe videiras nem uva- é a história da vida dos meus pais

10:16 [Escola] A escola …suei também na escola- gostei de andar na escola gostava de aprender ainda hoje gosto de aprender – na escola fui muito sacrificado, era o único canhoto – escrevia com a mão esquerda- uma professora que era natural aqui da terra vinha à cana da índia e passava me pelos nós dos dedos, que dores que eu sentia – há coisa de 15 anos fizeram uma homenagem à senhora, ex alunos, tudo pessoal com 50, 60, outros com mais, vieram-me convidar para ir ao jantar da senhora mas eu disse não vou- e vocês sabem o motivo porque não vou, porque é que eu não podia ser canhoto a escrever -isso era aqui nesta escola – há outra escola, tenho uns rapazes da minha criação lá de baixo que são canhotos e ninguém os chateou por serem canhotos – se é com a mão esquerda que escrever continua, mas eu não levei muita porrada – no recreio alem de jogar à bola às escondidas com uma bola de trapo, porque se a professora apanhasse rasgava, queimava, tinha lá uma lareira e mandava lá para dentro – era uma bola que numa meia se metia trapos velhos e depois a mãe cozia e a gente levava para a escola, brincávamos nisso – tínhamos também, um desporto inocente, o futebol, um desporto que para mim era violento era o jogo da pinha, fazia-se três buracos e era do tipo basebol americano – a pinha se apanha alguém numa vista ou na cabeça pode matá-lo dependendo da força – alguém tinha que defender para não entrar no buraco -se entrasse lá duas vezes mudava de equipa havia uma que perdia, saia e até chegar a uma finalíssima- jogar à malha ao pião – o importante nisto é a professora, uma bola que era inofensiva – uma bola de trapo, se fosse uma de futebol ainda pode aleijar agora um de trapo não aleija – ela proibia aquele jogo mas a pinha deixava jogar – é complicado – a senhora professora é que mandava – acabei a escola .. fiz a quarta classe aqui fui para Lisboa ter com o meu pai que ele estava lá sozinho

13:31 [Lisboa] [emprego] fui num táxi aqui de Sul, demorei oito horas a chegar a Lisboa – tinha 12 anos – o chaufeur era conhecido .. parou à porta de casa e levou-me à porta do meu pai, foi serviço de porta a porta – chegando lá tive dois ou três dias sem trabalhar e fui trabalhar para uma taverna no alto de Marvila que era a taberna do António – tive lá pouco tempo – depois fui trabalhar para um fabrica de parafusos em cabo ruivo que era ali próximo da sacor que era a fabrica que já faliu já não existe – trabalhei lá pouco tempo porque ganhava-se pouco cinco escudos por dia – gostei porque ver uma barra ferro a entrar para ali, a pessoa vai à maquina e corta – vê nascer o produto de uma barra de ferro de seis metros – fazer uma peça nem me passava pela ideia que aquilo se fazia assim, foi uma aprendizagem boa que eu tive -trabalhei lá até ir para a tropa

15:20 [taberna] as tabernas naquele tempo tinham um papel muito importante, aquilo era a sala de convívio dos operários no final do dia saírem das fabricas e passavam por ali fazer horas para o jantar -saiam as cinco e o jantar esta pronto às sete e eles estavam ali a jogar às cartas ao dominó falarem uns com os outros, convivio mesmo- bebia-se vinho, copos de vinho – copo três nem um decitro era e o outro era metade.

16:06 [Fábricas] Na zona de Marvila havia uma grande fábrica que era a sociedade nacional de sabões trabalhavam lá duas mil pessoas- o fardamento deles, eu gostava de ver. O ambiente era um ambiente fabril – gostava de ver a rua de marvila cheia de fatos amarelos a subir e às cinco e meia a descer – no final iam para os bairros deles, a maioria deles trabalhava ali perto da fabrica iam para as tabernas jogar às cartas, beber uns copos jogar ao dominó-discutir futebol – outras fabricas, a zona oriental de Lisboa era a zona industrial ha via ali muitas fabricas – fabrica nacional de massas – fábrica da borracha- fábrica dos fósforos – Fábrica do braço de prata, material de guerra ,depois andando mais para cima havia o matadouro de Lisboa- a Sacor- Utip – Automática eletrica portuguesa, telefones, está-me a ficar uma para trás que ainda funciona – todas as que eu disse já não existem mas há uma que ainda funciona – …faz contadores para a água ainda existe . fábrica de barros era de tecido – há ali uma fabrica que tinha uma sigal que eu nao sei como o Salazar deixou passar esse nome, produtos corticeiros portugueses, PCP -mais para baixo tínhamos uma laboratórios- havia mais uma fabrica de papel químico – era a fabrica de munições – tudo na zona oriental de Lisboa 90% da gente era aqui da zona, distrito de Viseu – o ambiente era familiar – os colegas era da mesma terra da mesma aldeia.

10:29 [casa ] o inquilino era o sr Adelino que era aqui da avó ao pé do Gafanhão …era mais Rasos – essa casa ele era o senhorio também da taberna era meu do meu pai porque a gente vivia num pátio que tinha uma casa e ele não precisava dela e alugou ao meu pai – eram os pátios que aqui para cima no porto chama de ilhas – esse pátio era em linha reta tinha 8 casa- aquilo era uma família – aquelas oito famílias que lá viviam eram só uma – no verão nas noites quentes- já com 17 18 anos já ia ao cinema e já vinha fora de horas- estava toda a gente deitada nas mantas e a gente passava nos pés no maior silencio – vinham para fora porque em casa era calor – vinham para ali para o fresco – passava -se por ali mas em silencio o máximo de respeito – era uma família – fazia -se uma sardinhada lá dentro a gente ia para a sardinhada – certos petiscos – caracóis – depois era divididos por todos – havia lá oito mas era uma família só – era tudo malta que davam a vida uns por outros se fosse preciso

21:25 [Juventude] Bailaricos, clubes, havia uma sociedade que era a sociedade musical 3 de Agosto que organizava da marcha de Marvila, o Santo António, marchei pela marcha de Marvila 3 vezes, uma em 1967 que eu embarquei para África em Novembro, Julho ainda estava longe – marchei em 67 quando vim de África marchei em 70 e 71- depois constituí família e deixei, a minha mulher arranjei -a, a minha primeira mulher, porque este já é o meu segundo casamento, era meu par na marcha, as marchas tinham esse condão juntar casais. Davam-me uma alcunha, era o elvis, naquela altura foi quando o elvis começou a fazer filmes. Toda a gente ia ver o elvis e eu era o elvis de Marvila – foi uma alcunha que puseram-me, uma namorada que eu tive, … cortavam me as pernas para não namorar com mais ninguém – joguei à bola, amador, quando faltava alguém dava o meu lugar aos outros, desporto amador, no abrantense na quinta marques de Abrantes, vulgo o bairro chinês – era na zona oriental e ficou com a alcunha mesmo de bairro chinês posto pelos habitantes- havia la barracas que era só por fora – havia moradias que nem imagina – tinham que pagar impostos mas com as barracas não – era uma quinta marques de Abrantes que era maior – havia a quinta do caldeira – quando cheguei a Marvila aquilo era trigo e oliveiras – o homem que alugava o terreno fazia uma barraca em escudos naquele tempo era muito dinheiro – ficava barato – uns chamavam os outros e daqui foi para lá muito imigrante (…) ficou tudo povoado – quando lá cheguei só havia oliveiras e trigo depois começou a nascer barracas num ano ficou cheio

25:19 [futebol] o clube da zona é o clube oriental de Lisboa vulgo col -há muita gente que o desconhece mesmo pessoas que percebem de futebol -desconhecem que o oriental foi a primeira equipa portuguesa a ter números nas camisolas -números romanos – uma vez li no jornal desportivo – vinha lá a homenagear as velhas glorias do oriental que teve bons jogadores -vinha a explicação primeiro clube português a ter números nas camisolas – nasceu da fusão de três – fundiram-se três clubes de bairro, o Chelas, o marvilense e o fósforos – a fabrica de fósforos tinha uma equipa de futebol- o marvilense – o Chelas é outra zona faz fronteira com Marvila no sentido areeiro – fundiram-se os três e fizeram o clube oriental de Lisboa – eu ja fui sócio e desisti por uma parvoíce – a fnat é que organizava esse campeonato – então a fnat federação nacional de alegria no trabalho – acho que ainda existe – passou a ser Inatel – nessa altura ainda n exista- organizava o desporto cooperativo, futebol entre empresas – já nem me lembro já foi ha muitos anos – eu fui para estar entretido ver o futebol – não me dizia nada não era o meu clube – sentava me nas bancadas a ver – houve uma altura que os sócios do clube tinham que pagar bilhete – foi aí que eu deixei de ser sócio do oriental -entrava com a cota do mês – naquele tinha que pagar e era um absurdo- o campo era pelado, engenheiro Carlo Salema – vi jogar o Edmundo o guarda redes – o Alfredo Xangai – mau todos os dias – já esteve aqui em Sul esse Alfredo apesar de ser de Marvila – outro guarda redes que era o cigano – esse é um dos poucos guarda redes que marcou de baliza a baliza – o oriental foi jogar à Nazaré, estava vento a favor, tocou no guarda redes mas como foi o outro que mandou desistiu – se entrasse direta não era golo mas como tocou no guarda redes validou o golo – ia para meter a mão e meteu mas depois deixou passar o outro marcou e foi golo, ficou bem enganada – conheci o Luciano, bom defesa – Candeias outro bom defesa- o Almeida outro bom defesa, esse era do Benfica – Acabou a carreira dele lá no Oriental -O João António, um jogador aqui da zona, de Cinfães- O Vitorino de Alvarenga – Eles não eram daqui porque nasceram lá mas as origens são sempre daqui – Os pais d Carapito eram do Barreiro – Falava tu cá tu lá

30:42 [Casas Recreativas] havia várias casas com origem na terra, zona e região – tínhamos o Alhões, o Cinfanense de Cinfães, o grupo criativo era aqui da zona mas afiliado com o Oriental também com bailaricos, um grande salão que alugavam com batizados, casamentos, Os magriços nascerem em 66 quando foi a campanha de Portugal na Inglaterra de futebol – há muitos mais – Às vezes ia lá o folclore daqui, deslocava-se lá – as coletividades que me lembro mais … há mais mas não me lembro

31:57 [Carreira Profissional] Foi no A-Pinto-e-Pinto quando saí da fábrica de florescentes – fui para uma escola de serralheiros civis ali da zona – a malta nova passou praticamente toda por lá – formaram-se lá uns bons chefes – estive nessa fima até ir para a tropa, no poço do bispo – há lá muitas fabricas pequeninas – trabalhar em serralharia, em ferro com uma estrutura metálica, corrimão, gradeamento, portão, porta, todo o género de serralharia civil – estive lá até ir para a tropa e depois quando regressei fui para lá novamente – os patrões naquele tempo quando uma pessoa saía tinham que guardar o posto de trabalho para quando a pessoa regressasse ter trabalho garantido – íamos para a tropa para a guerra e eles tinham um dever para a gente a lei era essa –

33:27 [Tropa] fui para a tropa assentei praça na figueira da foz – tirei a carta no CICA 2(Centro Instrução de Condução Auto) e depois estive lá dois meses a tirar a carta em carros ligeiros – depois foi a adaptação para o RAP 3 (Regimento de Artilharia Pesada) na Figueira da Foz, até fomos a pé, não foi preciso apanhar carro, ficava próximo um do outro – hoje já não existe nenhum -o CICA 2 é a universidade da figueira, aproveitaram as instalações – no RAP 3 não está lá nada – depois na figueira da foz puseram-me o carimbo para ir formar batalhão a Abrantes no RI 2 (Regimento Infantaria) – formei batalhão 1930 – começamos a ter contacto com outras pessoas – os condutores da figueira conheciam-se todos mas os outros já não, a gente foi para o meio da infantaria – conhecia lá outros rapazes, do lado do bairro aqui de cima, conheceram se todos – no RI 2 formaram batalhão e depois faziam exercícios para Santa Margarida- Estive lá três meses o batalhão está formado e a gente já tinha o treino suficiente – É mentira não tínhamos treino suficiente – a prática é que faz o treino – embarcamos para Luanda Angola no dia 29 de Novembro de 1967 – três dias depois de haver aquelas enchentes nos arredores de Lisboa que morreu muita gente

35:27 [Partida] como não havia comboio tivemos que apanhar os autocarros da carris de Lisboa na Azambuja porque a linha estava toda obstruída com camiões carros lixo -fomos de autocarro- para não dar a conhecer à minha mãe .. o meu pai sabia já lhe tinha dito que não quero lá ninguém no embarque – dia 29 embarco e venho aqui buscar o saco – a minha mãe era mais sensível para as coisas – o meu pai disse fazes bem – venho amanhã buscar o saco, venho de camuflado – ela vai ficar desconfiada mas vou dizer que vou para Campolide – foi assim que fixe disse ao chauffeur para parar no poço do bispo – o homem disse que me ia prejudicar e disse abrande aí que eu sei sair em andamento – eu atravesso a rua e estou em casa, vou buscar um saco – obriga me a ir a Alcântara para ir buscar um saco e gastar dinheiro escusadamente – não era desertor eu aparecia no barco e já não era desertor -fui até Alcântara, pedi ao homem do táxi, marcha assinalada e expliquei lhe o que se estava a passar – cheguei a santa Apolónia e o sinaleiro mandou parar o táxi – sai do táxi e cheguei ao pé do sinaleiro que estava em cima de um pedestal em madeira – senhor guarda vou buscar um saco a casa que me esqueci o barco está em Alcântara – ele mandou parar o transito e disse mete te lá dentro – disse ao chauffeur para ter tudo livre -assim foi, entramos para o bairro, a partida foi uma experiencia muito má que eu tive – foi das piores da guerra- estive lá 26 meses mas para mim foi a coisa que mais me mercou na guerra foi a partida do barco daqui para lá – o cais estava cheio de civis e militares – os militares já estavam dentro do barco – já se tinham despedido da família, quando lá estamos dentro – o barco antes de partir manda três apitos – começa uma musica – os três apitos é para tirar as amarras para soltarem o barco do cais -há uma musica … não acreditava que a musica emocionasse uma pessoa, desconhecimento ou falta de sensibilidade, não sei, – a musica que eles tocam entra ao fundo da espinha e sai nos olhos – aquela musica arrepiei -me aquilo mexeu comigo e de que maneira – era a partida, já estava solto o barco – e a seguir os gritos das mães – ainda hoje me custa a falar disso, foi a pior experiencia que tive na guerra – tive no mato, na fronteira do Congo – fui para lá foi sempre bom, há muitos milionários aí que não tiveram umas férias como eu passei, à borla e ainda me davam dinheiro para lá estar -foi a experiencia pior da guerra.

40:02 [Guerra] A guerra foi umas ferias que eu lá tive porque tive um grande comandante -ele antes de partir de santa margarida, no dia anterior à partida ele disse que vamos para uma zona de muito trabalho porque era numa zona fronteiriça onde passavam do Congo para Angola, os nacionalistas, mas o pão e o vinho nunca vos vai faltar – e foi o que aconteceu, não faltou, houve um dia um senhor que era o padeiro que teve a infeliz ideia de negar um pão a quem lá foi pedir e secalhar tinha negado a outros mas não fizeram aquilo que ele fez, lembrou-se do comandante e foi ter com ele à secretaria – não havia oficiais, era um família – aquele 160 homens eram uma família – só havia um parvalhãozito, um oficial mas o comandante começou a chegar-lhe a roupa ao pelo e ele acalmou – o comandante perguntou qual era o problema- o comandante disse em santa margarida que o pão e o vinho não faltavam -vinho não me interessa porque eu nem bebo vinho – mas gostava de comer um pãozinho- fui ali ao Rebelo pedi lhe um pão e ele disse que não me dava – levantou-se às quatro da manhã para fazer pão – O comandante foi lá, o pão estava dentro de um tabuleiro em madeira, tirou o pano branco de cima – perguntou se um chegava e quem queria pão – o comandante disse ao padeiro, amanhã vais sair pelo portão que sair para o mato – perguntou à hora de almoço quem é que sabia fazer pão e houve um que disse que tinha umas luzes – amanha já és tu que vai fazer o pão -ou ainda hoje se fizer falta, quem quiser pão pode ir buscar – o outro foi para o mato de castigo, era um senhor, só trabalhava duas ou três horas por dia – fugiu às ordens do comandante – faltava o pão – toda a gente sabe disto, quem lá foi sabe, quando nós percebíamos daquilo vínhamos embora -ao principio para acabar com os carregadores todos bastava ouvir um tiro para passado dez minutos já não termos munições – metia-se o carregador, rajada e despacha-se -virava o carregador ao contrario e despacha-se – ao fim de um ano de lá estar, nove dez meses, nós não éramos profissionais daquilo, mas éramos mestres, se se ouvisse um tiro ninguém disparava – ouvia-se e calma aí vamos lá ver se é isolado ou se há lá mais – só disparava a arma que estivesse num ponto alto que era aquelas que estivessem montadas – tinha um escudo em aço e então estavam lá montadas se desse para onde se ouviu o tiro disparava – se não desse ninguém disparava – não se gastava uma munição – se quisessem ao principio – morreu lá muita gente assim, inconsciência – por falar em mortes o meu batalhão tinha 17 mortes só um é que foi lá num ataque que tivemos ao quartel – por azar foi da minha companhia, foi o Monteiro – morreu lá por ser teimoso, devia usar capacete e não usou- um estilhaço entrou-lhe se ele tivesse capacete não entrava – morreu porque quis morrer ofereceu a morte- a minha companhia teve mais duas mortes, um de bebedeira, e outro foi a família aqui que o matou -o rapaz era casado quando foi daqui para lá- a mulher aqui arranjou um namorado e o pai escreveu-lhe uma carta que a mulher era uma maluca e isto trabalhou no cérebro dele e ele matou-se lá – foi o pai que o matou

45:25 [Cartas] o serviço de postais militares funcionava bem e tínhamos um que era gratuito – era o grama – era tipo pau de correio – eu namorava.. um semana antes de ir embora zanguei-me com a namorada precisamente para não deixar cá nada – ninguém agarrado – eu pensei nisso – ela depois arranja outro namorado, dois anos lá fora e depois qual o meu estado de espírito lá e eu acabei -só porque ela se referiu a mim à mãe por ele – eu disse calma aí que ele tem nome – chateei-me com a rapariga mas não estou arrependido tinha que ser precisamente ..apesar de ser só namorada – há pessoas que aquilo trabalha no cérebro – depois da guerra vim para cá fui trabalhar para a minha casa, trabalhei lá dois meses, ele deu-me um trabalho difícil do género fazer exame – eu fiz pedi ajuda ao ajudante e cheguei à conclusão que eu é que devia ser o ajudante e ele o mestre – eu sabia fazer o trabalho e fiz, acabei o trabalho, cheguei à conclusão que ele devia ser o mestre porque naquela altura 1970 eu ganhava 55 escudos por dia e ele 60 o meu ajudante, não cabia na cabeça de ninguém responsável de obra – no final da obra faltava pouco para acabar e agente conversa – não disse quanto ganhava, trabalhei mais uma semana subi a escadaria para ir ter com o patrão no poço do bispo e disse lhe – o mestre ganha 55 e o ajudante 60conta me lá isto como deve ser – o Telmo que você mandou para ao pé de mim ganha 60 e eu 55, responsável da obra sou eu – há qualquer coisa que está mal – segunda feira agente conversa- segunda feira foi logo trabalhar para outro lado – a gente recebia à semana, eu no Sábado recebi fui trabalhar até ao meio dia – recebi a semana- segunda feira ia a caminho do trabalho para ir para casa -estavam lá dois amigos meus num gradeamento a trabalhar e eu passei – o xico hoje está a meter pessoal – a que horas ele vem?- lá para as 5.30 está aí -era cedo depois fui para casa e depois fui para lá outra vez – para ele me apanhar a falar com os funcionários – Xitas passa-se alguma coisa ? – ouvi dizer que precisa de pessoal, e eu preciso de trabalhar – Então mas não trabalhas ali no Pinto-e-Pinto? – Trabalhava já não trabalho – Ainda ontem te vi lá – Ele foi lá pedir não sei o quê ao meu patrão – Vi-te lá, mas hoje já não vê que eu não vou para lá mais – Não falei em dinheiros, que ele tinha posto um gajo a ajudar-me que ganhava mais que eu – Se queres trabalhar para mim segunda feira vais à Rua Capitão Leitão e apresentaste ao Santos que é o chefe e dizes que fui eu que te mandei – Ele dá-te qualquer coisa para fazer, e eu fui trabalhar com o Xitas – Quando veio ter comigo fui ao escritório e perguntou-me quanto queria ganhar – Não vou falar em dinheiro, dê-me trabalho e paga-me consoante aquilo que eu faço – Tinha máquinas para reparar, calibrar valas que ele arranjava no material de guerra – Ele era lá mestre, então trazia as máquinas todas cá para fora para a oficina dele, ele dava-lhe muito dinheiro, era o preço que ele quisesse lá meter – Não tinha grande prática, enganei o homem mas acabei por não enganar – Ele perguntou me se sabia medir bem, medidas de precisão – Eu disse que sabia, desci lá para o trabalho – Aquilo era tudo malta que eu conhecia, que trabalhava lá até o chefe eu conhecia, cheguei ao pé de um torneiro mecânico – Epá eu enganei o Xitas – Epá isso não custa nada – dá cá aquele bocado de material – eu agarrei e medi – Quanto é que está aí ? Comecei a olhar, 12 ml, tem sim senhor mas tem mais uns décimos, mais dois décimos, tem 12,2 – Estás no caminho – esteve-me a explicar o funcionamento – para ver os décimos é para cima o resto é em baixo – em baixo está quase olhas para cima e são mais 5 centésimos – mais um décimo e não tens problema nenhum mas nem era preciso – depois de desmontar as peças chegava ao pé do fresador e dizia dá me uma raspagem por dentro mas não tires muito só para ganhar esses riscos que estão aí – chegava ao pé do fresador, uma peça para entrar aí – ele é que mediam mas depois com a prática já dominava tudo ao fim de uma semana -enganei-o mas não enganei, conclusão era à semana, recebia-se ao meio dia – ia a empregado com o tabuleiros com os envelopezinhos – deixa cá ver quando ele me deu, epá 120? – Foi mais que 100 % o aumento. Fui ganhar 120 mas é outra industria, essa é mais bem paga – E não há desemprego, ainda hoje – na Mecânica de precisão ainda hoje não há desemprego -há para os nabos para aqueles coitadinhos -para os profissionais mesmo, parqa quem percebe daquilo não há desemprego -Somos disputados, uma vez em Bilbau, Espanha e o meu patrão – Eu estar a pôr a chave lá na recepção tinha vindo do quarto e um ex sócio dele deu-me uma palmada em cima do ombro e pergunta tu não está chateado com o teu patrão ? – não, ele até me proporciona viagens aqui a Espanha e tudo, não estou chateado com o homem – O teu cantinho está reservado – ainda hoje não há desemprego para os bons profissionais –

53:40 [Bilbao] Fui a uma feira de máquinas e ferramentas – Para a gente andar actualizados com as ultimas novidades -Fui a Toulouse França, estive em Hamburgo na Alemanha – Espanha Barcelona, mas isso era materiais de construção – A gente diz que a Feira Internacional de Lisboa é grande mas não – Construmat é grande, dois pavilhões metem a fil toda lá dentro e depois ainda há 5 pavilhões –

54:32 [25 de Abril] A mudança do 25 de Abril foi normal, o 11 de Novembro foi pior – O ataque ao ralli, o Spínola os aviões – porque eles passavam por ali – A gente não sabia, aquilo ainda estava tudo fresco foi no mesmo ano – Queres ver que vão começar a mandar ameixas cá para baixo e a gente vamos todos embora – o 11 de Novembro foi pior que o 25 de Abril

55:15 [Marvila] Mais tarde muito mais tarde talvez 75 já começou a ver-se ali movimentos – Um partido que foi o único que eu vi antes do 25 de Abril, houve outro que concorreu às eleições que era o MDPCDE- esse antes do 25 de Abril já tinha concorrido a eleições – depois vi o MRPP mas o MRPP eram miúdos a colar cartazes lá no bairro chinês e uma grande bandeira – Isto anda tudo maluco – antes do 25 de Abril – O avante sabe como era distribuído no Poço do Bispo? O avante era o jornal do PC, era distribuído nos urinóis do Poço do Bispo -Os ardinas era um saco com os jornais lá dentro – Havia gajos que tinham dois distribuição grande que iam levar a casa dos fregueses, à tira colo, metade Avantes aqui metade ali – A PIDE funcionava muito ali no Poço do Bispo – Zona operária, revolta, eles funcionavam por ali – O ardina ia, fazia de conta que ia ao urinol – Aquilo tinha 3 urinóis, 3 deste lado e 3 daquele – os gajos chegavam tiravam e punham em cima do separador 3 montes e a malta sabia que naquele dia havia o Avante

57:02 [25 de Abril] [120] A única coisa que eu senti com o 25 de Abril é que a gente ia trabalhar e depois porrada para irem para casa e não saírem e a malta não trabalhou nesse dia – O 120, eu tive muita sorte porque passado um mês o patrão deu aumento e o encarregado que era meu chefe direto não estava lá, a gente já tinha ido embora, às vezes faltava na fabrica para ir trabalhar para lá e para orientar – Houve aumentos e o meu chefe deu-me mais 20 escudos de aumento – 140, um mês depois -mais 20 escudos por dia – a partir daí entretanto o chefe montou uma fábrica dele, na Picheleira com mais 4 colegas dali – começou -me a convidar para ir lá fazer serões – Eu trabalhava durante o dia, e ele também, no Sebastião Xitas – à noite íamos para a Picheleira, quando ele me mandou lá a primeira vez – tenho uns amigos eu também vou para lá biscatar – eu era serralheiro e ele também – eu também vou para lá fazer una biscates, fazer umas horas, …- para ter uma vida melhor – apesar que eu digo sinceramente, cheguei a ganhar mais que o meu pai – O meu pai trabalhava na Petrogal, na Sacor mas eu cheguei a ganhar mais que o meu pai, quando vim de África em 70 o meu pai tinha-me um lugar certinho na Sacor – O engenheiro Castelo Branco que era o diretor da fábrica – convidaram-me e fui lá, cheguei a ir lá falar com o homem – Eu disse para o meu pai espere aí é um negocio mal feito – eu cá fora ganho x e vou ganhar menos? -mais tarde arrependi me porque a Sacor é a Sacor – Ainda hoje os reformados têm a segurança social que lhe paga e a Sacor paga-lhe o resto na altura de ser reformado -Ao meu pai aconteceu – regalias, combustível mais barato, tudo – O dinheiro é que faz mover o mundo, para o bem e para o mal, sempre o dinheiro

60:33 [Pai] [Terra] Sim sim, quando se reforma vem para aqui com a minha mãe -a gente já tínhamos vida constituída por lá, cada filho foi para o seu canto e ele regressou para aqui com a minha mãe -vínhamos de férias vínhamos para aqui, qualquer filho passar um mês ou 15 dias conforme- o meu sonho era construir uma casa para a minha velhice -Isto para mim é um paraíso, gosto de estar aqui -Lisboa cada vez é mais insegura, eu chamo selva – há esse caso do rapaz que matou a rapariga na fábrica de Sacavém e matou um colega dele lá no parque de estacionamento em Oeiras – Isso é da minha rua, na Bobadela – Comecei a construir esta casa, havia uns tostões ali mais a minha Maria – E disse a ela, Maria está aqui 50 contos vamos comprar tijolo para fazer uma casa -O problema é que aqueles 50 contos quase quase que deu, não deu bem, para fazer esta casa – outros tempos, o dinheiro tinha valor agora não tem valor nenhum – ia construindo conforme havia dinheiro ia -se andando para a frente – O empreiteiro é aqui da zona, é o Gentil de Adopisco, é cunhado do Braz – Foi ele que construiu a casa – falei com ele primeiro como não havia dinheiro, não é fazer o orçamento, olha faz que eu tenho o dinheiro, não, vão fazendo conforme vai aparecendo – se estiveres interessado não havia aí muita gente e havia aí muito construtor -Ele disse não há problema.

62:49 [Sul] Vai fazer 6 anos em Março – há aqui umas figuras, alguns da terra outros não que eu gostava e falar – há pouco falou-se nos sanguessugas que eram os donos dos campos – Agora há aí outra raça que são os empatas – nem fazem nem deixam fazer e só dizem mal, pode estar bem feito mas só dizem mal, está mal feito eu não fazia assim mas não dão alternativas de fazer melhor – há aqui uns fregueses desse género – dizia o nome mas não vale a pena, se eles virem isto algum dia eles sabem quem são – Há figuras boas mesmo, não sei se já ouviu falar mas eu vou dizer mesmo -há aí uma figura, não tem nada a ver com o desenvolvimento da terra – escapou-me e eu gostava de falar no nome do homem, senhor João Ribeiro, cozinheiro, natural de Adopisco, esse senhor foi o primeiro cozinheiro português a ganhar uma medalha de ouro em Paris com tripas à moda do Porto, foi o prato que ele confeccionou apresentou e ganhou – primeiro cozinheiro português, agora já há aí muitas estrelas Michelin, mas naquela altura, já vai há muito tempo – esse senhor quando o Gulbenkian, refugiado pela Europa porque ninguém o recebeu quando veio para Portugal foi para o hotel Avis que é o agora o Sheraton- há ali umas galerias por baixo que é o Imaviz – O Gulbenkian ficou ali hospedado – eu sei isto porque eu tinha um jornal que gostava de reaver e não sei se vou reaver, emprestei à minha irmã e ela diz que mo dava mas nunca mais deu -O Gulbenkian foi para lá e ia à cozinha saber do almoço o que ia comer – O João Ribeiro lá dizia o que ele ia almoçar – O Gulbenkian rasgava, isso vem nesse jornal, foi um jornalista do jornal popular também já não existe há muito tempo esse jornal mas tinha os recortes – rasgava uma nota de 50 ao meio e dava-lhe metade -Se gostasse do almoço dava lhe a outra – o homem diz eu nunca deixei de receber a outra metade, é sinal que o Gulbenkian ficou satisfeito – Tem outra história, um Dom Diogo Passanha alentejano, criava touros foi convidado pelo presidente da república na altura que era o Américo Tomás para cozinhar fazer um almoço no Alentejo para o Dom Digo Passanha, para o Américo Tomás, parece que o Franco também veio o espanhol, mas não tenho a certeza se veio -Era verão, levo daqui qualquer coisa preparado porque não dá para fazer qualquer coisa com paladar se não for temperado no dia anterior – Levou um peru pronto a entrar no forno – Quando lá chegou o peru já tinha um cheirinho a ir para o outro lado -Se eu arranjar dou-lhe para ler que você vai gostar da história do homem – O homem foi à senhora do Dom Diogo Passanha perguntar se ela tinha um perfume francês – A senhora emprestou lhe o frasco – ele passou no peru com perfume e foi para o forno – toda a gente foi-lhe dar os parabéns porque não tinham comido anda igual e o peru estava quase podre – mas figuras, um presidente de Junta que houve aqui que foi o senhor José Roberto – foi o que distribuiu os chafarizes todos que agora estão fechados e podiam estar abertos pela freguesia de Sul e não só -Pesos, Aldeia, chafarizes que há da freguesia foi ele que mandou pôr – Só havia um que é aquele lá de baixo e está encostado à farmácia -Havia outro mais em cima ao pé da minha irmã próximo da feira – E aquele ao pé da capela- amigo do povo, ele não chateou ninguém toda a gente gostava dele – O engenheiro Quintela que não era daqui foi o que desbravou Sul -derrubou casas, fez muros, fez estradas os carros não passavam desta curva atrás para cima – o engenheiro Quintela que era da floresta, parece-me que ele era de Viseu – ninguém lhe prestou homenagem, podiam pôr o nome, tanto a um como a outro -tanto ao José Roberto como a João Roberto – Acabava aqui para cima era caminho de cabra para andar carros de bois – Ele pertencia à floresta, era engenheiro florestal e foi ele que desbravou esta terra – a final, acho que pioraram por falta de gente, esses campos todos incultos com silvas era tudo cultivado – a malta imigrou foi para o litoral foi para Lisboa foram daqui para fora e os filhos já nasceram lá já não passam cartão a isto – há aí terras, a maior parte das terras que há aí ninguém sabe de quem são, o vizinho do lado é capaz de..ja cá não vem ninguém já morreram todos, isto aqui é meu – há muitos mesmo ninguém sabe de quem é a terra – o caso do Honório o filho da peixeira que pára na Emília esse coitado por causa da mulher, esse queria voltar mesmo fazer como eu fiz voltar para aqui e fixar-se – ir lá abaixo ver os netos uma semana ou quinze dias e vir para aqui mas ele passa o inverno, ele imigra é como o urso para um sítio pior que este- em relação a frio é pior, Cacém, em relação a frio o Cacem é pior que Sul em relação a temperaturas – O Cacem todos os dias há vendaval seja inverno seja verão – Agora no Inverno vem lá o friozinho da serra de Sintra analisado ali até corta, até corta.

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