Entrevista integrada no projeto “Pedras Faladas: Memórias Geológicas de Bodiosa”, uma homenagem às pessoas concretas que estiveram e estão ligadas ao universo geológico desta freguesia do município de Viseu.

Como muitas pessoas nascidas até meados do século passado, José Almeida Santos parece que viveu várias vidas dentro de uma só, tal a diversidade de experiências laborais e conhecimentos adquiridos. Desde o seu primeiro emprego, a fazer “o giro” às pedreiras para apontar os dias ao pessoal ou ir a Viseu para cobrar aos clientes que tinham comprado carradas de pedra, passando pela Sociedade Mineira do Paiva onde contactou com a separadora de minérios, com a fundição e com o trabalho de peltres de estanho, composto obtido a partir da cassiterite que era separada de outros minérios e fundida e moldada juntamente com cobre e antimónio.

Não obstante ter tido exercido funções administrativas, José Almedia Santos descreve com um assinalável precisão vários processos de transformação da pedra de granito: a que vinha da serra e era partida com a ajuda de pixotes de ferro enfiados na pedra e da ação dos martelões para a abrir, passando pelo poprianho ou perpianho, um tipo de cantaria que tem toda a largura da parede em que entra, atravessando uma parede dum lado a outro, sendo portanto aparelhada nas quatro faces, até à importância de perceber o “correr da pedra” para facilitar a sua transformação, ou ainda as juntas de vacas com uma zorra aparelhada que antes da mecanização serviam para trazer as pedras da serra.

Entrevista a José Almeida Santos em Oliveira de Baixo, Bodiosa a 18 de Março de 2015. Entrevista e Transcrição da Entrevista de Susana Rocha. Registo e Edição Audiovisual de Nely Ferreira.

[hide for=”!logged”] 00:04 [Apresentação] José Domingos de Almeida Santos. (Nasci a) 15/06/44. Nasci em Oliveira de Cima. É uma aldeiazinha acima de Travanca um bocadinho. Vai-se por Travanca e também se vai por aqui por Oliveira de Baixo. Oliveira de Cima.

00:32 [Enquadramento em Bodiosa] Vivo em Bodiosa desde sempre. Ora, desde sempre, eu tinha 3 anos, o meu pai foi para África em 47, e nessa altura eu tinha 3 anos e fui com a minha mãe, passado meio ano depois de ele ter ido. Estive em África até aos 7. Aos 7 anos tive que vir para Portugal, porque em África não havia, o sítio onde o meu pai estava, que era em Porto Amélia, não tinha escola. E eu vim para o Colégio da Via Sacra. E então estive no Colégio da Via Sacra dos 7 aos 11 anos. Depois fiz a instrução primária. Ingressei na Escola Comercial, onde fiz o Curso Geral de Comércio. Entretanto eu saí do colégio, fui para uma casa particular, que era uma pessoa amiga do meu pai, tinha dois filhos e dávamo-nos bem, estive lá 4 anos. Ao cabo de 4 anos, depois ao cabo de 4 anos, vim então para aqui. E então comecei utilizar o comboio para ir para Viseu para acabar o curso. Acabei em 62. E depois de acabar o curso, entretanto andei por aí e tal e fiz, fui à inspeção em 1964, mas depois de ir à inspeção, pra ir para a tropa demorou 2 anos, porque estive à espera, porque quando eu assentei praça já os rapazes que foram comigo já tinham, os rapazes que iam já tinham feito quase a Comissão toda no Ultramar. Eu estive à espera 2 anos por causa do Curso de Sargentos Milicianos, porque como eu fui para o Curso de Sargentos Milicianos tive de ir para as Caldas da Rainha, que teve dois anos. Daqui fui eu e o professor Alexandrino, que somos da mesma idade, e um primo dele que é o António Alexandrino. Eu julgo que o António alexandrino foi para o Curso de Oficiais, para o CSA, que é um rapaz que está ligado a Manhouce, àquelas cantigas e tal, Manhouce. E então estive lá então 28 meses em Cabinda. Estive aqui, estive na tropa, fui par as caldas e depois fui mobilizado daqui de Viseu, estive em Cabinda 2 anos. Depois de em Cabinda 2 anos, eu acabei por passar à disponibilidade aqui.

03:43 Entretanto eu vim em 69, depois aos 27 casei. Casei-me em Gaia. Depois vivi com a mãe da minha filha 8 anos, deu curto-circuito, então passado algum tempo voltei a casar, voltou a dar curto-circuito e agora estou sozinho. Estou sozinho, isto é, estou aí com uma moça que vive comigo e que olhe são passos da vida que ou sorte ou má sorte, olhe acontece. A minha vida foi essa. Vivi, trabalhei sempre, desde que vim da tropa casei-me em 70. Em 70, mesmo em 70, comecei a trabalhar no Porto, trabalhei então na Valadares, trabalhei lá 12 anos e ao cabo de 12 anos, como entrou em curto-circuito e eu andava lá nas Ruas do Porto por a Santa Catarina e tal, em quartos e tal. Depois eu tinha 35 anos, fechei os olhos e ͚Vou para Bodiosa͛, porque aqui não vai ser…E então pedi meio ano de licença na Valadares e vim para aqui arranjei ali emprego na Mineira do Paiva.

05:20 A Mineira do Paiva fechou e o gerente que lá estava, que tinha arranjado lugar na Scania, que era antigamente era em Cotel, veio-me buscar aqui a casa. Eu estava, vivia ali, que o meu pai fez aquela casa para mim. E eu vivia ali, um dia chega ali a um sábado, e perguntou-me ͚Ó Sr. Almeida Santos, o senhor algum dia lidou com dinheiro? Eu não, mas aprendo.͛E então fui trabalhar para lá, como lhe digo, estive lá 25 anos. Passei à reforma há coisa de seis anos, olhe e cá estou.

06:09 [Primeiro trabalho: ronda pelos trabalhadores da pedra] 27. A trabalhar, quer dizer, eu trabalhei sempre, trabalhei aí, não digo nas terras, mas a fazer, como lhe digo, o meu primeiro emprego foi lá para cima para rodar o giro às pedreiras e tal, mas isso não era trabalho nenhum, era um entretenimento, que era para eu não ouvir a minha mãe. A minha mãe é muito, muito, que dizer, muito obcecada pelos afazeres e eu tinha que fazer alguma coisa, eu não podia viver à estaca deles e eu acho bem que assim fosse e então comecei a trabalhar em 1970, na Fábrica de Cerâmica em Valadares. Outubro de 70, eu casei-me em julho, em Outubro comecei a trabalhar.

07:16 A ronda, quer dizer, foi um sujeito que era empreiteiro, o qual era meu compadre porque eu batizei-lhe uma filha, Maria Helena, que faleceu pequenina, e depois ele precisava de alguém que lhe fizesse aquele serviço e eu disponibilizei-me e fui todo contente, não é. Até porque eu, nunca falámos em vencimento nem nada, ele é que chegava ao fim do mês e começou-me a dar 300 escudos e então comecei a, era o trabalho que eu fazia, fazia a volta, apontava os dias ao pessoal, ͚fulano hoje está presente, aquele não está, aquele está, aquele só veio meio dia. Depois chegava de quinze em quinze dias, eu fazia as contas, ganhava X por dia…Eu ia, na sexta e no sábado, eu ia a Viseu aos clientes fazer recolha de, cobrar as carradas que ele levava de pedra para cima, portanto eles só levavam a pedra para cima, não é, o Arlindo. E depois então quem conduzi o carro era um irmão, que era o Silvério Marques da Costa e então à sexta e sábado ia fazer o coiso e depois fazia as continhas à noite e ao Domingo pagava. Pagava, quer dizer, olha ͚fulano leva tanto, tanto para fulano͛, essa coisa toda. E foi assim.

09:14 [Dia a dia no trabalho] Não tinha horário. Eu dava a minha volta. Eu saía de casa lá para as 2 horas no Verão, principalmente no Verão, porque isto são trabalhos que de Inverno pouca gente ia trabalhar, não é, e a chuva e depois, bem, embora fossem porque tinham necessidade de ganhar dinheiro, não é, mas o pessoal tinha necessidade de ganhar dinheiro e havia sempre ou com sacrifício ou coisa porque…e eu fazia esse trabalho sem horário, não tinha horário nenhum.

09:57 [Trabalho de sol a sol na agricultura] Porque lembro-me de trabalharem a sol a sol na agricultura, porque isso eu garoto quando vim de África, eu vinha passar muito tempo a casa dos meus avós a Oliveira de Cima e via que trabalhavam de sol a sol. Pegavam, tenho lá histórias e coisas que se passaram com pessoas que por acaso já cá não estão, mas que me contavam, que havia um sujeito em Oliveira de Cima que se levantava às 4 da manhã para ir a pé para Queirã, tinha que lá estar ao romper do dia, trabalhava até à noite e à noite punha-se a pé, outra vez a pé até Oliveira de Cima, dormia 2 horas, tornava-se a levantar e tornava a ir. Não é como agora, agora são capazes de ir, estar lá uma semana, hoje é diferente o trabalho porque hoje o patrão carrega-os, mesmo sem ser para tão longe. Uma carrinha, de Oliveira de Baixo para Pereiras, por exemplo, ou para Bodiosa a Velha, vem o empreiteiro traz a carrinha, mete-os lá dentro, leva-os lá ao trabalho. É diferente, antigamente não, antigamente não havia esses recursos nem havia essa possibilidade, há muita coisa que modificou em todos os aspetos. A vida não é fácil.

11:44 [Trabalho de sol a sol na pedra] Ainda apanhei alguns, poucos, mas apanhei. Apanhei, mas foi pouco tempo, porque entretanto isto foi-se modificando. Isto são coisas que vão evoluindo. A lei normalmente sai, mas só é refletida com muita insistência e com coisa e tal e as coisas foram modificando. É como a mesma coisa que os vencimentos. Os ordenados antigamente, não era, ͚fulano dá tanto, já estão a pagar͛, quer dizer, fulano dá tanto͛ e ele prescindia deste trabalho, ia para aquele porque aquele pagava mais. E nos horários era a mesma coisa, sabe que os patrões normalmente tinham necessidade, os tempos vão evoluindo e a evolução não é de um momento para o outro. As leis saem e as coisas são mais lentas e o período de transição é mais ou menos nessa altura que se dá esse período de transição. Sei que havia, era uma vida de muito sacrifício esses indivíduos que trabalhavam na pedreira e os que trabalhavam na terra, porque, como digo, quando fui para casa dos meus avós, quando vinha passar férias a casa dos meus avós, via que os trabalhos eram de sol a sol na agricultura mesmo.

13:23 E a minha mãe ainda trouxe aqui algumas pessoas, alguns trabalhadores, como isto era um oiteiro, este oiteiro foi partido com trabalhos ainda de sol a sol. Mas depois as coisas foram mudando e deixou, e começaram a trabalhar 8 horas por dia. Lembro-me muito bem disso, quer dizer, não sei a data certa, mas talvez 16 anos, 18 anos e tal, as coisas foram-se modificando. É a evolução natural.

14:04 [Propianho] O trabalho era só fazer, vinha a pedra em bruto, que era partida aos bocados, não é, e depois era faceada. Era feito chamavam eles propianho. Propianho era de vária medida, havia propianho de 25 e havia propianho de 40, isso era de largo, porque o comprimento aquilo, já se sabe, uma pedra o comprimento e a altura dependia, mas normalmente a espessura da pedra era 25 ou 40. Depende, porque, normalmente, a de 40 era usada para cantaria.

14:55[Pedra Azul] O que é que acontece, aquela pedra melhor, porque eu estou a falar em pedra que hoje não se vê. Hoje vê aí é tudo pedra azul, porquê? É a mais fácil de cortar, não há quem pique a pedra e a faceie. E como ela é fácil de cortar fica mais ou menos cortada. E a daqui não se dava isso. Ela vinha em bruto, depois era faceada de um lado, depois era faceada do outro e tal, davam-lhe um tombo, depois punham régua, esquadro e não sei quê, punham aquilo, era a maneira de eles trabalharem.

15:37 Hoje não se dá nada disso, porque hoje a mão-de-obra está cara. Por exemplo, eu recordo-me que naquela altura, para virar uma pedra, 2 ou 3 rapazes, ou 2 ou 3 homens, ou 1 homem, pegava na pedra e virava-a. Hoje não, hoje para virar uma pedra é preciso uma máquina. É preciso uma máquina, não fazem nada sem uma máquina. É como tudo, é a evolução.

16:10 [Extração da pedra com pichotes] (A pedra) vinha da serra e era cortada. Era cortada, era, eles viam os lotes, era esmiuçado o terreno e as pedras vinham em blocos, não é, estavam em blocos. Eles chegavam, metiam os tais pichotes, chamavam eles, pichotes, faziam várias covinhas por aí fora, metiam uns pichotes em ferro. Eu não me lembro disso, porque já não é do meu tempo: antigamente, antes disso, existiam, faziam as mesmas coisas, mas mais largas, e punham uma madeira, umas cunhas de castanho, punham-lhe água, deixavam ficar para o outro dia e ao outro dia a pedra estava aberta. Eu no meu tempo, na minha existência, já não era assim, era com pichotes, pichotes, umas coisitas assim em ferro, mais ou menos aguçadas e tal, que punham, e com o martelão davam e ela abria.

17:27[O ͚correr͛ da pedra] Agora abria, eles têm uma maneira que eu desconheço porque nunca cheguei a saber como é, eles olham para a pedra e vêm o correr da pedra tal e qual como a madeira. Nós vemos a madeira, o correr da madeira, que é assim, não é, e eles vêm na pedra e depois já a cortam de maneira a que seja no correr, para ela partir mais ou menos. Porque a pedra amarela e branca, que é lá de cima de Oliveira de Cima e daqui da região, não é fácil de cortar, ela corta-se mas vem muito…Agora, acontece hoje, com a pedra azul é diferente, às vezes há pedra azul parece que vem já polida e tudo. Estas fábricas de pedra azul, que vê-se aí nas escadas, utilizam agora muito. É mais fácil, porque vêm mais uma indústria lá em cima que é, uma delas, a Anigraco, que a pedra põem lá uma pedra, com uma serra cortam aquilo, antigamente não havia nada disso, não é, era tudo a poder de pulso.

19:14 [Transporte da pedra] (O trabalho) era feito lá na pedreira mesmo, ela era moldada, era picada, faceada lá na pedreira, depois arranjavam uns carregadouros, uns carregadouros onde ia o camião e metiam em cima do camião e do camião por aqueles caminhos feitos às 3 pancadas lá na serra, o camião levava para, normalmente é para Viseu, porque era onde havia mais construção, normalmente era para Viseu. E também para aqui, também vieram aqui trazer algumas carradas de pedra aqui a Oliveira de Cima. Mas antes disso não era camião, era com um carro de vacas, que ia daqui para Viseu. Isso do carro de vacas eu já era, já quê, os meus 9 anitos, 10 anitos, ainda vi, vi a levarem, havia até indivíduos que eram indicados para isso. Havia ali um vizinho do meu avô que levava para cima, passava a vida na estrada daqui para Viseu e de Viseu para aqui.

20:35 Depende do tamanho da pedra, a quantidade normalmente eram 4, 5 pedras, não levava mais. Com o camião já levavam mais, já levavam um bocado bom de pedra.

20:52 [Mudanças na construção] Mas, é assim, não era fácil. A pedra agora deu lugar ao bloco, é mais fácil. Porque hoje custa muito mais uma construção em pedra, que custa um coiso, não é, embora seja mais fácil construir. A construção em si é mais fácil, porque há-de ver aí que a maior parte das casas, há muitas casas que a parte de baixo é em pedra, a parte de cima já não é. Aquela casa que ali tenho era um palheiro. O meu pai pôs-lhe uma placa em cima e construiu para cima. A parte de baixo é toda em pedra. A parte de cima era em bloco. Ficou, não é, tem coisas boas e tem coisas más, é como tudo. Há quem goste agora de, por exemplo uma questão de cultura: quando eu era garoto, antes de aparecer o cimento, eu lembro-me de aparecer o cimento aqui porque a casa do meu pai, esta casa foi feita, as divisórias têm ali vigas, o tamanho delas dava para fazer um arranha-céus em cima. Porquê? Porque não tinham conhecimento da consistência e da segurança do cimento, havia dificuldades, havia um sujeito em Queirela, que tinha vindo do Brasil, que veio para aqui trabalhar e em vez de levar vigas de ferro, levou vigas de cimento. Eu tenho ali uma banca que ele fez, uma banca onde lavava a louça, que fez de propósito ali para cima para a casa, que quando aquilo foi feito, as pessoas viram aquilo ͚Ai uma banca, ai tão bem feita, feita em cimento, é uma coisa͛. Isto era, na altura era como os telemóveis, quando apareceu os telemóveis, uma coisa tão pequenina como fala daqui para muito longe e tal. Lembro-me do aparecimento do cimento. O aparecimento do cimento deu aso a muita modificação, isto é uma questão cultural. Quem tem casas de pedra rebocadas estão a descascá-las e a deixar a pedra à vista. Deixa de ter valor o cimento e começa a ter valor a pedra.

24:10 [Casa do pai, em pedra, onde reside atualmente] A minha era, esta era rebocada. Fui eu que a casquei toda com a minha mão. Foi o último trabalho que eu fiz, depois disso sentei-me sem forças. Tive que a cintar toda, mas era toda rebocada. Porque é que a rebocaram? O meu pai dizia-me assim ͚Então uma pedra tão boa, porque é que a rebocaram?͛ Ele não estava cá, estava em África. Olha a minha vizinha quis rebocá-la porque era diferente das outras, casas de pedra havia muitas, mas ela quis rebocar porque era diferente. Porque na atura havia, a maior parte das casas eram em pedra e ficavam pedra sobre pedra e ficava à mostra. E paraser diferente…Agora para ser diferente é precisamente o inverso, ͚Ah a minha é de pedra, pedra é uma coisa boa͛. E é. E é, e faz de tudo, não haja dúvida nenhuma que segurança, se for um camião contra ali uma parede daquelas, fica desfeito o camião. É como o meu carro, é forte e feio, se for um carro contra ele é capaz de ficar à neca.

25:26 [Aquedutos de pedra] Para a construção e para…acho que é outro dos reflexos da diferença entre a pedra e o cimento. A maior parte dos aquedutos que vê por aqui por a estrada nacional 16 a baixo, os aquedutos é tudo feito em pedra. Mas pedra trabalhada, não é cinzelada, é trabalhada, picada e os aquedutos eram muito bem feitinhos. O lastro, as laterais e depois tinha umas rampas na saída, umas bocas na saída, tudo trabalhado em condições. Hoje já não fazem nada disso. Hoje metem esses tubos, manilhas, enfiam umas nas outras, já tem uma boca e um…enfiam umas nas outras, é terra para cima e pronto está o caso resolvido. Não fazem como antigamente. E até usam plásticos, aparece, isso a evolução é total em tudo. A primeira canalização de águas que foi feita nesta casa, 4 anos depois, a minha mãe ia lá 4 anos e vinha, 4 anos depois, o autoclismo, puxava-se o autoclismo a água não ia porque nem havia água nem havia nada, porque estava tudo enferrujado. E a evolução deu origem, antigamente era galvanizados, deu origem ao plástico e agora a pvc͛s e agora há uma série de…A minha, a sanita da casa de banho era feita em grés. Grés que agora foi substituído tudo por pvc. É muito mais fácil, muito mais rápido e até muito melhor. Não há possibilidades daquilo se…Não parte, aquilo não parte e depois não entope. As águas a mesma coisa. Agora até estão a usar a fazer instalação de águas por fora, exteriores, que é para não, o problema de andar a partir. Tudo isso é evolução. Tal como a pedra e a construção evoluiu, as tecnologias também são outras e os materiais também são outros. É totalmente diferente, não há nada, é como o dia da noite, isso não haja dúvida nenhuma.

28:25 [Casa construída a partir de um oiteiro] Sim, devia ter aí acima da altura do 1º andar. Aquilo foi partindo, andaram aí, eu era garoto. Ainda eu estava no colégio quando começou. Aqui havia um sujeito em Oliveira de Cima, que era procurador do meu pai, que ele começou a partir isto e eu um dia vinha a passar mais um tio meu que me ia levar ao colégio e diz assim ͛Olha o teu pai vai fazer…͛, eu nunca tinha entrado aqui dentro, não é, e nem entrei, só passava ali, ͚Olha o teu pai vai aqui fazer uma casa͛. Andava, esse senhor de Oliveira de Cima, com uma junta de vacas. Aqui a região nunca foi de bois, era tudo vacas. Uma junta de vacas e com uma zorra, a transportar as pedras, a parti-las, a transportá-las para os lados, para fazer o lastro. Depois veio um sujeito de Travanca, que era o mestre, um mestre qualquer que lá havia, que ajustou a casa com o meu pai e veio fazê-la. Veio fazer a casa, depois nem a acabou, quem a acabou foi a minha mãe, porque o homenzinho foi à falência ou qualquer coisa do género, foi assim qualquer coisa, que isso são pormenores que não me lembro disso. E é assim, foi então isto tudo partido. Outra das coisas da evolução é que antigamente eles para fazerem um, para darem um tiro, tinham que pegar, um pegava no pistolo e outro batia. Hoje não, há máquinas, fazem aquilo num instante. E depois metem uns bocaditos de TNT, trotil, metem lá dentro, aquilo parte aquilo tudo. Aqui não, aqui foi tudo a pulso. Aqui ainda foi tudo a pulso.

30:53[Muros] E mesmo os terrenos que estão aqui feitos, não existia nada, principalmente aqui à frente, não existia nada. Foram feitos os cômoros, os muros de cômoros que é para encosto das terras e foi tudo a pá e pica. Pá, a baldear. Não havia máquinas, foi tudo a pulso.

31:12 [Trabalho de sol a sol na casa] Andaram aqui 5 rapazes de Queirela. Julgo que já morreram, não, um deles é vivo, mas já morreram. E era uma equipa que nós, a minha mãe dizia-lhe assim – chamavam eles empreitada -͚Ora vocês hoje fazem até aqui e têm o dia ganho͛ e eles pegavam-lhe a trabalhar, às vezes, ainda era de sol a sol, com duas horas de antecedência do sol se por, ganhavam-no e iam embora. Porque a minha mãe também parte do princípio de que era uma maneira de conceder-lhe as 8 horas sem, julgo eu, conceder-lhe as 8 horas de trabalho sem dar nas vistas, quer dizer, sem dizer ͚Olha vocês só trabalham 8 horas, mas dava-lhe de empreitada ͚Olhe hoje é até aqui͛ e ela marcava ͚até aqui͛. Eles na altura ganhavam 20 escudos por dia. 20 escudos por dia nessa altura. E aparecia muita gente para trabalhar. Pedido, ͚Olhe arranja-me aí trabalho͛ e tal. A minha mãe deu aí muito, os meus pais deram muito dinheiro a ganhar a pedreiros e a trabalhadores de pá e pica, muita gente trabalhou aqui. Foi até, ou até acabar o dinheiro, não me lembro não sei disso, não é, ou até isto estar feito. Isto feito nunca ficou, porque, está a ver, o meu pai faleceu, eu torrei algum dinheirito aí, a fazer modificações, que cada um sabe como é que faz, gosta da maneira…

33:30 [Calçadas] As calçadas antigamente era tudo feito em granito, mas quê? Era rachão. Rachão que era bocados de pedra e faziam as calçadas daquilo, porque antigamente em Oliveira de Cima principalmente, que é aquilo que tenho em mente, porque foi da minha meninice, a partir dos 8 anos, 9 anos, as ruas eram cheias de estrume. Ali é que curtiam o estrume para as terras. As galinhas andavam lá, nas ruas todas, era as ruas estreitinhas, mas era tudo entapetado com estrume. E depois apanhavam o estrume para levar para as terras.Então depois até eu recordo-me que o meu avô estava na Junta na altura, salvo erro, era secretário da Junta ou tesoureiro, não faço ideia, e fizeram então começaram a calcetar com rachão, a calcetar as ruas, que era calçada à portuguesa. Hoje não existe nada disso, porque arrancaram a calçada. Bem, pode haver uma ou outra rua, mas arrancaram calçada portuguesa e começaram a encubar esse cubo azul. As ruas hoje, até aqui à beira de casa está tudo com cubo desse cubo azul, que não há, há uma diferença muito grande, eu quis manter isto na originalidade, porque o original disto era terra, não é, mas quis manter mais ou menos as aparências.

35:28 [Gradeamento com cantaria] Olhe e tem outra coisa, outras peças de pedra, que é aquelas grades, aquele gradeamento, que eram pedras que vinham da pedreira, que era lavrada. Lavrada, não é, cantaria. Aquela cantaria não é de máquina, é mesmo a pulso. Aquela foi mesmo a pulso, foi feita aqui por rapazes daqui de Oliveira de Baixo. Era um de Travanca, pai e filho aqui de Oliveira de Baixo. Com uma peça de cantaria grande, grossa, grossa, isto é, fininha, que ele pegava-lhe aqui e batia-lhe. Aquilo era ͚tec tec tec͛ a bater e a fazer, a moldar aquilo. Destes são pouco trabalhados, mas os do lado de lá são mais trabalhados.

36:34 [Mineira do Paiva] 35 mais ou menos. 35 anitos. É onde está o café, há um café em Travanca, há os semáforos, a achegar a Travanca, há os semáforos ali quem corta para Queirela e há outros semáforos lá à frente, chamam lá a Cruz, em Travanca. Do lado direito tem um café. Esse do lado direito, esse café, isso, esse bocado todo era tudo a Mineira do Paiva. A Mineira do Paiva tinha a fundição e tinha o trabalho de peltres. O trabalho de peltres é, por exemplo, eu tenho aqui uma peça que foi feita lá, que me ofereceram aqui há dias, que eu fiz anitos e ofereceram-me uma peça que arranjaram lá agora. É neste género assim. [mostra a peça]

27:51[Peltres] Isto é um peltre, é peltre, é bibelôs. Isto é uma peça feita em estanho. Tenho aí mais, mas tenho á em cima, não tenho aqui. Bibelôs, coisitas em estanho, qua na altura comprei, fiquei aí para adornar a casa e essa coisa toda. Tenho aqui uma coisa também feita na coisa de estanhos. Isto, olhe, estes foram feitos lá. É o emblema da freguesia de Bodiosa, com a igreja por trás. E aqui é a da GreQ, é a associação de Queirela. São coisas que , recordações que me ofereceram e que tenho e que…Ora bem, ele tem a parte dos peltres e tinha a parte da fundição.

39:05 [Cacitrite] Primeiro a fundição era feita com, o estanho é feito à base de cacitrite. A cacitrite, havia cacitrite da região, na exploração da região e havia importada, da importação. Foi aquilo que já lhe disse há dias e então, a fundição, era preciso fundir uma certa quantidade de cacitrite por mês, porque nós tínhamos clientes que nos gastavam à volta de 5 toneladas por mês. Tínhamos ali em Matosinhos uma fábrica de enlatados, de sardinhas, agora não me lembro do nome, também não faço publicidade a isso. Nós tínhamos vários clientes e depois tínhamos também aqueles que nos compravam em lingote e compravam-nos em tira de solda, que era para soldar. Aqueles latoeiros antigamente soldavam. E tinham então, tínhamos necessidade disso e tínhamos então para consumo interno lá da firma.

40:30[Estanho] O estanho é diferente disto. [mostra a peça] Este estanho não é puro, porque o estanho não pode ser moldado puro. Em cada quilo de estanho deste, tem 2 e meio de cobre e 2 e meio de antimónio. É feita a junção disso para poder ser trabalhado. Era aquilo que nós fazíamos, que os peltres faziam, a fundição era feita, a cacitrite era posta dentro de uma panela grande. Aquilo era à base de eletricidade e ele saía para os lingotes de ferro. Era em ferro e formava, fazia um lingote e esse lingote depois de arrefecido era solto e entrava o armazém. Havia uma certa, de cada vez que o estanho em si era derretido, havia uma perda de peso porque havia sempre quebras, mas o estanho feito da cacitrite.

41:51 [Separadora] A cacitrite, a maneira da cacitrite era feita na tal que se diz separadora. Chamavam separadora, porque era lá que separavam o minério. Os minérios havia volfrâmio, havia cacitrite, havia várias coisas que se extraiam de lá. E então aqui lo são umas placas, umas suspensas, e punham a terra naquilo e depois ela ia por aí abaixo e depois separava a cacitrite para um lado, a outra para o outro e tal. E aquilo era apanhado, era lavado, era a lavagem. Chamavam a isso a separadora, isso é que era separação de minérios. Não ia muito mais além disso, porque só vendo, só filmando, ver como era, é que se podia ver como era. Isso agora como já nem sei onde é que existe.

43:07 É assim como a resina, está a ver. Tínhamos aqui uma fábrica de resina grande aqui mesmo na estação de Bodiosa. Agora já não se explora resina, que tanto lucro, tanto trabalho deu, tanto emprego tinha. Tudo acaba, não vem outra coisa para…agora só a construção civil. Antigamente ainda andava a fábrica da resina ainda empregava alguém, ainda andava os resineiros ainda andavam por aí na apanha da resina. Agora já não há nada disso, agora, olhe, é subsídios. Agora é subsídios para tudo. Não sei onde é que isto vai parar, mas eu também não vou ver muita coisa, não é, mas isto não vai bem.

44:02[Fases do trabalho no estanho] Eu tenho impressão que talvez 25. 25 pessoas. Mas houve anos que, é que quer dizer, a fundição a maior parte do tempo estava parada. Porque aquilo fazia a fundição, depois aproveitavam o pessoal da fundição, para fazer outros trabalhos. Trabalhos esses que era, havia sempre ocupação, tinha que haver, não é, a pagar, mas havia muitas alturas que eles estavam lá sentados na fundição a aquecerem-se do frio e não faziam nada, porque não dava. Quando havia campanhas de cacitrite, de fundição, é que eles acendiam os fornos. Agora os peltres trabalhavam, porque tinham que trabalhar mesmo. Depois havia várias, nos peltres havia a fundição, aquilo era feito, isto era, estas peças eram feitas em areia, moldadas em areia, e depois é que vertiam o estanho líquido para dentro desses moldes de areia, eram moldes que eram batidos. Portanto, havia a moldição, depois eram polidos, depois, antes, outros eram soldados e eram…As peças normalmente não eram feitas de uma vez, não é, eram feitas em duas partes, depois uniam, depois soldavam em volta e depois poliam. Havia várias fases. Mas era digno de se ver como é que aquilo era feito e é feito, porque eles ainda existem, o Diamantino ainda trabalha ali, pelo menos trabalhava, embora com pouco pessoal, parece que é só a família, porque parece que aquilo que não deu muito resultado, também não havendo dinheiro, não havendo faturação, não se aguenta, não é. Tudo vai, tudo desaparece.

46:35 [Outros ofícios em Bodiosa] E era, o que nós temos cá na freguesia era aquilo, as pedreiras e era as resinas e então aquilo, havia uma, que eu não me lembro já disso, mas era uma fábrica de curtumes que havia aí na freguesia, onde havia uma família, que é a família dos Monteiros, que tinha essa fábrica. Mas isso é muito antigo, eu já não me lembro disso. Havia um alambique aqui em cima, ali nos Oiteirinhos, que na altura que eu era rapaz, aquilo não havia lá casa nenhuma até Queirela, até à passagem de nível, à passagem de nível não, à linha dos caminhos-de-ferro, quando eu era rapaz ali não havia casa nenhuma. Foi aparecendo uma casa, foi aparecendo, foram fazendo está lá uma povoação grande. Daqui da estrada até lá cima não havia nada. Quando eu era rapaz, andávamos aí na, viver a vida de garoto, uns com os outros, não havia nada. Lembro-me de andar lá no meio daquelas pedras e no meio daquelas coisas e tal, sem lá haver casa nenhuma. Isto foi evoluindo. E é assim.[/hide]